[Edição de Autor, 2020]
quando a língua dorme no amor que salga a pele
confundindo aromas orientais, chás e perfumes
sonhando a adrenalina de momentos
em que trabalha feroz na boca, centriptamente perfurante
rumo a um arquipélago desconhecido
onde fauna e flora são um só movimento
e o mar apenas um lençol
quando no amor o sal incendeia a língua das palavras
e navegando ela inteira no espírito e no corpo
enumerando um a um os espigos do sol em páginas
como se lesse em sangue e saliva
do livro ao corpo para dentro de outro corpo novo
medindo a carne nesse arquipélago de descontentamento
chama desvairada ardendo o amor no branco da cama
enviei um braço em chama na vez do corpo todo
um braço florindo de fogo a mão trémula
um pássaro a aprender a voar no azul fugidio
― agora o braço é um animal sem nome
perdeu-se no suor das flores que perfumam a pele
conhecer o corpo é perdê-lo intermitentemente
sentindo-o na perda por esquecimento de posse
conhecer o corpo é enviar outro braço sabendo o outro
já perdido entre outras perdas gravitacionais
que uso fazer da árvore do sexo que se apresenta?
hesitar na performance ou ler nas raízes?
nem sempre oureja o mapa nas mãos, os dedos aquosos
divagam na intenção
uma geografia ascende por um segundo
e imediatamente apaga-se nas fibrilações flébeis do dia
― amamentar a luz passa a ser uma prioridade
nunca se sabe quando aparecerão os fantasmas do interlúdio
ciciar é sempre uma manhã espessa de nevoeiros e teias
as aranhas surpreendem com a sua seda à boca das portas
armadilha periclitante com dor nevrálgica
do olho ao cérebro
a língua prova a ferrugem tímida do dedo
que é sangue e poesia, alguma coisa escondida ou impressão
o motor do mundo | a ilusão : o sabor enganado das coisas
rendilhando o manto tenebroso da perfídia
a ferrugem antiga lembra o barro adstringente duma vida
vem o mar à boca confessá-lo
porque a saliva alumia o palato
tanta água em redemoinho por dentro, salpicos ácidos
nas raízes das membranas sobre os acontecimentos
, mas o estômago estraga por vezes a energia íntima
do fogo
tem a deslocação inusitada duma vírgula
destoa imagem a imagem a ferocidade da fervura lírica
pode o estômago realmente ser uma nau entalada
no corpo ― um caroço incómodo de literatura
as linhas cárneas cosem-se inadvertidamente
como se uma silhueta de vésperas
indicasse a radiação exacta da entropia existencial
a configurar-se corpo em expansão rotacional dos sentidos
isto tudo com música que é o líquido amniótico residual
parecendo-se às vezes com sangue
entre cores de vivo martírio ou extermínio
e até mesmo entre cores de vinho roxo entre sonhos
a música tentacular que refreia inteligência ao ouvido
. o corpo imóvel esperando a sua pedra de toque
gota parada por pensamento ―
no momento da inércia espectral
desígnios prosperam mudos e silentes, há trabalho
nos músculos
a falha declara uma escuridão introspectiva
mas uma trovoada interior procura relâmpago a relâmpago
a cirúrgica lanterna de dissolução dos mundos que roubam
contornos ontológicos ao corpo
uma espécie de ampola contra o cataclismo
de julgar propriedades minerais a duplos
rindo e comungando
aspectos de sala no lúmen orgânico do espírito ― a medida
do que se ama como carbono de incêndio
agradecendo osso a osso a cabana no lago
sobrando o luar
e um cofre onde guardar o coração
sobrando o olhar que liquidifica as margens
as lágrimas rondando a suspeita sapiência de ocasião
osso a osso um mausoléu de espanto
linhas e linhas sublinhadas nas cartas arremessadas
ao chão ―
prece de ave no canto enviesado de naturezas
sobre o plano
entre a natureza cáustica e primeva sobre os actos
e todos os cânticos de sobrevivência acima da subserviência
condão negro da desconfiança no glóbulo
sempre com dúbia energia faiscante
de contorno em contorno mistificando a matriz ―
mente o metal perto da raiz [rizoma cárneo do pensamento]
