Moral Canibal

[Palimage, 2005] 
 
PRELÚDIO QUARESMAL
OU
MONÓLOGO DO CORDEIRO MORTO
PELA LANÇA VOCABULAR



ó de mim...
tanta culpa na constelação dos membros.
a lâmina dos beijos decepa, em órbita, figurações espontâneas
que amaria eternizar.

olhai para mim...
eu sou o cordeiro abençoado que abre o peito diante de vós,
o excelso exemplo de quem realmente despe músculo a músculo
a razão monumental do encharcamento pulmonar.

preparai-vos...
prometidos estão os meus restos para a vossa ceia festiva,
orgulho preliminar antes do mergulho da coroa a ensanguentar, o azul na
devassidão das vossas vísceras compulsivamente arredadas
do antro luzente por um bocejar matinal.

depois do sono a amnésia...
visitar a fábrica dos horrores suavizados, apreciar os rostos
estampados nos rótulos do produto moralizador empacotado,
estudar a genealogia dos monstros de lodo artificial
que habitarão o futuro.

concentrai-vos na rotação dos meus olhos inchados de sangue...
vereis três éguas a parir ferrugem no fogo emudecido.

aposto os meus intestinos que na vossa endiabrada cabeça,
vive somente o emparcelado mundo da probabilidade dedutiva;
sei que ocorrem constantes mutações no vosso crânio e que
a cada rotação da máscara cárnea surge um novo padrão colorido
que mais não é do que um elementar truque de ilusionismo óptico...
eu à vossa imagem ou melhor, o meu rosto de cordeiro mal morto
reflectido na mesa das apostas.

projectai a minha súmula genética na vossa indisposição; apraz-me até,
relembram-me velhos tempos... eram doze a comer-me
e eu gostava... ainda gosto.

e os textos? queimai-os, assim como o sonho da erva
que apesar de fresca era amarga, e enterrai vivo o calendário das lendas
na pele caramelizada ainda a soletrar o deserto.

conto-vos que
o urso imperador deu ordens queimando a pele rochosa
ao vento do norte.

jangadas de cinza descem a garganta, cravando na carne
o gosto repelente pela irmandade dos arbustos que se reúne
todas as noites na planície enfeitada com cestos de fruta podre
brotados da terra – o pequeno-almoço do monstro
da nova manhã.

confesso, há muito que o beijo dos triângulos incendiou
a trilogia dos espíritos, e o fumo será o perfume dos que condenam
as leis da ampola do tempo.

qual sacrilégio em cada degrau...
o monstro da nova manhã sozinho canta e brinca
com o seu rouco eco.

de vez em quando, torna-se necessário ler o rebanho das gotas de água
no vidro baço da melancolia,
puzzle de trevos verdes para todo o sempre pisado
– aqui tens a tua terra!

todo o meu interior exposto às moscas e aos homens...
mas a minha dor deve-se ao nojo inócuo das palavras,
ao tédio corrosivo do discurso que desliza entre os mosaicos de saliva
perpetuados nas saias do tempo.

assim morro com esta lança cravada no peito... e da ferida apenas escorre
a seiva de detritos que desisti compreender, vurmo baptismal indiciador
da condensação do pecado e não da sua suposta absolvição.

em verdade vos digo, no próximo mundo o crocodilo será vegetariano.

nesta mesa onde vos espero me confesso... aqui me acuso
e me calo.
 
 
 
  
 
[a rapariga verde]

sabes-te, olhas ensonado a rapariga verde que pisa
descalça
os intestinos caramelizados da máquina de escrever
há muito explodida num dos cantos do quarto.
aranhas húmidas saem das brechas imperceptíveis
do tecto,
atacam-te enquanto observas as formigas negras
a funcionarem como agrafos no ventre da rapariga verde.
um suspiro a soar como tardio alvorecer e é então
que percebes
porque azedam os sonhos.
abre a janela a porta o peito os pulsos...
reclama a legítima herança da claridade – o país de
papel
onde deslizam as lagartas.
 
 
 
  
[electrocensura]

porque curva a ideia sem que lhe caiba o cansaço? comer? sim,
ridículo trauma a emborcar gaiolas de pau preto.
a realidade privativa enriquece a primitiva alcunha
a servir de lantejoula – quente pensamento
afagando o áspero pêlo do
jumento.
zoológica natividade do prête a porter... e ninguém explica
a função gráfica do surro quotidiano,
nem o virtuosismo sintético do seu significado. aspas que
porta?
acento circunflexo que telhado? ponto de exclamação que
chaminé?
quem dobra a esquina do estéril ermo? mal dúbio sem perito
de reforço – doidice das farpas que as fadas
costuram feias, enquanto rotina do desencanto.
escrever um nome no fundo basilar do estômago e
instalar-lhe um eléctrodo: ladainha das sete
escadarias controversas.
espero o meu par no epicentro do
gira-discos
que acaba de ter alta das urgências hospitalares.
agulha grossa na fenda germinativa das cabeças
unidas – romântico extorquir de senhas
da revolução interior.
 

