[Edições Esgotadas, 2026]
“When we are born, we cry that we are come
To this great stage of fools.”
William Shakespeare, King Lear
abrem-se mãos
sob a ténue música do corpo quase silenciosa
disruptiva ― sou aquele que não acorda
por saber os riscos da carne
pretensiosa nos hábitos
mas que arriscando esta mesma carne
se rosto alguma vez enquanto som
fortuitamente poderei nalguma aurora
ver devolvida a minha vida
, verdadeiramente inaudível e imponderável
o poder da languidez
de vozes entrecortadas
gestos carmim no escuro no desmedido vácuo
de uma escrita a tempo
. o canto à escuta
ainda que incrédulo
[nas escadarias as plantas escondem a fotossíntese]
atendendo a imprecisões
do coração ―
abrem-se mãos
no incêndio de cartas proibidas
inaugurando a planície dolorosa do diálogo
sentido entre corpos
o som verte um eu a ver
silente nada
envolto de nadas
: assim a minha imagem mergulhada na água nocturna
almejando significar rondas
como quem reduz a culpa
estremecendo
sílabas na cama ― significar rondas
quedas em cascata, mão dulcíssima
no rosto
, uma lágrima confunde-se na luz
no suspiro verde
da violência reverencial
complacência de placenta no minuto violeta
tempo gomoso de veludos, de exageros cénicos
uma viagem de cotovelos tida como margem
antes do mar
… de rodeios duros se afia a lâmina cega dum seppuku
dói a música do desentendimento
nunca empática
e sempre morrente
dói o vazio de gestos engolidos à míngua de espaço cerebral
momentos em cacho sanguíneo
a azedar no azul das palavras
, esse torvelinho ensandecido
que engana
e prolonga
vicissitudes da efemeridade subsidiária dos corpos
em contínua perdição
amanheço no que desconheço
assim a fé na amálgama
do acaso
e feridas
as mãos
no trabalho árduo das manhãs
a azáfama transcorre como informação nos olhos
mas não se consubstancia em nenhum floema
dourado
parece antes uma flor nevrótica indecisa na cor
desfazendo-se na
corola dos lábios
à mínima fala
. correm apagados
por dentro
os rostos do sonho
são a mentira dentro do meu nome
a falsa noção de um propósito
ainda que
resplandeça incontestável
a possibilidade da dança
mão no ombro | mão no lado
a dança é a linguagem
riscando o chão
ou antes uma luta
de fantasmas presentes
[a lava dos sonhos contra o sangue do dia]
confronto dual recriminatório
para sangramento dos espelhos ―
será a solidão fruto de desencontros
ou o verdadeiro encontro?
a água de cadência harmónica
consegue ludibriar
por algum tempo
mas só se for
conjugada com amnésia
e porque é água timbrada
trai as cadeias do coração ―
todas as cordas aparecem cortadas sob o pano da noite
de tão branca
a lua lembra
uma sonata
magoada
mas ninguém quer saber
das andanças mirabolantes
do glóbulo musical
[fala-se agora de dinâmicas do fuso, da sua importância na morte]
ninguém segue mais
o rastro da experiência mediúnica
do caminho
, um caminho enquanto personagem
quasi profeta
enquanto margem
ou quase dádiva
corando o rosto
de quem se julga morrer
inteiro
sobre a alcova
. em evidência a flama
tremeluzente
chutada no salão pelos pés dos amantes
passando por
arestas periclitantes
terror gritante de uma eventual notícia
a flama ―
credo, o que fazer com ela?
o perigo a perigar à beira do esquecimento capcioso
, a flama
que há pouco
serviu como pedra de toque
do espírito
na identificação de pontos de contacto
entre rostos
com impressão detalhada
de imperfeições
e protuberâncias abissais
de futuros conflitos a aleijarem
linhas de vida
. o cheiro a caules cortados, a seiva apagada em muco, quase água
súmula da devastação na mente do transgressor
repintando de amor esse pensamento
esvaziado de sentimento ―
fogo que arde mal
arrastado no ar
de angústias
fogo arrastado
na crueldade do belo
fogo queimado nas íris dos olhos magoados
pela visão das flores
, o amor em abraço que asfixia, azul tóxico
voa em elipse o círculo das vozes
toxicamente concêntrico
― tudo previsto no teatro das acções
macroscópicas
o legado humano é a destruição
o seu amor perverso
porque beija raivosamente, com pressa
deixando cair
a máscara de gesso mal cozida
o sémen humano serve de diluente ao mundo
tudo previsto no teatro das acções
«cuidai do vosso ombro, desconfiai da piedade»
tudo previsto, nenhum amor
de resto resta ver as linhas mestras bem gastas nos bastidores
tendo tchaikovski como cicerone
resta ver como trabalham bem as mandíbulas
da máquina
[tchaikovski chora a meio]
as mandíbulas vigorosas, raivosas, com pressa
já se sabe o fim
continuar é a mecânica racional da animalidade humana
continuar a estragar a aguarela do mundo
de resto é o trabalho do famigerado diluente
sempre à espreita
correndo, espezinhando o pão
encenando o amor
com as suas flores de betão
correndo estouvadamente
pelos campos de cinza
amando, abraçando, matando ―
enseada de ventos
assembleia de luzes
: pessoas deveriam ser sombras
as sombras de montes
sobre o diálogo
pessoas deveriam ser
presença e identidade
sobre todas as coisas
som em gesto tornado
espaço físico
som em gesto
tornado corpo
. indo bem atrás
ainda antes da sumptuosa deiscência
indo realmente atrás no tempo
[se rito de magia o pensamento]
reveja-se
o espectáculo do amor adolescente
com a ternura de sopros
e o aroma febril
de faces rosadas
a sondar o beijo lento
contemplativo
, poderia ser
a eterna esperança
[tempo serôdio da descoberta]
o início da linha de vida
enquanto risco absoluto
o cheiro primaveril
do primeiro deslindar
que infelizmente
a memória vem degradando
. o abismo seduz numa gravidade de inomináveis adjectivos
incomensurável a sua força
confundindo-se ou não
com o erotismo
e ajudando o fatalismo na estepe das visões
, erotismo e fatalismo são especiarias
do amor próprio à eminência
do suicídio
um enigma a língua em furacão
raiz da árvore da paixão
quase sempre transcendente
quando desce no abismo
doutra boca
se no beijo cada língua se perfura
introspectivamente
no próprio eixo
à procura da outra língua
que lhe acenda a saliva
entre salivas
em atenção
duas línguas perfurando
em espelho
línguas tecendo vícios
ao coração
e atrapalhando a respiração
. nunca na torre de babel se esquadrinhou o enigma
da língua em furacão
estilete na arte
de buscar o corpo
entre os artifícios
da erosão
. o som de animais sobre a música
lembra a inevitabilidade
de uma sujidade necessária
lembra o despropósito
da morte
embora a fantasia dum concerto
sempre nos amornará na hora
mais sombria
e aliviará o apodrecimento das fibras
na quotidiana monotonia
. que amar começa num coágulo
estranhas são as suas cores passageiras
coágulo vibrante
feito opala onírica bamboleante
sobre a fogueira dos aspectos
correndo ávido o outro sangue remanescente
duma antiga angústia
que também arderá na ideia
de amar uma e outra vez
e a súbita hemorragia
trará à vida
uma profusão de tecidos
continuará a sustentar arritmias
que são o alimento
da música
o grito em ambivalência animal
dói na sujidade musical
dum sangue mineral
nada de mais elementar
do que a indecisão nervosa
de dedos
sobre
o piano
; do interior de uma maçã podre
vem a semente
― porque é do esperma
este mundo
, a maturação | a simplificação da morte
