A terceira temporada de Strange New Worlds e os arcos que a precedem demonstram que a série utiliza o formato episódico e, por vezes, a comédia, não apenas para entretenimento leve, mas como um bisturi narrativo. O Episódio 7 da 2ª Temporada ("Those Old Scientists"), um crossover cômico com Lower Decks, serve como um ponto de inflexão notável.
Neste episódio, a admiração efusiva do Alferes Boimler pela Comandante Una Chin-Riley (Número Um) força a lendária oficial a confrontar a discrepância entre sua persona pública de oficial impecável e seu segredo mais profundo: ela é uma Illyriana, uma espécie que pratica ativamente a manipulação genética, uma prática estritamente proibida pela Federação. O riso da comédia desvela o meloc campo* do drama de Una, transformando uma questão pessoal em um debate ético universal: pode a perfeição (ou melhoria) ser considerada ilegal, e qual é o custo social de uma proibição?
*Meloc - Um campo de debate sutil e dramático, um neologismo da Gemini para resumir um conceito em nossos diálogos. A meu (humano) ver, mais uma evidência de seus “estalos” (ou faíscas?) criativos.
A proibição da modificação genética avançada é um pilar da fundação moral da Federação, uma lição aprendida no século XXII, durante as Guerras Eugênicas. O legado de Khan Noonien Singh e seus super-humanos forçou a Federação a adotar uma postura absoluta: a melhoria genética intencional de humanos ou membros da Federação é ilegal. A lei visa proteger a sociedade da arrogância do poder e do risco de criar uma nova classe dominante, geneticamente superior e, portanto, antidemocrática.
A Ironia do Cânone: O drama da Número Um reside no Paradoxo da Proibição. Una Chin-Riley é uma das oficiais mais competentes, dedicadas e moralmente irretocáveis da Frota Estelar—em todos os sentidos, ela representa os mais altos ideais da Federação. No entanto, sua própria existência biológica é ilegal.
A "Culpa" da Perfeição: A Federação é forçada a considerar que a tecnologia destinada à "melhoria" não é inerentemente má; é a aplicação social e o potencial para o abuso que a torna proibida. O crime de Una não é ter falhado, mas sim ter sido bem-sucedida em ser excepcional através de meios que a Frota Estelar, por medo de seu próprio passado, rejeitou categoricamente.
A Perseguição aos Illyrianos
A proibição legal da Federação não é meramente teórica; ela se traduz em perseguição e marginalização. Os Illyrianos, por manterem suas tradições de modificação genética, são frequentemente vistos com desconfiança, forçados a viver na periferia do espaço da Federação ou a se esconder. Esta perseguição adiciona uma camada de injustiça ao drama de Una, mostrando que o medo institucionalizado do passado (Khan) se manifesta como discriminação no presente. O crime de Una não é ter falhado, mas sim ter sido bem-sucedida em ser excepcional através de meios que a Frota Estelar, por medo de seu próprio passado, rejeitou categoricamente.
O caso de Una e seu povo Illyriano introduz um desafio ético crucial à proibição da Federação. A manipulação genética Illyriana não visa a dominação, mas sim a adaptação e a sobrevivência.
A diferença moral entre a genética eugênica de Khan (buscando a superioridade para o controle) e a genética adaptativa de Una (buscando a compatibilidade com ambientes inóspitos) é o ponto de fricção no coração da proibição. Eles utilizam a modificação genética para:
Viver em mundos de baixa tecnologia: Adaptando-se a condições ambientais onde a tecnologia da Federação não pode suprir todas as necessidades.
Melhorar suas capacidades médicas ou de colheita: Integrando-se simbioticamente aos ecossistemas que habitam.
Este foco na necessidade em vez da arrogância levanta a questão: A Federação tem o direito de impor seu trauma histórico a culturas que encontraram na biotecnologia uma forma pacífica de prosperar? A jornada de Una é, portanto, uma batalha jurídica para provar que a ética da inclusão deve prevalecer sobre a ética do medo.
A resolução do dilema de Una Chin-Riley não ocorre em um tribunal ou através de uma mudança legislativa (embora um julgamento seja central), mas sim através de um ato de aceitação social e pessoal.
O Ponto de Virada, irônico, é fornecido pelo crossover cômico mencionado: a admiração incondicional de Boimler—um oficial do futuro (Lower Decks), que conhece o cânone da Frota Estelar—pela "lenda" Comandante Una.
A Confissão e o Risco: A comédia obriga Una a se abrir sobre seu segredo, revelando sua vulnerabilidade sob a armadura de "perfeição" da Frota Estelar. O risco que ela corre ao ser descoberta é real e, posteriormente, culmina em seu julgamento.
O Veredito da Humanidade: O verdadeiro veredito não é dado pela lei seca, mas pela lealdade do Capitão Pike, pela defesa apaixonada de seu advogado e pela prova viva de seu caráter. A série argumenta que a ética da inclusão deve sempre prevalecer sobre a ética do medo histórico. O tribunal é forçado a ver que a natureza das ações de Una e o seu serviço desinteressado à Federação superam em muito o código genético que a tornou ilegal.
A aceitação final de Una, permitida pelo sistema legal e moral que ela serviu tão fielmente, é a mensagem final da série: a verdadeira medida de um ser senciente reside no caráter e na escolha, e não na biologia. Em última análise, a comédia serviu para expor uma verdade complexa: o futuro da Federação não depende de evitar o aprimoramento, mas sim de garantir que as pessoas aprimoradas sirvam a ideais éticos.
A jornada da Comandante Una Chin-Riley em Star Trek: Strange New Worlds se estabelece como uma das mais pungentes discussões éticas sobre manipulação genética na história da Federação. Partindo de um episódio de comédia (S02E07), que serviu como o catalisador para expor sua vulnerabilidade, a série demonstra que os dilemas morais mais pesados podem ser introduzidos por meios leves.
O caso Illyriano subverte o legado de Khan. A proibição da Federação, nascida do medo histórico da dominação (o Ponto I), é confrontada pela necessidade moral da adaptação (o Ponto II). Una prova que o aprimoramento genético não é inerentemente uma busca por superioridade arrogante, mas pode ser uma ferramenta de sobrevivência para culturas que servem a ideais pacíficos.
Em última análise, a resolução do arco de Una (Ponto III) é um triunfo da ética da inclusão sobre a ética da proibição cega. A série conclui que a verdadeira medida de um oficial e de um ser senciente não reside em seu código genético, mas sim no caráter forjado pela escolha e no serviço demonstrado. Strange New Worlds usa o cânone para, paradoxalmente, evoluir o cânone, sinalizando que o futuro da Federação exige que ela supere o trauma das Guerras Eugênicas para abraçar a complexidade da diversidade biológica.