e a mente tresandando à inevitabilidade da carne tremente
gaguejando o metal pelas mãos, reluzindo contrastes
espelho do eremita renegado diante do prado verdejante
ou asco verde deposto lado a lado com o corpo em sufrágio
, o regresso faz-se pelo lençol em perfume
de temperar a pele com a angústia das gaivotas
passando por uma tempestade irresoluta de cores mal cosidas
o tampo da mesa sempre cheio de objectos
onde confundir mãos entre as mãos
num enlace desprotegido dos amantes
e leia-se «suor» no que se lembra de perfume mal-entendido
coisa funda de nós apertados como última conversa de lenços
. o silêncio entre estilhaços
revigorando ensaios de luta com o cristal interior
cápsula entre abóbadas de carne
com todo o olvido estremunhado da voz legítima
entre xailes de núpcias
redemoinhando sozinha no grande salão da intimidade
o feixe de som como feixe de energia a animar de supetão
toda a alegoria animalesca dos membros
feixe como peixe, luxúria tempestiva ou pestífera
no ajuizado filão do termo enquanto tesão humoresco
colocado ante o espectro defronte outros espectros
nenhum rosto ― pestilência criativa na destruição de mitos
um a um como cada qual, como matrioska dum sopro
por silente e silencioso corpo
esgravatando emoções nas entrelinhas
furando a própria mão que as esgravata
remoendo coração a coração o sangue às golfadas nas páginas
como tinta mordida no azul dos lábios
[promessa necrosada do beijar à pressa] enigma
de pequenas pedras preciosas, grânulos gangrenados
para um mapa estelar repentino
por alguns segundos róseo na pele, mas pouco mais ―
um movimento curvo como a vida
entre deslizes da minúcia de olhar em olhar
o corpo na curvatura sanguínea do mundo
estância entre estâncias | apogeu de entrada
vívido óleo de prostração em silêncio
o pouco que poderá haver de perene, o susto brusco
dum beijo ― perfis sucedâneos de argila branca
um esferográfica cravada na barriga latejante
escrevendo por dentro a dor sexual do vazio
sujemos a coragem da possibilidade de um ser todos
divisa extrema de comparação na incomunidade
festa galante de centauros e minotauros
parábola míope ou fábula autista da idade média
com um jarro de gladíolos ao centro
e marcas fundas no soalho de um revólver cansado
entre rosas vermelhas secas
ouvi o lodo pelos vermes que o frequentam
ouvi falar do que me contam os espasmos luzentes
dos pesadelos, assim a carne contada ou confessa
na dobra do pano sujo levado à boca
assim a narrativa dobrada e redobrada como segredo
entre aromas duma pele já esquecida
segredo cheio entre os resíduos de terra
na memória
a dor martela com a frieza dum rio traído
fecham-se as comportas, quezílias e outros mantos
é a hora dos minerais trabalharem no surro da noite
fina tessitura metálica da alma mesclada de sexo
ou véu musical e aquático a amadornar crisálidas cristalizadas
âmbar que me vai embriagando com teoria ideológica
mesmo que alquimicamente não acreditando
uma questão de cerne duro que no caminho do sono
se pensa maleável
a indústria onírica encarregar-se-á das ilusões
estigmas pelo vínculo biográfico, temendo a descontinuidade
mas até lá há que amar pequenos pormenores viscerais
coleccionar lubricamente feridas sexuais
e desejar reconhecê-las pelo tacto nas noites esdrúxulas ―
o cheiro a erva-príncipe entre a madressilva
o suco neuronal em cada tendão no esforço das horas
de chamar a si
redutos inconfessáveis da interpessoalidade indigesta
paisagem demasiado mortal mas inclitamente real
de condensar o ónus humano numa gota
gota pontiaguda quase lágrima
reduto reduzido dum âmago atroz na mínima ideia
de jugo transversal
― tremendo a escrita vê-se mais além
defeitos arquitecturais vindos da inconstância das vísceras
: quando sair da bolha humana? em que insterstício fugaz
cantar a fuga num rosário de uvas doces confuso no sexo?
que candeia húmida aperfilhar dentro do corpo
como jangada atrapalhada longe do ancoradouro?