 
 
[o bicho-da-modéstia]

ao que
vieste?
mordeu-te o bicho-da-modéstia... ninguém te desata os nós do
esófago
e o trevo não funciona como senha na sala de tortura.
ao que
vieste?
trazes escrito nas costas que foste traído por quem mais te
elogiou
– o touro branco só te ataca se o deixares à solta.
foste mordido pelo bicho-da-modéstia...
esfrega o inchaço com álcool e goza a ressaca,
és parede de embate, sabes que
estás vivo e
acaricias os cornos que te trespassam
friamente.
ao que
vieste?
ris-te do mal que acaba por te atingir;
descobres tarde que aquele que vês sofrer és tu afinal,
um espécime doente, decerto canibal.
 
 
 
 
[alerta geral]

movimenta-se esfomeado farejando entre os
arbustos,
observa apaixonado os obstáculos em que tropeça
– fujam, ele é humano... tem os olhos vermelhos dum ódio
ilegível
e garras afiadas a saírem-lhe da boca.
ele vê os órgãos da presa
a contraírem-se
de temor
– fujam, não subestimem a agilidade deste predador,
ele é humano, fujam... conhece todas as tocas ou supõe
conhecer,
por isso é perigoso
– fujam
e afastem-se de todos os espelhos.
ele é humano,
o mano.
 
 
 
 
[a besta]

a besta sobre o tapete no lado de lá... roçando-se na cortina
vermelha,
floresce-lhe o nariz as faces os olhos escavados as mãos
de veias grossas sobrelotadas – surge
sem a noção de surgir.
baba a cortina, rosna e insurge-se violenta numa pose
a suster a gargalhada que ridiculariza o caldeirão
de rostos fálicos subdivididos por um visco dourado.
a besta do lado de quem a pressente a cada esquina
mas que não a vê, nem lhe adivinha o ataque.
porém, a besta gulosa humedece o alvo róseo a penetrar
com a impensável falácia de potencial ensurdecedor.
o monstro a monte no lado de lá, morando para lá
do que ainda quente se transforma
do lado de fora, asfixiado pelos raios acrílicos
das vítimas: brancura cuspida – a traqueia picotada.
correm mulheres dentro da besta, cardos no peito,
vinagre na alma.
e quando no prado medular da história a besta morre,
resta a coroação. rumores... sabe-os todos
o vento – para sempre viva a auréola de pólen
que lha dá a natureza.
 
 
 
 
[desmame]

experimento como se pela primeira vez o voo uterino
apalpando as mucosas, docilmente vacilando
colado à imagem
quase
sem respirar – o halo.
viagem à terra perdida da utopia,
quimera do deleite desfolhado.
vou nadar sobre a montanha despida
como se voasse de facto
e mamar no cume do pinheiro mais alto o precioso leite
dos cones primaveris.
vou denunciar as medalhas de plástico verde
que bóiam concêntricas
no rio douro – pressuposta película
dum segredo tão profundo.
pudera eu conhecer as vísceras do rio como as que sinto
mover incomodadas
cá dentro.
 
 
 
 
[nenúfar espacial]

nenúfar movediço... a casa. estar, os pés acesos... balouçar
ter o medo a salgar os músculos intermitentes,
buzinas em vez de ouvidos.
a dança do ventre com archotes de lava volátil.
vem beijar-me que eu mordo-te com a vontade dum javali
de perna amputada...
«ao que parece, ele veio das outras bandas...
não lhe sei o nome, parece que não come nem bebe. de tarde,
brinca com as flores silvestres que abafam os arredores
da cabana» – vai, vês de certo, o gume do som
libertado pela teimosia estática dos objectos,
aquando os mínimos precipícios
assazmente escrupulosos
pela intersecção de vertigens, outrora ritmicamente
paralelas.
agora... saltar!
manter o verbo sem comer o naco de insecto
parado no código de barras
do tempo.
e ouvir de novo os passos... «vêm buscar-me!»
embriagam-te o corpo nesta cúpula de gases turvos...
deixa ecoar o grito da
tua carne
líquida,
pois futuramente a sentirás disseminada na rochosa
planície acrílica,
como que limpa de todo o pecado amordaçado.
os revólveres são grossos resíduos de carvão
em erosão
no terreno alisado da tertúlia masoquista.
ó encruzilhadas de estradas onde pulgões drogados
passeiam à mercê dos vírus vegetais pontiagudos.
ai que a seiva mata... escreveste, portanto, inscreveste
no dorso do cavalo selvagem
de três patas.
sentes pulsar a culpa... e detrás do cepo choras
vinagre,
és e serás assassino – a vigília dos nervos por traição, florido
o nó resinento.
pântano recauchutado do devir, pântano onde brincam
os animáculos do cuspo mantidos a glicose...
ó pântano masturbatório,
viveiro de fantasmas enfeitiçados pelo pó de alecrim a ser
queimado – brincamos nós?
nenúfar espacial... movediço ainda – a casa. estar,
os pés apagados.
 