e o que há de cheiros e ilusão
são trabalhos da memória
o caixão dentro
do caixão
. tudo recomeça
enormes frutos na boca
um mar de vermelhos rápidos
dentes velejam no aturdimento rebelde
da adolescência
, tudo soa a umbilical, uma tensão
suspendendo a arbitrariedade
do pensamento
as sombras vão titubeando
no corredor amniótico
a dúvida, dádiva devida
dádiva de vida dividida
respiram as mãos
na concepção do fruto
[maçã de esperma]
ainda que tarde
a esperança arde ―
respiram as mãos
em cada espasmo, em cada nota
donde evola o coração da fragrância
rumo à verdadeira liberdade
… sentindo a água rubra como quem cava
um reduto estranho
avesso a opiniões
e interjeições cítricas
a música exclama
crua no corpo
que balança vulnerável
à mercê
da maldade ignóbil
impura
. amálgama estridente
que a vontade abocanha
se vil
a ânsia de acabar
como que descendo
reversos de maleita
gritos em livro dentro
na esteira dum acordar
a música exclama
rodeios de cama
entre os pinheiros mansos
da memória
, os sons caminham
ao contrário
se mal abertos
no diálogo com as vozes
que morreram ao piano
os sons caminham
na floresta
e as aves espantam-se
de verem as árvores cantar
e quando o olor viscoso da mentira
atinge lá longe
quem no frio temeroso da incerteza
vive a guerra
na carne e em cada osso
qualquer imagem
de notícia
perde a cor
ocorre imediatamente
um reformativo processo de gradação
imediatamente
no coração de quem gela pelo terror
e não mediaticamente
com pontilhados
de anúncios publicitários
, a dor aguça-se na perspectiva
: o sangue caído
deveria entrar
em todas as narinas
deveria ter a devida
violência cerebral
monumental baque cardíaco
de pânico
reequacionando gestos para o estancamento
da sangria que amamenta
o capital
. os corpos que caem lá longe
não estrondam
nos ouvidos
dos que vivem
escravizados pela monotonia
afogados em múltiplas tragédias
numa reamordaçada perspectiva ―
não compreendo o acto cromossómico da natureza
suas suavizações mordazes no genoma
ou se mesmo as maquinações
humanamente científicas
interessarão alguma vez
ao grande universo
dedilho sim cintilações ao redor do coração
sei que a linguagem se traduz
sempre numa mentira
prefiro antes acreditar na linguagem das emoções
ainda que também comungue da mentira
essa flor do ópio que possibilita
a permanência
diante do pedestal do problema
há que incensar atribulações
com a sinfonia que perfumou
o sangue
na última noite ―
garatujo insano
primeiro no ar que vou respirando
depois num papel
encontrado amarrotado no chão
desconfio das folhas virgens
demasiado limpas, demasiado brancas
. sopros de tinta
ou saliva imprópria
que confusão é subir
as escadas em caracol do problema
[idioma perdido do gesto]
tamanha angústia esta
de subir as escadas sonantes
as teclas do devir inconcluso
. quando muito uma sombra florida
de azuis tristes
ou pessoa azul
no promontório
a zelar com os olhos
labaredas que lambem
de espírito
o horizonte ―
começa-se a desarvorar de filosofia
uma contínua paisagem de estímulos sonoros
e a boca
feita caverna na península dos livros
«é um arbusto?»
«é de comer a boca das bagas dentro da boca?»
vida de semiologia e serpentes, partiram a escada
finalmente ouve-se a perda
dentro da pedra
rútila pedra ao centro
[coração do dragoeiro]
rútila pedra transluzente
que engana os caminhos
na simples razão
de os mapear
a sombra ao longe
sangrando de verde o esteio
entre personagens
adormecidas
azul que se desconhece
na perfídia secular do crepúsculo ―
e depois há o evento
a cadência dentro dele que repete a queda
fulminosa queda
que quebra os pés
com a dolorosa aprendizagem
de colá-los
de seguida
, não se pensa na velocidade branca
sobre o azul voado
e as margens escrevem-se
na violência vital do evento
atrapalham a biologia cognitiva
de qualquer ser
. a velocidade propaga-se de espanto
adrenalina sísmica de encontros
a escrutinar
na escura solidão
e o sangue vai aprendendo
repetindo cadências
de quedas ―
a memória arfa como um pulmão
trabalha confusa
o que possivelmente nunca entenderá
, escapa-lhe o tempo
e a sua noção:
um jogo perigoso de angústias
um jogo perigoso de múltiplas quedas
a memória arfa
cansada e desentendida
rodeada por músculos esmagadores
. como se finca a biologia
no movimento translaccional
do pensamento?
a vida surge
antes de qualquer resposta
[um corpo
esguio e curvilíneo
desenha-se pelo vínculo
à paisagem]
sim, a vida
dir-se-ia descarrilando
no carril?
― imprecisões da precisão
repetir o nome
a ponto de fusão
[este é o momento
em que as células não respeitam
o lugar comum]
, a vida
dir-se-ia desviando
seguindo dentro
a renúncia
de aspectos
: a linha de água no vidro é a linha quebrada do espelho
a linha intermitente da memória
rasando de mentira o quotidiano
― esvaziados todos os olhares em volta
como quem regressa do exílio absoluto
como quem regressa da fome última dos astros
, herda-se o pranto como se líquido precioso
o cansaço irado
da monotonia
inclinação à virgem
o peito dilacerado pelo silêncio
com a magnitude atroz
dum mapa das dores ―
, herda-se o tear esquelético da melancolia onírica
anémica vontade de sangrar azul
porque
animais presos convocam
distúrbios cromáticos
a um
modo de pensar
. a lágrima azul é funda
pesa na mão espiritual do dia
e como que escava tensa
a promessa dum poço ―
ondas concêntricas
camadas do azul tenso
, que instrumento maravilhoso esta lágrima
com um poema dentro
da própria ressonância
porque os abismos choram
contêm todas as mortes
todas as possibilidades de vertigem
são geradores
de comiseração convulsa
sangrando as telas
e a música
. se o turbilhão na imobilidade
consegue humidade de pensamento
a jovialidade
do tempo
transcorre indulgências à ignorância
[perto a noção da música
das esferas]
uma rocha distante no deserto ―
o seio róseo desponta ao fundo
um homem nu reconhece as pautas
ao atravessar o deserto
o corpo reimagina-se
esquecendo-se da violência da água
de tudo o que a água dá tirando
confuso na intromissão
de processos em cascata
de reacções surpreendentes
quasi magia
o corpo ecoa
e os espelhos seguem-no
cegos na pouquidade de líquido amniótico
, as máscaras ósseas usadas no labirinto
transtornam as vozes
e os sons da energia vital
formam uma
falsa caixa de ressonância
para envenenamento dos sonhos
o corpo ecoa
mas o nome não é o eco ―
mas um halo sanguíneo fala
parece-se com
um pedúnculo do grande universo
insurge-se com a
frescura dum limão
que fere a ambiência da sala
. o reservatório
que oxigena o discurso vivo
dos livros mortos
[mortos de arrumação]
gritos gritando a tartamuda rouquidão da solidão
― a escuta supera
qualquer fala
porque recupera a linha
do outramento
, o estilete sanguíneo retoma
marcada posição de sobrevivência
às fases |às frases
remarcada revelação
não imediata
duma suposta identidade
. oxigenar por vezes
ilude apenas
penas e
previsões de antecâmara
acelerando
muitas vezes
incidentes de ampulheta
lançando os dados
inusitadas vezes
. dar sede ao arcanjo
instigá-lo na sua nuvem
de arbítrio intangível
― que maior vontade terá a tinta
como legítimo veneno?
