quero eu ver-me
chover
por uma vez ultrapassar
o frame
in januellarium, 2009
I
EN329 Km 7
«a árvore é lá em cima, presa ao azul»
disse-me o gato
atropelado na estrada
II
o que quer a identidade?
cores cravadas
por dores garridas
uma auréola mucilaginosa quente
nome entre
chave gorda e chave magra
[um abismo retorcido]
III
o texto onde me abrigo é um cavalo de sombra ―
percorre em mim o que de fulcral irriga os sonhos
IV
direito ao reflexo do mais longínquo abutre
ácida amplitude na sujidade tenra
das unhas
o cordão umbilical assombra-se-me na linguagem
V
entre o que se desdiz da palavra
a nebulosidade opaca da estalactite
a sós com o silêncio
VI
a rampa dada pela rocha escavada
consciência da mão humana
o muro hirto que dela se levantará
[oco]
hipotético estômago da canção
VII
texto, cadáver
cadáver muito vivo
[ovo estranho]
uma boca inusitada à frente de tudo
mas o que me interessa é a sua língua
a língua do cadáver textual
o estado dela
o que nela vive e como vive
VIII
uma colónia
[formigueiro]
anelo uma comunidade no músculo que me engana
em cada estalo sonoro
IX
um cachecol esconde aromas ao olfacto
, coisa de deus distraído
ou cruel
X
estante apinhada de livros
boca lânguida a atear papel
[fogueira da teatralidade]
marionetas vivas
do som e do espaço
o fio da possibilidade
mentira a mentir
à outra mentira
[casa de papelão]
XI
acontece para cima
e é certo haver
algum arroto
na primeira escada
[a cauda rija do almoço]
XII
há-de varrer um vento
à toa!
errar, cultivar o ovo estranho...
e se houver um lastro
a vir depois?
XIII
a esterilidade literária é um sono garboso
[silêncio acabado e sisudo]
a proposição endémica do que é dito a fazer
XIV
caminhar tem paredes
XV
olho nu
o vivo discurso das três mulheres ensina o sangue
feminino ― um subjugar livre e baixinho
tocando no caroço da falésia
mãos perdidas nos lençóis e na verdade
pelas veias e pelos tendões
mais cárneo o texto duro das mulheres
assomadas na pele feminina do homem
XVI
bebo o café no terraço
sabe-me a naufrágios de personalidade
acrescento mais açúcar, uma anestesia
as papilas viciam-se
revejo-me no filão de mármore
delapida-me o semblante
defronte a vegetação
[o coração-da-clorofila]
XVII
o relâmpago verde entrosado agudo na boca
como comboio rápido para escrever
o cão reaparece na estação
, cerra os maxilares
carrega salivante
a sua pedra de independência
XVIII
janela em viagem
retalhada estira longe
[manta vítrea a esterilizar a paisagem]
depois chegam os espectros
atordoados pela mundanidade sã
como diluir as personagens contidas
na figura cartonada por decalque
num irrealismo comovente
se é tão real estar sentado?
XIX
espirrar saúde
amiúde o diálogo-peixe altera mecanismos
um sublinhar escondido
[o segredo do marketing]
XX
propósito do acaso ou não
a vida cruza-se com demasiada facilidade
melodrama escusado dirão uns
mas depois pintam a morte
com trejeitos e trovoadas tenebrosas
porque não directrizes?
por defeito bissectrizes dalgum grande angulómetro
rectas e paralelas do ocaso perturbador
e à parte o murmurinho popular
múltiplas flechas semióticas no ar
não existem gostos perigosos
aleatório o nada
a raiz do contrário ao contrário
um enigma radicular
XXI
sobrevida rasante
ler ― voo rente
o texto
sagaz sarça fulgente
respira
XXII
o horário escalda
a garganta ―
a favor do protocolo xadrez zangado
XXIII
o ruído das páginas
ruir, ideia de ouvido
mínima claridade
o leitor acredita
na junção e no sentido proeminente
do texto ― lê
XXIV
sofá cama chão: o fenómeno da possessão
[inflama o sete no corpo]
consegue a geometria explicar a paixão numa semana?
cair responderá gravidade
regras de física e histologia
a cabeça-borrão é um terreno mutante
em transgressão
metamorfose a metamorfose
os dias passam
― o céu estrelado entra em casa ―
XXV
a doença filosófica acompanha a espécie
, tempero do que é humano afinal
[os genes infectos]
XXVI
interior do cubo negro
[risos metálicos]
o eco não perdoa
a cortina, uma espera em dúvida
fala-se do pavilhão auditivo
da sua labilidade incómoda
XXVII
é-me penoso ressuscitar um caderno morto
outra dimensão
um frio oblíquo, saturado
mesmo uma urticária ao tocar nas páginas
o cheiro assombra
[cheiro a sombras]
um medo alfabetizado para a insónia triste
visito-o tacteando algumas arestas indivisíveis
tento mesmo transpor o círculo inato
massajando as têmporas da imagem
que velha e opaca me é devolvida
desenhos palavras poemas
poemas com um nome agarrado
muitas plantas e animais
entalados na lombada
folheio devagar
imunizo-me gradualmente
de quando em vez um solavanco pulmonar
procuro a imobilidade ― presa
a língua traz preguiça aos dedos
fecho o caderno
XXVIII
[caverna meditativa]
o meu cavalo é o candeeiro
cega luz para viva luz
sangue de leitura o que se arranca
uma violência irrigada em paz
por quem se feriu provocada
à mercê dos olhos estrangeiros
XXIX
há um ovo a ler ―
um esconderijo por camadas
que me guarda silenciosamente
os nomes e silhuetas
dispenso diademas ou pergaminhos estratégicos
estudo labirintos do que é ser e interagir
― uma planta carnívora
um bolbo folhoso para o sonho
XXX
os guardiões são sempre invasores
, a descomunal célula fecundadora ou é monstro
ou é um divã de pedra de muito mau gosto
XXXI
a parede na caverna meditativa
uma tela onde projecto pseudojuízos
e cadências castradoras do que observo
uma confusão de cores obtusas
que pelo sal bibliotecário rearranjo
abandonando-a à sua sorte
e bel-prazer
XXXII
a névoa roxa compromete obscuridade
ao verde como casulo
instrução ― estar sentado pedindo
XXXIII
a sazonalidade da cor ―
cor é só uma
. a perspectiva influi contorcionismo
à tonalidade
― são os olhos que sangram a cor
XXXIV
parir vaticínios é um dos desígnios do dialecto
, e nem é pela mística
mas por um desengordurante
da vida estagnada
. o vaticínio funda e destrói as civilizações
traz em suma
o amplexo vertiginoso do gargalo
XXXV
tenho uma caneta que escreve a água do mar
de importante nada
sal
uma caneta-aquário
veranis impressões e outras
não escrevo grande coisa com ela
vez por outra toco com o bico na língua
e deixo estar um pouco
escrevo nela breve tempo
painéis da memória ― penso-me salgado
é bom ter na algibeira
alguma maresia antimofo
XXXVI
a porta fechada com som ainda é aberta
― o trinco ultrapassado
pela informação que veicula
XXXVII
barco-eu
a maré à sorte
não é a margem nem o transporte
, duas moedas
um rito-adrenalina
tal o vapor em profundidade
[azougado]
de encontro a tudo
o que lhe é familiar
barco-eu
a nuvem ardente
como fronte futura
XXXVIII
sonâmbulo
dobro uma barra de alumínio
a ouvir a quarta sinfonia de mahler
[clave]
XXXIX
a presença pelas costas no que se vigia
em sufoco claustrofóbico
por um trauma-tabu
XL
o vidro da janela em velocidade vem dizer-me
a coreografia das árvores inclinadas
― parar?
a noção de pensamento
sobre a mudança vegetal esquiva
XLI
implosão ventral, dolorosa
uma tensão-só entre muitas outras
como tear perdido e encontrado
em cada espasmo
dá-se a expulsão de vurmos sociais
na curvatura da dança solavancada
sangrando uma chuva íntima
do invisível e indivisível tecido
XLII
a estufa do sono encanta a orfandade sonora das palavras emana calor ― alvo-magma humedecido
pela mudez do sonhado
XLIII
porque teme o velho antifoneiro
a última linha da antífona?