 
 
 
[nós nox noz]

a carne acesa a rodar o cálice – esqueces as fibras vegetais
que te torneiam.
dormente te insinuas; quem vês chegar para além da casca?
sobras na tua solidão, sabes-te objecto muscular...
a noz.
o peito acelerado desapega-se da espinha que afiada
corta os pulsos da lua a morrer pálida
sobre a tua cabeça.
ninguém quer ler a tua carne... aqueloutro quer antes
mastigá-la
para decifrar a sua própria carne, embebida em saliva morna
que enche vagarosamente o cálice de latão.
gravados estão os agouros pelas mãos da suprema ignorância.
 
 
 
 
[carrossel]

ah o carrossel, uma volta,
senhores e senhoras, meninos e meninas:
apresento-vos o fantástico carrossel de carne podre!
fechem os olhos,
apreciem o passeio turístico na cabine das sombras;
oportunidade única de ver a cores buracos negros
em vez de olhos inchados
e o tão grande campo de espantalhos espetados
a gesticularem indefesos.
inspirem o fedor da renúncia, bebam
o sangue do cacto órfão perfurando o coração do pão negro,
apalpem o estigma espinhoso da flor tenra
que amarela
abre para dentro.
ah o carrossel dos assentos com ventosas que sugam pútridas
ideias e imagens
do mundano torpor recíproco – o digno carrossel das fezes
copiosas,
reservatório grotesco de vurmo.
bem-vindos!
próxima paragem: o mesmo lugar.
 
 
 
 
[o manequim]

quem roubou os órgãos ao manequim? sanguessugas
operam
no corpo gessoso,
condenado à posição infernal de serventia.
faltam-lhe os cornos do ódio, o vermelho do choro a
proclamar vingança;
faltam-lhe as algas cinzentas
como lâminas de machados em pé
de guerra.
nu,
secamente nu, vítima de bruxedo, reduzido ao puro escárnio
– roubaram-lhe a visceral expressão do rosto.
talvez virá quem lhe faça justiça, quebrando-lhe a
pseudocabeça
e exibindo bem alto
a caverna rugosa do rosto escavado para dentro.
 
 
 
 
[a refeição]

aberta a boca enorme
[lábios frios sem almofadas]
come o vício.
COMÍCIO – o ovo estrelado arrasta-se pelo mundo,
voo atrelado que se castra;
surriada de ondas viscosas da clara mal cozinhada.
a cara enfadonha discursa – o peixe
nada
sobre a planície irritável da fome
no mundo cujo estômago ajusta a seu bel-prazer
a coroa de espinhos.
nuvem negra da peste sobre a frigideira;
CARCINOMA – coágulo de sangue falso
a vaguear lento.
peixe cozido com ovo estrelado: meu lado sangra...
 
 
 
 
[fantoglobalização]

arcadas relembradas pelo som montanhoso até à foz
do arvoredo.
quem viu? porquê tanta acidez? assim se delineou o
julgamento:
«sou ser que se ergue como erva ontem pisada».
garras ossificadas salvaguardam a estrutura anelar
da memória – a cruz velha da face.
guache nas caras muitas caras,
gárgulas acrílicas sobrevoam o curral das bogas,
lago onde o mensageiro negro sangrou estanho.
crivo fermentos, aparentes sílabas mortas, com estas grades
que atravessam-me a garganta.
escadarias tubulares metálicas frequentadas por fantasmas que
teimam em vestir calças de ganga azul e t-shirt branca.
confuso mapa da sucata – mastigo as côdeas da ausência
e saboreio a gelatina dos pequenos seres de geada.
crise de soluços no centro da girândola ardente
e depois tusso
descobrindo solta a mágoa.
a espinal não passa duma coluna de gelo...
 
 
 
 
[zero]

nunca tocarás em nenhum retalho da folha branca
sobre a qual caminhas e desfolhas o teu bolbo – nem lhe
sentirás o verdadeiro cheiro
sequer.
sentes as bifurcações dos vasos capilares,
experimentas só a vertigem do salto, medida em cada
um
dos retábulos do movimento fluido das cores mais ocres
em intersecção,
atingindo o número real da tua monografia: o inigualável
zero.
zero, zero colossal, zero mirado da rua,
próximo da devoção agiota.
zero ínfimo mais do que tudo...
mais do que a casa que guarda o sangue daqueles que
penhoram o frágil órgão de explosão
para perfumarem objectos com o sufragado óleo
das paixões.
 