, dar sede ao arcanjo
dar sede
como dar de beber
soprar incêndio
a sangues
por desbravar
o vento senão língua
ausência como
órgão disfuncional
o vento com mãos
a procurar
o que terá perdido
― ninguém explica
este arraial de sombras
vão-se calando as vozes
nas esquinas e esculcas
vão morrendo
os sonâmbulos engravidados pela língua
a rua mais pobre
de pobres
de limpa pobreza
: a rua menos rua
, linhas de pensamento emaranham-se
evolam-se como impromptus
de schubert
adocicada neblina óssea
na orla marítima
do desassossego
. que a água fala
em turbulência
[espuma de pensamento]
a água movimenta-se dentro dos olhos, dentro das imagens
movimenta-se como música
energia em força incontrolável
à espera do caminho
e não procurando-o
como música mas não esperando
o compasso ―
não há obrigação
antes libertação
... e nisto há muito que os rebanhos andam enganados
. ir contra a corrente
propicia truques inoxidáveis
[os salmões sabem disso]
o conhecimento
é das espadas cortantes
, porque flores bajuladas
apodrecem a cada instante
não são pão
para ninguém
fugas, fugas de som
no silêncio ensimesmado
as fugas
do fluxo de consciência
frases dentro
das histórias
do corpo ―
por um minuto
imaginar a torrencialidade duma tarde
na mente
de virginia woolf
ambiência ardente duma casa
[memória
da respiração de pessoas]
. a personagem vagueando
ora corpo
ora casa
ora lugar
[cumplicidades
do entusiasmo
pelo fogo da escrita]
a personagem
pela pessoa
impregnada
de lugar
, a personagem descarnada por vozes
que se interpelam
e atormentam
quem não sabe vaguear
a personagem engolindo-se a si própria
entre os corredores da casa
. creio que o fuso
seja talvez
a premissa basilar
da teoria dos êmbolos
desenhando
em desmesura
a geografia do mundo
sacudindo
as areias
e lambendo o suor
da última noite ao relento
― a génese do belo
começa na comissura dos lábios inquietos
tremeluzentes na ideia
do jogo da língua
, lábios róseos
túrgidos de liberdade
e inocência
lábios róseos
de framboesa
que roçam timidamente
a vontade do sol
… depois há uma pausa estacionária na fundura dos órgãos
: crescendo como nunca
os órgãos enlaçam humidamente
membranas de gozo
líquidos migram emocionalmente
atingem uma zona de concreção real
do movimento feito corpo
quasi música
, que a música sonha
com os pulsos abertos
livremente indefesa
a música sonha
nos ouvidos
sonho sonhando o sonho
seccionando
a planta das naus
― a origem surge
como mal-entendido
qualquer coisa entre os dedos
assustando com severa sujidade
a brevidade do dia
. o sonho
a terra da imaginação ― os olhos enlouquecem
órbitas do inimaginável
, mas como conceber água?
toda a água é roubada
pelo menos a do nascimento
como apresentarmo-nos ao outro?
um eu mais do que o outro
em frente ao outro
e com um espelho atrás das costas
no momento
de despir a pele
os olhos queimam abruptamente
a água dos sonhos procuram uma terra
que sabem não existir
e engolem-se mutuamente como poços profundos
. as aves que dormem no corpo
condicionam o voo
sobre a real vida abandonada
nos livros e
pergaminhos
, dormem operando insónias
ao herdeiro do ancoradouro
dormem velando
a cicuta tardia das estrelas
que rasga as velas
das caravelas ―
aquela terra branca
alimentada de cinza
pelo visionamento de guerras
poderá
vir a ser um necrotério
para os sonhos
… não sei com que
sentidos
perscruto caminhando
perscruto a fugidia verdade
em versos soltos
ou nalgum zénite do muro
onde o girassol
consente esborrachar
a cabeça ―
transporto comigo
os óleos excessivos da jornada amarela
se bem que preferiria
a fímbria perfumada de sangue na brisa
que me aguça o rosto defronte o horizonte
, acontece sempre
nalgum intervalo
entre ser e estar
uma avalanche torrencial
que define
a temperatura do ciclo
um intervalo
que na grande conjectura do tempo
pode ser suprimido a qualquer momento
sem grandes perdas
entre marés respirantes
do universo ―
pouco conta
no entanto
uma lágrima de suor
ao redor do mamilo
faz brilhar o sol
e é daí em diante
na noite mais escura
um sempiterno
ponto de luz
. gangrenado o sangue
entre grão de pólen
e grão de areia
porque não almejar
a grande liberdade
do crepúsculo?
