© Egon Shiele, Vier Bäume [1917], Museu Belvedere, Viena.
o âmago inverso da ave dentro
DENTRO DE MOMENTOS
a impaciência da mão, um grito silencioso
de forças omissas vago o gesto encriptado
e no entanto verosímil quanto orgânico e
natural ― o mistério per si, ténue glóbulo
segue a corrente algo como manto quente
pernas cruzam-se | o que implica os ossos
e a mineralidade densa do que se inscreve
por longo tempo e sem significar tamanho
e a relação das distâncias não interfere nada
naquilo que emerge aos olhos como natural
mas ainda dentro de mero quadro artificial
: dentro das entranhas da imagem pingando
sonolento muco qu’amamenta a imaginação
estranheza de tintas, estranheza d’entranhas
o que disponível no âmnio não é bem visível
talvez porque, pairando como lenço, o gesto
não se sujeita verdadeiramente à fisicalidade
insinua-se só lisonjeiro e imaterial no plano
: o compasso do impasse zera o cronómetro
impacta em percepções tangenciais, oníricas
traz à realidade as circunvoluções do cérebro
a impaciência, mão abstracta que abre o vazio
remetendo a um novo quadro sensorial bravio
«vem ó ser longínquo do linho branco velado
vem manchar de lira e música a água corrente
orquídea branca caminhante das estepes, acudi
aqueles que malgastaram o orvalho da infância
acudi prontamente quem hesita entre as esferas
e desenhai entre aurora e crepúsculo vivo ciclo
daqueles que se comprometem a errar às cegas»
DOPPELGÄNGER
, o outro como higienização da espécie
zona escura no seu período mais fértil
lançados os dados de mil lados : a casa
podre por dentro, por fora brilhante ―
ouve-se o chão respirar sobre um manto
FOTOGRAFIA
talvez a hora conte como corte na imagem
interior líquido
a sais de prata na língua muda
talvez as sombras aumentem a amplitude
do gesto interrompido
[a estação passa ficando dentro
coalhada no espírito]
talvez tudo se dissolva na memória
e a fotografia não passe dum corpo estranho
com a aventura da posse
triste cadáver como assomado lixo emoldurado
FRIO
. a linguagem do frio nas artérias
: o que de branco e vazio exploro temendo
questões do rizoma que cultivo dolorosamente
nem sempre o medo é sóbrio e cabal
no seu consumo doente de adrenalina
, e depois há o som
dum resvalar tectónico subtil
rostos aparecem cobertos de geada
irreconhecíveis
. o frio fala
ferindo semânticas do improviso
ENTRANHAS
vejo-me a olhar um poema meu
como se visse as minhas próprias entranhas
e isto aprendi com os intestinos literários
de luís miguel nava ―
nomear a interioridade
tão estranha a entranha assim nos dedos
de resto me presto
à verdade sem artificialismo
pelo menos mental
no que de cerebral é o visceral
um poema meu transparente
como se o meu interior
estivesse num frasco de cristal
a raiar abismos da cordilheira
nomear a efemeridade
para olhá-la de frente
e enterrá-la condignamente
ENTROPIA
princípio muito simples
o de sobrepor existências
impressão a papel químico
ou a papel mental, seguramente
sendo mais preciso na alusão
à ilusão
sobrepor existências à primordial existência
claramente, mas sem a noção
de que isso esteja a acontecer
, imaginar como seria diferente
se um outro eu falhasse a refeição
um rascunho pensado
a actuar indiferente sobre a estabilidade
da entropia ―
princípio muito simples
uma sucessão de cadáveres vivos
presos à cor e aos aromas cardíacos
sobreposição amiúde assumida
como temeroso revivalismo
O CORTE DE LINGUAGEM
uma presença, obliquamente feroz
em passagens vocabulares
como se de anónimo vento
se tratasse ― o corte cortante
de um cheiro sanguíneo
de um engasgamento visceral
cabendo ou não o mundo na cabeça e na boca
pouco importa
felinas guerras, diplomacia-intermezzo
de baralhamento mental identitário
e alguém sito no mundo como incrédulo cidadão
no seu contexto quotidiano social
de trabalho e saúde a gerir ao arrepio
uma presença
cortada no estômago inexprimível
uma presença dizendo a diferença
atolada na lama das guerras do poder
dizendo a diferença neste mundo playmobil
em que autocracias se maquilham democraticamente
tendo por catecismo «o príncipe» de maquiavel
CONTACTO
ninguém nos ouve como sentimos
pressinto exacto este ósseo corolário
a liberdade pesa tanto
como o ar inalado
a solidão pesa ainda mais
, ninguém nos escuta verdadeiramente
[delírio de caixas de ressonância]
sem o devido peso na vida
páginas não representam nada
e estou nesta página até ser escutado
, sem o volume orgânico de tangência vivencial
a tinta nunca será sangue
nunca habitará a agrura dum espírito
AMOR PRÓPRIO
atirando um desejo de língua ao amor próprio
que verso invisível impulsiona
o âmago inverso da ave dentro neste século?
