ATRIUM
[2011]
a música interrompe o sangue?
o sangue acrescenta-se à música?
a música coagula o sangue?
o sangue interrompe a música?
a música acrescenta-se ao sangue?
o anfitrião-múmia apresenta-nos o seu estúdio
como se fosse um hiato numa parábola
ou a surpresa da vírgula numa fábula
a magia está no conceber virgindade à tinta
[barro a sopro]
com a inquietude e destreza de dedos
no emprestar alvéolos à quimera ou fantasia
e um cérebro quente
muito quente à espera talvez do
colapso em rasgo na tela
peito nu a desenho sulcado
ar a pele de fundo ― uma boca
estranhamente completos os lábios sujam-se
a estátua de sal e gesso
fala sobre as artes que o sexo complementa
; a máscara bipolar rotativa
uma cadeira para o precipício transversal
― confronto introspectivo ― olhar
vivências espelhadas ao contrário
«abre-me»
um corredor negro sideral
a hidráulica dos músculos embebidos
[intimidade das entranhas]
sinalética proibida dentro da água parada
uma linguagem gestual no quarto escuro
o interior do espelho nunca acaba
é mais um adiar do que um acabar
bater à porta? um alter ego se for o caso
antes espreitar fechaduras
consequência da geografia imperfeita
ou linha do equador por calçado
diferente então o resignar-se
às notícias do jornal
equilibrar o chapéu e ir embora
no méxico a cada dezassete minutos
uma morte por fuzilamento
com as botas do condenado arredadas da pátria
e da palavra
mas é sempre a virgem que morre
: preparar apontar fogo
segundo primeiro quarto terceiro
[o exagero, mau actor]
: preparar apontar fogo
primeiro terceiro quarto
[a comoção, mau espectador]
o segundo fuzileiro é a estátua
china
: as dezanove agulhas
[corpo e sombra]
, um assalto às constelações
voar à força
entre a fúria do chicote
e o silêncio da chaminé
ou
mostrar a língua viva à máscara pobre da tradição
e celebrar no tecto os vinte e um guizos
do agrilhoamento
vejamos a giz o heliocentrismo sexual do divã
com ressurgimento fragmentado da múmia-sete-estrelo
teorizando sobre a extinção dos hermafroditas
[o olho giratório do universo]
braço arqueado, cabeleira-sémen, desenho talvez
: onde o branco dum corpo se confessa em dúvida
vida agachada suspensa na agudeza do olho
rosto farpado interrogando-se arame
em torvelinho
um braço | uma arma
[instruções para o verdadeiro acto filosófico]
: o suicídio coroado
ou a sua imediata negação cumprida no regresso
arrancando a coroa e sacudindo as vestes
esquerda | direita
[água alquímica]
reponderar novas dinâmicas do espelho
matar a estátua e roubar-lhe a condição
ir e tremer
o cogumelo da viagem
assombramento infantil na bola de neve certeira
a culpa-barro a pesar heranças
, aflorai
o verde pingo que
a guerra nunca acolherá
praça rua campo
ou lugares de menos espanto
poucos ante cerebral distância
mapa ardido
carcódias grossas
, chorai
como noite
o vento não-matéria explode a correr
o sono manuseado. um
descanso-cadáver no átrio
escutante marulha
[não sangra]
. escorre
uma morte-fonte que o sangue condensa pela plateia
a elegância do jogo entre os géneros
como linguagem encriptada do morto aos pés da mesa
[múltiplos apêndices]
o libertino observa mascarado
pose silenciosa e antiga
, e passa rente
a pó e sombra
ou negro pontilhado por sopro
esquecido às portas da boca
um ascender sem cúpula
antes presença sentada no sono
rastilhada pela falta
: alguém num relâmpago batoteiro
rouba o ás de copas por coração
os pés estremecem
fenda num
. sabão
azul do ar roto a mar calado
ocos rocejares da erosão
[calcário capitel]
os pés e o espinho
. sabão podre
a dor maior dos imagistas
, chaga
larguem a perna purulenta do cão-homem
não vos serve como mãe engolida
ou filha invertida
a um caos natural herdado
saiam e cantarolem
pulmão esquerdo adentro
que é bom respirar no âmnio quente
: folhas negras em jacto
tinta-cancro escondida no dia
. à espera das ratazanas
uma casa a morrer pela telha
com azul inocente e grandes olhos
; o cristalino avermelha-se transeunte
uma apropriação requerida
como que um primeiro flectir ósseo antes do vértice
para real ângulo visceral debutante
o retrato psíquico expandido
gesticulações a caírem de mansinho como metáfora
, da entrada ― solar
ventosa angústia de trabalhos
e malquerença
se perjúrio matinal
antes do ovo grosso da voz
a estátua recupera a harpa e o globo
chora os músculos cerâmicos como ameixa triste
e despede-se
decepadamente
com o boi dos continentes
o entender é branco
e pouco útil
. a morrer pela telha
ICONOCAPTOR
[2005-2007]
― PROJECTO ICONOCAPTÓRICO ―
estendidas no fio de seda meridional do laboratório, as imagens pingam tinta como se sangrassem ― senhas pulmonadas para incursões nos paradigmas do ser absoluto. o iconocaptor olha-as por inteiro, examina com minúcia cada uma delas e enuncia o seu projecto:
detectei por espectrólise
um vírus xisgaravis na placa fantoasmática
da máquina sonhadora ― se calhar remeti o coalho
à linha férrea da estampa planetária
tal era a aflição de achar mítico o lixo mixedematoso
descentrifugando a amostra previamente liofilizada
descodifico a matrícula neuroxidada do comboio
― vou reanimar mitografias com agulhas ósseas
destacáveis do sangue que efervesce fulo
com as hormonas que a cavalo o encurralam
posto isto, nestes termos ultraparacólicos
poderei cantarolar o ADN dos fios d’ovo para costura
e com o pano pronto
enxugar os lóbulos cerebrais a uivarem há muito
MESA PARA UM
comprei rosas vermelhas para o jantar.
