Richard Swinburne
(Título Original: The Existence of God. Traduzido com permissão)
Por que acreditar que há um Deus? A minha resposta é que supor que há um Deus explica por que há um universo físico; por que há as leis científicas que há; por que os animais e depois os seres humanos evoluíram; por que os seres humanos têm a oportunidade de moldar o seu caráter e o dos seus semelhantes para o bem ou para o mal e de mudar o ambiente em que vivemos; por que temos o relato bem autenticado da vida, morte e ressurreição de Cristo; por que ao longo dos séculos milhões de pessoas (além de nós próprios) tiveram a experiência aparente de estar em contato com Deus e guiadas por Ele, e muito mais. Na verdade, a hipótese da existência de Deus faz sentido de toda a nossa experiência, e a faz melhor do que qualquer outra explicação que possa ser proposta, e esse é o fundamento para acreditar que é verdadeira. Nesta palestra tentarei mostrar como ela explica os três primeiros destes fenômenos.
Que os fenômenos evidentes a todos, e em particular o universo e a sua ordem, fornecem bons fundamentos para acreditar que Deus existe tem sido uma convicção geral cristã, judaica e islâmica. A produção de argumentos para mostrar isso chama-se “teologia natural”, e pode ser útil começar com algumas observações sobre o lugar da teologia natural na tradição cristã.
O profeta Jeremias escreveu sobre a “aliança do dia e da noite”, indicando que a regularidade com que o dia sucedia à noite mostrava que o deus que governava o Universo era poderoso e confiável, isto é, que esse deus era Deus. A literatura sapiencial do Antigo Testamento desenvolveu a ideia de que os detalhes da criação mostravam muito sobre o Criador. São Paulo escreveu que “as suas perfeições invisíveis… se tornam visíveis desde a criação do mundo, sendo percebidas pelas coisas criadas”. E os pagãos podiam ver isso por si mesmos. Esta tradição bíblica fundiu-se no mundo grego posterior com os argumentos de Platão e Aristóteles para a existência de uma fonte suprema do ser. E assim vários teólogos cristãos, orientais e ocidentais, do primeiro milênio tiveram o seu parágrafo ou dois resumindo um argumento para Deus a partir da existência ou ordem do universo – entre eles Ireneu, Gregório de Nissa, Agostinho, Máximo o Confessor e João de Damasco. Mas normalmente são apenas um ou dois parágrafos, e o raciocínio é rápido. A minha explicação para eles terem dedicado tão pouca energia a esta questão é que não sentiam necessidade de fazer mais. A maioria dos seus contemporâneos aceitava que havia Deus ou deuses. O que os teólogos precisavam argumentar era que havia apenas um tal Deus, que tinha certas características específicas e que agira na história de certas maneiras particulares.
Com a chegada do segundo milénio, porém, os teólogos medievais do Ocidente, acima de tudo Tomás de Aquino e Duns Scotus, começaram a produzir argumentos para a existência de Deus de comprimento e rigor consideráveis; e esse empreendimento de teologia natural continuou ininterruptamente na tradição católica até ao século XIX. Os protestantes clássicos, porém, embora acreditassem que o mundo natural mostrava abundante evidência do seu criador, pensavam que o pecado humano obscurecia a nossa capacidade de reconhecer essa evidência; e que em todo o caso havia maneiras melhores de conhecer Deus. Por outro lado, os protestantes liberais (em particular os da Grã-Bretanha do século XVIII) argumentaram longamente “da natureza até ao Deus da natureza”. Muitos deles viam as maravilhas da natureza, especialmente as novas registradas pelo microscópio e telescópio, como nova e positiva evidência da existência de Deus, e queriam despertar os seus contemporâneos religiosamente apáticos para o espanto. Mas finalmente, em meados do século XIX, uma combinação do que considero razões muito más derivadas de Hume, Kant e Darwin levou ao abandono do antigo projeto de teologia natural por tantas partes da tradição cristã. Isso foi infeliz – pois o cristianismo (e qualquer outra religião teísta) precisa de teologia natural.