repovoando o interior
o caminho íngreme afigura-se o ente amado
não trai expectativas e é, em si próprio
a montanha ―
um jogo de mãos e rostos
onde a mão não esconde atributos
onde o rosto persiste acima das mãos
e a mão cavalga o braço
ignorando o que quer do rosto
dai-me a mim próprio o direito
de escolher-me entre os outros
BABEL
ou seria de livros a torre, a mesma em menor tamanho
aquela que me vê dormir à cabeceira sem fazer barulho
que de vez em quando deixa escapar certos murmúrios
alguns punhados de palavras desordenadas entre livros
que me acorda como se estivesse na rua desprotegido e
ainda que suspeite da sua fisicalidade própria lembro-me
em flash súbito e mortal da matéria morta que é o papel
das dores constrói-se trôpego lamento da saúde precária
[sonetos armadilhados de filosofia por estreita fisiologia]
mas quando volta o entorpecimento do láudano onírico
a torre torce o torso e contorce-se torrencialmente rente
ao meu ouvido mais próximo, por onde entram dançando
as vozes do que ainda não ouvi fora da organicidade cruel
línguas saciadas da carnalidade desmentindo qualquer babel
NÃO
a fome de raiva gera flores azedas no estômago
com medicação prescrita e ajuizados conselhos
não aos esteios sociais da normalidade, doença
digo não porque estou vivo e escrevo não ó sol
porque toda a minha pele um dia será papel e
os transeuntes farão tresleituras apenas de olhar
é preciso negar contra o pano rubro da atenção
sim, mesmo que afirmando dentro por doença
: mãos empurrando dentro paredes abdominais
tumulto interior esganado de fome, eu digo não
como vivo e como pão nesta hora de sobriedade
conservar a fome de raiva é resistir entre os sãos
sangrar distúrbios de zelo nas maleitas dos lábios
não à mortandade sedentária, foz do tédio lívido
falo como salpico dor nos meus dias para acordar
acima de tudo nego pela exigência de me afirmar
e como é estranha a normalidade da mortandade
quando pedra cancerígena não aflora como pedra
porque falsamente se insinua e não tem real peso
sobre a gravidade de desaparecimentos sucessivos
― nesta instável plataforma onde brinca a emoção
eu digo não como enorme sim à urgência de viver
OUVIDO
meu ouvido de mentir
forma absoluta do caos
ordens e esgares de sobressalto
inteira verdade por camuflar
meu ouvido de sentir
ombreira inimaginável do espanto
o tangível quase inaudível tornou-se ouro
comestível sensação ao espelho
meu ouvido de repetir
não desço, reentro centralmente
escuto-me entre outros que já não estão
saio de mim não saindo
meu ouvido de reluzir
escuro como a voz não falada
falso na inteireza verdadeira
centro tumultuoso do espaço
LABIRINTO
o vermelho sanguíneo, gasoso pulsa na vontade
compreende a energia vital
a curvatura ilumina todas as regras ― tragam
os exemplos, as parábolas
, a questão é a vontade
vidro mais são de se preservar
: o ponto cardeal é também um ponto vital
porque a geografia repete-se na ideia cárnea
ideia apaixonada dum corpo
magia, alquimia, chamem-lhe
o que quiserem ― a vontade
[a besta ofegante no labirinto]
de um dedo do pé à ponta dos cabelos
electricidade espírita | desejo englobante
o pão molhado dos músculos
CORDA DE ÁGUA
temos sempre sílabas mudas entre nós
nunca recuperamos a corda de água ―
à roda plena a magia dum busto alheio
que no pranto sozinhos achamos cheio
, servimo-nos em recônditas medidas
apontamos cada contraste de silhuetas
de nada nos servem essas comparações
perante pegadas de silêncio | florações
ficamos impávidos mas nunca serenos
e as nossas águas diferem de densidade
à margem do que falamos sem olhar
e do que tingimos de música ao falar
LÍNGUA DE FOGO
a chama que morde inadvertidamente o dedo
uma língua tumultuosa de fogo sobre o rápido
da linguagem ― timbre com que a voracidade
compele a um selo inesperado do movimento
depois da espera a que se sujeita o ser esperante
fímbria de átomos, filamentos coloridos, vogais
a combustão de órgãos internos numa ideia ―
labareda interpessoal numa contingência pessoal
arde a boca só de dizer o que antes era indizível
dos pés à cabeça ascende um fluxo intermitente
na última fronteira os aromas crepitam, amam
[só a sugestão pode amar na sua imaterialidade]
os aromas refreiam a destruição visual do calor
e então a língua de fogo fala como nunca falou
labareda de livros na lareira do peito indulgente
o corpo é a pedra de sísifo
MESODERME
um esconderijo entre as dobras do tempo ―
que sei eu de mim nos bastidores da sombra?
o calor da mesoderme como tessitura do real
impalpável domínio preservado pelo silêncio
porque visita-o essa etérea música das esferas
explosões celulares em pensamentos colados
na pressa de abarcar novas noções do mundo
fúria lenta da seiva humana na incredulidade
contrastes que balançam uma visão reticente
sobre o tabuleiro frágil da vida em suspenso
agora um braço, depois uma perna, a cabeça
reagindo aos humores universais da sombra
o corpo quase desconjuntado à foz do palco
agora um baço, depois um fígado, o coração
irrigando o sonho confundido na biografia ―
permeável à miséria da arte a mesoderme liga
o líquido ao barulho fisiológico do espírito, só
e sedento de formas avulsas entre movimento
[porque ocorre em relâmpagos dos músculos]
só e amargurado espírito entre a mesoderme
ESFREGAÇO
sangram as árvores na brisa da tarde
e eu espalmo o suor do meu flanco
levando ao nariz o mineral florido
o meu suor frutificado ― o cheiro
funcionando por decalque perfumado
e contíguo a vértices do dia respirado
. estou muito longe de saber o que
os dedos conversam com a pele
estou muito longe de saber a dor
das árvores quando podadas ―
o que de permeio lanceto com
o olhar e o olfacto
rasando planos cicatriciais
é tudo quanto sou
enquanto persuadido por uma imagem
ANATOMOFISIOLOGIA
seja vapor de dormir ou suor
a descoberta do corpo desboca-me
procuro a minha boca nos lençóis
mas só encontro um mar de saliva
a dúvida entre as vértebras e as costelas
revolvo o fígado, o pâncreas e o baço
não me fico na árvore de carne que sou
apalpo-me e sou parede e tecto
com exageradas lágrimas de infiltração
porque me esbarrei nos lençóis soporíferos?