de tão avesso natural, amputo-lhes as pétalas e meço
a cova triangular do peito aborrecido ― como tudo
se faz tão igual
sucumbem ao serem cozinhadas, povoam-nas cores
da ignomínia ― as rosas destronadas no prato.
revelo-lhes a fúria metálica e estridente dos talheres, e
no alto da coluna humana a boca impacientemente
cromática, já fonte.
ao mastigá-las olho-as por dentro, avanço no corredor
da perversão; aí denoto o busto poliédrico de vivo
movimento, florindo para íntima navegação
na mesa oceânica, onde presas se entrecruzam
as ondas de pinho
melancólica nuvem de espuma ― sobrevém-me
o dia cru
PARASITA MUSICANTE
pé ante pé espreito
o caruncho tropeçando nos filamentos nervosos
da guitarra;
e ela declama a sua narrativa ― eu sem mim, imerso
no tráfego de sons
escalando a palavra escarpada pela pronúncia
avisto além o muro da gordura lexical
sigo o caruncho até à toca ― junta-se aos seus.
boquiaberto com a desova da laringe matriarca
foco as cabeças que curiosas
afloram às janelas da flauta a desatracar
rumo à fábula
DILÚCULO
holofote ― o pastor das cabras que enojam o mundo
crescem canas verdes no baldio dos olhos
pendem cápsulas nos lóbulos das orelhas ― estratos
vicejam na gaguez matinal,
ousam recriar a mensagem fotoeléctrica do holofote
enquanto perturbado pastor
jejuam plantas
em contínuo coito assistido pela rara lascívia
de artrópodes bem-humorados
com o seu quê de obscenidade ardilosamente explorada
pelo leque versátil de sobreluzidos apêndices
só e sonâmbulo
estado de quem conhece a refractária pérola de lis;
no lugar do coração um caroço ― é uma estátua
cujo bronze amadurece
SEGUNDO-LUZ
a mão cedo apodrece
oxida exibindo o peixe lunar ferido
ainda a bailar na língua ― perece
a branca boca balofa sobre a linfa vertida
memória da proa esgazeada aos soluços
lá longe trovando mar fora
decalcado voo sob a lua menstruada
enjoo sobre enjoo
a roxa boca troca oca animáculos salivares
com a do extraterrestre que à porta da igreja
pede esmola sorrindo
COBAIA
vi escrita na língua a fórmula da saliva mágica
que incendeia a arte encetada pela dança estúpida
das galinhas negras a debicarem o ar putrefacto
enfeitiço uma mão
― dedos sustêm a esfera passional ―
cinco tubos de ensaio engelhados:
o beijo com gosto a ácido sulfúrico
enxofre mordendo o pénis erecto
as vísceras viciadas em carbonatos
potássio explodindo nos olhos suados
o cérebro sorvendo todo o ácido clorídrico
de magia em magia vi escrita a morte no cabeçalho da pele
QUATRO FOLÍCULOS DE GRAAF
luz ]desce-me zunindo
― faca a gritar o pâncreas ―
veste-me fibras rangendo cor[
✫
arabescos acocorados no sopé visual
! marionetas hostis mordem a paisagem
outrora mínimo reverdejante “em mim dentro
✫
silvestre quão emotiva criança faiscante
¶
enleio cardíaco bebendo suor dos pés
✫
aninho-me na pevide láctea do quarto
âmbar adentro ~ uma chuva repercutida
AU VINAIGRE
por ela finjo estudo de caso à saída do café
com um punho de cidades submersas.