 
 
 
[o farol]

a manhã entreaberta – correria branca do sonho em
curso.
doce bafo do menino à passagem dos
dedos maternos.
os olhos ainda cerrados vêem tudo
[TRANSLAÇÃO DAS
PLACAS CÁRNEAS]
o suor leitoso liberta um suave aroma. mão fechada,
a predilecta mão fechada, ocultando
carvão brilhante – uma mosca
assassinada.
o menino dorme... calada, a mãe zela com ternura
a sossegada concha – a mão aperta
mar dentro.
 
 
 
 
[de costas apostas?]

cruz credo... que desacato crer na cruz do medo,
sintoma do grito caduco – o beato mede a pança do mole
penedo,
e farto do muco
arrebanha as folhas douradas com suja sede
[quasi maluco]
folhas por vermes mastigadas.
cruz credo... qual oração ou promessa a favor do vento,
sintoma da carne plastificada – o vilão
ou serpente agricultora rastejando no cimento
da acusação,
que cansada suicida-se santa
com uma pérola no vértice da língua rasgada.
onde morre o espectro, sopro que desditosa poeira levanta
em nome da verde boca do ceptro?
 
 
 
 
[vénia]

vénia... membranas interdigitais ao vento.
voa o xaile rendilhado por onde se vê a truta bailarina
a fazer olhinhos mansos.
o horror da notícia é motivo de vómito sob os arcos
musculares
dos membros sadios em contracção mórbida.
esperar a garganta e delinear destinos na cinza com os quatro
dentes do garfo encontrado à beira-rio;
olhar de longe as penas defeituosas da leveza hostil
sugerida pela frieza atmosférica do desejo.
o anel
trabalhado no esquecimento fecundo,
desencontro fiel da dicotomia genealógica vista
do macro ao micro
infinito
surdo – todos os nomes passeando
na linha rarefeita da importância conjugal de nuvens
importadas dum limiar baldio.
vénia... que entardece; partiram-me falanges,
estes queridos estranhos, em si perdidos, vagabundos
procriados pela batuta da proveta.
felinos acordes a banharem a praia do dia... acordar
desenhando na tábua a aurora oral infecta
com ouro de doloroso brilho alojado nas
unhas.
 
 
 
 
[o coleccionador]

ó carcaça que te esquivas dos pingos de vitríolo...
escuta-me
andarilho sofredor,
coleccionador fanático de cicatrizes.
vira-te para mim,
atenta meus lábios, lê as vibrações do que te digo...
sangram-te os olhos?
mostra-me o álbum das feridas – quero lamber o
pranto rejubilado
nessas páginas de lenho nervoso.
crescem-te fungos verdes no cólon?
cede-me esses farrapos de pele velha que já não usas
para melhor forrar este casulo
donde te espreito.
despe-te cruamente que eu beijarei
as chagas.
 
 
 
 
[inferno]

«isto é o inferno» – queimando a asa esquerda.
encandeado, o rapaz emociona-se confuso, o mundo
embaciado: vapor oriundo da fervura
de pseudolágrimas.
como que a virgem borboleta violácea
se compadece,
tanto que inicia a postura letal dos ovos no colo
duma folha-mão verde, a flutuar serena
na água cristalina dos olhos imóveis do jovem
rapaz
ainda palmilhando o braço da ganância... a náusea:
súbito reflexo de perseguir a avermelhada presa
de patas prateadas; cumpre-se a rima
se o filho carregar a culpa de esgravatar a terra
à procura dos bagos gordos enterrados pelo pai?
a brisa de exsudação beija a terra visionária.
«ousas decifrar a fórmula do rebentamento da erva lendária?»
a súmula do vitupério – razão do império – a mulher plantada
no cóccix do macho que dobra os sinos...
e esvoaçam as cartas do sono, libertadas para
o grandioso massacre... granizo aos soluços.
há um rosto em orgasmo num dos halos abençoados
pelo sol,
e tal é a compenetração deste astro protector que não se
dá conta da sodómica intenção de neptuno...
gargalhada na via láctea!
«perderam-te aqui» – semente morta,
malogradamente oca, de velhos tegumentos.
os ciganos amordaçaram a lua... todos mortos
para a eternidade, nesta terra de ninguém.
a ebriez dos sábios cabe na tristeza polvilhada
nos lábios da terra... o filho abandonado.
incerteza de meia-noite:
quando virá a mãe destes gritos disparados contra a face lunar
amarelecida nas pautas da ambição?
resta-nos acampar junto ao portão do juízo final;
os anjos aninharam-se na loca negra onde o lobo vive da carne
que transpira veneno... senhores da terra de ninguém.
onde vestir a capa do carrasco? vinde, apedrejai-me
vós, maníaco-depressivos da verdade – verde cidade,
cidade verde... que chovam gargalhadas!
vós, excelentíssimos degoladores da flora explosiva em cada
rasgo transversal do ser;
vós,
de constituição tatuada na pele... esquecei!
e rir,
gargalhar, e morrer a sós com a beleza.
 