o que me roubou a noite enquanto dormia?
o meu abdómen [aquário vertiginoso]
as vísceras cantam o incantável
movem-se como se movem os sonhos
na imponderabilidade duma toalha de adivinhação
as mãos e os pés são coisas inúteis no país onírico
entretanto encontrei a minha boca
não falo mais nada, não digo mais nada
vou comer ― apanho as palavras mais tarde
COPO DE ÁGUA
levo a água em dor
metendo-se com a faringe
caindo pelo esófago
até ao arrepio
, isto de significar vitalidade
rondando a estupidez frívola
da existência ―
esta paisagem humana
a ser substituída por uma
máquina de engolir polaroides
: sou uma ideia, uma paisagem?
descerei pela garganta
depois de um copo de água?
VENTRILOQUIA DO SONO
a inércia do que não vejo é móbil ―
ainda ontem um pesado homem de sobretudo
com esmero de grafite no semblante
desabitou-me abruptamente junto à árvore hibernal
sem mais delongas evadiu-se no nevoeiro denso do sono
o despojamento anima os corpos
e ainda que não sendo eu
pressenti-me um outro no empréstimo de vida
litigante o caruncho do sono fala ―
no oco cru da boca do homem balofo
pressenti dizeres como
«eis o vidro vazio do frio que virá»
ou mesmo
«come o silêncio em ovo renegado»
e ainda
«abre a forma do nada na correnteza fechada»
ALZHEIMER
não encontrarás o mesmo fio
[a linha-de-vida tremente]
não te encontrarás no sol redondo
não encontrarás correspondente
nem um qualquer sentido
ou o verdadeiro caminho
a noite trará a caverna
um buraco negro
que te subtrai o nome
a mentira será a tua casa
a casa do esquecimento
beija as mãos que tocam
as tuas mãos, bebe-as
como última água fresca
d’alguma fonte nalgum monte
algures sublinhado
pela luz distante da memória
LONGITUDINAL
ver-me em duplo longitudinalmente
deitado como que para um novo mundo
à espera duma nova caligrafia iridescente
os pontos de contacto surgem isolados
órgãos com toda a sua organicidade
com a sua música pronta para o sono
ao ver-me em duplo acedo à sujidade
à sujidade mental da memória colectiva
às desmesuradas intersecções com corpos
morremos e matamos todos os dias na rua
vemos o nosso corpo por justaposição letal
respiramos a efemeridade lenta pela solidão
― dessa morte e assassinatos constantes
a pele renasce desmedida em cada recanto
renasce como dicção táctil sobre o mundo
a realidade transversa dói como uma ferida
apercebo-me disso a meia hora do sono
ciente do abandono pelo olhar longitudinal
CROSSING OVER
voo do ovo, simples gramática
alinhamento do alimento
na fuga da boca enquanto fala
, nutre-se a palma
das sobras ingénuas, imaginárias
― um nada fecundo
de tão pequeno mundo
uma célula quase em apoptose
solitária e diversa
na falésia do rim
, prazer que perde função
que ganha presunção
na sua inutilidade
por pensamento
PERENIDADE
ou espreito o rendilhado do osso róseo
com seu aroma inconsútil sobre a tarde
«eis a minha loucura, meu grão na asa»
diz o arcanjo-mor rodeado de capitéis
os pequenos nadas estão cosidos ao azul
sem a mínima costura à vista ou calafrio
não adianta reconstituir a outra realidade
com fragmentos escovados e esquadrinhados
olhando a dois tempos não saberei nunca
a tensão arterial do santo no seu êxtase
na sua permanência voraz após a morte
embora algo anedótico o seu relicário ―
observo pormenores da floração óssea
não como autópsia mas como vivência
assombrado por palpitações de pessanha
conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…
LINGUAGEM DO SANGUE
a dúvida plena do corpo inteiro mas quase vazio
trabalho do jejum nocturno sobre as horas vagas
encontrar as ideias em arteríolas forçadas no rio
que desagua circunstancial no espectro da acção
o contágio abusivo de rumores detrás do sonho
na vertente vírica sequencial da industrialização
veiculada por alimentos de plástico que os genes
cantam loucos em uníssono num tom medonho
varre a culpa este sangue como que desmaiando
entre hiatos da memória depois de tais higienes
nunca sabendo que lições indagar nas bibliotecas
nem que pólen ministrar para reactivar plaquetas
o hemograma nada me diz sobre explosões verbais
sobejam os cálculos da ladainha hdl-ldl e o sangue
não contempla na arte essa quantidade de diógenes
sangue é vida na sigilosa arte de ludibriar mortais ―
PEDRA DE CANSAÇO
o peso enigmático que frustra as frases
como frustra o corpo em translineação
o peso ainda de dormir no absurdo cru
amplitude de penedo para breve encosto
talvez um amuleto que drible gravidade
ou apenas empedernido desalento trivial
a pedra de cansaço frena dizeres ao papel
tem um outro peso de procurar enigmas
muda de cor consoante o sangue e a linfa
as raízes do cansaço da pedra biológica