Pois as práticas da religião cristã (e de qualquer outra religião teísta) só têm sentido se houver um Deus – não há sentido em adorar um criador inexistente ou pedir-lhe que faça algo na Terra ou nos leve ao Céu se ele não existe; ou tentar viver as nossas vidas de acordo com a sua vontade, se ele não tem vontade. Se alguém está tentando ser racional ao praticar a religião cristã (islâmica ou judaica), precisa acreditar (em algum grau) nas afirmações credais que sustentam a prática. Essas afirmações incluem como afirmação central, uma pressuposta por todas as outras, a afirmação de que há um Deus. Nenhum daqueles pensadores dos primeiros 1850 anos do cristianismo que pensavam que havia bons argumentos para a existência de Deus pensava que todos, ou mesmo a maioria, dos crentes devesse acreditar com base nesses argumentos, ou que a conversão exigisse sempre aceitar esses argumentos como cogentes. A maioria dos cristãos pode muito bem ter tomado a existência de Deus como certa. A maioria dos convertidos pode ter acreditado previamente que havia um Deus; a sua conversão envolvia aceitar afirmações mais detalhadas sobre ele. E se inicialmente não acreditavam que há um Deus, podem ter vindo a acreditar com base na experiência religiosa em algum sentido em vez de com base na teologia natural. Mas contudo, a maioria dos pensadores cristãos antes de 1850 sustentava que estes argumentos fortes estão disponíveis, e que aqueles que inicialmente não acreditavam que há um Deus e fossem racionais poderiam ser levados a ver que há um Deus por meio deles.
Muitos pensadores religiosos pós-kantianos chamaram a nossa atenção para os papéis da nossa experiência religiosa pessoal e da tradição religiosa em sustentar a crença religiosa. De fato é um princípio básico da crença racional – que chamo Princípio da Credulidade – que o que te parece ser assim com base na experiência, provavelmente é assim – na ausência de contraevidência. Se parece a você que você me vê apoiar-me no púlpito ou ouvir a minha voz, provavelmente você me vê – a menos que você acorde e descubra que foi tudo um sonho, ou alguém te mostre que realmente não há púlpito ali; o que parece ser um púlpito é realmente um holograma. E é também um princípio básico da crença racional que chamo Princípio do Testemunho, que o que as pessoas te dizem é provavelmente verdadeiro – na ausência de contraevidência. E assim se os seus professores lhe dizem que a Terra tem muitos milhões de anos, ou você lê num jornal que houve um terremoto na Turquia, essas coisas são provavelmente assim – a menos que você aprenda algo mais que lance dúvida sobre elas. Quando a dúvida é lançada, precisamos de argumentos positivos para mostrar que há um púlpito ali, ou que a Terra tem muitos milhões de anos. Não pode haver justificação para não estender esses princípios gerais de racionalidade ao caso da crença religiosa. Se você teve uma experiência aparentemente de Deus, provavelmente teve; e se os seus professores lhe dizem que há um Deus, é racional acreditar neles – na ausência de contraevidência. A contraevidência pode tomar várias formas – o fato do sofrimento pode parecer incompatível com a existência de Deus ou torná-la improvável; e professores rivais podem dizer a você que não há Deus. A contraevidência pode ser forte ou fraca; e mesmo que bastante forte pode (racionalmente) não perturbar a crença de alguém que teve uma experiência religiosa esmagadoramente forte ou acredita na autoridade de inumeráveis professores de origens diversas. Mas em geral a presença de contraevidência abre a questão da existência de Deus que então requer ser apoiada por argumentos positivos (e/ou ter argumentos negativos refutados) se a crença de que há um Deus deve ser racional. Mas como há muito mais dúvida sobre a existência de Deus no Ocidente cético de hoje do que na maioria das culturas e séculos anteriores, a necessidade de teologia natural é muito maior do que nunca foi – tanto para aprofundar a fé do crente, como para converter o incrédulo.
Os medievais, paradigmaticamente Aquino, tentaram moldar o raciocínio do mundo para Deus sob a forma de um argumento dedutivo. Mas tudo o que um argumento dedutivo pode fazer é extrair na sua conclusão aquilo a que está comprometido pelas suas premissas. Um argumento dedutivo válido é um no qual, se você afirma as premissas mas nega a conclusão, você contradiz a si mesmo. Contudo é muito implausível supor que uma afirmação como “há um universo físico mas não há Deus” (por mais irracional que seja acreditar nisso) contenha qualquer contradição interna. Não é como “existe um quadrado redondo”. “Há um Deus” vai além de premissas que afirmam a existência ou ordem do Universo, para algo muito maior. Mas um argumento que pretende ser um argumento dedutivo válido e não é válido, é inválido. E nos séculos subsequentes a Aquino muitos apontaram as falácias nos detalhes dos argumentos de Aquino.