[lasca odorífera do precipício]
abandono primordial do que é ser o anjo
ainda assim uma entidade à espera
trago a trago ― um néctar vil e perigoso
observar coreografias quotidianas
fazer ensaios e apontamentos no ar
e soprá-los depressa
tencionando vigiar-lhes a privacidade
então, uma dança?
uma parte a duas partes
ou nenhum bolbo consensual
, narrar o pão, comer a vida?
XLIV
um cabelo em profundidade na cavidade ocular
cavidade argilosa do tempo ― de profundis
rumo à teia volante!
longo, esse cabelo-armadilha
revela força termodinâmica
e impulsiona no espaço-breu
meu olho vermelho
XLV
dois melros
dança negra paralela
um corre e o outro
acompanha-o paralelamente
, bico com bico
e a contrabico elevam-se
rápido no ar
até setenta centímetros
, garra com garra
e a contragarra
até à hegemonia da dança
descem ― a relva fica mais verde ―
como se estivessem a escrever na poeira de nuvem gestualmente até ao chão
XLVI
quando um ovo estranho é um ovo vazio
as horas são servidas intensamente dolorosas e mal
daí o bolor estacar nevrótico, ensandecido
sim, porque o tempo morre, perde-se
a cada nervura tenra das inúmeras páginas
a procurar ― decurso vacilante do jogo
também um problema de postulado, talvez, pois
perante um ovo vazio estranha-se
resolução: esquecendo a constelação axiomática
e as leituras infindáveis de quem olha para cima
lesado no seu tempo, deparar-se-á com a
diversidade fúngica
XLVII
o pano nu no lugar da terra
húmus contado ao gnomo
nómada do inverso
plantas por livros
um ser-ensaio ausente na terra
em seu lugar uma mortalha
XLVIII
o descanso de líquen
― veio da pedra ―
a cova humana
na pedra muito antiga
XLIX
fui andar lento
L
não quero nevoeiro dalgum sonhador
numa taça a beber durante as tarefas diurnas
ninguém é benemérito assim
e a transfusão de calafrios traz doenças
que a medicina desconhece
o nacionalismo passeado à trela?
seja, codão-vírus purulento do rectângulo hirto
no hino que afoga os ratos um a um
LI
envernizam a conspurcação ― chamam-lhe museu
LII
padrão : a ambivalência de perto
uma bifurcação de moradas teciduais
manchas biográficas
LIII
se a inquietude fotografa-se
perdendo os pés e as mãos?
arriscado ― mas nalguma
língua antiga ou moderna
“risco” deverá ser sinónimo
de “vida”
LIV
ler, como quem entra na luz dalguém
para estar num sítio-água vivo
convívio do movimento, das cores
que o premeiam
páginas; não só as de papel
mas igualmente as de pericarpo
animal e vegetal
humano e não humano, mineral
mesmo músculo trabalhado da leitura
um susto preciso em todo o parágrafo
[dádiva ou não]
estrutura pilares dum percurso
escolha-arquitrave
ler a luz
de dentro seco para dentro húmido
contígua e sempre luz
intensa ou frouxa, com brilho ou baça
limpa ou suja ― sempre luz, leitura
LV
[sala vazia de parentesco]
pânico em inaugurar a amnésia brindada
em cada sepulcro visto parado
, desprender-se de laços
nós muito apertados
dum falar bafejado
. elos cruzados intimidam nesta sala
o que é são e persiste na memória
, as botas trazem guardado
o enigma da fuga mental
o vento calmo e apaziguado das papoilas
como beijo entre os elos ― calados esboçam
o pequeno sorriso que advirá
LVI
estância ― não é distância
antes o fosso que o mar geracional professa
com a austeridade civil do cronómetro
remanesce o cumprimento ocre, a espuma
aceno da inevitabilidade ― distância
LVII
círculos perfeitos são
os mudos números primos
os olhos que os categorizam
derivam da enxertia
[livros, música, cinema]
um frio secular quando soletrada
a solidão enigmática destes seres
são as ideias consensuais
dum abstracto misantrópico
o rizoma cómico-trágico
da ampla família de ciclos suicidários
o giz falta nos ossos
a amputação social catapulta
para a apoptose
LVIII
que fica da plataforma do olhar?
― uma pedra negra como treva
trazida pelo peixe gordo da tradição
LIX
alguma coisa ata a disparidade
da sucessão ―
por herdeiro se entenderá
dívida ou obrigação?
a tão famigerada piedade na travessa
a maneiras várias como o bacalhau?
ou talvez respeito ao ciclo vicioso
mui prazeroso a legítimos abandonados
ao complicado viver, a passearem-se
na planície do aborrecimento?
LX
o texto que a mão direita escreve
não reabilita o desenho que a mão esquerda traça
― o foco é o texto e o verdadeiro desenho movente
LXI
esterno calcado a sopro espiritual
d’amor contido e desconhecido ―
«tenho-te a respirar»
LXII
a frase incubadora não resguarda a descendência
um alento-estufa, nunca um ventre
outra matéria que resvale
sobre uma razão amniótica a discernir-se
em cada camada de película autobiográfica
um vital egoísmo a possuir-se
na malha de outrem
e com a perfídia do pudor vitelino
[ovo estranho]
LXIII
«aqui tens os diademas»
o sangue vermelho-rubi
gotejado pelo coleccionador
― desse vínculo há um legado
de cálculos renais
LXIV
não menos importante
o vapor de intervalo-chão
: pouco diálogo subsiste
LXV
falar é árvore multímoda
LXVI
pontão-passagem para onde?
dobras-d’água tensas e pedra
gomos maciços, densos quadrados
o ver resguardado do peso e do cinzel
LVII
estrela-unção
tarde transviada
: sóbria vegetação célere
escapando aos dedos
e ao raciocínio
― ele e ela crepitam
no jardim enjaulado
, forjam assobios junto à relva
tentam enganar as plantas
LXVIII
sulca a caneta
a febre intacta
na folha
miríade do interior decotado
na folha antiga como os seus sulcos
a caneta ainda sulca
― profundidade do trágico
imiscuído no real
que adentra na tangente
leitura de imagens consecutivas
vultos bruxuleantes ao contacto
uma cenografia própria para esticar
os sensos da produção conseguida
e preservá-la com a reunião-armadilha
do espólio ― a folha transpira
o poema escondido
, faces-curvas aguçadas
do semblante azuláceo agora confiado
a legentes que vagabundeiam trôpegos
que erram nos prazeres da estepe paginada
vincando o burel na virtualidade das estações
para consumarem derradeiramente a ascese
letra última, fôlego último da escrita que viram
LIX
primeiro teorema do labirinto
: avança sabendo-se perdido
mas perto do sobressalto
, um jogo-de-rua faiscante
LXX
segundo teorema do labirinto
: perguntando soma informações
que mordem com boca dilacerante
LXXI
terceiro teorema do labirinto
: vinca as passagens
depois consubstanciadas
em muro-núcleo
pesa a areia caída
e o problema-pé
as impossibilidades a ponto-cruz
assinalam-se à distância
LXXII
onda a onda, de assimetria
rilha a música
baque resvalante como profecia
entoa vívido e alienado
por onde a cobra se doa
vibrantemente inteira
«brinca com o fruto, não o comas»
eu preferia olhar-lhe a barriga no tapete
ver a filmagem nas suas escamas polifónicas
[a música-réptil]
o vesgo vagamundo a experimentar no corpo
o piano das vértebras saracoteantes
apercebe-se livre no espaço escrevente dos sons
o tal livro-partitura espraiado
no ensaio-leitura das esquinas
escamas luzidias do texto-caroço vagueante
LXXIII
fica um patamar raso
brinquedos e bugigangas
para instalar formas do dizer suado
longínquas como a vontade
LXXIV
interessa o quotidiano sofrível
prova inutilidade aos estratagemas do formol
o tenro, se débil o é doer, esmaga
a película infinda do ver
não há arca que guarde isso
é preciso distender os frames ao gosto
bebendo fluidez
LXXV
o grito ovula com o envelhecimento da notícia
LXXVI
mera formalidade o tempo
― passeio pensado
que legado?