 
 
 
[último arco-íris ou o reverso de medusa]

pulsa o coração daquela mulher à escuta
dos últimos espasmos vitais espelhados pelos olhos daquele
pássaro fatalmente ferido.
o epitáfio inundado – alvor cénico de tensão amnésica,
consumando-se a recondução da esfera impermeável
com os seus espinhos dançantes – a seara negra.
súbita bifurcação
e, justifica-se a subversão da justiça térrea,
ornamentada com espectros fluidos de crianças pálidas
com a pele descosida ou o crânio quebrado – é daí,
desse portal entre a escuridão e a luz
cabalmente aberto,
que se experimenta o livre arbítrio da furtiva e solta
contaminação: o suco híbrido de sangue e linfa
de mágoa não resolvida – escala o ar como serpente;
propagam-se ondas oscilatórias do invisível ódio,
esse suco amargo desse passado revivido em cada hora
pelo exilado na morte, que
alimenta paradoxos aromáticos cuja origem
é fidedignamente descrita pela ablação do idioma.
aquela mulher explode se desviar o olhar;
o pássaro morre se a dita mulher fechar os olhos.
a morte daquele animal dita em voz alta o manual da
regressão apática daquela mulher, que o desenha
no desnudo painel de neurónios coligados pelo vagar
da matriz afectiva em toda e qualquer reflexão por compaixão
de si própria.
sofre, aquela mulher, no seu perímetro de angústia e tédio
à espera...
fecha os olhos;
aquele pássaro morre escondido em cima
duma fraga.
 
 
 
 
[aviso aos violadores de plantas]

abres à força o botão pomposo da planta,
desmantelando-lhe a fechadura vegetal
para roubares o saboroso coração verde.
assumes-te como tarado torcionário?
como confessas este crime, abominável culto?
como vives nesta primavera de escombros fetais?
melhor é começares a eliminar as provas...
limpa bem o pólen da roupa
e dos sapatos;
o império das plantas homicidas há-de chegar
– morrerás de alergia!
 
 
 
 
[sermão aos gafanhotos]

cambaleia trôpego o orador de cabeça levantada
[uma agulha de prata espetada no nariz]
meneia a túnica de carmim aguado até ao púlpito.
«caríssimos irmãos:
colonizai este planeta pela desordem,
perpetuai a entropia com os frenéticos músculos
que aperfeiçoais dia após dia,
guinchai até à exaustão...
está na altura de impormos a nossa ecléctica música
de ranho e voo...
meus excelsos irmãos,
contemplai com os vossos olhos esbugalhados
a cabra da nona estrela,
nossa rainha das noites de glória!»
limpa emocionado o suor do rosto e triunfante finaliza:
«eis que é chegada a nossa hora...
ide e venerai sempre a fissura renal da cassiopeia,
pois dela vem a nossa luz!»
 
 
 
 
[a mosca]

nevoeiro na banheira, o branco fede.
pequena mancha negra em movimento – a mosca.
a linha de água convida à rasura dos aspectos.
microvisão: ondas médias,
a boca do vazio – por enquanto fechada – a mosca aflita...
o abdómen mole, a horrível sensação
de decomposição a frio, os olhos dúbios
perdidos no vapor,
a inquietação das asas que a pouco e pouco
vão perdendo cinética e sucumbem à moleza
da humidade.
a mão mergulha verticalmente e ao curvar,
provoca um tsunami que aproxima a mosca
à margem.
ela desperta esperançada, esfrega as patas e
prepara-se para escalar a lisa parede branca...
mas o desespero calcário aliado à força já diminuta,
impedem-na de escalar o obstáculo escorregadio.
sete minutos, sete horas – as asas encharcadas,
a vida por um fio.
entra em cena, de novo, a mão: a maca da salvação.
repousa agora a mosca em chão firme, num dos azulejos
vermelhos...
à medida que se enxuga desenfreia as articulações,
olhando aliviada a janela aberta. um pé...
mosca enfim morta – já se pode tomar banho.
 
 
 
 
[subsistência]

almas há que padecem de diarreia...
assim nos alimentamos.
errantes grânulos suspensos, os restos de outrém
tão nossos.
dancemos submersos no tanque... palavras abafadas
na erupção de bolhas de dióxido de carbono,
enquanto se faz a digestão do plâncton áureo
amealhado pelo filtro de roxa fibra em alto nível de
irritabilidade.
brilham as pérolas de saliva, lá longe
onde vive o sonho em torno dos olhos mortos
da catedral.
os livros abandonam as bibliotecas, cospem o mofo amargo
dos pulmões de celulose...
passeiam cegos pelas antigas ruas sob a ditadura do dicionário
dos pecados.
 