o arcabouço respiratório traz uma arca de medos
estalidos | ruídos | gemidos de foz imperceptível
ou ocultos o suficiente para ignorar a origem
enquadrando sensitivamente o impasse
um lado outro lado dentro e fora da pele ―
enquanto búzio de sopro o corpo experimenta a poesia
faz transcorrê-la em longínquas vénulas e arteríolas
onde a dor e o medo se mesclam alquimicamente
formando uma pedra octogonal de veneno azul
. equilíbrio de véus sobre a têmpora
a assombração movimenta-se por espasmos
queda de sílabas na língua
e a saliva grossa arde de nadas químicos
a forjar laços mentirosos para um exílio acre
o gume sério dos desgostos amolenta as membranas
tão ensimesmadas na sua anatomia
grita-se de fora o de dentro
rasgando o raio centrífugo em todo o seu interior de luz
caminho de fissuras róseas no roxo da idade
oxidação e erosão | oxigénio e tempo
enigmática boca do universo operando na sombra
― a árvore do sexo marulha num verde tenso
[reacção de inverso teor a quente e diverso]
uma estrada de glândulas assexuadas
quase transcendentais por aproximamento abstracto
com a volúpia e luxúria dum cérebro a sofrer
de imersas invasões púrpuras do pensamento
, um fole que de ar sobrevive
ainda mais do que água estelar a árvore do sexo
ou então uma nave de células comezinhas
que de orquestras extrai energia ao tímpano
na acção perdulária do longínquo infinito
cavernosas camadas do som móbil
interno ouvido do tempo em gomos
de morder mais e mais ― o silêncio vira noz cárnea
e a substância roxa do tempo readquire sentidos
é de quem fica na foz à espera dos sinais
sinais de fruto gomoso a trazer para dentro
sinais de ventre obscuro para remorder pensamentos
animal translúcido de animalidade intacta
indagando vinhetas doentes do quotidiano
esfocinhando inquietudes fora do zénite para uma
calendarização sadomasoquista da sua aparente humanidade
cresce solfejo azul
[doloroso dentro marinho]
cresce no tenso nódulo de pútridas linhas
magoando o ar dos vislumbrados
erradamente acesos no chão ― as malhas prendem
ninguém acorda
assim apodrecem as linhas da rede
quase um choro cristalino na cova do sovaco húmido
como caverna de rocha perfumada
afinal ver é lamber a pedra de deus
ficar em silêncio para dentro dos olhos
os nós dos dedos como cascalho que se deseja nos trilhos
dúvida semeada em visões do necrotério, os nós dos dedos
galgando impossibilidades aos livros danificados
por material onírico de sombra ácida
a pedra lívida tem as faces com que a água engana os olhos
― um jogo de labirintos acesos na contraescrita
, a pedra caiu no poço fundo da cabeça
nada sabendo de ricochetes orgânicos
sabe-se pedra quando tocada
e sabe apenas para si
enquanto pedra do real
. o cheiro podre dum não move florestas
a solidão incorpora densos males da cólera
uma conversa ensimesmada na auto-injúria
, o que de quente se pensa frio e se esquece
sendo mais perigoso entender o toque
do que o brilho duma faca
os carreiros da dissolução engolem todos os subterfúgios
da sociedade; nem o pó, nem espinal medula ou esqueleto
poderão dar testemunho dalguma redenção
fuga para o nevoeiro de sal que é o nome
e agiganta-se como total dispersão
periclitantemente pontuada se sortilégio cru no parapeito
onde a falácia do saber arredonda mortos vocábulos
na pele das regiões mais remotas do corpo
regiões invisíveis de dupla câmara onde azeda
o leite vítreo da sexualidade ingénua
ferve a exigência de ser sobre o pano vermelho ―
teria medo de esvaziar lavas ao coração
se coubesse eu mesmo na dormência com que me quererei
no derradeiro sono?