Contudo, um argumento a partir da existência e ordem do Universo para a existência de Deus é melhor representado não como um argumento dedutivo, mas como um argumento indutivo – um no qual as premissas tornam a conclusão em algum grau provável, talvez muito provável, mas não certa. Todos os argumentos na ciência e na história da evidência para a teoria são indutivos; mas Aristóteles e os seus sucessores, que tentaram (com sucesso moderado) codificar argumentos dedutivos pelas formas do silogismo, tinham muito pouca compreensão da distinção entre dedução e indução, quanto mais dos critérios de um bom argumento indutivo. Só hoje estamos a começar a ter alguma compreensão da indução. Uma característica dos argumentos indutivos é que são cumulativos. Uma peça de evidência declarada numa premissa pode dar uma certa quantidade de probabilidade à conclusão, e outra peça de evidência pode aumentar essa probabilidade. E se os argumentos do universo e da sua ordem produzem apenas uma conclusão provável, não uma conclusão certa, há espaço para a experiência religiosa e a tradição. Desejo agora argumentar que três argumentos – da existência do Universo, de haver leis científicas simples, e de essas leis levarem à evolução dos seres humanos – para a existência de Deus, são fortes argumentos indutivos. Não haverá tempo para discutir outros argumentos, ou para discutir argumentos contra a existência de Deus.
Cada um dos fenômenos citados no meu parágrafo de abertura formou o ponto de partida de um argumento para a existência de Deus. Esses argumentos parecem-me ter um padrão comum. Algum fenômeno E, que todos podemos observar, é considerado. Afirma-se que E é intrigante, estranho, não esperado no curso normal das coisas; mas que E seria esperado se houvesse um Deus; pois Deus tem o poder de provocar E e poderia muito bem escolher fazê-lo. Portanto a ocorrência de E é uma razão para supor que há um Deus.
Este padrão de argumento é muito usado na ciência, na história e em todos os outros campos de investigação humana. Um detetive, por exemplo, encontra várias pistas – as impressões digitais de João num cofre arrombado, João ter muito dinheiro escondido em casa, João ser visto perto da cena do roubo na hora em que foi cometido. Depois sugere que essas várias pistas, embora possam ter outras explicações, não são em geral de esperar a menos que João tivesse roubado o cofre. Cada pista é alguma evidência de que ele roubou o cofre, e “confirma” (isto é, fortalece) a hipótese de que João roubou o cofre; e a evidência é cumulativa – quando posta junta torna a hipótese provável.
Os argumentos deste tipo são argumentos indutivos para a causa dos fenômenos citados como evidência nas premissas. Os cientistas usam este padrão de argumento para argumentar para a existência de entidades inobserváveis como causas dos fenômenos que observam. Por exemplo, no início do século XIX, os cientistas observaram muitos fenômenos variados de interação química, como que as substâncias se combinam em proporções fixas por peso para formar novas substâncias (por exemplo hidrogênio e oxigênio formam sempre água numa proporção por peso de 1:8). Depois afirmaram que estes fenômenos seriam esperados se existissem cerca de cem tipos diferentes de átomo, partículas demasiado pequenas para serem vistas, que se combinam e recombinam de maneiras simples. Por sua vez os físicos postularam elétrons, prótons, nêutrons e outras partículas para explicar o comportamento dos átomos, bem como fenômenos observáveis de maior escala; e agora postulam quarks para explicar o comportamento de prótons, nêutrons e outras partículas.