 
 
 
[a tempestade]

o palco manchado de talco, esperma em pó de fantasmas.
mandíbulas gigantes secamente arroxeadas
exasperam palpitando
como se morrendo à deriva – pesarosa boca sobrelotada
de relâmpagos com cores psicadélicas sortidas.
«eu nasci nas geladas montanhas, onde as árvores andam
sempre prenhas e os animais dançam todos juntos
à meia-noite
durante cinco minutos na clareira azul,
doce calvície esponjosa do globo.»
trabalham os dentes atormentando
a LÍNGUA-CARAVELA; exalta-se
a SALIVA-MAR enchente;
reactivados pela mastigação os relâmpagos propagam-se
a estalejar
e condensam-se numa rendilhada placenta luminosa,
formando um esterno cárneo no palato.
a tempestade de halogéneos singra em orgia
com piruetas e cambalhotas.
 
 
 
 
[o papa-letras]

impressões sobre o papa-letras, espécie em risco de extinção:
INVERTEBRADO
dissecação não necessária, perigo de contágio indutor de
mutação genética;
TROMBA-ASPIRADOR
nutre-se de ditongos, frases e até textos inteiros,
vomita a última refeição quando importunado e
engasga-se com excertos textuais
por causa das espinhas axiomáticas e gorduras semânticas
– estranho bibliófago;
VENTOSAS
NAS EXTREMIDADES DOS DEDOS
prende-se facilmente às páginas,
gesticula imponente como técnica de defesa.
últimas impressões:
i. perfuma-se com o mijo da filosofia;
ii. ataca com setas verbais envenenadas;
iii. asmático quando exposto à gíria.
 
 
 
 
[era dos clones]

venho de ver os órgãos duplicados das vacas na era do plástico
consumível... ainda latejam.
brancas árvores medicadas servem de suporte aos clones
que se enxugam,
trabalhando as unhas contra o prurido ocasionado por crostas
caramelizadas pelo líquido amniótico.
sei-me no ecrã a substituir o ventre da água carmim.
ainda se ouve o choro do míssil nas vísceras
das casas.
morreram as pombas na praça sentimental da cidade
– avião cerebral,
vista panorâmica: quotidiano longínquo montado
a partir de ossos esculpidos com um estilhaço de vidro
parido pelo ânus.
a náusea, vício dos vícios, pão ázimo de cada dia,
rodopio cíclico instintivo, o zumbido da retórica
deveras característico – gritam os automóveis
estrada fora.
viaja o símio refastelado na câmara de ressonância.
desunham-se os macacos
à espera.
 
 
 
 
[o beijo da febre]

rufos de tambores nas entranhas.
feira dos calafrios – a folha de zinco vibra, geme...
o fantovelocípede ensaia a pose das tormentas.
desidratado sofre o humano-tâmara-d’ouro,
imobilizado pelo caruncho da deserção
afectiva.
visco ósseo a correr doido
na veia,
graciosa subida tricotando o mudo som das vísceras.
e depois desce o ser brumoso em contínua apneia,
suor axadrezado coroando o sangue ausente
no momento desflorado
a pique – a invasão das circunvoluções do cérebro
em hiper-desenvolvimento de expansão
vértebra a vértebra,
até formar o casulo do egotismo.
sanguíneos pássaros esbranquiçados picotam a
cortina esverdeada do nojo claustrofóbico da imagem
trabalhada em plástico.
no dia seguinte desabrocham os lábios
[flores de pus]
e todos os campos férteis
da pele.
 
 
 
 
[tardiamente]
 
tarde saberás que o vento emprenha e amachuca;
a mudez consome o espanto, reduz-se a
fermento.
não dás conta, és estaca muscular girando irregular,
jorrando indefesa.
os vendilhões ressonam nas tuas células... tu eunuco,
macadamizado ao passar o desfile dos dragões degenerados
vestidos de luto.
mede a temperatura do soro luminoso com os dedos; quando
conseguires fintar os espigões da auto-estrada
vendo as costas do avesso, tapa os olhos e espera...
alguém cairá!
tão próprio o pensar dos mortos friamente espraiado àquele
que tosse... e este guarda os ovos de tal melindrosa casca
com o muco de paladar deveras intenso que reduz
o faiscar das papilas
a um desalinhamento geral dos lençóis transparentes,
periféricos aos músculos rasos, secretos constituintes dos
maxilares róseos,
brotando contíguos a todas as regiões do corpo.
assinala o lodo iludindo a pulsação...
tarde triunfarás para além da pele,
e nunca o saberás.
 
 
 
 
[auto da cobrição dos faunos]

e entrando no bosque onde crescem os falos
luminosos,
arrisca-se a não se perceber a metafísica da própria luz que
envolve o sexo, os sexos.
o frenesim dos faunos florescidos pelos gestos, ao
colher a
pérola de orvalho em cada falo curvado,
com radiação rubra propagada em direcção ao foco
inatingível.
o movimento da prosternação imaculada como festejo da
agnosia – estranha agonia a banhar a
solidão entrecortada das vísceras.
e entrando no bosque onde o pólen explode, explicando a
primavera das trevas a encenar repetidamente em cada caverna
de carne,
renasce a fome dos úteros cronometrados.
desejar a luz? hesitar em tocá-la?
fugir num espaço estrito entre colunas de fotões?
a cópula fazendo uso do corno da amargura...
dissipa-se a energia no espelho tridimensional e os faunos
amam-se até ao limite,
até lhes surgirem húmus entre os dedos.
 