acesas
as manhãs perdem-se
como fósforos
faltando
o ar rasurado da paixão febril
. o pássaro na noite
ensina
as assombrações
a tremerem
a água cerebral
― o cristalino dos textos, um canto enviesado ―
, com o calor das asas
o pássaro
assassina o gelo
de espectros
ávidos a ensinar a viver
[trabalho necessário
na vigília do sono perigoso
das leituras]
, uma sólida
gota de cheiro
guardada nas plumas
do peito respirante
[a interrupção carrega sempre
trejeitos do coração]
. o pássaro e a noite
de olhar o quartzo
entre poemas
e problemas
[a espera confere profundidade
à água cerebral
cada vez mais escura
entre os nódulos]
se o linho escrevente amornar a veia
entre o fogo marinho
tatuado no peito
darei a cantar
a sede de tinta
coagulando na garganta
o sangue envenenado
do medo ―
acompanho os reflexos fugidios
do gume de luz
não encontro paz
na enumeração de marcas de água
neste piso comezinho de observação
, darei de herança
uma crua visão periférica
subtraindo
endereços e adereços
carros, roupas, telemóveis
forçando
a carne no riscado
de plástico e betão
da civilização
― mão táctil reabrindo-se
numa escrita pulmonar
baralhando arteríolas
e vénulas
de casos, acasos e ocasos
fecundando pensamentos
e recalcamentos
abraçando
o nomadismo desprendido
como última ressalva do espírito
. mas o périplo pelas cidades do mundo
[lenitivo salvador nos primeiros tempos]
torna-se numa
grande adaga perigosa
[suas cintilações trespassam
o coração do albatroz sujo de petróleo
chegado da notícia sangrenta dos homens
da ganância dilacerante da ignorância]
. a fome de vida absoluta
desagrilhoada de ritos e obrigações
a fome
de propósito, de propósitos
depois de revolvidos os costumes
e encontrados vazios os bolsos
cosidos com um anzol enferrujado
os primeiros sinais chegam com o olfacto
todo um cérebro salivante
o cheiro a metal lodoso
de umas antigas chaves
que marulham a infância
e o som ao abrir a porta
enfraquece os cabelos
ourejados por um amor
já defunto
[de cidade para cidade
a conglomeração duma alma oxidada
em cada relampejo
do crepúsculo]
chego e apercebo-me da fulgurante força do lodo salsuginoso
na companhia de gatos envelhecidos junto ao mar
caminha-se para um mundo mais mudo
sombriamente mais mudo
com explosivas tosses
por dentro de bocas cosidas
por solitária amargura
com explosivas tosses confinando
um cancro maledicente
caminha-se para um mundo que
ao calar-se
grita monocordicamente
o terror dos seus dias
e que apesar de ensurdecedor
ninguém realmente ouve ―
começou no grânulo de loucura
de a todo o custo evitar qualquer confronto
utilizando máquinas para tal
começou no
grânulo de loucura
de isolamento compulsivo
para criação dum reino de egoísmo puro
confundido com autopreservação
. agora fala-se por gestos
da existência de falsos sonâmbulos
de palavras apodrecidas
traficadas entre eles
, a rua afigura-se irreconhecível
muito perigosa até
por causa da omnipresente suspeição
os olhos destes seres crescem a cada momento
as cavidades oculares alargam assustadoramente
que quando se esvaziam tornam-se
infinitos poços em espiral sem fundo ―
ex-libris da permanência
a poesia ― possibilidade de abismo
capaz de florir
a partir dum esconderijo
dando origem a
um gomo de cor púrpura extasiante
com coração de sal
e timbre sonante
deixando pétalas de pedra
em lugares de perdição
como este
um raio magmático refulgente
numa tarde de esperanças
em que uma rapariga de cabelo louro
fere de luz a ria
coalhada de verde fuliginoso
com transfusões de azul cobalto
. falaram-me de rochas inseguras
de agulhas cárneas no tecido urbano
que não tardará
a desmoronar em cada sonho do mais longínquo habitante
da insular ausência ―
, falaram-me da falência orgânica do rosto
fustigado por notícias
erosivas
do instinto feroz, carnívoro
que por encantamento
permanece desolado em cima do seio de uma pedra quente
no bocal do promontório
falaram-me mas não retive
porque também sou paisagem
do meu próprio isolamento
. as esferas brincam na mão
são um relicário incomum
porque invisíveis à música
um passo
um timbre
o pássaro afia as asas no vento
desliza entre conversas utópicas
de grandes continentes ―
não tem medida uma vida
interceptada por grandes planos para o mundo
, uma mão de terra não é uma mão de sangue
como explicar isto a cérebros que funcionam
a nível nuclear?
a solução seria talvez deixar florir a terra
numa mão de sangue
à vista de cérebros
ditos nucleares
permitir a fala à natureza
dentro da natureza
e esperar
. a espera é o único grande continente
o útero que valerá a pena preservar
a mãe da permanência
em contínua procura
perante a orfandade do mundo
esperar observando
os olhos dentro dos olhos
na verdadeira altura de olhar
e ver
o que sobra de verdade
depois da terrível ganância da humanidade
... nervosas as mãos abotoam a camisa de linho branco
, a força da seiva de pensamento
atrapalhará a progressão
ou turvará a linha de visão
… nervosas as mãos perturbam a boca
o linguajar flébil
da insegurança
. o homem vindo do interior de uma máquina de escrever
arranhado de estigmas e lendas velhas
o homem absorto
por si só
a braços com a vida não decantada
sedenta de oxigénio vivo
aquele que marulha
em espiral
por dentro
, aquele que teme
a invisibilidade da morte
que teme
consumindo vorazmente
adrenalina de entrecortada
qualidade
, o homem de abdominais escavados a carvão
[em contraluz]
pele morena trabalhando
reflexos ao linho branco
da camisa irregularmente abotoada
de nervosismo
― nem tribunal nem catedral lhe ampararão os passos entre pátios
. sob o gélido perfil silvestre das escadarias
corre ainda o fio lacrimal
não se pode silenciar
tão puro choro de planta
isolada na urbanidade
barcos encalham na dificuldade de falar
já não é o mesmo o rio da infância
as sombras
consubstanciam-se em metáforas pesarosas
arrastam a voz até ferir a garganta
na aflição da distância ―
quando o corpo é uma planície estranha
à necessidade de falar
[não deixando nunca
de se expressar
doutros modos ainda sem nome]
quando o corpo estaca
perante a realidade frigorífica
sublinha fixamente
a denúncia consumada
pelo «não fazer» gritante
. num estado de alerta
a ambiência comunica por minerais
fragrâncias metálicas
saturadas de significados
a iminência do perigo
reincendeia a noção de deserto
a tinta abandona
textos escritos em tempos áureos
e certos livros
tendem a morrer anémicos
nas estantes ―
[gato amarelo aparecendo abruptamente
junto ao fuso rústico do telhado
banhado pela lua]
e à memória um gato chama
outros gatos
e todos miam
a cor do pêlo sobre a noite
. os gatos desenham a elegância de estar
pelo modo subtil
como andarilham
o mundo
poucos os animais
que não magoam a música das coisas
os gatos
brilham na adversidade
os gatos
faiscam personalidade no escuro
― guardada a imagem da natureza no seu âmago
uma espécie preserva-se
delineando o território real
doutra espécie
no seu território mental
, a espécie humana julga ter
o peso do planeta nas costas
e mesmo que não tenha
pelo menos a culpa lodosa terá
sendo o maior
e mais espalhafatoso parasita
disseminado no presente
corpo celeste
. um fogo preso entre os ossos
entre a caveira que perdeu
as maçãs do rosto
um fogo triste
irrecuperável na intolerância
na câmara comum
cada vez mais sombria
o desalento vem com os anos
com o bolor da desilusão
olhos baços trazem olhos baços
a morte em solidão
o espectáculo da sociedade continua
milhares de pares de dançarinos
em contínua competição
[dor
de flor
na flor
da idade]
rodas dentadas
da grande ilusão
contando com resquícios
duma veia de amor
tão antiga como
o mercantilismo
, os pares dançam a sorte
que não compreendem
dançam numa maratona de esforço
vendados com a vida presa
perdem tempo, ouro que sangram
na pista de dança
eliminados um a um
para gáudio duma plateia de mal-amados
; em causa sempre a homeostasia
o equilíbrio da vontade
na permanência
o estar à tona
descredibilizando a racionalidade
sob a alçada pulsante
de mínimos veios róseos do corpo
o impulso desabrido
traz espaços de redundância cíclica ―
jane eyre engole o pássaro para que haja liberdade dentro de si
a força de conter a ave adestra contrariedades
que oxigenam o sangue
retábulo a retábulo
a vida de passagem em passagem
memória claustrofóbica ou miragem
cerne imagético
experimentando o alto corredor luminal
como recriar lugares acesos de aromas cardíacos
em alturas de aura fria?
como ascender à tona líquida
do quotidiano
driblando traumas
aos tecidos frágeis do pensamento?