Para serem bons argumentos (isto é, para fornecer evidência para a sua hipótese), argumentos deste tipo devem satisfazer quatro critérios. Primeiro, os fenômenos que citam como evidência devem ser do tipo de fenômenos que se esperaria ocorrer se a hipótese fosse verdadeira. Se João roubou o cofre é bastante provável que as suas impressões digitais fossem encontradas nele. Segundo, os fenômenos devem ser muito menos prováveis de ocorrer no curso normal das coisas, isto é, se a hipótese for falsa. Vimos no exemplo do roubo como as várias pistas, como as impressões digitais de João no cofre, não eram muito de esperar no curso normal das coisas. Terceiro, a hipótese deve ser simples. Isto é, deve postular a existência e operação de poucas entidades, poucos tipos de entidades, com poucas propriedades facilmente descritíveis comportando-se de maneiras matematicamente simples. Poderíamos sempre postular muitas entidades novas com propriedades complicadas para explicar qualquer coisa que encontrássemos. Mas a nossa hipótese só será apoiada pela evidência se postular poucas entidades que nos levem a esperar os diversos fenômenos que formam a evidência. Assim no exemplo do detetive poderíamos sugerir que Brown plantou as impressões digitais de João no cofre, Smith disfarçou-se para parecer João na cena do crime, e sem qualquer conluio com os outros Robinson escondeu o dinheiro no apartamento de João. Esta nova hipótese levaria a esperar os fenômenos que encontramos tão bem quanto a hipótese de que João roubou o cofre. Mas a última hipótese é confirmada pela evidência ao passo que a primeira não é. E isso é porque a hipótese de que João roubou o cofre postula um objeto – João – fazendo um ato – roubar o cofre – que nos leva a esperar os vários fenômenos que encontramos. Os cientistas postulam sempre o menor número de entidades novas (por exemplo partículas subatómicas) que são necessárias para nos levar a esperar encontrar os fenômenos que observamos; e postulam que essas entidades não se comportam erraticamente (comportam-se de uma maneira num dia, e de maneira diferente no dia seguinte), mas que se comportam de acordo com uma lei matemática tão simples e suave quanto compatível com o que é observado. E quarto, a hipótese deve encaixar no nosso conhecimento de como o mundo funciona em campos mais amplos – o que chamarei o nosso conhecimento de fundo. A hipótese de que João roubou o cofre deve encaixar com o que sabemos de outras ocasiões sobre se João rouba frequentemente cofres. Mas quanto mais lidamos com uma hipótese que pretende explicar uma vasta gama de fenômenos, mais esse critério tende a desaparecer – pois não haverá campos mais amplos de investigação. Não há campos científicos mais amplos relevantes para avaliar uma teoria muito geral da física, como a Teoria Geral da Relatividade de Einstein que pretende explicar todos os fenômenos físicos. E este critério não será relevante ao avaliar a hipótese do teísmo – que há um Deus – que é proposta como uma hipótese para explicar tudo o que sabemos (uma hipótese mais geral do que a hipótese de física de maior alcance). Um argumento indutivo de fenômenos para uma causa será mais forte quanto melhor os quatro critérios forem satisfeitos, isto é, quanto mais provável for que os fenômenos ocorram se a causa postulada ocorreu, quanto menos provável for que os fenômenos ocorram se a causa postulada não ocorreu, quanto mais simples for a causa postulada, e quanto melhor a explicação encaixar no conhecimento de fundo. Quanto melhor os critérios forem satisfeitos, mais provável é que a explicação proposta seja verdadeira.
O fenômeno mais geral que fornece evidência para a existência de Deus é a existência do universo físico pelo tempo que existiu (quer um tempo finito quer, se não tem início, um tempo infinito). Isso é algo evidentemente inexplicável pela ciência. Pois uma explicação científica explica a ocorrência de um estado de coisas S₁ em termos de um estado de coisas anterior S₂ e alguma lei da natureza que faz estados como S₂ provocarem estados como S₁. Assim pode explicar os planetas estarem nas suas posições presentes por um estado anterior do sistema (o sol e os planetas estarem onde estavam no ano passado) e a operação das leis de Kepler que afirmam que estados como o último são seguidos um ano depois por estados como o primeiro. Mas o que a ciência pela sua própria natureza não pode explicar é por que há quaisquer estados de coisas.
O meu próximo fenómeno é a operação das leis mais gerais da natureza, isto é, a ordem da natureza ao conformar-se a leis muito gerais da física, das quais seguem as regularidades da química e da biologia. O que exatamente são as leis mais gerais a ciência pode ainda não ter descoberto – talvez sejam as equações de campo da Teoria Geral da Relatividade de Einstein, ou mais provavelmente há algumas leis ainda mais fundamentais, talvez as leis de uma “Teoria de Tudo”. Ora a ciência pode explicar por que uma lei opera numa área estreita, em termos da operação de uma lei mais ampla nas condições particulares dessa área estreita. Assim pode explicar por que a lei da queda de Galileu se verifica – que pequenos objetos perto da superfície da Terra caem com uma aceleração constante em direção à Terra. A lei de Galileu segue-se das leis de Newton, dado que a Terra é um corpo massivo longe de outros corpos massivos e os objetos na sua superfície estão perto dela e pequenos em massa em comparação. Mas o que a ciência pela sua própria natureza não pode explicar é por que há as leis mais gerais da natureza que há; pois ex hypothesi, nenhuma lei mais ampla pode explicar a sua operação.