: esgrima entre acto e artefacto
LXXVII
um abandono cívico
por intermédio da palavra
chuva violentada que infrutífera
a escrita prescreve
LXXVIII
regado o arvoredo das naus
um livro nas mãos
como se de uma árvore verde se tratasse
LXXIX
bocejo junto à baba do mundo
podo os rebentos idiossincráticos
dos seus habitantes
[eu incluído]
e latente fico a olhar
LXXX
copulam ― prolongam o insulto à morte
na rica alameda dos mortos
a senha de entrada é o cálice térreo
vinho purpúreo escorre vidro fora
o frio percorre a espinha rudimentar do âmago
― afluem e assombram
LXXXI
vítima desnuda no descampado
com o protocolo xadrez zangado
à beira da activação
dorme com a náusea
― pesadelo contínuo ―
sua mãe adoptiva
LXXXII
sucessivamente amontoa-se agreste
a orgânica de construção vegetal
recapitulação intensa, cheia
cheiros, nervos de madeira
: raiz depressa
o caule grosso alavancando
os ramos onde despontam as flores
e pingam os frutos
LXXXIII
hoje os pardais estão assustados ―
treme o meu fio de trabalho
bússola dos pássaros dos dias comuns
LXXXIV
as pinças do sexo escapam
às redes lexicais de três órgãos nobres:
o cérebro aglutinador e suas algas neuronais
a magicarem crossing-over
os pulmões andrajosos no trabalho do ar
com as suas quatro molas-basculantes
, e o lato coração musculado
andarilho das funções e paixões
. as pinças caem entrando e movendo-se
tocam, acendem arrumos
a caldos esvaídos do arco-íris conjunto
tempo por tempo assomado
, as pinças operam ludicamente
o sexo é um pretexto
rilham os ócios entendidos
como elixir ou veneno
LXXXV
o descanso da sombra é vermelho
e parece-se com a morte
LXXXVI
[signo da página branca]
funciona frequentemente como cais-mancha
para póneis imaginários
. estes animais são o elo parado da parábola
destroem as maldades
de orgulho-próprio embevecidas
o rio salvaguarda-os
abrindo uma ponte corrente
com o unicórnio
LXXXVII
modularia o motor do quadrado
crescendo como cubo para fora
LXXXVIII
caligrafia subjacente
à ductilidade plástica da performance
― memória-veículo do desenho
LXXXIX
«apanha a aranha, apanha-a»
― almofariz com o nome debaixo ―
«o clarão da teia é teu amigo»
o fenómeno poético
mergulha-nos numa amnésia diáfana
uma caixa espacejada com vozes cruas e selvagens
há aragem musical de encher veios
e um sino transumante
para cântico baixo e não estridente
[sons do músculo polimórfico]
a aranha cresce a evadir-se
as suas patas adivinham o tom
dos próximos versos
ninguém a apanha
ninguém pode apanhar-se a si próprio
a teia sela ciência ao almofariz
a aranha entra e sai perpassando reais díspares
como se acordasse repetidamente
nesse poema translúcido que é a liberdade
aqui não há o fio central
[fio-mestre]
há fios e fios, cruciais e todos diferentes
pigmentos e sedas-ditongo em cruzamento infinito
XC
inscrita a insondabilidade da mão
o tampo de cera acende e apaga
gestos-a-carvão
XCI
à solta o ruinoso vértice do prisma supraromântico
XCII
farto dos grampos vermelhos
vou coser o azul à montanha
. e no céu voa a esferográfica
XCIII
imbuída de ritmos glaciais
a toupeira desloca o real colado da periferia
no intuito de realçar
os resíduos ― manchas aquosas do silêncio
XCIV
cabos
desperdício eléctrico em frente ao cavalete
― ousar ferir a atmosfera com o pincel
e antever o ressurgimento fulminante
da foz do poema
XCV
arrisco uma estrutura do híbrido:
jogo gerador de fundos mutáveis
fixando o puzzle no crânio
XCVI
a retina activa oculta inflexões à arte
bolsas com intermitência
[intimidade pública]
casa, caverna meditativa
: projecto a laranja rachada
XCVII
meandro-fantasma ― minha cama
castelo d’ágar, vales do violeta no lençol velho
o arcanjo urbano gosta de contar
fábulas dionisíacas
e intervala-as com café
, porém nunca fala da noite
XCVIII
fragmento a fragmento
o retrato cru da violência
[borrão difuso no diafragma]
enuncia intangível
a materialidade reequacionada
deus-rei subvertido
ensejo-sonho nos limbos negros
XCIX
canso-me a subir o paladar das coisas
sobretudo no quarto minguante
C
colher levada ao tronco ―
regresso à floresta de pã
circuito inerte circunscrito
vim pelo perfume dos frutos sem sombra
anoto declives estruturais da evolução maleável
da botânica
escravo da minha genealogia
entro empedernido no estoma central
da árvore-blindada
um exílio na estirpe que me é comum
vagão húmido para uma reaprendizagem rejuvenescedora e auscultação das seivas
CI
amálgama espacializadora
rua a rua, hora a hora
escondo caprichosamente em mim
meus estudos de leitura-móbil
calçados pela narrativa agridoce do anabolismo
voragem impositiva dessa grelha fazedora de silhuetas
do nada-luz implode forte uma fusão
de encetar milagres no lago escurecido do escrúpulo
CII
uma mancha hieroglífica sobrevive desmaiada
no esterno da página
ideia parca de podre amido
ou transporte lento de preguiça-ácida
edificadora do silêncio implosivo
impasse onde adormecida a dança se torna incolor
ao que se pressente entre vectores dessa acção
, parada expande-se
mancha cabúlica por casulo a fruir funduras à página
em colosso-branco vacinado contra a linha-redor
do verticalismo cínzeo
CIII
é o deserto
a névoa-náusea dos dias imberbes
. o vento trabalha esse lenço vermelho
nos olhos do viandante
― único reduto amante ante a morte
CIV
«estarmos juntos aqui
como vivo retábulo arterial
aspergindo saliva uivante
e fogo crismal do texto cultivado
para o anonimato» ― guarda-me leitora
este ovo estranho
testemunho do indizível
que é viver utilizando
as tintas imagéticas da natureza
refractadas depois pelas vísceras
por espasmos de cintilação escrevente
. ideal seria uma construção congénita do amor
uma poesia-polpa não escrita
suavemente decalcada
desafiando a sã volumetria dos corpos
e ensaiando articulações
na esfera grã da alegria cénica do movimento
CV
terra dada a uma boca morna ― suspirante
como se alongasse uterinamente
o sono tardio que é a infância
poedeira a inteligência
espera que a criança brinque
e se ensalive no branco
CVI
«onde o âmbar para a viagem?»