passo sem pé abaixo, passo acima cruzado no ar
mordo o lábio inferior, mãos nos bolsos ― injecção
azul
no palato feroz
componho um piropo nos paralelos
paraíso em teclado macadame.
por ela ― com a mão direita forjada e afiada
junto aos genitais ― corto às rodelas latas de cerveja
a mijar,
escrevo «amo-te» e viajo no vapor da destiladora
“vivam os mutantes que vilipendiam cantarolando
a silhueta infecta da gaja com o bico de pé aleijado
fincado na trigésima terceira volta do vinil atípico”
aprendi fingindo pêlo rápido como que fugindo
de táxi ― a barriga dum enorme tigre azul
DAUCUS CAROTA
voltará a zunir a cenoura nos tímpanos reticentes
como mestra vegetal do ilusionismo desordeiro?
zé-quitólis viaja nos hiatos da pulsação neo-alaranjada
que em si pressente tão real como de si mente
chutando-lhe os pêlos radiculares da memória
enquanto lhe palmilha os anéis equacionando
o rodopio das estátuas vitamínicas desumidificadas
a cada tropeço da fala
oscilações ― o extermínio das leguminosas lançado
à sorte
no mais insulado hemisfério da histeria
por dó vindimada
zé-quitólis vagarosamente consumido pelas raízes
em plena maré instrumental
vinga o sopro helicoidal da cenoura
― pensa ―
dir-se-ia boina do túmulo por se antever imóvel
a espalhar carvão sobre as pétalas do cúmulo?
sabe-se nómada entre as pedras estelares fervilhantes
ÍMAN
luto limpo e claro na planície onde sobeja o ouro vegetal
uma noiva foge tatuando a película de sol
duma metáfora a sonhar árvores
a cada passo gota a gota lhe sobra o galanteio
e verte-se-lhe o sangue que o vestido morde
incarnando-o
áurea constelação de naifas ou
o rosto difundido no nojo do espaço
e os cabelos morrem sobre as folhas já mortas
no pensamento
ÀS ARANHAS
sob alçada da aranha madrinha, o rapaz isola-se a conversar
com os espantalhos do crime
ao meio-dia contempla os peixes que, com escamas
de vidro,
sacodem a teia montada no quarto ― hora de comer
com a alma desdentada
contra as paredes repete as falas do pó
lembra-se da mãe, baba-lhe o vestido de seda último
por cada sequência anímica resvalada no agora fastiento
domingo
escolhe um canto e nele se recolhe; chora por ser
presa fácil
na cavilosa teia de alucinações ― cada retículo
um écran de cores glaciais em redemoinho e sobressaem
quelíceras das imagens
amontoam-se-lhe aos pés
casulos desabitados ― conservam ainda o perfume
da aracnídea gravidez
STREZZ
a cobra espinal ziguezagueia
segundo a alternância dos losangos ósseos
ziguezagueia ao som da chuva electrónica
respeitando a musicalidade do ruído
reencontrada panaceia
pautada pelo seccionamento transversal do vento
a operar reticente ao nível da microsuperfície
das gotas que abraçam por impacto
os cadáveres à escuta
a cobra espinal ziguezagueia
com pontilhada dor fixando
nova geografia somática
ziguezagueia transparecendo o verbo comprometido
com a próxima muda de pele
MEMBRANA
no último sábado, decidi colher bagos de tinta mágica.
atravessei a estrada como fronteira
rompia assim a película do breve perjúrio gelatinoso.
mais do que a dúbia impressão,
estranhei a hiperactividade dos pseudosentidos
― faiscaram ilhas nos nenúfares coralíferos
dos lábios
tarde soalheira com os dedos dos pés convertidos
em tesouras, desbravando ervas e arbustos;
palmilhando o teatro ecossistémico distingui
minúsculos seres corcundas,
guardiães à porta dos nós da árvore milenar
onde alojadas descansam as deusas ciganas
doutro tempo
servi chá de hortelã apimentada aos anões órfãos
da floresta.