abrindo de intimidade o tossir boreal
apegado ao sono inquieto do sonho ―
regras de atracção em nada corroboram
com o delírio suposto dum fruir sensual
pela petrificação muscular junto à cama
acaba por ser segredo a pedra de cansaço
guardado segredo que em balanço mordaz
criará dentro um haiku de silêncio contido
IMORTALIDADE
a árvore dos ombros confronta-se com a ave das mãos ―
assustador o que o meu corpo tenta falar sem metáforas
inútil arredar os animais das fábulas da minha respiração
almejo voar neste papel mas o fígado pesa-me na escrita
o corpo é a pedra de sísifo e não o poema, naturalmente
o corpo como castigo subtil da impossível imortalidade
hamlet continua a brincar com a pobre caveira de yorick
crianças como deuses com o sol nos olhos
BÚZIO CÁRNEO
impressionante déjà vu o mar pelo corpo
uma torrente a fibrilhar recantos
inesperadamente ― o sal e a dificuldade
de chegar completo a cada momento
com caravelas-portuguesas à porta
dos órgãos principais
a incúria dum reflexo marítimo
na génese do pensamento trôpego
vendo depois o sal na multidão
em solidão ― nomeio a precariedade
dos peixes nos músculos, suas bocas
toldam-me movimentos
tornam-os imprecisos ao sol do desenho
os plancentários têm deus no sal
resguardam-se da ignomínia bacteriana
regular as concentrações e diluições
é doutrina implícita no vagar livre
incluindo os desertores da profecia
a geografia cumpre-se na anatomofisiologia
o sal dos continentes está no búzio cárneo
que precede a foz do poema, dando
falsidade à tonalidade nas paisagens internas
porque não pigmentárias as variações da cor
apenas elegância súbita do movimento
na iminência do canto
PAISAGEM
quando o chão se move no rosto
como tremura da inquietude
incide o erro aromático das relações
traindo uma certa homeostase ―
perder o chão em vez de perder a cara
porque irregulares águas não sopram
quando sangra a paisagem ao falar-se dela
transcorrendo o sangue nos olhos
torna-se quem olha paisagem interna
AS SOMBRAS DESCENDO
o contorno líquido das sombras descendo ―
como se estivessem a ler o passado
duas sombras variando de tamanho
consoante o diálogo bruxuleante
, duas sombras expressivas descendo
[o líquido que as preenche
vem da não-matéria]
não explicam origem, existem
descendo fluidas e secundárias as escadas
habitando um antro
que surpreenderá um dia
DISTÂNCIA
. a propagação da vida
― adeus sem retorno
, algo se esvai entre os dedos
impossível conter a beleza da fragilidade
conservá-la
o fôlego a fôlego propicia a ilusão
ainda maior por vasos comunicantes
reconsiderando o conceito de distância
no coração do micélio
― até onde chega o teatro das dores
malogrado masoquismo reprodutor?
A DANÇA
o olhar concede a dança ao mais pequeno pormenor
não rouba água à planta envergonhada
não estranha o piso
mas escolhe ―
a mácula de filigrana
de seguir subtilmente a sua coreografia no salão
mácula que pode ser pessoa inteira
confundindo-se com o chão
os ângulos inesperados do movimento
ombros | pernas | cotovelos
o olhar olhado ao mesmo tempo
no tango irmanado
olhar que dança como quem engana
um outro ou a si próprio
dentro do olho a água vendo
como que brincando dentro da planta crescendo
DECALCÓMANO
, estás nas silhuetas dos edifícios
que recorto a partir do céu
céu que já foi azul
mas hoje parece-me cinzento
preocupam-me as criptas do sono
esta noite dormi mal
e esmaguei o ouvido direito
a contracção e expansão dos órgãos durante a noite
trabalham a luz que recolho quando caminho
nos subúrbios da cidade ― uma luz grossa
de sangues misturados na dúvida do olhar
com a grandiloquência onírica
que anos mais tarde não servirá para nada
, e quando digo «estás nas silhuetas»
digo com alguma incerteza
como quem no escuro
tenta apalpar as paredes dum longo corredor
pressentindo sempre um tu dizível da natureza
― vinco os vértices dum vurmo vertical
viaja o estilete dentro de mim como um arrepio
, confundo sonhos com decalques de trajectos
nas ruas de bairros limítrofes da cidade
procuro conhecer-me procurando-te estrangeiro
meu «tu» que vai sangrando longínquas estrelas
ludibriando a luz enquanto caminho
VITRAL QUE NÃO HÁ
no vislumbre da gema de luz
a dificuldade dum impossível manuseio
assim o retorno cíclico ao abandono do ventre
a impossibilidade de luz
em dias tão escuros ao redor do trauma
, escrupulosos dedos num vidro rude
bajulado por sequiosa pretensão
conflito de matérias no percurso da energia
nascendo magnânimo impulso na grande epiderme
mil olhos redondos
na oval gravidez da gema de luz
. prosseguem os trabalhos de irrigação
em territórios celulares dum organismo vivo
atento a pormenores de cor desviante