a metáfora do pássaro
constitui uma gaiola viva irrigada
a prisão é na verdade identidade
de presença
jane eyre não engole
o gigantesco pássaro
é o pássaro ―
. hic et nunc
o sentido firme
de ancoragem
sobrevivendo
à secura da medula
e com o alecrim florido
sufragado no peito nu
aqui e agora
o estilete pobre da primavera
atravessado o verão
da idade adulta
vistoriados
todos os ouvidos campestres à escuta
e
diligentemente lidos e rasurados
os pergaminhos amarelecidos
da lembrança ―
hic et nunc
nesta tarde redonda
como a tontura do sol
os frutos da língua
à míngua
com o tesão lúbrico
do deserto
os pés doridos
a cabeça queimada pelo suor
aqui e agora
o decurso da história
[o que uma mão conta
ao fígado e ao coração]
e já silvestre
o linho roçado
nos braços
― deponho os frascos
da recente alquimia
vibro
com o cansaço febril
das iluminuras mentais
trabalhadas à janela
e nem me
questiono para que servem
estas andanças
… sangrar silêncio à poesia
tem os seus cortes de perigo
isto é
prende-se com dicotomias do veneno
[o vitríolo das sombras]
. visito os sítios demorados
da palavra
ideia gotejada do espanto
em estado embrionário
um porquê viral
que não se lê por convenção
que se lê por antevisão
e não usando os olhos
, só a intuição conhece as montanhas azuis
do que se vai
tornando horizonte
respiração supressora
do tédio mortal
só a intuição alegra
a água filosofal
que brinca na cova da mão
antes de qualquer bem | antes de qualquer mal
, e de resto
a procura do homúnculo na arte
ilude as searas na planície
o que é
vermelho dúctil na escuridão feminina
e grita ovulação
de engano em engano
se engalanou a arte
e daí o engenho de uma gota de pejo a caminho
de ser placenta
porque o orvalho é
a música líquida das esferas
[segredos do sal no fogo
antes da matéria negra]
há depois a seiva lenta de lutos aturdidos
por um grande esquecimento
uma seiva branca
e grumosa
irmã do leite estelar
trabalha o demiurgo na noite saturnina
entre ácidos
e bases
trabalha
minuciosamente
os ossos esburgados
[procura neles o marfim mágico]
ossos esculpidos
com a mesma lonjura
com que rodin imortalizou
o mármore
… sinto o anónimo peso morto nas pernas
quando deitado
sinto-o como
identidade indefenida
que me rouba o ar
do crepúsculo
à aurora
também um
formigueiro crescente
reagindo
à sinfonia fantástica
de berlioz
[uma assembleia
de manchas
na circulação do sangue]
nem imagino
cor na velocidade arterial
nem distingo
vinhetas episódicas do real
dado o
esmagamento das válvulas ―
esbato o corpo trémulo
na hipótese pétrea dum fim
mimetismo ocre
cirandado
entre árvores brancas
do pensamento
… almejo ser rocha
numa forçada
mineralização onírica
carregando
anónimos pesos e sua enigmática energia
. a pose indicia o vício de tremura no rosto
, intrincado o gozo
de caravaggio no estúdio
― o cheiro raro de lençóis, mantos
e lantejoulas
de empolgadas cores vivas
encarnados, brancos
e o
ouro envelhecido da pele
pendendo suspenso no brilho do metal
[adaga ou dinheiro]
. o modelo move-se ligeiramente
desviando de súbito o olhar
como que benzendo de alívio o horizonte à janela
, e nisto a impraticabilidade da tinta
em cada pincelada cirúrgica
― a luz fende
em segundos
qualquer divisão anatómica
do rosto
a pulsação acelera desalmadamente
quando por diálogo
se dilacera
a água dos olhos
o pranto insubmisso
de lágrimas futuras
; porque o modelo modela-se inteiro por dentro [na carne]
caminhando no intervalo luminar de telas sangradas à noite
, não esqueço a fragilidade cardíaca de artefactos
só assim se restauram atalhos emocionais
que impõem o ritmo
às estações
― um lugar velado
curiosa ausência perturbadora
[acendem-se as entranhas
no mínimo faiscar
dum rosto]
. a linha de água da maçã do rosto
apenas mais tarde comunicará
com a linha de osso do âmago
da alma
, a alegria tridimensional dissolve-se no gosto
nisto nada de mais elementar
sendo o fuso germinativo
da língua
o mestre de cerimónias
; a dissolução constitui um acto preparatório
para o abismo
[famigerado salto
para o vazio]
se bem que as múltiplas quedas
do processo
ao gerarem uma
consciência retrospectiva
são rebaptizadas
de mortes sucessivas
em cada transição de estádio
― a alegria tridimensional não é mais do que algodão doce
instrumento da grã ilusão entre os ditames da permanência
. o momento em que tudo é posto em causa
é só um
o nascimento
como doença que só a morte
curará
― o corpo vai no andor
em procissão
com três focos fulcrais:
sexo, coração e cabeça
desejo, verdade e razão
hildegart rodríguez carballeira
[espelho eugenista reconvertido
de sua perturbada mãe]
reconsidera noções
ao perímetro asfixiante
da frivolidade familiar
experimenta
numa frágil
e pouco duradoura floração
o amor
um jardim
demasiado pequeno
para respirar
renomeiem as ruas, rebaptizem as flores
retornem a baldio
todas as terras em equívoca posse
ali vai no andor
o fruto do sacrifício
em prol da liberdade
a língua azul
no ofício uterino da escrita
flor que desabrochará no silêncio da terra ―
a qualquer momento uma rapariga e um rapaz
reacenderão o mundo
olhos a engordarem
o horizonte
linha violeta
ofegante em cada corpo
com risos
numa amálgama de luz
― onde começa a morada da raiz fecunda
entre as artérias do mapa?
a vida, toda ela
feita de acidentes
ângulos súbitos em esquinas
, reinventar
recomeços
reclama um país próprio
imaterial
uma morada
mental
tanto harmoniosa
como afectuosa
. a rapariga enlaça em ângulo
o pescoço do rapaz
desenha
na túrgida pele
o cheiro apaixonado
de frutos
a haver um dia
e o rapaz adormece
no seu colo sobre uma fraga
onde começará a sua verdadeira morada
. o âmbar diz da verdade de existir
entrega-se ao presente
como desenho
de um útero
, é um ovo estranho
em toda a sua compleição ―
as vozes escrevem
… ouvem-se no plasma
mas elas escrevem em simultâneo
sobre o dia
sobre a noite
são o alimento
do eterno aturdimento
. quando a multidão anónima se cala
espectros sobejados da jornada
precipitam de raiz
novíssima visão
, trata-se de varrer
o coloquial do cérebro
trata-se de
contrapor conhecimentos
desafiadores da alquimia
. as vozes estão dentro do âmbar ―
umas vezes são só barulho
outras vezes dialogam
em carne viva
muitas estórias
dentro da história
de perímetro aberto, inconcluso
― a confusão que é a minha boca
nos retrocessos da linguagem
e alimentação
: o que reservar de orgânico
aos nocturnos de chopin?