Que haja um Universo e que haja leis da natureza são fenômenos tão gerais e pervasivos que tendemos a ignorá-los. Mas poderia tão facilmente não ter havido um universo, nunca. Ou o Universo poderia tão facilmente ter sido uma confusão caótica. Que haja um Universo ordenado é algo muito impressionante, contudo além da capacidade da ciência de explicar. A incapacidade da ciência de explicar essas coisas não é um fenômeno temporário, causado pelo atraso da ciência do século XXI. Pelo contrário, por causa do que é uma explicação científica, essas coisas estarão sempre além da sua capacidade de explicar. Pois as explicações científicas pela sua própria natureza terminam com alguma lei natural última e arranjo último de coisas físicas, e as questões que estou a levantar são por que há leis naturais e coisas físicas.
Contudo, há outro tipo de explicação de fenômenos que usamos o tempo todo e que vemos como uma maneira própria de explicar fenômenos. Este é o que chamarei explicação pessoal. Muitas vezes explicamos algum fenómeno E como provocado por uma pessoa P para alcançar algum propósito ou objetivo G. O movimento presente dos meus lábios é explicado como provocado por mim com o propósito de dar uma palestra. O copo estar na mesa é explicada por uma pessoa o ter posto lá com o propósito de beber dele. Contudo essa é uma maneira diferente de explicar coisas da maneira científica. A explicação científica envolve leis da natureza e estados de coisas anteriores. A explicação pessoal envolve pessoas e propósitos. Se não podemos dar uma explicação científica da existência e ordem do Universo, talvez possamos dar uma explicação pessoal.
Mas por que deveríamos pensar que a existência e ordem do Universo tem uma explicação? Procuramos uma explicação de todas as coisas; mas vimos que só temos razão para supor que encontramos uma se a explicação proposta for simples, e nos levar a esperar o que encontramos quando isso de outra forma não seria de esperar. A história da ciência mostra que julgamos que fenômenos que são muitos e complexos precisam de explicação, e que devem ser explicados em termos de algo mais simples. Os movimentos dos planetas (sujeitos às leis de Kepler), as interações mecânicas dos corpos na Terra, o comportamento dos pêndulos, os movimentos das marés, o comportamento dos cometas, etc., formavam um conjunto bastante miscelâneo de fenômenos. As leis do movimento de Newton constituíam uma teoria simples que nos levava a esperar esses fenômenos, e foi julgada ser uma explicação verdadeira deles. A existência de milhares de substâncias químicas diferentes combinando-se em diferentes proporções para fazer outras substâncias era complexa. A hipótese de que havia apenas cerca de cem elementos químicos dos quais as milhares de substâncias eram feitas era uma hipótese simples que nos levava a esperar o fenômeno complexo.
O nosso Universo é uma coisa complexa. Há muitas e muitas porções separadas de matéria no universo. As porções têm cada uma um volume, forma, massa, etc. finito e não muito natural diferente – considera a vasta diversidade das galáxias, estrelas e planetas, e pedrinhas na praia. A matéria é inerte e não tem poderes que possa escolher exercer; faz o que tem de fazer. Há uma quantidade limitada dela em qualquer região e tem uma quantidade limitada de energia e velocidade. O Universo é uma coisa grande e complexa.
A conformidade dos objetos ao longo do tempo e espaço infinitos com leis simples é igualmente algo que clama por explicação em termos ainda mais simples. Pois consideremos o que isto significa. Leis não são coisas, independentes dos objetos materiais. Dizer que todos os objetos conformam-se a leis é simplesmente dizer que todos se comportam exatamente da mesma maneira, que têm certos poderes que exercem sobre outros objetos, e responsabilidades para exercer esses poderes em certas circunstâncias. Dizer, por exemplo, que os planetas obedecem às leis de Kepler é apenas dizer que cada planeta em cada momento do tempo tem o poder de se mover da maneira que as leis de Kepler afirmam, e a responsabilidade de o fazer enquanto o sol e outros planetas estão lá. Há portanto essa vasta coincidência nos poderes e responsabilidades dos objetos em todos os tempos e em todos os lugares. Se todas as moedas de alguma região têm as mesmas marcas, ou todos os papéis numa sala estão escritos com a mesma caligrafia, procuramos uma explicação em termos de uma fonte comum destas coincidências. Devemos procurar uma explicação semelhante para essa vasta coincidência que descrevemos como a conformidade dos objetos com leis da natureza – por exemplo o fato de que todos os elétrons são produzidos, atraem e repelem outras partículas e combinam-se com elas exatamente da mesma maneira em cada ponto do tempo e espaço infinitos.