como trôpega e vã urgência de sair dum copo deposto ―
humílimo quanto inútil, catequese em saquetas
e uma lição de história
CVII
pesado coração de mármore ― o meu
a descer às voltas
ainda com o verde
algumas árvores velhas da circunferência sopram-no
pacientemente
pela tonalidade vibrátil sei males de páginas inferiores
― das folhas sonorizadas pela aragem
CVIII
a lágrima-seiva é a entrada na noite
uma linha de planeamento cria esculcas na espinal
aquando as disrupções dum texto
e levanto-me da noite para outra noite
pela lágrima-seiva
com o seu inglório sopé-de-dor obscuro
não sei se buscando hiato de contra-reflexão
ou remate-sonífero
assim o lugar afunda-me
lagar fermentativo dum poema
que se eriça contra a noite
CIX
[uma visão da noite seca]
erva risonha como fonte falsa é passado gemente
presépio com a placenta na montra ―
pende a gota
mas as estrelas secam
são jogos baços
[vidro triste]
“erros de afinação”
apontamentos em cadeia dos astros fátuos
CX
eis a legião dos duendes inventores ―
secura bravia
[feno da noite escura]
um estrebuchamento no silvado perfumado
, noite-água adiada
CXI
adoecer a pauta
querer que ela grite alto
tenha o seu desmaio de liberdade
CXII
metade fora pretos e metade dentro amarelos
cinco escorpiões
[parasitas da insónia]
patrulham medo no soalho escorregadio
tentei matar um mas nem moribundo ficou
mais sucesso teve a minha mão sonâmbula
que, na catedral, amparou a rapariga vestida de verde
CXIII
o lago já não existe
: tíbia seca quebrada ao meio
e entusiasmos do peixe-labareda
CXIV
tenho para contar as rugas dolorosas das esferas de papel
aquilo que eu vi gasoso
e acontecendo quimicamente como ténue impressão
com uma mão suspensa sobre a outra em choque
CXV
subleva-se o absurdo para os ombros descansarem podendo o cérebro trabalhar a cinza
confidenciar tranquilo o seu assobio dissonante
CXVI
enquanto duendes verificam
os áqueos epitélios da noite seca
para se salvaguardarem do carrasco metrossexual
as pesadas linhas da pauta
roubadas por enfartamento ao metrónomo sedutor
ourejam mistérios que iluminam
diafanamente
a sinfonia
CXVII
o silvado é o equilíbrio ―
os espinhos tossem
[ossos dentados em coreografia pela saúde do reino]
e vedam acidez aos astros
CXVIII
da água abundante de outrora
somente a filosofia do erro
é saldo positivo
braços mortos recordados
pelo que espadanavam antes
CXIX
não é uma gaiola onde conter
gritos estragados por penas do pássaro falante
girando, talvez comparável à gestual convenção
de carruagem metálica
― uma gaiola pairando
sobre o raso-terrestre quotidiano
da espécie sempre em contágio
CXX
é o globo e o que ele conta ―
oxigénio a queimar na quadrícula do bruxo
azul e tessituras da língua
antes do magma a elevada temperatura
somenos ímpeto narrativo
numa suposta gravidez textual
CXXI
estilete silente na rua negra
ou disco até ser nave
como quartzo mudo
CXXII
paisagem-acto em decalque e sobreposição
com interstícios de plasma urbano
a precipitarem em cada gomo
de âmbar refractário
[imprecisões de agulha]
única preocupação
talvez a avidez venenosa da podridão
de ovos estranhos em alvoroço
, um filme onde vingue o real
em células
e no amor ininterrupto de moléculas
, o filão alocromático
motivo de cumplicidade ao microscópio
com uma granada-rubi a selar anéis nos dedos
CXXIII
«o contrário do corpo não é água combinada»
diz-lhe o ganso comprometendo sua cabeça
num mergulho caibral
CXXIV
o espelho submersível facilita
as contas ao futuro
, calculador de repercussões do côncavo
a auferir ao convexo ― excessos
de boca violenta na pauta
condescendente à “verdade sensacionalista”
CXXV
um cru ogival que o sol do palato reconhece
― até à cocção pode-se brincar e deslizar na lâmina ―
um cru de gema solar
pode tornar-se perigoso à beira do sal
CXXVI
cru e perplexo na laje
inspeccionando osso a osso
músculo a músculo
auspicia o que lhe doerá e quanto
loas à amplitude dalgum provável ranger
e à benzida autocomiseração
«do verde submerso nem tudo é decomposição»
diz-lhe o ganso
CXVII
o rio verde-mármore magoará o ver
― corre com a sujidade própria
do esqueleto verbal
CXXVIII
entre cascas vivas subo o caule da genealogia
é o mote da tarde cingida
pelo perfume da soalheira folha-mariposa
que tento seguir magoando os pés
escalo nodosidades de carbono fosco
envolvo-me na pele α da árvore
amamentadora das estirpes
ciclicamente desoladas na agrura opaca do globo
com fábulas ácidas
nódulos que como espirais me levam às estradas
rumo à faca puérpera
[gérmen do cerne umbilical]
rumo à linha-de-vida viandante
CXXIX
, que atingindo um máximo de saturação
análoga à dos recipientes cognitivos
um painel-receptáculo acusa-se sofismado
perante a artificial assembleia
exibindo por incontinência a sua
complexa gama de zonas filosófico-sensoriais
monstro biogénico
assim chamado pelo enorme desarranjo
na leitura nucleica dos factos
CXXX
e no clímax de poluição interna
os olhos drenam interminavelmente
uma porcaria amarela
então ele exaspera de dor contra as paredes
e mergulha o rosto em rios artificiais
«cuidado com os seres nativos desses rios»
adverte-lhe fielmente o ganso
reclinando o pescoço e estendendo
a asa esquerda
CXXXI
ver o é se sem ter
cair em riste
longe de existir
CXXXII
«vês o casulo?»
o bafo quente da natureza
perfila na estrada
um polo estriado
[mordedura irada de insegurança]
enquanto que preocupado
um outro vai tentando ludibriar
fundíbulos armadilhados
pelo menos durante a noite
«não desperdicemos a neblina
come este bago-de-chuva»
CXXXIII
um prelúdio, bocejo depois, um prelúdio
antes do dia cinzento ―
faz mais sentido no calendário
ver, lezíria nua
o mapa há-de fervilhar a seu tempo
CXXXIV
entretenimento : falar da descontinuidade
da sua importância
mas sobretudo da sua impotência
a sublimação da descontinuidade advém
dum veio narrativo contínuo
da continuidade estudada em ciclo
cheia de sulcos e de vasos
há uma sensualidade
no que é descontínuo ― às vezes
metamorfoseia-se um capricho-transgressor
em contexto concertado
por ditames sociais
palmeira se catarse
a romper com bainhas bem vincadas
do solipsismo humano
CXXXV
[aurora]
na viela ao centro o cão magro
cumprimenta friamente
a curiosidade dos turistas
― seriedade de caveira prenunciadora ―
os olhos como dois fantasmas saciados
CXXXVI
«ele pinta com a arte de se perder
nos cadernos dos outros»
é perdendo-se que deveras descansa
e que, de difusa forma, se encontra pontualmente
lascas gravitacionais ― procura-as obsessivamente
e sempre descansando em viagem no perímetro
que lhe é dado a reconhecer
CXXXVII
alperces maduros no chão ― a resina
[luz entre a pelugem amarela]
faz algum trabalho de sedução
, entenda-se a pelugem amarela
como improvisada tela
parede da caverna meditativa
CXXXVIII
o trilho amnésico oculta manigâncias da alquimia onírica
CXXXIX
apanhou um alperce ―
comeu-o sanguessugamente
CXL
sol vermelho ― um coração delator
: o ensaio enquanto sombra
fumo negro
CXLI
o emaranhado metálico ajuda o som às cordas
[teia]
adormeço no inverosímil ―
um regresso ao trilho amnésico
com o inusitado-abstracto
sobra pele e seda no esbatimento sórdido das relações
ainda prisão de chuva aguda, crepitação
― visceralmente aberto
o som instaura covas de sedição
CXLII
entende-se o conceito de cama numa voz?