 
 
 
[poemorragia]
 
ancoro estrebuchando com asma assintomática...
vivo nas arestas do desejo corpóreo, procuro o discreto
sulco de prata
na pele
do pescoço feminino,
a minúscula nascente do suor perfumado que quando bebido
eleva todos os sentidos.
delineio no busto da noite as pétalas metálicas
vibráteis
as escamas da branca alma do réptil
com um inextinguível cometa ao invés da cauda vulgar.
sussuram-me criaturas mágicas sem rosto que habitam o vale
das glândulas embruxadas...
contam-me peripécias mirabolantes em contraponto
dão-me a conhecer o itinerário da rosa magoada.
peregrino do corpo no corpo, beijo as flores
de sais...
lábios do ócio a implodirem no reverso do relógio enferrujado
que envelhece incrustado no pináculo biológico...
sangro mordendo oxigénio
encurralado
entre os muros de carne.
 
 
 
 
[moeda]

vives na cara ou na coroa?
mentes?
o que compras?
sentes?
divides a broa?
esticas a língua?
sabe-te a níquel o alimento?
donde sobrevém esse bebedouro que te envenena
o pensamento?
qual rico,
és besouro...
reluzes sorrindo teu escudo; mas pra que espada?
vale a pena protegeres o couro?
trinta moedas,
não vales nada!
 
 
 
 
[os expatriados]

aproximas-te tensa, com o vestido a arder
lentamente...
tens uma pequena fénix tatuada no peito.
a dor que espelhas nos dedos fragiliza-me os olhos,
rebenta-me o açude da infância num sobressalto.
sei que escondeste as algemas no coração
da montanha maquilhada com
violetas-de-cheiro.
entretanto,
vejo-te azul no espaço adocicado
pela mesma dor que amamentas com remorso.
choram os golfinhos no mar cristalizado que nos aparta.
planas no ar que respiro
mais limpo...
apareces-me transparente, um aquário
onde abundam algas cinzentas e girinos de metal.
declinas o rosto e com
os lábios roxos
arrancas-me os músculos do outono mágico que
chama
«mãe»
à chuva.
socorre-me destas águas corrosivas...
ajuda-me a construir uma ponte de ossos perfumados.
quero beber o vapor dos teus seios em soluço,
vendar-te os olhos celulares da pele dos teus dedos
ainda a contorcerem-se de dor...
ser cúmplice do assassinato dos habitantes de tal pranto,
colorir o novo tempo do aquário, ver
florir
a água.
somos estrangeiros no país
do amor.
 
 
 
 
[autópsia]

entregaram a carta às hienas e
elas brincaram... cheiraram-lhes a tinta e depois
de bocarra em bocarra arrancaram-lhe a vida,
rasgaram o sentimento humano e espalharam
os fragmentos, parágrafos interrompidos
pela savana fora, soltando gargalhadas cínicas.
«... preciso de te ouvir respirar para controlar a minha
pulsação...» – um elefante pisou.
«... o pão sabe-me ao teu silêncio, o vinho à morte,
a água à esperança de tragar de novo a tua
saliva...» – na boca dum antílope.
«... sempre que entro em casa e bato a porta, tenho a sensação
de ouvir a tua voz.
abro-a de novo...» – sobre as fezes duma zebra.
«... eternamente tua...» ­– em movimento helicoidal, rumo ao
céu: e ter na mente...
 
 
 
 
[condiCão]

sopra só o doido na vala de aparato escabroso,
para onde são atirados os cães mortos pelo frio...
maneja o fole dos milhentos efeitos
de surdina.
sopra a razão este doido
a dois perdido;
faz tempo que o clã se desagregou – pandeiretas
por toda a parte.
rafeiro imponente pois impotente se manifesta,
porém criativo mas demarcado
pela banda electromagnética... fareja a rua aos ziguezagues.
digno de
desvanecer
este sopro...
e calar-se de uma vez por todas dentro da caixa
de argamassa esbranquiçada,
inumada na multidão de vírus que anseiam
linfa calcária e enxofre ácido
ainda no curso desajeitado das vénulas arroxeadas.
sopra doido o rafeiro errante...
os pulmões são a sua casa e o mundo a sua sanita.
 