ao mínimo reflexo de véus que o sol enriquece
preservar a gema é ressalvar cada ímpeto de vida
minuto a minuto na íngreme planície
RAIO PÚRPURA
abro o escuro do pão na noite
caminho pela berma escutando o chão
murmúrios quase imperceptíveis de tremores
fosforescem à minha passagem, clamam presença
o que foi e o que podia ter sido
[uma flecha de lume]
desvio o olhar, fecho os olhos
continuo a caminhar
oriento-me fragor a fragor, essência a essência
da mais inusitada proveniência: perfume, lixo, urina
o escuro do pão revela-se estado de espírito
permite a errância da candeia do pensamento
espécie de farol humano deambulante
foco contráctil de contrariedades
escuto o chão como se escutasse um ignoto coração
coração bravio da rua às seis horas da madrugada
a cidade dorme ainda com raiares de concha
que se confundem com o despontar da aurora
no momento em que decido regressar
a noite despede-se com um raio púrpura
antes do sol
IDENTIDADE
pó, pó que risca o osso
risca a unha
a vontade da pluma
do sílex acutilante
pó que é o epílogo da neve hodierna
dos dias futuros
não é o relógio o que queria dizer
mas este pó
este pó consistente
do big bang à erosão quotidiana
este pó que risca o vidro da visão
irremediavelmente
não é o relógio
nem tampouco a bússola
queria afirmar-me antes
no fragilíssimo cristal de neve
a nuvem fria
da minha identidade
EKPHRASIS
um pedregulho isolado na página de alcatrão
mensagem de sábado a repercutir como arte
longe das galerias e dos museus da tendência
contemporaneidade vistoriada em cada passo
a arte da rua adormecida na retina dos olhos
― sapatilhas no passeio molhado onde faiscam
rasurados vestígios : sortidas pastilhas elásticas
e envergonhados líquenes com a azia do betão
, velocidade amargurada ao enunciar o espólio
erros de semântica entre o material e o arterial
a erosão de casas abandonadas, a arte em acção
― o périplo pelo vómito das classes fustigadas
entrosado num vurmo político em putrefacção
, vendo e digerindo ausências metamorfoseadas
falhas de passadeira enquanto estreiteza da alma
HERANÇA
carregamos uma cristaleira no peito
parece-me
cachos pesados de carbono
no que não é confessado
pairando como nuvem que falsamente
se esfuma
perdemos o fôlego nas escadas
às vezes adivinhando os passos de terceiros
que comprimem a agenda
muitas são as vezes
e apoucam o oxigénio ritmo-sísmico
nada que se possa adiantar
nenhum planeamento extraordinário
acumulamos peso desnecessário
a lentidão acelera morte
às conclusões
o perímetro é menor no desejo de amplitude
tudo favorece
o desígnio trágico da finitude
prevemos o que não compreendemos
mortífera a cicuta da resignação
a continuidade do teatro
das aparências
essa preguiça existencial auto-implosiva
surpreendente herança
a que deixamos
CODEX
tecido humílimo pleno de utensílios emocionais
armas vis da mais feroz estratégia desarmadora
desde o elementar sorriso cortante às lágrimas
relicário diversificado ao serviço duma ascensão
intrincado códice pontuado de armadilhas subtis
é ver crianças como deuses com o sol nos olhos
a transformarem em ouro os objectos que tocam
é ver animais tratados como filhos e sendo filhos
um lastro de brilho da areia a tilintar no deserto
fazendo fogo no sono acordado de uma ilusão ―
a energia corre na tensão em arco dos músculos
músculos da impressão visceral abrindo o sangue
músculos da poesia vital ao mínimo alento do dia
da comoção filosofal que inaugura o puro espanto
a energia que anuncia a nudez em contrapaisagem
COMUNHÃO
a par e par o semelhante com o seu semelhante
na angústia e dolo de romper as vestes no chão
ombros a contragosto comungam esta confusão
queixos sisudos e queixos caídos de rompante
deflagrando um riso pobre de podre na calçada
rir do sangue : eis a riqueza da miséria humana
o mapa de dores e vergonhas atesta vã fachada
moral embainhada entre os demais na caravana
e lá vai o fino desenho de vaidade na sociedade
engendram-se castas iludidas numa indiferença
e as poças de água serão de sangue por ofensa
tal o rito de herança desta assassina probidade
o riso tilinta dinheiro no sentimento desordeiro
a par e par o semelhante com o seu semelhante
MINÚCIA
apraz-me o preciosismo sísmico
do ouvido atento
conectado a zonas nevrálgicas
entre sobrevivência e música
tão só
dentro de cada minuto
vibrante e líquido
guardado num
frágil frasco
diminuto
ecos de amor vegetal sobre um amor animal
COUP DE FOUDRE
atenta no olhar limítrofe do nosso desentendimento
, qual íris desavinda?
que sonho guardar nas mãos da meninice?
atenta na falha de água
no caule anémico da emoção
seguindo a aresta do nosso cruzamento
como retecer friamente o que é quente?