não, antes uma nave incubadora de frases musicais
, quilha a quilha
construções rasantes do mênstruo inútil
: o medo é volume
CXLIII
o envelope-cifra ― uma metodologia
: da inoculação sonora
[som-sopro antigo transportado]
uma singular reorquestração modernizada
resgate de múltiplas facetas
enquanto ambiência amniótica executória
uma vez deslacrado
este envelope-cifra derrama irremediavelmente
a sua saliva cianosada sobre os dados
transfigurando-os para compleição outra a soar metodologias para espécies vindouras
o som de batuta em batuta ― a exposição
CXLIV
pena não ter perguntado ao ganso
esse significado insulso do vidro falso
[rio naquela ocasião]
pois só a ideia de nutrir expectativas
com tanta gordura aracnídea das horas saburrosas entorpece toda e qualquer vontade
de permanecer submerso
CXLV
a velhice envidraça os olhos
CXLVI
olho a esfera vermelha saída da boca dos mortos
e não vejo nela um rebuçado
CXLVII
[sala dos mapas]
cá dentro, quase resguardado do mundo
paredes moventes, dúcteis à voz
― é o reino da humidade promíscua
baldeio na mão a esfera vermelha
estritamente essencial conservar viscosidade à pesquisa
lembro-me da origem da pérola
a imundice perlífera
: a língua uma ostra?
CXLVIII
a centopeia baliza perigosidades ao pesadelo
[fogo impreciso da fuga]
passeia-se entre anfetaminas e álcool
outrora desvairada cruz
agora tira de seda alaranjada
a tornar mais evidente
a nudez branca da pele
e o sorriso da cicatriz
CXLIX
desenho a letra
de prumo e fotografando
através do prisma transpirado
― uma paisagem fílmica das entranhas
CL
do que leio virá o ver trabalhando
o real sensível à imprecisão do raio
isto é, fazer fora da teoria
para ser barulho
e querendo dizer algo semelhante
ao divórcio de semânticas
CLI
escrever como digestão difícil
CLII
quando o coração riscado
pesadamente aferrolha o pôr-do-sol
apercebo-me da incompletude do dia
e o que de pouco sobra das sílabas
entrecruzadas nas nuvens
nesta pedra está o princípio e o fim
o ângulo morto da vida
― riscos que são frisos
de uma aragem tranquilizadora do sono
porque reluzem na face escura
reluzem insuperavelmente
CLIII
nomeei guardião o relógio parado
embora tenha sido um estéril vigilante
na meninice
CLIV
água a água o osso sinfónico concede
o líquido da sequência rítmica
que tutela o selo viandante
CLV
o enlace armadilha pedais impraticados
para nova arborização do gosto
e a dança?
desenvolverá ela laringe capaz
de marchetar simbiose e dinamismo
nas consciências em tradução sistemática?
CLVI
e a voz?
falso equilíbrio ou ambiguidade extrema
o cacho tenso de cabos imperfectíveis
a voz como atropelo de civilizações em coro técnico sobre um papel tatuado, como visco grandiloquente
e ainda dissuasor do silêncio mórbido e contranatura
[voz e vozes]
a voz espremida das mucosas
dos redutos biológicos mais incomparáveis
a voz roçada dos instrumentos
essa insondável dissonância mental solenizada
pelo guarda-roupa
a laringe e a faca ― cavalgará a linguagem
num músculo tão imaterial quanto a voz?
CLVII
talvez o osso sinfónico não conceda mas confie
[e espacejadamente]
um soro à sequência
rítmica ou não
afora o intervalo
osso análogo ao filosófico
CLVIII
oculto, obscuro ― por escondido
diz-se diferente
a interpretar a espuma do mundo
porque a espuma não importa no seu teor
uma baba com peçonhas das manhãs erradas
oculto, obscuro
urde na bruma falsos sorrisos
azedado no leite que não bebeu
CLIX
gomo de estrutura
não é a estrutura
parcela para uma totalidade
uma hipótese
unidade compacta é a morada
de adversidade germinativa
unicidade mordente das parcelas
que torna coesa a estrutura
CLX
difícil relação com a água
relâmpagos do reflexo vital encarcerado
criptografias dissolvidas depois
num vermelho velho que estraga
qualquer tipo de lágrima
porque as lágrimas não subsistem
no âmbar dual da súplica forjada
em intervalos do mesentério
crescido do sangue negro
[uma campânula]
transporte-raiva a inquietar moléculas
― as mãos danificam o tecido áqueo
não o entendem
[linha de leitura estriada e frequentemente inabitada]
o animal corre ferido na virilha para junto do rio
bebe a água querendo beber sua própria boca
e suja os dedos na vontade
respirando ofegante, submerso, angustiado
. viscosos esteios assombram-no ininterruptamente
CLXI
há quem tenha por infância os lingotes azuis do céu experimentando uma regressão violenta com
o turbilhão pulmonar das árvores que cercam o berço
― acordará do pesadelo arrancando os olhos
CLXII
espera movediça, estrangeira
a árvore vermelha a frio, incognoscível
o filho soca a barriga do pai
em comunicação gentil entre machos
pai obeso, mãe indiferente
a cumplicidade animal do vácuo familiar
é barriga rítmica pela verdade
insinuada posteriormente nos corredores ácidos
do labirinto
CLXIII
mutismo cru e uma imobilidade doméstica
é isto a solidão ― quando a casa nos mastiga
CLXIV
disseram-me entre fluxos da linguagem-de-corda
uma frase-bênção com laivos de recompensa
uma senha a desenhar-se chave
no caminho do esforço
ou figurativa manhã de esboços e culturas
no uso do contraste
com algumas noções de sociopatia a reter
a impressão a quente
[antro químico]
ainda a reagir com a idade
antes da língua o enigma já é de si estrangeiro
uma frase-chave, ovo estranho
CLXV
e o velho
(que em vez de cabeça tem uma cratera
por onde espiar o balanço do infante
num penedo movediço) perde-se na fúria ocular
comove-se ao assumir a sua incapacidade
de amestrar os órgãos da visão
mesmo que o infante não caia
nem doe o sono vivo do real dissimulado
o velho prepara-se para peregrinar
no buraco televisivo da sua velhice
CLXVI
molha a madeira a conversa dos convidados?