deitei-os em suas camas ― magas flores amarelas
da carqueja ― despedi-me
e iniciei o regresso;
para além da película vislumbrei a transmutada égua
nos pastos de alcatrão
PLANETA ENJOADO
o planeta azul come cogumelos nucleares
com molho de ultravioletas
e à força empertigado faz vomitar
meia dúzia de vulcões danados
o planeta azul tem febre
está obeso ― queixam-se os parasitas
que o matam
o planeta azul brinda-nos com sua taça
de gás tóxico; dói-lhe o núcleo
coração de ferro e níquel
à beira dum enfarte
JOHN COLTRANE QUARTET
isso ― qualquer coisa a morder o espaço vivente
missiva ogival de células espontaneamente dançantes
inscrição alquímica no dorso da égua de cobre ateada
construção pela ocular da assombração cósmica
a partir do enigma ressonante da carne
C - O - R - P - O
viajando na esgrima dos instrumentos
captando o som palpável
devorando com os dentes da pele a luz ultravioleta
jogo medular do saxofone
a resistência pleural
e n g o l e
a plural existência ― paixão de cristo
isto misto com meus pés de xisto
caminhando sobre roxas hortênsias ― isso
a morder o espaço vivente sobre qualquer coisa
A_MAR TARDE VEGETAL
silêncio a dois, nós
plantados.
ora a foz sem voz pelo botão a acordar
subindo as entranhas com sua armadura de espinhos
e nos genes inscrita
a memória dum beijo aéreo entre gineceu e androceu
longinquamente fluidos
os restos mortais dos insectos obreiros
adquirem luminescência
no seio da seiva circulante ― pacto líquido
de sólida convivência
eu vento rijo
lanço-te maresia
azia do mar que me dorme nos olhos.
um duche frio de lixívia e gritas em redondel
tu sereia
no leito de algas anémicas
entre as rochas musgosas das axilas do mundo
A LÍNGUA DAS CASAS
cumpro esse crítico exercício: o de fintar a linguagem
das chaminés
― vogais mudas envoltas pelo hálito do murmurinho
urbano
as casas tão ardentes.
electricidade mímica, sombras a esburacarem a luz.
amo a picardia das casas; búzios de tijolo telhas e afins
a ecoarem o mar bolorento perdido nas inquilinas
cabeças
e no subterrâneo apagado
lençóis de carne enegrecida sob alicerces gangrenados
festejam as bodas de silêncio
COMA
correm as crianças à cata de orvalho
chamam-nas as campainhas, junto à fonte ― cedo
escutam rumores do maior assédio
que lento deteriora cada tecido nupcial do corpo
são belas, prestam culto à chuva;
pingam os braços como pingam os ramos.
ninguém explica o ermo brumoso da infância
― descuidado choro por tão dada água.
as crianças nascem limpas, vivem por algum tempo
a amnésia genética do tenro caule.
providas de júbilo arqueiam e brincam expansivas
com a bola gigantesca que é o sol;
ternamente frescas, digo mesmo
verdejantes
correm as crianças dentro do túnel
confundem orvalho com cicuta cristalina
amam o chilrear dos pássaros que não assinam o céu.
harmoniosas e decerto impávidas; ignoram
a brusca sirene do devir
MAÇÃ DE ESPERMA
a maçã de pilatos brilha, seu redondo rosto desviando
atenções do caroço ― crisálida antes da magnânima
borboleta
que entristecerá os céus
a maçã ferrugenta bóia na água suja.
casca enxuta ao chorarem por ela ― a maçã não
transpira,
não se deita com as folhas que a abençoam
bebem-lhe o sumo por telepatia
a designar conhecimento
sabem-lhe a forma a cor a textura o sabor ― não
sabem
que é de esperma
ICONOCORPOGRAFIAS
I
aconselharam-me a acordar os gafanhotos da fome
[raciocínio viscoso no antro rochoso da noite]
falarão do beijo profiláctico das sombras?