[entre olhares
perambulam na estrada
folhas dum ruborescer outonal]
atenta no olhar limítrofe do nosso descontentamento
. ou então não olhes
fecha os olhos e vê
MULHER VENDADA
não saberás o meu nome nem verás os meus olhos
se quiseres segue o mármore cego da rua
o branco do sal não é o branco da inocência
, há um preço a pagar do valor de uma vida
uma inconfessável vontade acima do corpo e da voz
o silêncio imita muitas vezes a pedra húmida
não imita a água porque ela em si é barulhenta
nunca pura o suficiente pois afoga desejos vãos
se quiseres segue o mármore branco dos meus passos
mas não olhes para trás
, tenta adivinhar o perfume do meu rosto
meu rosto sofrido, vendado e exposto à mentira do sol
ENCONTRO
vermelho velado | pranto encarnado
traçar a sangue e água o itinerário vivo
antever negrumes carunchosos d’infecção
vermelho-carmim | brisa de jasmim
vermelho caçador | amor agrimensor
ferir os alicerces no coração das moradas
controlar de longe o teatro das marionetas
vermelho doente | saudades do mar quente
vim ao teu encontro à hora do crepúsculo
sangram-me ainda os dedos malogrados
da tentativa de assassinato de uma rosa
espero por ti onde o ângulo agudo brilha
gostaria de rever essa pérola de orvalho
no canto mais desolado dos teus lábios
RASURA
se a noite erra eu erro com ela
desmentindo a suave aveia da pele
que me ensinou a medir os astros
luar e vento no perfume lento
dos passos dela em meu redor
caindo os corvos numa súplica
como que se despedindo da dor
a certeza feérica da tediosa agenda
não afugenta o músculo da paixão
nenhum vício corrói o sangue aberto
nenhum vitríolo de coração desperto
[os asfódelos : inevitável a floração]
aquando a agrura das feridas no sal
desertando o mar na graça de amar
se a noite erra eu erro convicto
não traio imaginação a um abraço
nem o esquisso do beijo sôfrego
bem-aventurado nalgum regaço
como se de vez acordasse aflito
entre minutos secos da semana
de quem não sei se ainda me ama
COITO
«toma o tumulto da minha aorta»
aquoso balbucio morno com
incauto dedo no umbigo
depois de assediar os mamilos ao de leve
nenhuma voz preponderante no babélico rio
das respirações ― transborda de temperatura
a mão que voa sobre a planície íngreme do ventre
de quem julga
na viragem do ombro de quem sustém
todo o peso do dever tatuado na pele
que transpira por ausência ou desdém
[alto sangue, baixa respiração]
pernas entrelaçam-se como serpentes prementes
grande comprometimento de esforços
[bacia, anca, quadril]
vira a página a mão que ferve sobre o peito
a outra mão vai segurando e rodando
maçanetas invisíveis
resgatadas à vulgaridade da necessidade
[entradas e saídas]
«deveras que me olhaste?
mas quantas vezes me negaste?»
«deita-te sobre mim outra vez
e lê-me»
A ESTA LUZ
não sei se os locais por onde andámos
sobrevivem a esta indecisão da luz ―
o amor, um mal de vista
que desde logo amar pressupõe um outro
um muro
não interessa o acabamento, a cor
mal de vista o amor
e a alegria do futuro apenas uma máscara
a cair mais à frente diante da montanha
como graal da solidão
PERGUNTAS
quanto és de mentira na minha verdade?
porque inclinas os lábios
no tropeço louco do beijo?
o reflexo do meu corpo
repercute no teu
ou é apenas sombra de pensamento?
quando disseste «veste a minha pele»
foi um convite ou uma ordem?
a pele da pele, metida de lado, o que é?
mas que prisma côncavo
subjuga o convexo?
que lado do espelho? que lado da alma?
vemos o mesmo rio?
qual o significado do mar depois do sexo?
são frutos os nossos rostos entre os ramos?
na linhagem da angústia o que perdurará da relação?