trio subentendido, núcleo final da peça
emaranhado de trechos biográficos
trazendo uma anatomia da espécie humana
do que se intersecta por vínculo do eu
interpondo-se nas alíneas da narrativa dum outro eu como pessoa outra delineada corpo fora
alienada boda crepuscular das hienas de smoking
toda uma choraminguice de vitríolo
ao alinhavar graus de pureza e níveis relacionais
ou «primeva pureza putrefacta»
diria o misantropo humanista
CLXVII
[chuva]
um descanso com o bom granito do ruído
e nem um estômago perturbado interfere
na seda audível da atmosfera emparedada
o que acidifica a ambiência não é ácido
ou fenómeno físico
mas ideia de ausência amputada
pura solidão
CLXVIII
o vírus é pródigo e recicla a linguagem
o discurso retorce-se vibrátil com a língua
ampliando a sua representação anatómica em exercício ver-se-á o tegumento endiabrado da semiologia
a tónica do orgânico dedilhar da escrita oral
sob a espuma das frases
[com a inquietação preênsil da oralidade]
é o tratado elementar do vírus linguístico
CLXIX
estrada de vento
: plataforma móvel vacilando
no prato giratório da cidade
nas artérias automóveis extasiados no outono
com folhas de amarelo vivo
em redemoinho comunicante
o ver-actante a desfragmentar-se em frames
com a velocidade
CLXX
o amarelo afundará negrumes mas não tão cedo
corrente fria dum bocal deposto ou cansado
a mulher verde não foi rapariga verde
antes azul e revelando um muco denso
ainda esparso nas suas entranhas
o som arrefece
e a língua gela perante os ossos maquinais
a cave fala como se um livro no bornal
escrevesse fracturas num corpo que se crê
a caminhar em busca da laje azul-esverdeada
e o corpo refunde-se com a terra
que quer como vaso
― os negrumes germinarão
a laje é um prato
CLXXI
óculo finto, ilesa a estrada ―
eu só, ilíquido
como é dada a carnificina
em fábulas anestesiadas
quem conta cresce como bruxo
e como bicho no estrado enxuto
as vísceras do animal
um mosaico pouco nítido
perdura inalterado na memória
da cicatriz no céu da pele
o gato
[lâmina do alcatrão]
preso outra vez à falsa osmolaridade do legado
à morte
CLXXII
busco espelhos entre fissuras do magma silicioso
CLXXIII
um não é o outro ― razão
que lhes servirá pouco
em correlação à sucessão diferencial
do conceito de existência
e não equacionando no imediato
o reflexo associado à cascata
de vidro pensante
, não existe um espelho inaugural
apenas falésia
CLXXIV
a abertura da porta configura um diálogo
plano ensurdecedor dos pés
contrastante rigidez óssea
a reverberação das bocas
sinalizadas por sapatos cingidores de género
cristaliza o afastamento
um vapor obscuro que agudiza
angústias e indefinição
com cardíacas fagulhas conventuais
trocadas num gélido e impessoal ascensor
CLXXIV
a sageza canina deixa uma raiz no banho ―
aviso cilíndrico e arterial
porque regar é silêncio
por palavras mortas
farpas sanguíneas betonadas
com agruras mudas
às vezes confundidas com lágrimas
e. não, animal tão meu par, passo
água fílmica da dor não alivia cansaços
antes reabilita passados
CLXXVI
o acidente em carne viva
branca de neve no lodo literário do esquecimento
o livro, o cabelo
negro abundante como coágulo-remorso ―
um vestido branco e gelado
apresentar a narrativa, mastigar fotografias
[inferno]
pode a música configurar-se extermínio?
o vitral toante na luz
pedra musical e cratera de fogo
[purgatório]
sibelius aos trinta e seis anos
a abelha mole do génio apaixonado
asa plana e tatuada ―
a paz desagua nos cemitérios, nas bibliotecas
um outro o sobrevivente e ignorância enquanto escrita sublinhado dos jornais mundo fora
estrangeiros de sangue tumultuoso perdidos
na floresta dos pesadelos, habitantes inconclusos
que distorcem o vento nos mapas da linguagem azul
quem devolve o livro vê correr nele a cor do invisível
ou percebe ir embora somente
[paraíso]
se amnésia branca longe do gutural
lado a lado duas imagens irmãs ―
assimetricamente não se vêem e duram
ambas cegam irreparavelmente o futuro
CLXXVII
em qual esfera me viste?
que significado-alvéolo é o cair?
alinhamento nebuloso
espesso triângulo a morar entre-os-olhos
― uma imersão reluzirá do vácuo identitário
da folga metálica do sangue?
e em qual esfera?
era eu-ontem?
CLXXVIII
é grande o vale urbano
e poucos os véus válidos da língua
parece-me inútil prosseguir com guiões tabelados
à idiossincrasia persecutória das nossas liberdades
depois de aprender contigo o truque do lençol
«não é um casulo» disseste-me
«é um céu de pano para descansarmos»
CLXXIX
esta varanda suporta uma estrada
cheia de curvas e de medo
podemos desenhar os pés no chão
e de vez em quando sorrir descomprometidos
apesar da permanente conversa tecedora de enredos
sem se verem os nós e suspiros mais complexos
mãos como peixes frios e azuis
a anemia gangrena-nos
e não chegamos a estrebuchar
CLXXX
a toda a hora visível
o fantasma que assassinou
o seu par
bem servido pela lei
não há lágrima a haver
a varanda tatuada por pés
― a dança dos alheados
CLXXXI
um fio parado de tempo deambula
de fábula em fábula
fingindo campas nas fotografias
[velas]
as chamas são lâminas aguçadas
prossegue sôfrego mas ávido
as entrecruzilhadas da narração
olha-o ela desfocada na imagem
dual de si contraída
[vê]
olha-o confusa e inconformada
esgueirando-se em defesa por entre as velas
espalmadas virtudes do amarelo lento
ele entre os seus mortos acesos ―
a haver uma ela é morta e repousa no altar
ouve a voz da aturdida, viva companhia
entre a luz e a cera ― não metaboliza
é-lhe indiferente, muito a fazer
também ela não sabe estar perto
do lúmen milagroso
do reencontro tido como impossível
CLXXXII
o ponto indeformável
: que matará no texto a luz doente das bibliotecas?
a hipoteca doce
frondosa procura longe do morrer cantante
― a areia bela, a cabeça entre
. os grafismos são alergenos
todas as formas insinuadas de existência
são alergenos
da extensão organobiográfica
unhas escreventes de quem engarrafa soluçante
o pó ósseo, herança sua
[atchim]
CLXXXIII
a textura do eco, assim nos relacionamos
e do eco conclui-se um ovo estranho ―
CLXXXIV
[oração ao lenho]
leitura como furto de aromas amadeirados
a fome nas bibliotecas
nessas estantes abunda
um descontextualizado cheiro
a hospital
CLXXXV
à roda no roxo
como que subindo e descendo
as escadas do azul
o escritor dos sete volumes
quer a todo o custo pintar de modo tétrico
o fim
flash ― alguém rouba luminosamente
o seu suor
do penumbroso ar
leva-lhe as cores da pele o ladrão
. se a vida queima
o ladrão entende, leu a pólvora
dos sete volumes
a máquina fotográfica arrefece com o escritor.