II
habito esta casa a coagular-se-me na garganta
insubstituível ferida alicerçando-se
como linguagem cauterizada pelo sol ― habito-a
celebrando o esfregaço neste tempo
dum verde enevoado
suave toque no corrimão por ossadas transpirante
― cuspirá ferrugem
soletro as válvulas do coração
lâmpada das estepes no abandono simpático
das esferas
mosaico a mosaico arrebentam-se-me
as nervuras e
singro reflorestando-me
oxigenado painel sussurrado
por milhentos lábios de criança
III
«os dias são nenúfares fragmentados» ― diz o vinho
espirituoso
à revelia dos músculos
[rebeldia do dia-a-dia]
tropeçando na órbita irreparável do pão anatomizado
a quente
mastigo o fogo ciciante da seara crendo no luzir do grão
plantado
IV
fugas miraculosas traem o propósito de
vincular
a narrativa
raiam vértices apreciativos do corpo
o esfíncter luminoso alastra-se às superfícies
em auto-estudo
qualquer expansão implode ávida
como significação calcária da casa múltipla do ser
V
sorrio interceptado pela fortuita encruzilhada
de paredes que
engravidadas pelo real
sujam auspiciosamente a língua com o muco vívido
e reabilitam-na como instrumento inquisitório
[imundo palavreado de exosqueleto apetitoso]
anfioxos do rubro alfabeto estrebucham
à entrada da biblioteca
VI
assumo a obsessão p’la face grudada às gónadas
folhosa página anteposta à veemência de articulações operárias
e lá nas antípodas interessa-me a face semi-apagada
do que se ouve sem ser grito,
sublevando-se um dos ritmos infectos das vísceras
ora, com a triplicação da nascente intestinal
agudiza-se a interactividade dos espectros
que numa ânsia exasperante almejam morder
o osso sacerdotal da carcaça
VII
a vontade persiste a cada suspiro
envelhecida
como cíclica rosácea
irriga-se o gomo forjado no seio das membranas
lâminas frouxas do juízo eternal
VIII
aí vai o espantalho pedalando na bicicleta
dedos de palha mijada
ama o vento que lhe coça o palato
[um pêndulo curvo movido a cuspo jugular]
o espantalho inscreve a sua súmula excrementícia
na aquosa paisagem do futuro poeirento
IX
subiu-me o espanto à coroa da imagem, tal
é o
prepúcio de luz sobre a cabeça
NECTURNO
anoitece
e não quero anoitecido este sangue
ofício gritante este, o de descer a escura noite à procura
do sopro que dizimou esconderijos do mapa
com a cinza ácida do meu abandono aos astros
é com esta luz que eu observo um cavalo a atirar-se
da mais alta cascata
com o peito florindo de paixão
os olhos sonhando abertos, o rosto empedrado
as patas curvadas e o peito florindo na queda
florindo e esmagando-se contra as rochas
o último relincho é o pólen anoitecido memória adentro
falso néctar a envenenar palavras na garganta
nunca desejei como agora beber na cauda dum cometa
estremeço libertando a gaivota que pousará ferida
nas tuas mãos ― aonde o bico?
e o esterno é uma adaga de sal que fragiliza
a simples ideia de amar
ou um nariz de quartzo pingando néon
que ilumina a raiz das diminutas asas
APNEIA DO SONHO
ainda não tenho pé, finco-me ao bafo da manhã
serenei os objectos loucos à minha volta ― escondi
subtilmente
o acordeão das mil e uma quimeras debaixo da língua
e derreti-o baixinho
não quero comer nunca mais
frutos silvestres perfumados com a urina das fadas que
durante a noite
me visitam vestidas de lingerie bordada a pólen
HEMATOFAGÓPTICOS
eles estão lá; espectadores atentos à tensão arterial.
sobre o seu eixo gira o candelabro andante
sete esteios de carne seca em permanente comunhão.
não digo que se trate dum estado de graça ― sim:
são aqueles que vigiam dia a dia a insidiosa desgraça
nunca prontos a deceparem a flor ocre da agonia
treinaram horas dias anos e séculos
passam por rochas com enormíssimos olhos
e ninguém esventra essa grossa película visual
sequiosa por gritos, respirações tumultuosas
gemidos de espremidos foles ― todos os peitos
medidos por esses esteios de carne seca
saciados abandonam o local de tépida luz sangrada
ÁLIBI
nu.
saboreio a nula mordidela
esfregando nos membros azeite de trevos azulados
produzidos em estufa hipotérmica
simulacro da asmosfera
parábolas de halogéneos escorrendo aritmética;
decifro o fandango das línguas ― à noite o cupido
trinca-as,
charada da imundice que é pecado
nu.
brinco ateado pelo vapor ígneo da água lenta
a erguer muralhas silentes, o CO2 assobiando
no labirinto das grutas profundas ― nu
mergulho na salmoura de espuma
PÓRTICO
arma branca suspensa na película rotacional
do tubérculo ― como qualquer ente desguarnecido
no púlpito oolítico
apelo à operacionalidade do sinédrio dentário
entrarei no pórtico trespassando a cortina
por sopro intervalada ― siliciosas artérias
arrancadas secas aos corpos nulos
de anjos dependurados no fumeiro redentor,
redentífrico
aguardo a ventania do oeste beijocador se aqui houveram
ninhos de revólveres emplumados
a tilintarem descarregados.
creio na vírgula engravidada pelo ouvido
que não (h)ouve
se alguma vez a clorofila embruxada iluminou
a couve
no dia do casamento
como qualquer ente desguarnecido entrarei no pórtico
tropeçando na barbatana dorsal da prancha de salto
TRÊS PREGOS
assim
e
n
f
e
r
r
u
j
a
d
o
vivo
p
r
o
f
u
n
d
a
m
e
n
t
e
delírios
t
e
t
â
n
i
c
o
s
VISITA
quem por fogo revolve a água solar sem julgamento?