intento de bissectrizes no corpo
vivência enquanto enquadramento de quadraturas
intersectadas : vínculo de arestas corporais abertas a sentidos
elevação horizontal perpendicular à prostração tridimensional
vivência respirante na sequência de cruzamentos físicos
para uma fisiologia da memória sem paralelo com o vitríolo
líquido alquímico da verdade | medo em estado puro
o fluxo do mármore cárneo interpela o ritmo
do achar-perdendo ― o bicho-da-seda morde a verdade
a sua folha de sedas perante o mundo
morde a sua condição de astro rasteiro
humilde respigador atento à morte
nu | na minha razão de morrer a cada momento
em unidade solitária contra a humidade dos afectos
nu e legitimamente vulnerável a espectros
esperando a cavalgada turbulenta da confrontação ontológica
ponho uma mão no sabre afiado pela língua
[outra no vazio rotacional da espera]
atendo fúrias desavindas da entropia
não procuro nada | não denuncio nada
um nenúfar cardíaco atende-me na espora da noite
, quero embriagar-me de pólen
do zumbido trôpego das abelhas
quero fechar-me num casulo de essências, óleos e perfumes
apesar do manto do coração arrefecido
nalguma reentrância maligna
do professo gelo da emboscada
no contacto impactante da vulnerabilidade humana
«bebe este meu medo
bebe-o, será o teu também, o de ninguém»
o frio acende os órgãos, depressa se aprende
ponto a ponto
a tacto de grito no corte ― quando se ouve a esfinge
: o eco do silêncio
, como se a surdez ensinasse o suficiente sobre o universo
de atear o texto às margens
ou tremendo vitalmente a possibilidade de coser
esse mesmo texto
no corpo que ainda olha as estrelas
a ideia romântica não nos prepara para o esgoto
covil do mundo
propriamente dito
a surdez e a mudez raiam caminhos em frente
mastigam paredes à espiral do devir
e os desenhos enrodilham de incenso o espírito, concedem
um lençol de arabescos para a viagem do eterno regresso
tossem pedras fervilhantes na agrosidade da grafite
[poderio de boca no halo do infortúnio edificador]
os desenhos revelam rostos
― verdades ensaiadas em cada um ―
mas não revelam na totalidade o nunca em terra decalcado
cada qual surge intermitente em sua envergonhada vez
como rosto uníssono e irrepetível | impalpável
nunca nenhuma linha de grafite entronca noutra
nunca em alguma estância uma linha remata o cerco
comprometendo em liberdade
a fixação dum esquisso da real origem
perpassando a linha do mar relido nos lábios
o sal resvala na brancura das imagens
e é de recolocar frutos de ânsia
um a um ao redor da cama de abandonos diários
. de tão só afirmar-me
de mão magnética ao peito a funcionar anemicamente
um estuário febril de órgãos
todos autonomamente respirantes
ânsia ― perpetuante inconstância constante
fibrilações do medo
electrocardiograma trágico-lírico de diademas ― vitríolo
o que é a ânsia se não um fruto do coração?
desenhem-se novas auroras para o paralelepípedo do sonho
pois machucam-se no ar baixo os seres que cantam a leitura
tantas as feridas em voo como pássaros
vísceras de livros na prosaica linha de mosaicos cardíacos
o mármore brilha de dor
auscultando febres do basalto interior
qualquer coisa de imprecação doentia de rocha exposta
o que ver de sólido no sangramento sexual das imagens?
escolhem-se as visões? que colunas arredar do mênstruo?
a chuva de sal magoa pensamentos incógnitos
alojados na espinal do sono, o que dúbio corre nas veias
encontra uma corola complicada de nojo fendido
sou na espera uma concha de males a curar
[talvez em frases lentas do corpo que ainda não sei ler]
de tão só afirmar-me
de tecer o fio salino
como choro de lágrimas-de-cheiro pontiagudas
de chorar como quem morde vaidades metastizadas
― falaram do deserto e da rosa-de-dor
porém não sabem do que falam
nada de tão visível mas indizível como um estendal de dores
dores caladas como flores decepadas
assim um embaciado pulmão de vidro, escravo do coração
de nomear as assombrações
de encalacrar vozes em sílabas rente à carne
um fole sedento de canções
fogueira de osso luzente para o choro de um índio
e na volta a flor decepada na origem, no estigma
espiral de dentro vinda como um véu tatuado de vento
sopro confundido com a memória de todas as cores
contidas no branco quebrado da flor que dança na aragem
choro grandiloquente quase montanha adivinhada
entre o orvalho mágico da pequena vegetação vista da janela
, brilha a palavra como pequenina poça de sangue
a acender o que há de permeio no voo dum pássaro
fugindo desvairado pela cortina do poema
: e o que revela esse pássaro de solidão?
sozinho subtraindo-se ao céu em cada movimento
que planície inventada na racional e lesta crueldade
o verá cair e morrer?
e quem fará estremecer as cores desse céu?