tarda o meio-dia antigo
o cadáver não procura o tempo
apenas acidifica-o
CLXXXVI
a imobilidade febril como incursão literária
CLXXXVII
caído no passeio
um pássaro petrificado lembra
a exposição diuturna dos ausentes
da falsa morte dos fantasmas
do azar dos pássaros
da infeliz vida dos artistas
CLXXXVIII
uma fábula com a serpente no estrelato ―
com os excessos do mar faíscam as conchas na tela
e sem a obrigação de narrativas forçadas ao mineral
a mineralidade torna tensas as relações
entendendo tensão como cordão cerúleo
do petit cœur anémico na praia
… chega a noite e
é preciso minar o bruxo das boas-noites depressa
acender cores nos olhos dos duendes
que ainda trabalham a água do espaço
CLXXXIX
o talher está inequivocamente associado ao amor
CXC
pedaços
tanto ossadas como ossinhos
pedacinhos ― não poeta, continua
mineral a tensão
intensão não mancha o papel
sufoca-o com o muco-grito
, e a tinta dói na pele
CXCI
veneno azul da monarquia ―
os lagartos nocturnos da rainha
CXCII
um touro atravessou o mar
arranhando a laringe ― foi assim
que lorca desapareceu
CXCIII
embarco no carrossel de carne podre
repensando, já não sei bem se
é mesmo assim ― balofa e algo enxofrada
a mulher-volante leva-me
pelas linhas da faca que lhe pisa
o caminho e o sorriso
CXCIV
olho através do vidro
a paisagem costurada
com pequeninas tocas
a comprovar mistérios
afectos à religiosidade
CXCV
sublinhando o branco
a vermelho
[habitação]
em contraste com
o verde das lezírias
mas não é um antídoto
o quadro conserva a doença
um intenso verde-musgo
[respiração presa à memória]
CXCVI
que nos palcos a dança comprova
o esquecimento do instinto
CXCVII
quadrado aberto [vínculo] avanço bifurcado
CXCVIII
evadiu-se ― o lugar vazio repete
a garrafa vazia, o zero sobre a mesa
CXCIX
[la lune]
o arlequim reaparece
acompanhado pela bailarina exótica
incómodo esquerdo
na balança musculada do cavalo
o arlequim quer mascarar-se
em prol dos inocentes
talvez monstro com peças hidráulicas
às cores
a acidental dama de paus
só e outrora “dama das andorinhas”
reconhece azul
o plano do arlequim
― porém o azul que ela pensa
é diferente, pois ele vive
um azul muito antigo
CC
o sol desviado ou o fantasma dele ― histérico
CCI
[a arte televisiva]
aranha na tomada
as palavras aos supetões
«são aguarelas»
diz coçando a cabeça
CCII
qual o papel da carne na cenografia?
sua quente e borbulhante opacidade?
as personagens saem de cena
hélas, um escritório com um relógio maior
do que as cadeiras
― não será mais importante ter um planeta
a banhar o pano?
CCIII
o anjo negro da arte pretende
contagiar o genoma guardado
à criança futura
CCIV
três objectos, um coração ― saiu feia a sombra
CCV
tarde falo-te
rasurando a testa
― não viste o quanto
me doíam os olhos?
e, talvez ainda vistas
vinhetas brancas ao dia cinzento
porque és mulher-lugar
espelho da utopia
diz-me então, onde
escondeste tu
a décima terceira porta?
CCVI
esforço-me por compreender
a caneta preguiçosa ―
um problema de tinta
: coágulos frios, espessos
CCVII
a ideia orgânica de contrair um mistério ―
saber da continuidade do corpo
é uma inquietação líquida
compromete resoluções às cartilagens
da própria sobrevivência
. um revólver numa mão
a bala na outra ― e a pele, toda a pele?
a epiderme que se comporta como teia aglutinadora ―
e os duplos? os duplos outros persecutórios
designados inimigos ou concorrentes
e também os duplos congénitos
, estes últimos morrem na inocência
assassinados no berço pela fonte instável
o corpo original com favos de aranha na boca
: a claustrofobia ontológica ou matar o duplo
CCVIII
a língua perfura o vinho no vidro
nunca esperado visualmente
[espírito sanguíneo]
com a confusão duma multidão
calada ― raiva de sexo
CCIX
porque. sem bilhete e
não querendo atravessar
as texturas rudes do espelho
a hipótese de regressão
num passeio pela floresta
dos nervos : «vislumbrar o quê?
o sulco do silêncio?»
. porque
CCX
a fuga do sono íngreme
[busca do vácuo]
o afazer terrível
assim que a passagem feita sonho
integra a rotina labiríntica
não mais se sedimentam duras
as relações complexas
― que os sonhos existem para matar
as personagens indesejáveis ―
no fim de tudo sobra a dança enamorada
dos almoços e jantares sabotados
CCXI
assombradamente o mal se nidifica
cristaliza-se na garganta
o que dito sabe a veneno e antídoto
não se sabendo ainda
guardar numa reentrância do corpo
, cresce inadaptado
extrínseco a cárneas vontades
. não é corpo e não se faz corpo
magoa a sua génese
de palavras ou de quartzos hialinos
a boca adivinha dentro do mal
um ovo estranho
CCXII
ou caramelizar rastilhos políticos
perto da alegria
de modo a denunciar
veementemente o fedor
de tiras culturais a tentarem
um desgrenhamento
de estirpe moderna
e arejada
a dissolução é tóxica porque bebe do silêncio ―
CCXIII
o braço como árvore arterial ―
as linhas rubras da escrita infame
desenrolam-se da hereditariedade
linhas tais que depositam
os bicos húmidos das aves arrojadas
botões de sangue-podre
[uma árvore ao contrário]
assim se polui a luz
com a qual se lê esta árvore
que dança entre carne e vegetação
. um braço auspicioso mas negativo?
― e ter presente que estas árvores arteriais
não têm de ser forçosamente protectoras
, as podres proliferam na planície do verde acrilírico metástases perfumadas que se confundem na paisagem
[armadilha]
ferido, será este braço redentor?
enigma : acolher não é proteger
CCXIV
referir-se enquanto vivente
entre as coisas cheias
a questão de fundo ― fundo tão precioso
quanto intangível
uma das moradas do ver
: examina-se este tecido desfocando o tempo
estratégia míope dos pacientes
poetas naturistas sempiternamente enganados
CCXV
e o fundo reservado apenas
à comprida e delicada língua da mariposa
CCXVI
o que se duplica no icebergue do espelho
não são identidades hipotéticas de si ou dos outros
antes os sinais repercutidos duma linguagem obscura
artefactos de relações racionalizadas
com sentidos abstrusos ― lente a lente
membrana a membrana
conhecer que se enamora
esquecendo o mapa do oxigénio
as mãos-barbatanas decifram o vidro
na curvatura do pensamento
CCXVII
a confusão na linguagem
a certeza do turbilhão sanguíneo
, realmente impossível dissecar lenta e sequiosamente
o outramento na fria antecâmera
a febre, o que importa viver, observar nem tanto ―
fantasmas neutros, personagens distorcidas
rios venais espelhando rostos desconhecidos
imagem sem roupa como vontade de cinzelar
os músculos indefinidos
[estado de névoa dormente]
imagem de vento intranquilo
um engano perturbador porém profícuo
luzidio fruto da branca mansidão do dia
e da feroz obscuridade da noite
: franca impressão de não existirem lados
ou ser-se espaço gaguejante
objecto estrebuchante a perfumar-se no vaguear
CCXVIII
joelhos posicionados de encontro
à tessitura da água salgada
― voz marinha, alfabeto mudo
CCXIX
ainda um foco no laser verde
ou limiar da chuva
e aparece derrida nadando acima da aura
de algas despedaçadas
meditabundo no mar-de-jade
nada derrida em esforço
traduz esfinges na cabeça
com a frieza da grafite
mantendo seco o cabelo branco
que demarca o bronzeado egípcio da face
CCXX
― sequência física e performativa de mergulhos
no oceano : sessenta e seis seixos de isolamento
CCXXI
vogais e respiração ―
«deixa-me ser um búzio de choro»
as espirais confundem-se
tensão, quase as linhas todas
um funeral inodoro
as lágrimas afiam o búzio
, tendo consciência da estrutura dificílima do martelo
é possível escorregar nas pelúcias
com os pés enterrados nos ouvidos
. a pesar de, hiatos.