quem entrará, navegando entre grades, na caverna
do deslumbramento?
quem por avalanche entrará no vitral montes acima?
montes de mim, pergunto ― quem entrará no vitral
por avalanche, sem o mínimo sono labial?
brisa amena dentro de casa ― irmã,
desfaz as arestas do pesadelo com o laser saudosista
escondido por entre as dobras deste céu
quem soerguerá os barcos na maré solar, salvando-os
da tempestade? quem explicará sem derrame
o pássaro de amor enforcado no arame?
arranquem-me o nome, descobri que num sorriso
de mulher
morrem coelhos, cobardes assassinam-se
entre si
por doçura doentia, sobre a palha estaladiça
como render-me sem arma nos ombros da mulher
que morre com o assobio das almas por arder?
quem entrará por despejo rasgando os pulmões
desta página que bafejo?
por quem? com quem? em quem? cães
salivantes auscultam-me
a carne
EU RI DISSE
de me veres crias vermes pontiagudos; conheces-me.
peço-te,
vem vigiar meu horto esta noite
cá dentro a ostra gargareja, qual lira de madrepérola
cuida das papoilas enraizadas na testa do fungo
que como vigário vinga na língua a falsa tinta
já negras as papilas praguejam ― calhaus no papo
cospe nestas pálpebras que te matam; amaldiçoa-as.
de te ver nua
tenho-te como minha treva soçobrada na rouquidão
do sono ― vem dissolver-te
MAIS QUATRO FOLÍCULOS DE GRAAF
‘abaixo a tertúlia dos gatos açucarados
sobre a rotação linfoclasta do feto,
✫
silvos (grilos matutinos) alumiam grades
lábios (armários nocturnos) alimentam seres
: sílaba a sílaba o beijo da luz no fruto :
✫
escalavrada_palavra_entre_bocas_doridas
e_saem_das_feridas_rimas_surdas_como_loucas
✫
arbóreo funeral (linear?
curva-se amiláceo o cuspo branco
ao que se avermelha _ na página
UM ADEUS CHAROLÊS
a regra assassina salvaguarda que os pêssegos
sangram mais na calçada
superlativo tridimensional no qual
a bailarina esquizofrénica estica as sedas
para filtrar mucos aleijados ao seu mestre rezingão
também choram estes pêssegos ou simplesmente
assobiam esófagos
mas isso mero percalço num talvez aberto
a outros que um na sua vez chama
em tantas rajadas e apenas insólita uma transporta
cornelhos medicinais à fábula
adeus aos monstros mais fiéis que não perdoam
o facto de nunca terem sido emprenhados na
primeira lua do mês de nisã
todos estes anos
e sentem-se cada vez mais feios
não obstante o sacrilégio de recordá-los em ceia onírica
com os prodigiosos utensílios carnais
preservando sempre um horror bélico a tresandar
a sexo feroz
que dá brilho ao maravilhoso amado
sito na cúpula d'húmus
um longo e antiquíssimo olá às estórias enviuvadas
com fiozinho de mentira agridoce
bem perto do caldeirão mágico onde sortidos fogos
determinam a altura dos degraus no próximo sonho
e já que reentro nos silos da prosperidade dos poros
como se jogasse às escondidas com as gavetas de dalí
um até já a ti freud
que és magno tarólogo de doutores rubricóides
com mãos sempre prontas junto às canetas de prata
armadilhadas à cintura
adeus por fim ao amor lavrado em pedra fria
com a sua irrepreensível queda silábica
para o abandono
REWIND
de ver a privação
na pele amanhecida
de ver o pecado
mal embrulhado
de ver a estonteante
nudez apetecida
dos corpos
dentro do cérebro
― cama húmida
o dever
das mãos hábeis
desdenhosas por
irromper o véu
― manjar de embaraços
de o ver
verde
o mar, ela
elo, amar
o dever
de rever
TRINCA-PEDRAS
quando os animais de vento animados sepultam ventosas
e brincam com as gengivas num inoxidável bacio
é porque esperam a onda helicoidal da fonte refractada
onde os trinca-pedras lavam as patas
desalentados pelo tédio de excretarem néctar pelas narinas
sabem no fundo estes pássaros que tudo acaba no açúcar
sempre demasiado doce até bafejar ácido
e por isso povoam o ar com alforges de banha nas asas
delineiam inimagináveis corpúsculos
quântica areia espasmódica dos olhos medrados
na negação do azul
eternos reprimidos no carrocel latifundiário
filmam tremores ofuscantes em voo picado
debicam cegos o swing de luz oxigenado
todos eles morrem velhos e sedentos de areia
e eu aqui num jogo de atear maçãs
que de olhar esganado os piloros selados das pedras
ganhei o meu tique nervoso na perna direita
A LÂMPADA CARTILAGINOSA
fica a nudez daqueles que
repicam
o mármore muscular
«dai-me um embrião
e eu vos atordoarei o futuro»
a linhagem sobrevive
na rasura intersticial da palavra
amamentada
que dizer
acerca da veracidade ludibriada
nos cachos de tungsténio?
ousarei falar-me
ao comer o
estômago?