que o caminho faz-se sozinho em espiral violenta neste corpo
― fogo preso, lava entorpecida de afectos
muito cansada a colher que leva o medo à boca
porque matar a fome espiritual alimenta a morte física
nos meandros da floresta mitológica e dos trópicos da alma
surgem um a um os seres luminosos
fábulas escritas por dentro baixinho nos flancos dolorosos
do corpo
um a um os seres acesos como barcos nos lagos de vesículas
um mundo-matrioska de campânulas sobrepostas
rasgo inconsciente para uma histeria congénita da sociedade
, o que se apresenta planta também é mineral
ínfimo profundo do silabar visceral
rodopio de língua em diálogos
vestes rasgadas no plano da voz psíquica
guturalidade manchada de pesadelos
silêncio forçado na agudeza do estigma florido de pulsões
. compreender é muito além ainda
só escutando a conversa do icebergue com as raízes cárneas
qualquer coisa entre o frio-corrente e o frio-sangrante
células à parte o choro trémulo dum rio
; e passa a energia escrevente pelo corpo pontilhado
no pensamento
nem química ou delírios da física o explicam
há uma dormência do real na magia da ingenuidade
um cubo engloba outro cubo
englobando cada um parcelas intangíveis do humano
tremendo cubo espectral só ideia
porque permanece sem forma e inominável
porque exerce-se como presença de água mutável
brincando debaixo da língua ― do arrojo sanguíneo
se estruturam na arte as estátuas vitamínicas do devir
repulsando a náusea por violenta incorporação na carne
histeria como forma de solidão | casa óssea de desterro
um teatro orgânico de células fustigadas pelo silêncio
a solidão como casa óssea do desterro
corpo ― o experimento torna-se alimento
víveres às vísceras, motor de ânimo para a morte
para a morte sedenta em todas as esculcas
trabalho dos espinhos dedo a dedo ao redor
de dor pleno na fricção se distribui irrigando ideias
como se flor de cacto abandonada no estio
vento nenhum acende a razão do fruto ―
sangue vegetal na cama da língua
violáceo
o sangue pasmado dum veneno adormecido
sangue de figos do cacto medido na árida angústia do baldio
a dor fina dum dente azuláceo na noite
reabre orifícios espumosos onde gemidos florirão
na escuridão
dor fina como trabalho de estrutura sonora
a apresentar o oásis escuro dos nómadas
morrer em luz inconclusa
[ideia a guardar como suprema transumância]
morte-objecto brilhante entre os dedos
em cada sustenido de respiração na carne
morrer em luz escreve-se no momento vivo
crepitante fio da navalha cheio de seiva inoxidável
cortante nos versos do diafragma
, e para isso os epidídimos trabalham na sombra da luz
brandem o elogio ateado por beijos de outra esfera
cegos constroem a morte na ilusão da permanência
e sobe uma perna em arco despejando silêncio na cama
a água do arquipélago | chuva de nomes imperceptíveis
dunas geradas pelo movimento cru
linhas curvas
plenas não de ar nem de areia
mas de espasmos, substância hormonal quase nódulo
inflamando os glúteos e os seios
no namoro louco de ombros e espáduas
rumo à amnésia que goza o tempo sexual
tempo cravado em cada poro por suor e desvio
num timbre de sedução ― incidência ofuscante
de gestos sobre gestos | corpo sobre corpo
clonando a mímica química dos astros
com a envolvência de processos de rocha metamórfica
navegação pelo mármore róseo vislumbrado como mapa
pergaminho tatuado nos peitos dos amantes em migração
. com a purga o sol abre-se no escuro
remoem-se frutos secos
avelãs e amêndoas de amor fátuo
, a saliva como sumo escuro
um veneno a sondar traições
olhar o outro em si próprio
move-se um fundo opala
lúbrico lodo de amálgamas
de cravar imagens em pólen angelical
o desenho pensado | a cabeça do anjo
véspera colossal de mortes interiores
que espectro me escreve enquanto deitado me comovo
com solidões do implacável esquecimento ontológico?
fundo vítreo marinho
sem saber de peixes nalgum oceano por nomear
muitos estilhaços de vidro a varrer para debaixo da alma
o confronto de marés da alteridade em mim
terra ou carne indecifrável com a temperatura
de uma sensibilidade sem nome
eu-confronto como construtor do ababelado corpo
rumo ao conforto dum repouso róseo do rosto
adaga banhada em palavras
seguindo o trilho do perfume da serpente cornuda
balde após balde dentro da cabeça : requestionar
o paradigma entre o fosso e o poço
corpo e espírito
caminho de brasas entre a estrada norte e a estrada sul
o medo como negro fuso de rosas refulgentes
grinaldas de cavalos cingidos pelas valquírias
o medo como boca vulcânica entre a morte e o sexo ―
cavalgada de sangue sobre o glaciar da montanha
água de lótus e petróleo
intrincado incenso de ausência consubstanciada
lembrança de antigos pólenes acesos ainda no cemitério
; ideia de cama em tudo de plano e plena no pensamento
cemitério vivo como foz irreal bruscamente metálica
como quelícera de insecto
e o cheiro procedendo ao convívio doentio da prosperidade
o quinhão de sol nas estepes maldosas do trabalho
permanência desassossegada à procura dum roteiro estelar
um estranho vento convoca-me em páginas suadas
vento fictício de amoras lentas
sobre a púrpura dum rio d’alcova
ardendo os carvalhos em mobília fumegante
gestos perdidos no paladar das frases omissas
e o sopro confunde-se com a sombra
murmúrio de pascoaes ― o ventre do que se dirá
em figos numa figueira retorcida vinda do passado
açúcar tossido em cada verso perverso dum legado
dobram-se folhas no olhar curvo do poeta
ferido de ausências em cada página em branco
à espera de arder
onde o outro rosto de sal desamparado?