A hipótese do teísmo é que o Universo existe porque há uma pessoa divina que o mantém na existência e que as leis da natureza operam porque há uma pessoa divina que faz com que o façam. Faz com que as leis da natureza operem sustentando em cada objeto no Universo a sua responsabilidade de se comportar de acordo com essas leis. Faz com que o Universo exista sustentando em cada momento (de tempo finito ou infinito) objetos com os poderes e responsabilidades codificados pelas leis da natureza incluindo as leis da conservação da matéria-energia, isto é, fazendo com que em cada momento o que havia antes continue a existir. A hipótese é uma hipótese de que uma pessoa provoca estas coisas para algum propósito. Age diretamente no Universo, como nós agimos diretamente nos nossos cérebros, guiando-os para mover os nossos membros (mas o Universo não é o seu corpo – pois poderia em qualquer momento destruí-lo, e agir em outro universo, ou não criar um universo). Como vimos, a explicação pessoal e a explicação científica são as duas maneiras que temos de explicar a ocorrência de fenômenos. Como não pode haver uma explicação científica da existência do Universo, ou há uma explicação pessoal ou não há explicação nenhuma. A hipótese de que há uma pessoa divina é a hipótese da existência do tipo mais simples de pessoa que poderia haver. Uma pessoa é um ser que existe por algum tempo com poder para provocar efeitos, conhecimento de como fazê-lo, e liberdade para fazer escolhas de quais efeitos provocar. Uma pessoa divina é por definição uma pessoa eterna, onipotente (isto é, infinitamente poderosa), onisciente (isto é, que tudo sabe), e perfeitamente livre; é uma pessoa eterna de poder, conhecimento e liberdade infinitos; uma pessoa à existência, poder, conhecimento e liberdade da qual não há limites exceto os da lógica. A hipótese de que existe um ser com graus infinitos das qualidades essenciais a um ser desse tipo é a postulação de um ser muito simples. E é mais simples supor que estas propriedades não estão acidentalmente correlacionadas umas com as outras mas seguem necessariamente da essência da pessoa divina. A hipótese de que há tal pessoa divina é uma hipótese muito mais simples do que a hipótese de que há um Deus que tem tal e tal poder limitado. É mais simples exatamente da mesma maneira que a hipótese de que alguma partícula tem massa zero ou velocidade infinita é mais simples do que a hipótese de que tem 0,32147 de alguma unidade de massa ou uma velocidade de 221.000 km/s. Uma limitação finita clama por uma explicação de por que há exatamente esse limite particular, de uma maneira que a ilimitação não clama. Segue-se da perfeita liberdade de Deus que estará sujeito a nenhuma influência que o dissuade de fazer o que vê razão para fazer. Isso é o que acredita ser bom fazer; e como é onisciente, saberá sempre o que é bom, fará sempre o que é bom. Será perfeitamente bom.
Que devesse existir algo, quanto mais um universo tão complexo e tão ordenado como o nosso, é extremamente estranho. Mas se há um Deus, não é muito improvável que ele criasse tal universo. Um universo como o nosso é algo extremamente belo, e um teatro no qual os seres humanos e outras criaturas podem crescer e realizar o seu destino. A ordem do Universo torna-o um Universo belo, mas, ainda mais importante, torna-o um Universo que os seres humanos podem aprender a controlar e mudar. Um Deus bom quererá criar criaturas como os seres humanos, tendo uma escolha livre entre o bem e o mal, uma responsabilidade profunda por si próprios e uns pelos outros, e uma capacidade de formar o seu próprio caráter de tal maneira que amem Deus; e para isso precisamos de corpos, lugares onde possamos agarrar-nos uns aos outros e assim magoar ou beneficiar uns aos outros. Mas só podemos cuidar de nós próprios e uns dos outros (ou escolher não o fazer) se houver leis simples da natureza que possamos chegar a conhecer. Se temos corpos, então há maneiras pelas quais podemos magoar ou beneficiar uns aos outros. Mas só se houver leis simples da natureza que possamos conhecer haverá maneiras pelas quais eu fazer isto ou aquilo fará uma diferença previsível para mim ou para você. Só se os seres humanos sabem que semeando certas sementes, mondando-as e regando-as, obterão milho, podem desenvolver uma agricultura. E só se sabem que esfregando paus podem fazer fogo serão capazes (se for isso que escolherem) de queimar os suprimentos alimentares dos outros. Leis da natureza compreensíveis permitem aos agentes uma escolha de como tratar uns aos outros. Assim Deus tem boa razão para fazer um Universo ordenado e, ex hypothesi, sendo onipotente, tem o poder de o fazer. Assim a hipótese de que há um Deus torna a existência do Universo muito mais de esperar do que seria de outra forma, e é uma hipótese muito simples. Portanto os argumentos a partir da existência do Universo e da sua conformidade com leis naturais simples são bons argumentos para uma explicação dos fenômenos, e fornecem evidência substancial para a existência de Deus.