«ofereço-vos sílabas somáticas minhas
como dejectos iluminados»
LADAINHA DO DOIDO FÉRTIL
varro-me na varanda do grande panda
fumo um maço no pomar de março
plagio o mentecapto roçando o pericarpo
e balouço esparso dividido no gasto paço
verde milho no molho azedo do sarilho
caio grotesco amando no lodo fresco
a romaria acrílica em torno da romã hemofílica
encardidas nascem as fraldas das muitas vidas
quebro-me mal saracoteando tal e qual
o caroço a sair rejuvenescido do fosso
sou o joio desgrenhado com ar de saloio
― venham lamber a maçaroca amanteigada do ser!
fiz isto de migalhas, côdeas de pele: é o meu quisto
e espirra sémen com limpa luz vívida ― ámen
ATLAS
[2009-2011]
ASA
três palmos e meio acima do que falam
asa
plataforma ou não
: um pé solto
flutuante compasso aglutinador de partículas
unha cravada
esqueleto em órbita
o acordeão de carne enche-se de vertigem
inspira e
estropia o verbo
asa
catapulta ou não
: o voo
emprenhar o antes
― hemorragias silábicas ―
cair.
mijar no ponto final
sorrir rir ir
planar
asa
pulmão ou não
: respiro
três palmos e meio abaixo do que ignoro
NERVO
ou dizer afirmativamente
não
― folha de quebra ―
dizer grave
«um grosso filão»
[dança dos espigões linguísticos]
ou interpelar a frase
― duas partes ―
a inteiro corpo desdizer as
vísceras queimando víveres
numa linguagem gratuita
: sonhar um país de intestinos comunicantes
LÍNGUA
una nele uma por um uno nela
atraca rija no palato
nele una âncora por um
elo a uma que nele se traduz
e ela diz-se nela presa num
instante freático por um
que nela a escorrer-se-lhe
viva saliva dir-se-ia
salvo por ela e uno a uma
vertigem que nele arroga
seres semânticos dela
unos nela por ele a uma
irrealidade sonora dele
una nele por ela a um
ridículo sintáctico dela
gramática que nela afoga
perdida por ele e una a um
dente branco dir-se-ia
que nele a esmaltar-se-lhe
por uma o imaculado instante
e ele diz-se nele preso numa
argola a um que nela se reluz
nela una ânfora por uma
língua que atraca no palato
uno nela um por uma una nele
MUCO
, crivo do silêncio
de crer que se quer
de crer que se dê
como um ar refractado
um baptismo inversor
[múltiplas costas entrepostas]
; um crivo para trincar palavras
ou outra coisa que não exista
. silêncio,
medo-cromatina
[respiradouro suspenso da memória]
: mudo muco
ÂMNIO
: hei-de fazer-me ouvir
não pelo suor
não pelo sangue
mas pela cratera azul da língua
veneno todo inteiro e antídoto primicial
: estarei entre o bailado aquático dos pés
à minha procura
incrédulos peregrinos alérgicos
a longínquos redutos
, estarei mas não à espera senão de mim
mover-me dentro
minha água e meu âmnio
[estrebuchar]
; falar-me baixinho
como se no vácuo
como se na multidão fossilizada
descurando penitências
dos que esperam sentados na areia
DIAFRAGMA
vejo como descolo
membranas à imagem
[mediatriz por garras]
, ouço-me no descalabro
porque tudo é asco
filhos falhos folhos
. língua
: ou se diz
― cabendo três dedos de testa no texto ―
ou azeda-se como morte
junto ao diafragma
ORGÂNICA
os meus erros são os meus órgãos
murros contra ventos | azia em sáculos
um caos homeostático
houve um lago antes da boca
onde molhar os pés e olhar as estrelas
, uma aleatoriedade da pele
em exercício
roda o raio envolto na ironia
comensalismo dúbio do citoplasma
[constrangimento propulsor]
# erro # genuíno atraiçoa-me
adultera-me dispersando-me
já instrumento na experiência
TECIDO
ainda uma lógica
por cima a raiva apagou
para lá da vaidade
uma espécie de ilha
[borrachas da máquina]
nem sólido nem líquido
antes um gasoso putrefacto
importador compulsivo de agonias
― nova oportunidade de idealizar
explorações cerebrais
finca-pé de algumas estruturas viscerais
cartas-tendão a agravar morta
uma outra agricultura epistemológica
longe da terra-caldo e do húmus onanista
; de secção em secção
desequilíbrios vários