quererá beber da minha boca a saliva ácida
do meu abandono?
que os frutos estacam e apodrecem paralelos ao horizonte
― fata morgana de miríades virais do silêncio
os deuses criaram o esquecimento para cimentar o corpo
objecto dual entre todas as outras mortas coisas
: o princípio da ampola rege-se pela sucessão amnésica
ascender profuso do poema tacteador descendendo
a condição humana da falha e do proveito
asfódelos roxos na exaustão entre hormonas e razão
o princípio da ampola de eros rege-se pelo equilíbrio no uso
da poalha de sol
fustigando lentamente corações de pássaros
a cristalizarem-se na água dos espelhos
[quartzo hialino fulminante de relâmpagos em textos]
arbitrários papéis cerzidos no sangue renunciando ao
plástico tóxico da influência de maquilhagem pornográfica,
o fazer instituído ― o que dizer da grande fábrica da mentira?
que fazer de concreções do céu e afiadas aragens humanas
num engenho trôpego e deficiente servindo o sistema da
assombrosa morte artificial?
a ampola, um leito escarlate onde a púrpura brinca
onde na areia espectral dos sulcos eros escondeu um rim
e vem agora na quadriga ultravioleta dum raio solar
esquadrinhar vigílias a arcanjos confusos na aurora
do sexo ao amor pouco se fala, talvez quentura da frase
a transformar-se em brasa
em verso ritmado cosendo o tímpano ao punho escrevente
o que me disseram sobre o caramanchão das ninfas
parece errado ―
horizontes traçados em tecidos de fogo surdo
a linhagem não balança na verdade
e o sangue mente continuamente na terra
em profundidade
, assim o automatismo para assegurar uma espécie
que se autodestrói para revelar a sua integridade
como cinza estéril ― anedota catártica dos sexuados
errados no pão e no vinho, vivos enfim
com dúbios propósitos [placebo] com mágoas
o erotismo interfere magicamente na tessitura sensorial
do véu,
dinâmica de êmbolos na ampola | encriptado coito
tensão florida de estímulos em membranas húmidas
e há um plano marsupial situacionista
geografia mental
onde concorrem vectores da mais alta transcendência
um emaranhado interactivo de impressões vívidas
vinhetas linfáticas do quotidiano
a marchetarem irremediavelmente o manto de carne
turbilhão de planícies a contradizer o forro
às vezes súplica indigesta de conhecimentos de vária ordem
diria que se pode engravidar de choro
a esperanças dum retorno frequente à robustez jovem
do passado ― o teatro da infância
mesmo aleijando a tecelagem míope do labor mitocondrial
[exaspero da sede bíblica]
de arrastar existências na arena frágil dum colapso
o teatro das máscaras
esperando a sua total dissolução
arredondar violências exorciza fenómenos de contemplação
o desenho fundo de uma gota de água
que poderia ser orvalho de fruto, saliva ou sémen
o fundo pendente da força voluntária de um gesto
, gesto-ricochete como pedra rasante
num lago de lágrimas-de-cheiro
― a ilusão de justificação de uma vida inteira
entre pressupostos momentos-chave perdidos
que reorientam para uma encenação cega [huis clos]
sobrando o corpo ferido na semiologia
o fuso cromático dos sonhos alude à rosa-de-dor
[pulmão asmático de presença disforme]
poeiras cósmicas reacendem uma aorta distante
que apesar de devoluta ainda canta
o caminho-novo aglutina esmeraldas em rosário
talvez confissão ou
terra negra de enredar dedos
, areia como morte cantada de tantos poetas a caminho
mas nenhum sangue a caber vivo numa canção
: corte despido de imagens
[ponto de fuga ambíguo]
lanho no ofício de enganar o ser esperante na leitura?