 
 
 
[a casa do diabo]

roda-viva nos subúrbios da cama
em cena:
como maestro a cavalgar no abdómen da partitura,
sorri o diabo de três
narinas...
os malmequeres tingiram os lençóis, é
manhã...
sai sorrateiro cheirando o vinho queimado,
ouvindo os pássaros a engolirem
o enjoo do sol
que ensonado reafirma a muralha do verão.
desfila o grão de pólen, gira espinhoso e sangra no último
pesadelo do portador das chagas.
três gerações de carneiros selvagens,
enigma triangular inchando no mudo monólogo
da refeição nocturna.
curvilínea corte... deslizar por entre os poros;
amar as vestes por beijarem o corpo
contornando as estrelas;
convocar a poeira dos ossos para alimentar a canção nascida
do desespero dum grito diurno
que coroa o heroísmo crucificando o coração azul da vila
taciturna... queimar o vinho
já negro,
pois a cólera do mal a parir reconforta os amantes
e destrói as térmites que pouco a pouco esburacam
as estrelas.
a rampa de pele a subir,
tentando adivinhar o peso dos insectos que desfolham as
páginas do vapor mordente
de água quente, água solar
para beber enquanto se remói a angústia lunar...
regressa velho o mestre assexuado,
expira de arrogância e o coração azul ilumina
as mãos calejadas
que encurralam o anémico grão de pólen sagrado.
amar o que de bom se contorce perdendo o tom;
queimar uma vez mais a partitura de pele...
dura amnésia ao beber na nascente que une os corpos
– a casa do diabo é a lagoa
onde morrem as estrelas.
 
 
 
 
[a dança do pó]

desta vez comerás a erva amarga do deserto e beberás
areia
em vez de água.
segue o povo que de novo suga a vida do ovo...
esfomeado povo que liberta a gigantesca aranha:
mãos sobre mãos entre mãos soltas mãos balançantes
– a taça de lenho róseo que recebe a incandescente bolsa de
lágrimas em geleia.
como abrir os ouvidos de tal caótica assembleia de guizos em
cega festa?
explicar a placenta bifurcada do exílio?
as vértebras do discurso encontram-se dispersas no vácuo
aquoso
da infância mal dormida... tarde,
ter como escasso o tempo de amaciar as palavras móveis
sob a nebulosa de cálcio faiscante.
este é o dia,
a mentira grande, o sábado...
idade de comer sabão
e desenhar ausências – sombras tatuadas no pátio.
corrói-te
à tarde – ler o sorriso do velho enjaulado,
preso aos seus rebentos de carne.
 
 
 
 
[já cá o chá do chão]

chá de laranja: brincar às fogueiras...
gripe clandestina espelhada na estrada molhada.
hipótese fendida nos lábios da chávena, os brônquios
dinamitados.
trânsito lento de micróbios no fumo, tédio bebido na
companhia dos espectros caramelizados.
expectoração – o linho materno manchado,
esterno comburente, centelha central do peito vulcanizado.
golo a golo...
o fundo orgânico
resguardado aqui da chuva,
na corda bamba do amarelo ocre – antevisão do regresso ao
morder vocal;
blocos de ar azul flutuando ainda no gás.
incêndio às cinco – a conta, por favor.
 
 
 
 
[álbum]

de sorte mentindo se arranca a folhagem do favo.
mel iluminado no úbere onde coágulos de leite
suprimem a oralidade do herói que se anula
de fotografia em fotografia.
engasgo trôpego... uma bala de osso deflagra no esófago
de vez em vez metálico: túnel
onde passeia pesado o músculo inerte
do falsificador – fala e fica, fala sempre ficando, falsificando a
dor.
assim é escutada a sequência volátil das pegadas
transcritas a seco,
seguindo com os olhos tresloucados
a viatura que se vê derretida
por ondas de sucção musical em escala endiabrada.
assim sangrando, quedo e ileso;
o menino feminino no balouço farpado.
 
 
 
 
[ir mãos]

mãos incansáveis mãos...
mãos mesmo mãos.
ó mãos cor-de-rosa
dai testemunhos do delírio,
pois daí partirão almas fogosas a corromperem-se silenciosas.
um lírio plantado no queixo... ajudas?
a Judas não
não deixo mãos soltas por indomável comichão;
triste canção da chuva negra
táctil regra – a ira
a irem mãos...
irmãos?
ó mãos de Caim
podre jasmim, falsa confissão
– jamais partiria e as mãos voando longe
do coração.
por grata bizarria não deixo mãos soltas
não deixo não.
 
 
 
 
[saída]

saída – linearmente a semente desabrocha
sempre corroendo,
tornando-se cúmplice da hera de mista maldade.
«eis a duradoura geração da altiva corola de cor caminhante»
– serve-se frio o clarão do que murcha,
honra-se o túnel de conjugação entre as bocas. livres soluços
celebram a celulose atípica...
espiral turbulenta: o corredor giratório [ambiente com gás
a dilatar todas
as formas]
morada do anjo de metal que benze o artefacto
ao se dar conta do quão perto do vértice estão os cavalos
das trevas
que galopam o estame – a lágrima virginal pende
esperando o afago do sol.
e no ângulo obtuso grãos de pólen
indicam a saída.