, um fio de lágrimas azuis no pátio de mármore
chorado na adolescência
a culpa em caroço ósseo
[falso marfim]
. minha boca confusa entre chuva e saliva
balbúcie espumando roxas
as palavras
entre agulhas
, e não há água pura
entre os lábios
nem amor seguro por paixões fugazes
o coração substituiu as válvulas por cordas
e martelos
o respirar pesado
por sustenidos vibrantes
sobre a sépia nocturna
de longínquas estrelas
, tão vidrado de música
o coração de chopin
entregue à polónia
através da irmã
soa a água pura
o piano-coração, esse órgão de lume
fazendo arder a chuva
que toca os lábios ferindo de poesia a saliva
, um convidado de pedra húmida
com os olhos
embaciados no futuro
sem a longevidade
das mãos
perdido
no presente magoado da obrigação de assistir
a isto tudo
[que se saiba o viandante
nunca sabe o seu lugar
que se saiba
não há uma mão milagrosa
que cure a solidão das almas]
. o convidado de pedra
convida a partir as mãos
entre o pão
conta da vida que ignora
o seu apagão
― de linha narrativa castrado
por onde começar
o convidado
manchando-se
de chama no crisol?
, os mapas alteram-se na manhã do pensamento
e os rostos
propagam-se como continentes
à velocidade da luz
que a geografia pensada
é um engano de púrpuras finas
e o convidado de pedra
a única montanha na sala
. o espelho de águas violentas
[o rosto que chega
com música implícita]
não há texto
apenas caligrafia de corpo inteiro
, uma energia de pensamento ilegível
quase que ininteligível
fúria baldia
do outramento
― o que esperar de perímetros, falhas de salinidade?
a centralidade do espelho
o crânio ressoante
da personagem personificada no sangue
em carne e osso, em pessoa
[ensaio
terrível
da verdadeira insubmissão]
a centralidade
a tentativa dum rosto nítido
ao primeiro raiar d’aurora
é um equívoco
agridoce, convidando a derivações
lendo uma a uma todas as tremuras de mão
em sucessivas aguarelas
da mesma aurora
[dentro do mesmo rosto
uma identidade apagando
linhas de ensaio à personagem]
lembrando algo como
o carnaval dos animais
de camille saint-saëns
: a exegese da dança, claramente impossível
porque espasmos
não são palavras
frases não são sequências
de gestos corporais
no espaço
essa exegese não existe
apenas vivência
, que muitas vezes a oralidade atrapalha
como cadeiras escuras
dispostas sob a égide
de pérfidos ângulos
: e os amantes dançam
na ilusão encenada de voyeurs
porém
apenas estão justapostos num particular
momento de suas vidas
nem tão pouco
amantes sobre cena
, traças iludidas por luz artificial
órbitas confusas e não atracção
como antes se pensava
assim as personagens
de café müller por pina bausch
personagens nem de bem nem de mal
mas de sonambulismo premente
em translação perigosa
magoando-se tropegamente
nas cadeiras escuras
como se magoam
contra os objectos
as traças iludidas por um céu artificial ―
o cheiro da dúvida mancha o azul
decaindo o grande oceano
ao redor da boca
: quem ama
morre a cada momento
na planície branca da memória
morre
e continuará a morrer no amuleto mineral
passado de mão em mão
a dúvida espessa a lânguida angústia
activando êmbolos cardiometabólicos
a dúvida
[uma faca romba desviando a acuidade do olhar
a perdurar
nas entupidas veias]
a estrada pode fazer-se de nuvens
brancas ou negras
a estrada pode fazer-se
de lágrimas quentes ou frias
só o caminho
deverá interessar verdadeiramente
agora que se atingiu
o ponto pérola
da dor ―
quando a voz destoa
e a mão duvida
[da sua firmeza no lance poético
como nova alvorada a flutuar
no pensamento]
quando a voz
duvida da sua continuidade
nessa réstia de vibrante azul
. as paredes da cidade rascunhadas em profundidade
intestinos tortuosamente
sulcados
sobre um painel mental
de sonhos abandonados ―
ruídos carcomidos pela ideia de corroer
[ácido venenoso nos ouvidos]
o barulho agreste
do fim do romantismo
e naturalismo
, um jardim sem jasmim
e sem mim
plantado no perímetro comercial
onde outrora pulsava de aromas
um coração
e as mãos intentam
um plano cinematográfico
mas é
tarde demais
. apesar da miséria estética e cultural
não está no exterior
o mal
talvez no peito mal cicatrizado
onde outrora pulsava de afectos
um coração
: olhando a cidade vê-se o povo
, há um fétido abandono
em cada interior transeunte
os olhos fatalmente feridos
pela mácula cancerígena da globalização
, importante será não confundir os sonâmbulos visionários
com os transeuntes
de interior vazado e doente
a masquerade é densa
como uma selva
onde a luz é irrigada deficientemente
. o bailado das metamorfoses
mescla todas as formas
transitantes entre si
… na rua dos sonâmbulos
uns foram os outros
e os outros serão aqueles
que em si mesmos
negam alguma vez
terem sido qualquer alma
, e aqui reside
a questão:
quando o ser se revelar objecto
o que mais perdurará abjecto
na reles indústria de máscaras
que se tornou a mais simples vida?
: ovídio corre atribulado nos bastidores
sim, a natureza do divertimento
é obscena
a masquerade
conserva o poder genético das metamorfoses
aliás aguça-o
, mas neste eterno bailado o que mais se destaca são os olhos
girândola de olhos a olharem-se
longe da música e da dança ―
olho-me, sou um vidro
de contínuos reflexos
contenho mil
fragmentos
de cinematografia inacabada
, difusamente rodeio
pensamentos de imagens vivas
tento
entrar nelas enxuto
. confunde-se a música com a cor
o espasmo coagula
no labirinto refractado
, olho-me
nos outros
arrisco uma pele impessoal
[breve passagem]
ligeira tensão
ao emaranharem-se
os lençóis energéticos
dois semblantes respiram
periferias arteriais
são um todo
dividido
mas com sensibilidade atiçada
respiram
fazem brilhar o espelho
pela contiguidade de dentro
da imponderabilidade
até ao sete-estrelo
. a espera pressupõe um arcabouço feminino
para que se possa abrir
o lago das visões
é isto esperar
no redondo da lágrima azul
crer
no musgo vespertino
da saudade ainda fria
forçando a mão
no limiar do pulmão
encharcado de pássaros
[o caule do cálice
vaso fundo
em silhueta púbere]
a virgem das estepes apresenta-se
com uma pele de envergonhar
papiros e folhas tropicais
, ela convoca
a súmula triste
do vagar dos machos
sopra
uma flor púrpura
sobre a tarde
da fúria masculina
lega uma fragrância
ímpar
perpetuando
o desenho da sua púbis
nos selos timbrados
da memória
: o que de argila
se reconhece
nos movimentos crus
que o corpo argumenta
instintivamente
a agrura do esforço pulmonar
no mínimo que fica
de humano
de argila branca e vermelha
osso e carne
esbatendo o tempo
sonhado em cada batida
rítmica
do coração
... e há a noite
em que sonho com o sol
numa mão
tendo a outra
fechada como floresta
enigmática
duas mãos distintas
a anularem-se
em trepidações
do sono
com um desfiladeiro
quasi tortuoso
quasi bruxuleante
onde
a imaginação aguça
o pensamento
quebrando a razão ―
a linha ténue do osso filosofal
compromete uma visão funda
mais ampla
[o peito
continua a ser um campo
de minas
frágil centro
de mariposas extenuantes]
, fica sempre por explicar o prisma luminar
a raiva de lâmpadas
à frente do sol
: tragédia de estrelas de luz ácida
sobre teorias do pensamento
uma linha ténue
à mingua de respirar
― tudo isto por causa de um rebanho de nuvens
nuvens de configuração zangada
nuvens de branco a cinzento quase negro
num rito
de passagem
aquando o turbilhão cerebral
, as feridas da linguagem ressoam no corpo
o corpo ressoa em ferida
o pensamento magoado
algo escusado
entre os confins da permanência
mesmo escoando qualquer eco da aprendizagem
verdadeiramente escusado este sofrimento
estas feridas traumáticas
a partir de desenhos de linguagem
. guarda-se o ângulo do perfume
entre a acção
[a ser relíquia
ou justificação]
o ângulo
da flor de dor
que assombra o estômago
― como escrever a alegria
da energia em sofrimento?