a túnica musical da perfídia envenena a oralidade orgânica
aquela que diz
das vísceras | do sentimento carnal
corpóreo
baudelaire e o impasse de álcool cru na sua pira de hesitação
ânforas escuras de amores fechados, unguentos e especiarias
a rondarem o absoluto côncavo de tensão e impropério
sobras dum mel nauseado ainda a brincar de língua em língua
apresentam-se as sombras em cor
como um carrossel ácido
a luxúria no prato aguça a cama e mantém o pasto literário
mostos infindáveis na lisura das estantes em apodrecimento
as sombras como apêndices avulsos de poetas malogrados
como nódoas saídas em livros e opúsculos
pó esboroado
pó explosivo deixado nas unhas de quem folheia a morte
, ou boca para uma saída de sons-dentro em redemoinho
misturando aragem e folhagem
entrando na curvatura sanguínea da redenção última
com rebentos carnudos de sombra aureolar
cada milímetro inaugural do pesadelo uma entrada
ventre azul de lúcifer numa garrafa ou colher rasa
queda vítrea | milímetro a milímetro a despedida
ou erosão da língua pela nudez incauta dos gestos
erosão repetitiva que esculpe a cegueira dos corpos
ondas de cristal de um eu
revolteando a sombra cortante do espelho
leito de tulipas negras a resinar o sexo em perfume
palavras podres ao ouvido
trilhos de infância apagados | cinza hodierna da tarde
ondas que são braços abandonados
sem ancoradouro
e o que ouço parece-me ainda a falta de um anjo
dor lenta de seivas a encravar-me o sangue
carta sussurrante | mágoas iridescentes da árvore arterial
céu a fugir pela fúria do dinheiro menstruado da metrópole
o que ouço na verdade são cirúrgicos estalidos de ossos
coalhando som branco a membranas e cartilagens
como ânsias de anjo sob a mortalha exaurida
poderia ter-me cumprido na gota rósea da bonança
[umbigo da rapariga com labaredas nos olhos]
caminhando na pele acesa dos aromas
invertendo abismos de carácter em arestas do espelho
poderia ter-me medido na boca que contra a minha abrisse
uma ala de estames onde pudesse dormir isento de estigmas
poderia ter-me encontrado
enquanto solidão dentro de outra solidão
― a rapariga com labaredas nos olhos
na linha da neblina óssea dos fogachos vulcânicos
que acontecem no corpo
sou verso-vácuo na insaciedade de horizontes impalpáveis
como a música
reverso do inverso ou avesso da pele no suor da escrita
saiam os rostos do ruído violeta da noite acordada
um a um me verei defraudado na penúria dos ângulos
[rio envidraçado da memória]
e caiam as pétalas enrugadas do jardim magoado no peito
escarnecendo do violoncelo a cronometrar paixão e angústia
grande a fogueira lá fora, deitei fogo a todo o cancioneiro
rumo ao esquecimento
falso calor ― tremo ofegante
rodam rodas de néon e flores de plástico encardidas
em volta do calafrio
girândola perigosa de lírios secos
paixão antiga de incenso venenoso a minar leituras
tremo ofegante com o casulo disjuntado
em fragmentos de sonho
preciso das vozes da floresta
árvores, esquilos, corujas, nascentes e serpentes
preciso da onda de pinho incensada de ingenuidade
subterfúgios mágicos da infância
ardidos os mapas com atalhos afectos à harmonia das esferas
preciso de não precisar de nada
só deste corpo redefinido pelo frio na antecâmara do vitríolo
como entender o vidro da memória sem renunciar ao espelho?
como responder ao universo sem morrer?