O último fenômeno que considerarei é a evolução dos animais e seres humanos. Em meados do século XIX Darwin expôs a sua impressionante teoria da evolução por seleção natural para explicar a existência de animais e seres humanos. Outrora havia organismos primitivos. Estes animais variavam de várias maneiras dos seus pais (alguns eram mais altos, alguns mais baixos, alguns mais gordos, alguns mais magros, alguns tinham o início de uma asa, outros não; e assim por diante). Aqueles animais com características que os tornavam mais aptos a sobreviver, sobreviviam e passavam as suas características à próxima geração. Mas, embora em geral se parecessem com os seus pais, a sua descendência variava deles, e essas variações que melhor adaptavam o animal a sobreviver eram novamente as mais prováveis de ser passadas a outra geração. Esse processo continuou por milhões de anos produzindo toda a gama de animais que temos hoje, cada um adaptado a sobreviver num ambiente diferente. Entre as características que davam vantagem na luta pela sobrevivência estava a inteligência, e as seleções para esta característica levaram eventualmente à evolução do homem. Tal é a explicação de Darwin para termos hoje animais e seres humanos.
Até onde vai, a sua explicação é certamente correta. Mas há questões cruciais além do seu alcance. O mecanismo evolutivo que Darwin descreve só funciona porque há certas leis da bioquímica (os animais produzem muitos descendentes, esses variam de várias maneiras dos pais, etc.) Mas por que há essas leis em vez de outras leis? Sem dúvida porque essas leis seguem-se das leis básicas da física. Mas então por que as leis básicas da física têm tal forma que dão origem a leis de evolução? E por que havia os organismos primitivos em primeiro lugar?
Uma história plausível pode ser contada de como a “sopa” primeva de matéria-energia no tempo do “Big Bang” (um momento há cerca de 15 mil milhões de anos em que, dizem-nos agora os cientistas, o Universo, ou pelo menos o estágio presente do Universo, começou) deu origem ao longo de muitos milênios, de acordo com leis físicas, a esses organismos primitivos. Mas então por que havia matéria adequada para tal desenvolvimento evolutivo em primeiro lugar? Em relação às leis e em relação à matéria primeva, temos novamente a mesma escolha, de dizer que essas coisas não podem ser ulteriormente explicadas, ou de postular uma explicação adicional. A questão aqui não é por que há leis ou por que há matéria, mas por que as leis e a matéria têm este caráter peculiar, que estão prontas para produzir plantas, animais e humanos. Como são as leis mais gerais da natureza que têm esse caráter especial, não pode haver explicação científica de por que são como são. E embora possa haver uma explicação científica de por que a matéria no tempo do Big Bang tinha o caráter especial que tinha, em termos do seu caráter em algum tempo anterior, claramente se houve um primeiro estado do Universo, deve ter sido de certo tipo: ou se o Universo durou para sempre, (além de ter o tipo certo de leis), a sua matéria precisava ter tido em todos os tempos certas características gerais (por exemplo em relação à quantidade da sua matéria-energia) se em qualquer tempo devia haver um estado do Universo adequado para produzir plantas, animais e seres humanos. A explicação científica chega ao fim. A questão permanece se devemos aceitar estas características particulares das leis e matéria do Universo como fatos brutos últimos ou se devemos ir além delas para uma explicação pessoal em termos da agência de Deus.