[chavões]
demonstrar erros
silêncios feitos carne
| estudo inclinado da plataforma ― ouvidos
ecoam acesso a
produtos corrosivos ― dívida extrema
. colapso orgânico
pausa | reconhecer alimentos
rearrumar o genoma
descansar grandes ressentimentos
― desnorte próprio do que é vital
pingar casuístico do que é corpo
com balanço ósseo da filosofia
e fragmentação do ritmo pós-silábico
, nunca uma surpresa a
brusca separação de veios cárneos
pela corrosão dos hábitos umbiguistas
cegueira supérflua pontual e ineficaz
| visão de conjunto
camada sobre camada = mentira sobre mentira
: personagem de bancada
acéfalo vivo de marialvismo cru
com bloqueio naval de representação
e derrota unilateral dos esfíncteres
; pela modernização histológica
recomendar-se-ia nova síndrome de isenção
encargo de sabão reformador dissoluto
para retrocesso libertário na
cenografia biológica actual
com reflexos assimétricos severos
concretas alterações em linhas azotadas do
emparelhamento neurológico
entre os alvos o tecido respira
, esfíngico
SABUGO
absurdo. é uma raiz
― nenhum prazer ―
um roxo contrário ao crepúsculo
espaço onde esvaziar
esfoladas realidades
jardim-calcanhar do dia doente
[roçar-o-chão]
, a função não explica
implica uma necessidade-serpente
à petrificação de colarinho acidulado
; esvazia-se em mós de repente
― estômago de pedra ―
absurdo. é um sopro
PÉRIPLO
[2012]
, um fusível queimado no braço
[passeio dos fantasmas]
: acordar numa casa de banho infernal
não-teatro
apenas visão transversal das roupas
diálogo que estaca no fim
como nudez fria dos azulejos
maldigo qualquer figura de filigrana
descido espectro petrificado
[depósito do despacho intermitente]
dois espaços, ciclones pessoais
copo-esqueleto cheio das cousas febris
. à continuação
; o anjo me tem mártir próprio
com água de estrelas
nuvem-penedo dum acanto
linha a linha sobre-linha a linha-pó
versos soltos da alta mas enrodilhada estrutura
calvário pessoal e intransmissível, assim o ofício
. de mutilar ausências intelectuais
o viandante guardou os ovos num sepulcro
terminou mulher rindo
sobre a pedra suada
¿ como querer cortado o ar
pela carne partida na
moldura da gravura viva
com sucos orgânicos por
músculo espinal do sonho?
nada pelo que se arromba de narina em narina
sangre tudo à noite luz-rápida que o giz rasa
outra violação escrita por morta tinta
nada pelo que se destrói erigindo a frutose
cansaço de muitos cansaços
uma roupa-carne demente
suja de respirar
; ondas do vermelho, o vestido
algas a castigarem rododendros
[labirinto mineral da abóbada]
do ventre rediz-se
a anunciação estrábica com areia masculina
e mácula
a ponte ― caída loucura de repente
um som limpando o metal basilar da agulha
as personagens sentam-se
trocam os papéis
. também os corpos e as rotas
[selo vígaro]
pente a pente a passagem
medalha de água como anteontem
cru ilegítimo de tão próprio
um trinado humano em soluço
, gota-cristal a tempo
quasi súplica cosida nas gargantas
. do grupo
¿ porque límpido e parado?
[visco amoral]
sangue amarelado pontilhado fora
linfa triste folheada hora a hora
vurmo abundante ― o impasse
; silêncio do tempo em ferida no esófago
parda alcateia roçando-se na pedra-lua
¿ ao corpo e ao resto?
à míngua, com a
alternância de objectos canibais
coisa de cérebro desigual
e possessivo
reagindo ao mote da proibição
[maçaneta suburbana]
o peixe triângulo-escuro fala de morte e descontinuidade
exemplo marchetado, o ridículo-amante
: idealizar um arquipélago de estepes
imaginá-lo no borrão-pensamento
com espelhos flutuantes a alterar-lhe a configuração
num teclado de cores
. informam-me que os zângãos da literatura
preparam uma invasão sistémica
; não lhes subestimo astúcias e venenos
[armadura pericomplexa]
por agora sou um eu-estátua deambulante
arqueio-me achado peregrino transumando-me inoxidável
num perímetro de reticências