CONFIDÊNCIA
abandono a mão no teu peito
[um pássaro cego a sobrevoar-te o coração]
abandono partes do meu corpo
e parecem transformar-se em lobos errantes
nos baldios do teu pensamento
pronuncio sílabas de neve que tornam
ainda mais frio o nosso afastamento
a mão sangra como voa o malogrado pássaro
cego na luz ferida de uma breve alegria
[ecos do teu coração atrás da montanha
magnólia que na antemanhã desabrocha]
entoo o teu nome neste escuro rodeado de estacas
abandono o meu corpo para regressar a ti
― e sangra a mão no bailado das facas
OUTONO
conversa a chuva lá fora em torno do abandono
[o cão molhado na angústia do amor professado]
não, palavra enrijada no pranto confuso do rosto
mudando com as estações, com o mundo calado
a chuva ― o corpo do que não foi dito a tempo
e muitas vezes as aves exasperavam-se connosco
nossos estômagos esqueciam a função no beijo
de indestrinçável origem que retumba até hoje
e hoje esse amor deixa de ser assunto como hoje
deixa de ser presente entre os pingos da chuva
e alguém sonha neste momento, alguém morre
também ― chove a conversa passando o tempo
a imobilidade dos penedos ao pensar neste amor
uma cama que parece um pequeno barco à deriva
aleijada no seu sentido mais íntimo, mais secreto
uma cama de múltiplos reflexos aprisionados ―
uma vez mais penso o outono do nosso abandono
as aves migraram afugentadas por sílabas de medo
exaspero-me com a chuva da paixão em ré menor
não, a palavra de dois sentidos que magoa o corpo
a chuva escreveu a carta que nunca pensei escrever
tem o rumor dos nossos corpos na memória viva
carta lábil como o riso das contradições do gosto
mas que reafirma as estações apesar do abandono
LEMBRANÇA
regresso a lembranças e parecem-me desfocadas
as abstractas não efervescem
as físicas como objectos vão perdendo o tom
a cor acompanha o tempo, a impressão da idade
uma alga-raiz directamente secada
entre páginas de poesia ferreamente mordidas
ecos do que foi pensado na vez de ser dito
embora escrito por essoutro bêbado de solidão
[verdadeiro pensamento refractado]
ecos de amor vegetal sobre um amor animal
a lembrança lembra um livro exilado pelo sal
com sulcos cardíacos nas páginas a queimar
um rosto deformado com palavras ilegíveis
um rosto do passado como poema juvenil deteriorado
única razão reverberante daquela tarde em frente ao mar
VALE DA CARVALHA
um dia hei-de revelar-te
o lugar escondido
dos morangos silvestres
e falaremos do açúcar antigo
que ainda me invade
quando morro um bocadinho
nas páginas dum livro a vir
há um muro que borbota
terra húmida na memória
primavera em caroço
de segredar ao ouvido
os dedos na terra preta
a curarem-se das silvas
todo o orvalho desse lugar
é a água do mundo ―
JUGULAR
bebe da minha jugular
sofregamente
, fecha os olhos
verás o beijo cego que entorpece a minha visão do outro
bebe mordendo fundo
atenta nos aromas metálicos da periferia
[quase lâmina]
não temas
nem por ti nem por mim
o sangue quente das imagens que te dou a beber
a única flor-de-lis que legarei
entre os destroços da civilização
o que fica de mim em ti não é o que vivi
mas o jardim que em ti por mim fica
e ficará se imaterial permanecer entre o absurdo capital
flor-de-som dita em voz baixa
de ouvido no peito
, adormece
não temas
e bebe, bebe da minha jugular
o bom sossego do monólogo com o mundo
COLMEIA
«sobrevoo o rio, vou na aragem» diz a abelha colectora
a missão é corpo em velocidade ― admirável a garantia
que o tesouro de pólen acende na visão do promontório
confundindo propósitos ― «minhas ninfas nimbam» pensa
a abelha rainha nos seus aposentos faraónicos enquanto se
alimenta com a geleia real produzida pelas enfermeiras
, é a música ensurdecedora do zangão nas proximidades
a sua maior preocupação ― defender com a vida a colmeia
excelsa divisa das abelhas guardiãs do ninho dourado
mil asas das ventiladoras alentam as abelhas obreiras
essas artesãs suspirantes no trabalho vivo qual ourives
tal a azáfama nos corredores hexagonais da esperança
― a humanidade é um enxame mas não produz mel
antes vitríolo que vai sendo amargamente armazenado
em corações de porcelana bem enlapados nessa solidão
«tenho amor em ânsia esbelta, mas não é doce» alguém
confessa entre corredores de mármore e granitos frios
o amor tóxico «a razão em abismo, os lábios enganam»
mas há um rendilhado e estrépitos de perder o fôlego
de enclavinhar o mundo em anfiteatros para ver ópera
[parcelas octogonais de veneno feliz nas sofridas veias]
a ver esse fino espectáculo de hormonas e feromonas
nos olhos dos apaixonados ocupados com a efemeridade
também um enxame em azáfama se visto de longe ―
NASCIMENTO
― calar o embrião como o verme húmido na terra
será ou não a dialéctica vigente do reino de amanhã
tempos professos de raiva adormecida com a bênção
do aturdimento absoluto e sem as rédeas do vil parto
que cessa o bom sossego do monólogo com o mundo
, calar o embrião que não virá e negará estas planícies
que na verdade não poderão ser vistas ou pintadas até
e o silêncio é já língua, escutada por um único ouvido
também ele um embrião dormindo quase morto mas
com a dúvida como vida limpa que nem papel virgem
PRECE
o cheiro que antecede a chuva
choro de quem padece da seca
olor a bolor florido a par da terra
que chorando a chuva dentro brota
lembrança daqueles que partiram
com uma gota de resina lacrimal
a incendiar o sistema de êmbolos
― estranho engenho de andar triste
comparando os aromas e anotando
cartas a enviar a quem não responde
bizarra epistolografia neurasténica ―
o cheiro a chuva ou o cheiro a choro?
olor a bolor em flor ou apenas morte?