Em que a escolha depende é de quão provável é que as leis e condições iniciais tenham por acaso exatamente esse caráter. Trabalho científico recente chamou a atenção para o fato de que o Universo está afinado. Dadas leis do tipo presente (as quatro forças, constrangidas pelos requisitos da Teoria Quântica), a matéria-energia no tempo do Big Bang tinha de ter certa densidade e certa velocidade de recessão; aumento ou diminuição nestes aspetos por uma parte em um milhão teria tido o efeito de que o Universo não seria evolutivo de vida. Por exemplo, se o Big Bang tivesse causado os quanta de matéria-energia recuarem uns dos outros um pouco mais rapidamente, nenhuma galáxia, estrela ou planeta, e nenhum ambiente adequado para vida, teriam sido formados. Se a recessão tivesse sido marginalmente mais lenta, o Universo teria colapsado sobre si mesmo antes que a vida pudesse ser formada. Similarmente, as constantes nas leis da natureza precisavam estar dentro de limites muito estreitos se a vida devia ser formada. Se permitirmos a possibilidade de leis de outros tipos além das que realmente operam no nosso universo, teriam de ser tipos muito especiais, não mais simples do que as atuais; e assim novamente é a priori muito improvável que a vida senciente evoluísse. Deus é capaz de dar à matéria e às leis esse caráter. Se pudermos mostrar que teria razão para o fazer, isso dá apoio à hipótese de que o fez. Há disponível novamente a razão que (adicional à razão da sua beleza) era uma razão por que Deus escolheria provocar um Universo ordenado – o valor dos seres sencientes encarnados que o processo evolutivo traria à existência, e acima de tudo dos seres humanos, que podem eles próprios fazer escolhas informadas sobre que tipo de mundo deveria haver.
Assim os três argumentos que considerei – da existência do Universo, da sua conformidade com leis naturais, e da existência de seres humanos e animais – para a hipótese da existência de Deus, são todos argumentos que satisfazem bem os três critérios dados anteriormente para argumentos indutivos para uma explicação. Os fenômenos citados pelas premissas não são ordinariamente de esperar, são de esperar se a causa postulada na conclusão existe, e a hipótese da existência dessa causa é simples. De fato, sugiro que não apenas são bons argumentos para a existência de Deus, mas são muito fortes. A pessoa divina postulada é uma muito simples, e é imensamente improvável que os fenômenos citados ocorram por acaso – por exemplo que exista um número enorme de átomos no Universo, todos os quais se comportam exatamente da mesma maneira produtora de vida humana.
Claro que o Deus para o qual esses argumentos apontam é uma pessoa (ou pessoas) sobre a qual só podemos saber aquelas propriedades responsáveis pelos fenômenos que tenho discutido – a sua onipotência, onisciência e perfeita liberdade (e outras propriedades, que acredito serem consequências dessas – por exemplo onipresença e perfeita bondade). Do que subjaz a essas propriedades, daquilo em que as propriedades inerem, não podemos ter qualquer compreensão plena. Mas para o peregrino humano nesta vida, o anterior é bastante suficiente; e alguns peregrinos humanos no mundo moderno precisam dos fortes argumentos indutivos que estão disponíveis para mostrar a existência de um Deus que tem essas propriedades.
NOTAS
Por exemplo, Jeremias 33:25-26.
Romanos 1:20.
Ver João Calvino, Institutas da Religião Cristã, Livro 1, Capítulo 5.
«Não que o mesmo método de instrução seja adequado para todos os que se aproximam da palavra… o método de recuperação deve ser adaptado à forma da doença… [É] necessário considerar as opiniões que as pessoas adotaram e assim estruturar o teu argumento de acordo com o erro em que cada uma caiu, avançando em cada discussão certos princípios e proposições razoáveis, para que assim, através do que é aceite por ambos os lados, a verdade possa ser conclusivamente trazida à luz. Se [o teu oponente] disser que não há Deus, então, a partir da consideração da hábil e sábia economia do Universo, será levado a reconhecer que há um certo poder dominante manifestado através destes canais.» – São Gregório de Nissa, O Grande Catecismo, Prólogo. (Trad. W. Moore e H.A. Wilson, in Selected Writings of Gregory of Nyssa, Parker and Co., Oxford, 1893).
Ver, por exemplo, a descrição simples desta evidência em J. Leslie, “Anthropic Principle, World Ensemble, Design”, American Philosophical Quarterly, 19 (1982), pp. 141-152; e no seu Universes, Routledge, 1989, caps. 1-3.