A lenda do Uirapuru, símbolo da felicidade e sorte - 07/03/2023 - por: Eduardo Fonseca


O Uirapuru é uma ave da família dos trogloditídeos. Também é conhecido pelos nomes de arapuru, virapuru, guirapuru, irapuru e tangará. O termo "wirapu'ru" é originário da língua tupi-guarani e pode abranger outras aves da mesma família. O uirapuru-verdadeiro (Cyphornis aradus) possui uma plumagem simples, mede em média 12 centímetros e pesa pouco mais de 20 gramas.


Nativo da América do Sul, pode ser encontrado em quase toda a Amazônia brasileira. No folclore, o Uirapuru é conhecido por ter um dos mais belos cantos entre as aves, fazendo com que todos os outros pássaros parem de cantar para ouvi-lo.


Seu raro canto, que dura de 10 a 15 minutos, pode ser apreciado por cerca de quinze dias ao ano, durante o período de construção do ninho, ao amanhecer e ao anoitecer.


Segundo uma lenda, o Uirapuru já foi um jovem guerreiro da floresta amazônica chamado Quaraçá, apaixonado por Anahí, esposa do cacique. Quaraçá costumava caminhar pelas matas tocando sua flauta de bambu; todos os animais silenciavam para escutar sua música. No entanto, não podia se aproximar de sua amada. Já comprometida com o líder da tribo, Anahí permanecia distante, e o cacique, ao descobrir os sentimentos de Quaraçá, o expulsou.


Para aliviar a dor de seu amor impossível, o jovem guerreiro rogou a Tupã (Deus) que o ajudasse, e então foi transformado em um belo pássaro com uma melodia perfeita. Como Uirapuru, pôde retornar à aldeia, ficando próximo de sua amada e encantando a todos com seu canto. Inclusive o cacique ficou maravilhado com a melodia e passou a persegui-lo, desejando que ele cantasse para sempre. Em sua obsessão, perdeu-se na imensidão da floresta e nunca mais foi visto.


Em outra versão da história, o guerreiro — agora em forma de pássaro — aproximava-se todas as noites da oca de sua amada, cantando para ela. O cacique, enciumado, tentou caçá-lo. O pássaro fugiu para os confins da floresta, onde o cacique se perdeu e jamais retornou. Em ambas as versões, o Uirapuru canta para sua amada, agora sozinha, com a esperança de que um dia ela descubra sua verdadeira identidade e o encanto seja quebrado.


Outra lenda conta que duas jovens eram apaixonadas pelo mesmo cacique. Ele prometeu se casar com aquela que tivesse a melhor pontaria no arco e flecha. Casou-se, então, com a vencedora da competição. A jovem que perdeu, chamada Oribici, chorou tanto que suas lágrimas formaram um córrego. Muito triste, decidiu abrir mão de seu amor, pois sabia que o cacique amava a esposa. Compadecido por seu sofrimento, Tupã a transformou em um pássaro, para que, do alto das árvores, pudesse ao menos ver seu amado. Como compensação, recebeu o dom de encantar todos os outros pássaros da floresta com seu belíssimo canto.


Há ainda outra versão, segundo a qual a flecha de uma jovem nativa apaixonada atingiu uma ave de plumas vermelhas e canto encantador, transformando-a em um guerreiro. Um feiticeiro que também amava a jovem, tomado pelo ciúme, tocou sua flauta mágica e fez o guerreiro desaparecer. Desde então, restou apenas, nas matas da Amazônia, o seu canto.


Diz-se que quem ouve o canto do Uirapuru será abençoado com sorte e terá seu pedido realizado.


Independentemente da versão da lenda, o canto e a presença do Uirapuru são considerados sinais de boa sorte — mas isso de forma natural, sem ameaçar sua sobrevivência ou liberdade, preservando e recuperando o seu meio ambiente.