, guardam-se sítios imemoriais
da liberdade
da infância no sonho
qualquer burburinho
de pequenos gestos
perdidos nalgum álbum
― como emergir
duma realidade que não existe
dando-a a conhecer organicamente
a legentes da montanha
para lá do azul?
. o tempo em análise num corredor de esforço
: medidos os membros na devassidão do espaço
[uma forma de dicção teatral]
envolvidas que estão
todas as membranas corporais
no desalinho da espacialização
metrificando mucosas e alaridos verbais descentralizados
numa sumária hipótese de imortalidade
. o tempo em análise como entropia funcional
… o ser desamparado
sobre águas desconhecidas
o abismo
de um abraço possível
mesmo que sobre si
nesse mesmo abraço
se desdobre outro ser
abraçando a si próprio
, as águas marmoreadas
dum verão escuro
porque perdeu
a luz de outrora
― nem sempre o calor
oferece os rasgos de energia
através
da pele
até ao cerne do corpo
longe a luz do escuro interno
[permeabilidade selectiva no que há de ontológico]
depois
há que trilhar conhecimento
em cada órgão
aumentado e segmentado
pelo músculo
da leitura absoluta do mundo
. sobre as águas marmoreadas
o verdadeiro móbil do ser desamparado
é a emoção
sua miríade de ângulos de toque
na imprevisibilidade poética
― o fogo da juventude ardendo
pautas ao ar
paixão à flor da pele
[a música segundo mozart]
o som-sangue age
na pétala de sal
num corrupio
de lágrimas e suor
, batidas cardíacas
aumentadas na catedral
substituem qualquer necessidade
de falar
os pássaros bebem palavras
em pleno voo
em paralelo
com o poeta que agora
olha uma rapariga
como se de ninfa
se tratasse
. o sal move-se
no olhar
, são os olhos que criam
as pétalas de sal
o tesouro da memória ―
no fio salino da joie de vivre
as imagens timbradas de sangue
estruturam volume
na planície da permanência
: estrias de água à partida
beijos coalhados
parados na boca
de abrir
o livro ardente da memória
de saber
o espelho quebrado
da mentira
, uma espécie de lodo
povoado por sonhos
à margem ―
lembrar que rosto amado
decalcando
um outro
magoado?
o que revês ao contrário
medindo maleitas
soprando remédios
ó pobre sumário?
constituir de voz e penumbra
um balanço de sombra
um arco de deslumbre
a casa-foz
do que brilha ainda
sobre a cabeça
ferida
: as estrias, cicatrizes de cinza
de machucar
os lilases
― a vida
, agora o ouro incendeia o colmo apodrecido
[álbum de família]
vestidos de gesso
contam o passado
carregando tijolos de injúria
fardos a contrapeso
num exílio interior
indumentária indolente
a rodear
um fogo doente
como que
dançando dentro da cabeça
uma câmara aproxima-se do negrume
dum girassol
morto pelo inverno
cabeça cabisbaixa
de sementes ocas
olhando para a neve
, agora as páginas dos livros
são de pele
ler tem um
cheiro animal
[o livro pulmonado]
o caroço da língua trai a astúcia do texto
uma árvore cresce abruptamente
do abdómen do leitor
. o caminho da margem
defronte a paisagem
o legado tortuoso
de anselm kiefer ―
retemperado ânimo só de folha
breve e leve
como uma
brisa entusiástica
sobre a fundura vertical
do pântano
que é a conjuntura social
do existencialismo
de ter por casa
, a angústia mata
[nas esquinas da música]
mata
lentamente contra a pequena margem do papel
com o veneno
da escrevência nauseabunda
de retórica mandibular
a ter também
por casa
como jarra de cristal
num centro de mesa
com a sua
vertigem de quebrar
(em qualquer plano de cena
o pormenor cardíaco
permanece oculto)
. humores contraditórios
ateiam cinismos
à boca húmida
de aflição
, os idiomas não cabem no corpo
são enormes objectos duma terrível abjecção
. custoso o equilíbrio do semblante
entre olhares
até nas idades
mais tenras ―
o fuso cromático da dúvida
alavanca arritmias
que pulverizam a cor social
o fuso parece
assumir o rosto
e é esse o cerne
da grande perfídia
: a idade do corpo
não tem a idade do jogo
e isto deve ser multiplicado
pela veleidade de múltiplas parcelas
olhando
friamente o tecido humano
adentro o universo
, o olhar de uma idade
cambia de corpo dentro do corpo
com a
memória a complicar percepções
rente à raiz
de cada trauma
. vergonha e decepção
num vaivém de angústias
transitando
de corpo em corpo
de geração em geração
amnésia carburante
que alimenta o jogo
, o rosto interno
[labareda contida por água fria]
insurge-se
em subterfúgios do diálogo aberto
a qualquer manifestação física
. a fisionomia transumante
incorpora a gravidez do mundo
livro carnal
de todos os monólogos em diálogo
: no encaixe de painéis
de sobrevivência
e subserviência
do quotidiano
a criança esvazia
o adulto atormentado com o carrossel
da terceira idade
sem a mínima
noção de habilidade
, a identidade recicla-se a todo o momento
independentemente
do espaço e do tempo
[a criança
o adulto
o velho]
um efeito cascata
de linhas fundas
precipitando
a rosa
na árvore ― poema livre
vivo | incorpório
à procura
de corpo
… a fusão de vozes perfaz uma voz?
arvo pärt chora benjamin britten
pelo peso-sustenido
algo rompe-se
num antro de véus sanguíneos
algo
irrompe do crepúsculo
à aurora
. escuto o som-sangue
na casa ocre do silêncio
meço
em pedra de bezoar
o seu grau de pureza
, nada me tem
porque existo em oblíquo
nada
me detém enquanto respiro
[inspiro, expiro ― ouço]
de metabolizar a panóplia de sons
encontro isolado
esse som-sangue
que gera vida
a partir do silêncio
: imagino o arbítrio antigo de lousas
a mentira do giz riscado na pele
(não me reconhecendo nela)
imagino consequências
visões abstractas movidas
pelo baque coronário
… pode a amplitude do sangue
imitar
a amplitude
do micélio?
o micélio não se coaduna
com a inteireza do ser
propaga
um gesto
com mil refracções
por
quilómetros comunica funcionalmente
(é inteiro sem o ser)
não se compraz
com a inteireza do ser
. a ideia humana
de ontologia
não passa de uma visão
que alimenta a permanência
brinca
com ilusões,
com percepções
de inteireza
ou refracção
― o cupido tira a armadura
despe toda a roupa íntima
e apresenta-se nu
depois de quebrar
os instrumentos de música ―
a ser micélio na sua integralidade
o sangue deveria despir-se
do seu contágio espiritual
: a surpresa dum cão abandonado
que me olha nos olhos
a propriedade
da ofensa, da culpa, da dúvida
o porte
transpiração e ofegância
na transgressão
do abandono
o ciclo, o fim, a ampola ―
para quando o desenho nítido
da conclusão?
seguindo linha a linha
(com analepses e prolepses)
que vertigens
guardar em formol?