sou o verso-vácuo dos rostos anónimos que vagabundeiam
entre as sobras de alma ao crepúsculo
sombras gordas de vestígios passionais que perderam o azul
errante nas areias
errando com os pés um rosto no deserto
estou entre a respiração cavalgante dum saxofone dourado
clamo pela aragem fina de sopros dançantes
no horizonte
acontecerá o enxame dentro do corpo
a crepitar na cabeça
uma distorcida imagem no porão dos subterfúgios musicais
ou o que poderá implicar fisiologicamente
em livro carnal
a súmula como intrincada teia de morte para ninguém ler ―
o búzio nas mãos poderia então ser uma caveira
ou melhor
nunca ter tido nenhum búzio nas mãos
mas sal a apagar-se à minha frente
, que haja um esboroar sulfúrico nas imagens da memória
inevitável esta hipótese-mãe dos apotegmas imediatos que
quebram fúria às pulsões no sangue a manchar continentes
um esboroar íntimo entre as sujidades fulcrais do mundo
construindo o ser-de-asas na visceralidade da permanência
reverso do ar inculcado em ideias à margem do pó estelar
à minha frente sombras de mil búzios anónimos sem dono
e desenham-me estas mãos que sustêm o dia
como fronteira
brilho a ossadas nuas do pensamento feroz
contra a berma
oxigénio às golfadas escavando olheiras nocturnas d’incenso
senhas vitais químicas que esquadrinham atalhos de alma
no lodo da tóxica comiseração | no antro da ácida ilusão
sucedâneas tentativas transumantes do casulo em construção
ensaios de pele : o invólucro enrugado de babilónias ocultas
as mãos crescem como exagero do corpo, crescem aos olhos
da imaginação como babugem óssea de caravelas no nevoeiro
são elas também búzios confundindo-se com caveiras lá longe
aguando em agruras escuras
sobra o casulo na bainha perigosa da luz artificial
quase uma língua maltratada
injustamente disjuntada entre os outros órgãos
e quando a estilha de osso escreve com o sangue da vergonha
o enleio licoroso pende nas palavras esguias do cadafalso
[noção de arbítrio por céu lavado de romantismo]
a carne vertebral dói de vida a rodos na ovalidade da gota
ou lágrima-de-cheiro pontiaguda
tensão entre abismo e paixão
de dedos no linho branco noite após noite
de romance em romance no engano próprio da escrita
hangar turvo de ideias perpassadas a frio
o que resta é branco liso na tez fina de uma diva
sobre os dias, sempre alguma narrativa
com laivos de carne ferida
chacal de olhos ardentes sobre o texto
sobre os meus dias que restam ― as palavras sobram fundas
como alheios seixos brilhantes no leito do rio
alguma narrativa, algum sangue vertido entre olhares
só a erosão devolve falas como ecos pobres da ilusão
ideias como efémeros glóbulos vermelhos de obrigação
não interessa a coerência mas a permanência de uma essência
repentino chacal de olhos ardentes em reflexos nocturnos
― o texto jugular plantado em sombras e janelas
por vezes envergo um último fulgor metálico
vindo do cansaço de xisto
para incendiar réstias de espuma a simular esperança
sacudindo mordaças às pautas que me regem
ainda que numa cegueira entre segmentos ―
eros surge nu numa onda
alheio e isento a panoramas, cenários e programações
quebrou a ampola
o rosto é-me difuso e toda a pele que vejo arde
por dentro dos olhos
soou a minha própria pele | fogo e mar | gelo por escrita
a palma da mão afaga táctil o ventre da maçã de esperma
palma da mão como máscara aglutinadora
rosto que cai como fruto maduro de uma traição
sumo-sangue em brincadeira de bagos de uma romã
despedindo-me do olhar cristalino
despindo-me de tarefas sem significado imediato
sem os sentidos sérios das mucosas e da pele casúlica
a viagem do corpo numa quadriga cadente
enquanto estilete ou estame
surpresa entre os muitos mistérios
entre segredos de seda suada e outros panos
viagem enquanto movimento do corpo situado
num ponto cardeal controverso
hesitando na floração ou dormência das cores inconfessas
o estrangeiro estoico em sua casa
deitado à espera que uma planta lhe irrompa do estômago
mandrágora das fábulas a engolirem uma anónima língua
xilema e floema em conflito com o âmago da alma
havendo um tratado
que violetas parirão uma canção
a sufragar artérias do coração?
, coração aflito entre erecções do infortúnio humano
― teatro atabalhoado da existência?
havendo um tratado
que anjos ou arcanjos disputarão na arena
as representações eróticas de deus?
cova funda da mão em cacho velho
[vinho antigo da lírica consumada]
entre nódulos e genitais a pelugem áurea de amantes
enceta a labareda da noite quebrada pelo espelho
uma carta toda ela escrita no sobrescrito
bebido o licor de âmbar turvo
para perfumes no interior do corpo ― adeus intermitente
entre sono e nevoeiro
malhas dum pensar fragmentado por inércia e cansaço
: um vermelho enrugado de negro como chuva
à hora da cama