alinhavar as sementeiras com o pão do céu
desígnio milenar dos espíritos errantes
que livres caminham pedindo a chuva
e assombram as lágrimas dos amantes
VENTANIA
hoje aguço-me na ventania feroz
as folhas das árvores falam comigo
rumores pelo corpo dão-me energia
[formigueiro na corrente sanguínea]
não tenho como não me apresentar
na rua sórdida, na viela desarmante
uma corrente anónima me impele
e todas as minhas células à espreita
liberto as mãos ao vento da manhã
algum acontecimento ou visitação
falam comigo as folhas das árvores
a ventania transforma-se em água
visualmente no interior do sangue
com os cães e os gatos em deserção
a silenciarem-se no branco da luz
não tenho como não me apresentar
no centro da rua, de pulsos abertos
aguardo uma espécie de revelação
um ávido pontilhado de sensações
pelo murmúrio de vozes brancas
que brincam nas copas das árvores
ABLACTAÇÃO
entre o refugo do leite estelar longínquo
a imprecisão duma memória
o que restará para incendiar consciências à deriva
ter as mãos regadas com gasolina
e a promessa do fogo nupcial escondido
algures na nuca ―
as impurezas no leite envelhecido
coalham pequenas biografias de animais imaginários
em transumância,
o presépio profano passeia nas nervuras das mãos
aquando o delírio deliquescente
abismo chamado de interferir em vidas alheias
que ardem na agenda assassina da memória
talhado para o infortúnio o menino corre nos campos
atrás das vacas enlouquecidas pelo cio
corre com galochas de adulto
e vai chorando o desespero maduro do suor
fazendo a sua própria cartografia
do descontentamento
NUVEM DE MOSCAS
vem a nuvem de moscas
trabalhando ao contrário
uma visão dos injustos ―
mosquear a branquitude
vertendo ácido às imagens
ora mosquear para dividir
trabalhando o apagamento
zumbindo e rascunhando
sob a linha azul magoada
as moscas, ratazanas do ar
vieram sujar para limpar
[preto sobre todas as cores
uma pontuação pontilhada]
vieram atalhar o apocalipse
então a qualquer momento
surgirá no imenso céu azul
o rosto severo dum ditador
― estranhíssima era esta
a era da nuvem de moscas
CASULO
que me esmere expandindo os apêndices da oclusão
votos de força interior e desejando
que algo cresça empedernido dentro, não desfolharei
tão próximo ― que alguma voz seja
em tão pouco corpo, tão pouco espaço
mas ressoando o universo todo um nome opaco
com camisas internas translúcidas
suaves véus dolorosos do canto iminente
que me esmere com a arquitectura da alma
a atender novos povos arredados da humanidade
tal a vontade de limpidez e crescimento
ao redor duma gota genital profunda
que dê significado à flor dos abismos e à lisura da morte
coisas de azul cobalto sob a inexcedível intempérie ―
crescer num casulo é rezar ao apodrecimento exterior
viver dentro a morte da arrogância que abunda na periferia
e eu que me esmere instintivamente
sem toda esta consciência confidente
que habitualmente a poesia traz à tona
entre suspiros e asas
porque me esmerando vou confessando todo o mal
prestes a rasgar o casulo no momento pressentido em sonhos
mas seriamente acreditando
em desígnios da implosão existencial
UM RIO
corre um rio no espelho
nele prediz o esquecimento
com a falsa água da longitude
, não nítida a imagem aflora
sem fundura apenas contradição
corre um rio à procura do nome
e substância ― mesclam-se imagens
camadas sobre camadas, filamentos
estranhas visitações tremeluzentes
, vultos e mantos empurram a voz
distante ainda do som mas presença
sem ruído ou textura ela não diz
existe em redemoinho no espelho
CRIANÇA DE MÁRMORE
quando em posição fetal
o nariz sobressalta
vindo do olor a fermentação
[acordando a criança de mármore
que se quer calada]
inaugura-se um museu
todo ele dedicado
aos mais inusitados leites maternos
o leite jade das rochas musguentas
que sobeja em fábulas e parábolas
o leite púrpura da polução nocturna
que alimenta indigentes no desamor
o leite madrepérola da virgem
curando antepassados só de cair na pele
gatilhos adivinham sarilhos
perigosa a candura do leite filosofal
a acidez perfumada das leveduras
desperta nenúfares mentais
levam a criança de mármore à loucura
desejando a gota florida
no mamilo
VEGETAL
uma mancha sanguínea perturba a manhã ―
manhã de ocultas bocas enrodilhadas no lençol
e não sei que rosto adivinhar entre a folhagem
do exagerado branco na pouquidade do sangue
quem dorme com a árvore chamando o ventre
denuncia-se consanguíneo por chorar as folhas
PEDRAS, PERDAS
separadas pedras das minhas perdas
luzem às vezes meu sentido perdido
qualquer coisa deprimente, pedante
deveras aquecem o vazio presumido
digerem minhas perdas estas pedras
são constelação, antinomia perigosa
pautam subterfúgios da glosa pobre
são filhas da grande rocha perniciosa
PARÁBOLA
o que de certo não houve
mas contaram pelo romance
ou deduziram
[por haver clareiras]
«cortaram as pobres árvores»
vários animais fugidos
da narração
as personagens terrificamente imobilizadas
pelo susto de serem personagens
e um alguidar
sem propósito ou preâmbulo
no ribeiro continuam as trutas centenárias
com refulgentes anzóis e amostras
nas costas ― confessam crescimento
tremeluzindo mágoas e cicatrizes
do dia tornado futuro dum passado presente
uma memória mal cuidada
põe em perigo toda uma comunidade
a vida deflecte-se no corpo e na paisagem
em contínuo
e com arbitrariedade natural
FRUTOS CAÍDOS
nada de tangível se apaga
na velocidade com que penso
a inglória dos frutos ―
a semente nua sacudida
por um vento cerebral
enceta o alarido sobre
a micro-realidade
frutos amadurecidos
por princípio anti-semântico
como que considerando
doentia a parentalidade ―
repenso os frutos caídos
revisito humildemente
o pomar dos mortos