respeito às pausas interiores e películas pessoais ―
a turbulência das espirais ensina coisas
sobre dois búzios que se tocam
na ingenuidade limpa e com algum medo natural
entendido como repulsão
: as espirais entrelaçam-se estrangeiras
[nebulosas]
CCXXII
os dedos impróprios
suados e sujos tentam ler as agressões ao madeiro
como se mordessem aqueles intervalos de morte
asfixiando baixinho remorsos da família inteira
que precavidamente se confessa ao machado ―
diz-se «não se lê o que se mata»
o leitor-necrófago cintilante
malfeitor travestido
roubador perpétuo de infâncias
desmanchadas no tronco aberto do arvoredo anestesiado
, por detrás experimenta os bastidores da escrita irrealizável numa atrapalhação de nervos e raízes
CCXXIII
primícias da treva outonal ―
a noite incubadora dos solstícios
a serem abortados em clarões de leitura
o último trovão trouxe
um nome agrilhoado a um romance
osso-água do céu tenebroso e cinzento
do que há a chorar
, um som propagado de quem traduz
e reestrutura sósias de lodo
grafias carnais e carnavalescas
o que de animal terá o escritor
no primeiro vértice do triângulo textual
. nesta noite, o terceiro vértice, leitor do lodo
e dos dois sopros
irá averiguar a pulsação do segundo nó piramidal
, mas é só uma noite de trovoadas
mais uma neste século ―
nada de expectável nessa análise de trios
à leitura real, pois os ângulos e cálculos
turvam-se numa girândola escondida na capa do mago
que a caminho do moinho murmura
«3, 27, 19683, …»
CCXXIV
comecemos então a via crucis dos plásticos
como civilização ― indagar a
essência ressonante do balde
e vestir os electrodomésticos
que o riso comunica na analepse
que os funis explicam as neuroses em rede
e inoculam fermento na retórica
― superam a prosa do chapéu
este micélio psiquiátrico poderá vir a organizar-se
pelo descanso deslocado da manta morta
concretizando estrutura que faça sombra à cidade
[gavetas da insónia por colmeias gordas]
à língua
, dirigentes preparam a entrevista
CCXXV
quando as paredes consomem a linearidade
o lago vertical enche-se
nele se encontra uma infância invertida
com verdes escuros malignos
e nódulos exasperantes
quem escolhe o ofício da dormência arrisca-se
a afogar órgãos de folhear a tristeza
no falso espelho hipnotizante
― o tímpano torna-se num fruto maduro demais
CCXXVI
a detentora da varinha-de-gelo sente-se nervosa ―
uma conquista válida
ainda que com uma aragem glacial a controlar-lhe
a medula pouco crente em si
tem o impensável sonhado à beira de acontecer
e vai hesitando longamente até que
com doçura apimentada abre a ária
despertando o espectro da serpente de cleópatra
ela sabe da perigosidade de desígnios libertos no sexo
diariamente, com uma concordância inatural
dos escravos proxenetas
a feminina louva-a-deus crê cumprir o ciclo
cai no erro de acorrentar no harém
espécimes iletrados na ilha transpassional do amor
maldade recíproca ou vigança
a varinha-de-gelo quebra-se
e dentro dela as instruções do jogo da torre
. na verdade ela sempre soube que a ária tinha
cinco andamentos: nos três primeiros rainha
num quarto refém e ao quinto condenada
CCXXVII
poucos se importarão com os
fenómenos de gruta na leitura ―
um efeito da passagem
a engendrar espacejamento oxigenador do pensamento
hiatos ou ovos ou moradas do ver
algo de multinominal haverá
na gruta encontrada pela leitura
CCXXVIII
o lobo é, como o lémure, fantasma : mascarado
CCXXIX
o coalho das figuras ― com unha atenta
esboroo as letras
, apercebo-me da ineptidão caligráfica do tempo
CCXXX
o senhor edgar dorme todas as noites com o luto
trabalha-o relendo cicatrizes espelhadas
nos negrumes noctâmbulos
que irão povoar depois os sonhos
[circuito de biomassa nostálgica no frasco]
episódios de valer a espera
justificada lua a lua no calendário
o senhor edgar não teme o corvo
mas teme a doença de virgínia ―
tremeluzente o muco da retina em assombro desleal
para com a imagem de sua alma nos umbrais
: visita negra do espírito enquanto corvo incisivo
ele-próprio ou criação sua de magma imagístico
nocturnum tremens ― a lanterna dourada
acompanha-o sempre no árduo trilho
do mistério a resolver num sono tumular
CCXXXI
uma mancha pintada
[paisagem]
inscrita morosa e piedosamente
na jactância coronária da memória
. vento seco e fragrâncias silvestres da criança
o pincel conta o que a tinta sorridentemente oculta
para arpad, saber será uma silenciosa comoção
de lividez viandante
[oníricos segundos entrosados]
o habitar dum deserto
CCXXXII
a carta leva um encarnado premente de seivas
em atropelamento
e um soluço-de-pedra como calço de almofada
noutra fronteira
CCXXXIII
«camufla o estrangeiro dentro da tua identidade»
qual carne uma
entre as deslizantes e nevróticas máscaras
em rodopio na mente?
huis clos a testar
o que de quente-humano ou de frio-artificial
terá personagem a personagem num salão
de perversa interactividade?
quem inspeccionou o encenador?
no fim, que se apura da enxertia aleatória?
carne de ruídos a autotraduzir-se na aba estrangeira?
… se mesmo identidade existisse na dúvida e no reflexo
CCXXXIV
tido como maluquinho pela classe política
o poeta redige poemas-notícias
sobre alguns atributos da crueldade
como afiar ainda mais uma notícia de cadáveres?
a sombra documental dos textos nunca chega
aos estômagos dos diplomatas da guerra ―
CCXXXV
a guerra ― a imponderável romã cheia de vermes
num dos cantos de cada quarto
em todas as casas do mundo
CCXXXVI
dêem-lhe um cacho de luz
donde sortirá o magro rinoceronte da cruzada
[útil pela sua translucidez insultuosa]
que nas vinhetas-de-vida lhe mostrará os corolários
da teoria “imutabilidade humana”
o aceder diário à teatralidade arterial
de peões num jogo propício a mentiras decalcadas
umas sobre as outras
dêem-lhe a possibilidade de no tabuleiro
ser o gigante-de-cartas brincando com as cobaias
alterar cenários de amor-próprio
usufruindo o retorno emocional predatório
. não lhe restará um rio potável
onde beber a água da sua meninice
na companhia dalguém que compreenda
astralidade na obra passível
de lhe ser atribuída ― rosebud
CCXXXVII
o que há para amar de nós nos contornos
pode ser a eternidade
: um extenso e fino lençol branco na vertical
e por alguns quilómetros
CCXXXVIII
além do quê e de quem
romaria pagã à montanha
― o novelo
antes engasgar lagartos
do tamanho da heresia anedótica
do que engasgar os filósofos
submersos no ranho que crêem amniótico
e num quê uma travessia para quem
quotidianamente estuda
os olhos e as mãos
CCXXXIX
num tempo em que o herói se desintegra à chuva
a água marca paredes
rasga janelas a quem não pensa em nada
. a chuva ― uma amnésia precisa
a lavar significados
ao heroísmo doentio do país
CCXL
desce um líquido das consciências absortas
com o que se passa rente à dança e ao exterior
: ombros da passagem?
, escorre gelatinoso fluido, saliva-cal
em olhos empedrados
ou muco de cegueira numa viagem lenta de casas
perscrutadas tijolo a tijolo
. e a música estreita a sanguinidade do que se diz
a terceiros numa carruagem delatora
conspurca em legitimidade a ambiência
realça rugas a carvão na pele
individualizando o arbítrio transumante
, desta massa inerme
crescem por transfiguração as gotas
dum cru acrílico, manequins ulteriores
que roçarão o vazio de infinito a infinito
a música em questão é uma música não-música
ou antes um vírus que amputa luz
às frases humanamente orgânicas e não a música
: os ombros náufragos dessa tribo
não reconhecem figuralidade
a ruídos isolados
CCXLI
molhado, tendo de igual para igual um cão negro
sobe os degraus de lama na desolação de ser
o seu último palco-de-voz