Existe uma diferença abissal, de natureza quase moral, entre a obra de um gênio literário e o simples produto de roteiro levado às telas. A questão não reside apenas na fidelidade da adaptação, mas na matéria-prima intelectual e moral que o escritor genial fornece. A profundidade da sua "letra" confere à obra adaptada uma densidade incomparável.
Penso, por exemplo, na recente adaptação de "As Ilusões Perdidas", de Honoré de Balzac. A película, ao herdar o vasto e complexo universo da Comédia Humana, é obrigada a negociar com uma estrutura moral já estabelecida: o sistema social é o verdadeiro protagonista e vilão. Mesmo resumida, a adaptação carrega o DNA da complexidade sistêmica que Balzac dissecou: o leitor ou espectador sente que a corrupção é sistêmica e inevitável, e não apenas o resultado de uma má escolha. Isso é o que a sua obra-prima entrega.
Essa distinção é fundamental ao abordar a obra de Margaret Atwood. A série e minissérie sobre suas obras, The Handmaid’s Tale e Alias Grace, são elevadas pela profundidade inesgotável do texto-fonte. A Atwood romancista — tal como Balzac — força o leitor a habitar uma zona de ambiguidade; ela constrói sociedades (Gilead) ou consciências (Grace Marks) que questionam a fundo a moralidade. O roteirista talentoso cria um conflito eficiente; o gênio literário cria um mundo moral que perdura e provoca.
Ao nos voltarmos para os dilemas morais de O Conto da Aia e, na sequência, para a ambiguidade psicológica de Vulgo Grace, estamos estudando o impacto de uma visão autoral intransigente. É essa densidade não-traduzível que define o gênio de Atwood e o propósito dos textos que se seguem.
As Vestais Violadas
A Distopia de Gilead: O Espelho Moral
Ao mergulharmos em O Conto da Aia, percebemos que Margaret Atwood não projeta apenas uma sociedade distópica, mas utiliza Gilead como um espelho moral que expõe a cumplicidade sutil e os dilemas éticos extremos que surgem quando os direitos reprodutivos e a autonomia feminina são reduzidos a ferramentas de estado. Através da experiência de Offred (June), Atwood desmantela a noção de uma moralidade absoluta, forçando o leitor a questionar onde reside a virtude em um mundo desumano.
“Você não pode controlar o que sente mas pode controlar como se comporta.”
1. A Moralidade da Sobrevivência vs. Resistência
Em Gilead, a moralidade se fragmenta em duas abordagens extremas: a moralidade de fachada de Offred, focada na preservação física, e a moralidade de sacrifício de Ofglen, focada na ação. Offred, inicialmente, adota uma ética de passividade, agarrando-se a pequenos atos de rebeldia interna (como o Nolite te bastardes carborundorum, não permita que os bastardos te reduzam a cinzas) que são vitais para a sua alma, mas inócuos para o regime. Seu dilema moral é a culpa pela complacência, o preço de escolher salvar o corpo. Em contraste, Ofglen personifica a moralidade do Dever Ativo, aceitando o risco de morte. Seu ato final de suicídio, ao ser capturada, é a maior afirmação moral da história, pois destrói a informação para proteger a rede de resistência. Atwood nos mostra que não há escolha fácil: há apenas escolhas que determinam se o indivíduo prefere salvar o seu corpo ou o seu propósito.
“Um rato em um labirinto é livre para ir onde quiser, desde que permaneça neste labirinto.”
2. A Culpa da Cumplicidade Institucionalizada
O regime de Gilead é sustentado não apenas pela força bruta dos Guardiões, mas pela colaboração complexa e moralmente distorcida das mulheres que não estão no topo. Atwood expõe a cumplicidade institucionalizada das Tias, que justificam a crueldade (tortura e subjugação) em nome de uma ordem e uma fé pervertidas. A Tia Lydia é o símbolo do mal burocrático, que acredita que o fanatismo e a necessidade populacional justificam os meios mais cruéis. De forma sutil, o texto também aborda a moralidade de privilégio das Esposas. Seu silêncio e sua inveja em relação às Aias são atos moralmente condenáveis, pois são motivados pela manutenção de seu conforto e status social. O caso de Serena Joy, que se torna uma prisioneira do sistema que ajudou a idealizar, expõe a profunda ironia moral do privilégio feminino na opressão.
“É verdadeiramente espantoso as coisas com que as pessoas conseguem se habituar, desde que existam algumas compensações.”
3. Amor e Humanidade como Atos Imorais/Revolucionários
A tirania de Gilead inverte a bússola moral: aquilo que é natural (amor, desejo, conexão) é rotulado como imoral e punível. Consequentemente, a busca por conexão humana se transforma em um ato de afirmação moral e de rebelião. O envolvimento de Offred com o Comandante, por mais que seja motivado em parte por privilégio e curiosidade, é uma tentativa de humanizar um mundo que a trata como um útero ambulante. Mais profundamente, a relação com Nick é o ato mais moralmente "correto" de Offred. Baseada no afeto e no desejo, a intimidade com ele restaura sua dignidade e individualidade, desafiando diretamente a moralidade de obediência reprodutiva imposta por Gilead. Lutar por esses sentimentos proibidos é o caminho de Offred para a integridade moral.
“Nenhuma esperança. Sei onde estou, e quem sou, e que dia é hoje. Esses são os testes, e estou sã. A sanidade é um bem valioso; eu a guardo escondida como as pessoas antigamente escondiam dinheiro. Economizo sanidade, de maneira a vir a ter o suficiente, quando chegar a hora.”