[o enigma da caixa de fósforos]
o desfile dum outro
no outro que me sou
a cada cruzamento
a cada esquina
viver trocando
de idade ou situação
num
fechar de olhos breve mas intenso
quase invasivo
ou último reduto
por isolamento
como delvaux
formulou nas suas pinturas
o eco do grito mudo
a grande planície do abandono
. a velhice vela as núpcias brancas da juventude
[velório paradoxal da emoção risível em mosto]
o velho vê-se
perdido de nada ter
herdado da jovem
a morte como
falso azul
falsa brincadeira de doer
humidamente nos ossos
, o velho arreda-se
de qualquer felicidade
porque ilegítima
de qualquer
entrosamento disruptivo
por dar demasiado peso
à noção de futuro
. por paisagem o deserto quente e seco
nenhuma noção
de pátria ou país
reverbera antes
a paisagem crua na carne
no arrepio clandestino da paixão
confusa entre mantos
e véus ―
o deserto quente e seco
com uma linha azul ao fundo
(talvez uma promessa de sal)
e ocultas
todas as referências bibliográficas, filosóficas
que reverberam sob a culpa e o luto
, transformei a minha cama
numa armadilha para livros
preservo a vida
pela luz de leitura
e não há um só nome inocente
tudo está manchado
com nódoas de dor
preservo a vida pela luz de leitura
porque não cabem
as palavras no estômago
não cabem
e por isso sobram para serem ditas
. de noite caço livros
daqueles que vertem palavras
[livros hemofílicos]
livros
incapazes de conter as palavras
ficando com elas a gravitar
indispostas
a apelarem
a atenção dos caçadores de livros
livros
feridos de abandono
― a minha cama apanhou três livros
na última noite
três livros marulhantes
enredados de abismo
no lençol
a brincarem
com o meu cheiro
(folia que suja de tinta e sangue o meu leito
que suja de claro a minha autoconsciência)
. o ângulo por onde medram as ideias
chega tardiamente ao sangue
a concreção
esmaga a capacidade de sonhar
, o ângulo vivo
inunda de poesia a rebeldia dos sonhos
murmura
as margens do não
abrindo vertigem
às mãos
: na periferia quente da biologia
os objectos matam
e tornam frio o reduto
dalgum poema
― o câmbio energético
seduz como qualquer abismo
ao revelar
os corpos
desenhados por gestos
apagados abruptamente
a cegueira em redor
legitima a visão do sangue
[o sangue espiritual]
a cegueira
entre os escombros domésticos
do quotidiano
como que sopra epifanias
sobre o ângulo vivo
como que
inaugura orfandade
à carne do texto
os mortos escondem-se debaixo da pele
um artifício perigoso
de vivência
isto de refrasear
o sofrimento
caminhar nas frases de outros corpos
algo de ritmo
de cheiro | sombra e voz
um ardor no peito
dor funda
na epífise do osso filosofal
[os mortos]
, eles estão nas tarefas
nos imperceptíveis
soluços da jornada
nos inesperados
esgares do rosto
incontrolável rosto
que se inclina maquinalmente
na contínua variação
de temperatura
na sucessão
dos dias
― um mover de pele impiedoso
, folheia-se a sépia
a renúncia testamentária
do sorriso
a casa inabitada da comunidade
: uma grande tempestade será anunciada
nos próximos dias
. a música tocou o ser
de microconceptualidade
todas as
estátuas desmoronaram-se
num só segundo
estátuas que
perseveraram durante anos
desfizeram-se
num só segundo ―
nada consegue conter a energia vital
: animado de vida um corpo
é uma estátua
em desmoronamento
as hemáceas morrem
as imagens apagam-se
, novas paisagens virão eventualmente
mas as estórias
não se circunscrevem
por visualização
as estórias transfiguram-se
[estátuas de areia em erosão]
todo um caminho de chaves
sem fechadura
todo um caminho
de campos energéticos contrários
a fazerem respirar
o mundo
e tudo se renegará no final
porque nada consegue conter
a energia vital
, de toda a seiva arbórea falante no sangue
guardo árvores antigas
na raiz da língua
não sei de ninhos abandonados
não sei de promessas de ave
não sei de vazios de céu
em forma de pássaro
… sei-me árvore musical
enquanto servo respirante
da permanência
sei-me
vegetal
na raiz da carne
na sombra de medos curtos
entre voos da morte
, sei a fome verde
que a música respinga
no metabolismo das ausências
não sei de filhos enganados
não sei de juras de amor
não sei de nós no coração
rente ao rumor dos lábios
. sei-me isso sim indistinto
entre silêncios
do sangue amordaçado
terra cega
como alimento bom
para árvores de grande porte
que uma e outra vez
enganam os pássaros ―
: a realidade sob
um pontilhado tremeluzente
de sons dados
à acupunctura
o halo duma mão
que agarra o tornozelo
além precipício
a fragilidade
da tónica verosímil
de qualquer gesto
― glenn gould desbrava
a escala de arnold schönberg
mãos dúcteis
sob a adrenalina mental
os acasos e os seus meios tons
agulhas
que trazem luz neuronal
no mais ínfimo tecido quotidiano
: o poliedro dodecafónico
sublinha traços
que caminham cor
no escuro
[mãos já aranhas
na interjeição duma presa]
nada se
depreende de uma narrativa
cada momento é um dedo sem unha
e exposto o sabugo
raiam as impurezas
do contacto
assim a escala de arnold schönberg
. quão surpreendente o mistério
do paradoxo
que é a vida
quão surpreendente
a sua imputabilidade congénita
a cada vinheta existencial
, o que quer
que seja
que esteja
semeado em pergaminhos idos
ou no verso branco
dum qualquer panfleto publicitário
[a dança dos regressados flamingos
clareia zonas sombrias
do ciclo humano
e vai alimentando o céu
a contrafundo
com sensuais arabescos]
quão surpreendente
o mistério
da minha própria existência
a possibilidade impossível
dum filho
encontrado estremunhado
num assento de autocarro
o mesmo poeta
de dezanove anos
mergulhado no seu aturdimento
na impossibilidade possível
de ter sido abandonado
por um filho das letras
preparo a banheira
rasgando em milhares de milhares
de pedaços
os treze volumes
da correspondência de voltaire
fogacho a fogacho
o fogo do sangue
em tinta febril
e memória
, velado por um círio perfumado no rebordo
afundo-me num
cingido banho de pensamento
saio depois para a rua dos sonâmbulos
rua a dois sangues
no presente momento
― desconfio da nova poesia funâmbula
forçada a calendários e estações
sinto-me anticorpo
numa controlada artéria
de falsos sonâmbulos
caminho perante
a estaticidade do mármore sagrado
, caminho desconfiado
entre curiosos e rumoriosos
funâmbulos
[supra-sumos donos
da palavra plastificada]
entre ditos e ditirambos
ouço uma voz de mim falando
«coitado, sofre de síndrome de mahler»