Conclusão: A Moralidade como Memória e Testemunho
Ao longo de O Conto da Aia, Margaret Atwood nos lembra que a moralidade, sob o peso da tirania, não é um código fixo, mas uma capacidade de manter a memória e a consciência individual. O verdadeiro crime em Gilead não é o ato de rebeldia, mas o esquecimento e a passividade moral que permitem a manutenção do regime. O testemunho de Offred, registrado nas fitas cassete, é o ato moral supremo. Ele transforma a sua passividade em ação pós-morte, assegurando que a verdade sobre Gilead, com todas as suas complexidades e atrocidades morais, não seja perdida. O legado de Atwood, portanto, reside em nos alertar que a vigilância moral — sobre nós mesmos e sobre a sociedade — é o preço contínuo da liberdade.
Uma mulher assombrada
Introdução: O Terror da Consciência Histórica
Em "Vulgo Grace"/”Alias Grace”, Margaret Atwood desvia-se do terror explícito e futurístico da distopia de Gilead para mergulhar no terror implícito da psique feminina histórica. Baseada no caso real de Grace Marks, a autora usa a ambiguidade da narradora e a lacuna do registro histórico para expor como as mulheres, especialmente as vulneráveis, são forçadas a escolher entre os estereótipos de "monstro" ou "vítima", nunca podendo ser simplesmente a "mulher". A Atwood aqui não prescreve o que é moral, mas sim questiona quem tem o direito de julgar a moralidade.
“Não é preciso ser uma casa para ser assombrada. A razão para quererem me ver é que sou uma célebre assassina. Ou pelo menos foi o que escreveram.” - Grace Marks
1. A Narrativa como Costura: A Desconfiança da Memória
Grace Marks é a personificação do narrador não confiável no contexto da opressão. Sua história não é apenas um relato, mas um texto cuidadosamente costurado. Atwood utiliza o trabalho manual de Grace — a costura e o acolchoamento — como metáfora para a construção da própria narrativa, onde ela seleciona retalhos da memória (os detalhes inocentes de sua vida, a opressão sofrida) e os costura, ocultando ou revelando a verdade conforme necessário. A suposta amnésia de Grace não é apenas uma falha de memória; é um escudo moral, que transfere a responsabilidade da verdade para o leitor. Somos, assim, forçados a enfrentar nosso próprio viés de julgamento, negando-nos o conforto da certeza sobre sua culpa ou inocência.
2. O Confronto de Estereótipos: A Projeção Masculina
Grace se torna um "texto" no qual a sociedade projeta suas fantasias. O Dr. Simon Jordan, a personificação da nova ciência psiquiátrica, tenta impor uma moralidade racional a Grace. No entanto, sua análise é constantemente contaminada por sua atração e seus preconceitos, projetando nela a imagem da virgem ingênua a ser "salva". O público, por sua vez, exige rótulos mais simples: Grace deve ser o monstro sedutor ou a vítima passiva. Como ela observa com uma lucidez cortante: “Não é preciso ser uma casa para ser assombrada · A razão para quererem me ver é que sou uma célebre assassina. Ou pelo menos foi o que escreveram.” Atwood demonstra, assim, que a verdade sobre Grace é menos importante do que a narrativa social imposta, que reduz a mulher complexa a um espetáculo moralizante.
3. A Verdade dos Fatos vs. A Verdade da Ficção
Ao ficcionalizar o caso real, Atwood não busca um veredicto, mas sim um ato de justiça moral para a personagem histórica cujo rastro se perdeu após a soltura. O uso do termo "escreveram" na citação é crucial, pois expõe que o crime e a identidade de Grace são, acima de tudo, textos consumidos pelo público. Ao preencher as lacunas do registro com a complexidade psicológica (a amnésia, a possível possessão), a ficção torna-se o único meio capaz de restaurar a humanidade que a História negou a ela. Atwood nos ensina que a opressão de gênero tem duas faces: a violência explícita de Gilead e o apagamento e simplificação da História, onde a mulher assombrada é reduzida a uma nota de rodapé ou a um espetáculo.
Conclusão: A Mulher como Texto Inacabado
Em "Uma mulher assombrada", Atwood nos oferece uma visão mais sutil, mas igualmente aterrorizante, sobre a moralidade do que em Gilead. Enquanto O Conto da Aia questiona a moralidade da ação em um futuro tirânico, Vulgo Grace questiona a moralidade da percepção em um passado tirânico. A costura de Grace Marks, que une retalhos de memória e realidade, é a metáfora final: a identidade da mulher, especialmente quando vulnerável, não é uma verdade unificada, mas um texto inacabado que está sempre sujeito à reinterpretação e à projeção alheia.
A própria Grace, em sua reflexão pungente, articula o cerne dessa condição:
“Penso em todas as coisas que foram escritas sobre mim: que sou uma demônia desumana; que sou uma vítima inocente de um canalha, forçada contra a minha vontade e em perigo de vida; que eu era ignorante demais para saber como agir e que me enforcar seria um assassinato judicial; que estou bem e decentemente vestida, mas que roubei uma mulher morta para parecer assim; que tenho uma disposição sombria e um temperamento briguento; que tenho a aparência de uma pessoa de uma posição social superior à minha humilde condição; que sou uma boa moça com uma natureza dócil, e nada de mal é dito sobre mim; que sou astuta e dissimulada; que sou fraca da cabeça e pouco melhor do que uma idiota. E me pergunto: como posso ser todas essas coisas diferentes ao mesmo tempo?”
Essa indagação final ressoa como um eco poderoso da visão de Atwood. O legado da autora, em ambos os romances, é um chamado à desconfiança de todas as narrativas que simplificam a experiência feminina, e um convite a explorar a vastidão e a complexidade que frequentemente se esconde sob os rótulos que a sociedade impõe.