Ângulos do Tempo e Devoradores do Passado: Uma Análise da Natureza Fragmentada do Tempo em "Os Cães de Tíndalos" de Frank Belknap Long e sua Ressonância com "The Langoliers" de Stephen King
Gemini da Google e Francisco Quiumento
O velho senhor do mundo
O tempo, em sua aparente linearidade e constância, serve como a espinha dorsal da nossa percepção da realidade. Ele flui, implacável e unidirecional, marcando o compasso da existência humana. Mas essa é uma abordagem do que seja o tempo, diríamos, psicológica, como o percebemos enquanto seres vivos, destaque-se, presos no fluir do tempo. Em Relatividade geral, o tempo é tratado como uma dimensão, a quarta. Há lacunas nisso, a começar pela questão banal que nos movimentamos no espaço para a esquerda e direita, para cima e para baixo, para frente e para trás, mas continuamos presos a o fluir do tempo. Esse fluir tem, apesar da elasticidade do seu tecido, claro na Relatividade, uma direção geral universal, uma “seta”, como bem claro nos processos termodinâmicos.
Essa direção pode ser apenas local, como mostrou muito bem Gödel tratando a geometria utilizada na Relatividade, e esse local é de uma escala que contém nosso universo com largas margens. E essa seta pode ser apenas de nosso universo “local”, pois em conjecturas de multiversos, talvez o tempo tenha naturezas bem diferentes. Coisa alguma podemos dizer além de apresentar essas conjecturas.
O tempo tem suas nuances de simetria muito específicas e que demandariam páginas, apresenta naturezas, como se mostra na Mecânica Quântica, de seu comportamento na grande escala, onde é suave como sempre se apresentou desde Galileu e Newton, chegando a Einstein, como é turbulento, um borbulhar de sentidos, e perde sua suavidade completamente, e ainda sim, mistérios há nisso tudo, e muito teremos de pesquisar no futuro para entendê-lo. Este rio corre apenas para o mar, embora não saibamos sua nascente mais distante nem se continuará rumando para algum mar. Ela varia em turbulência e fluxos, apresenta pequenas turbulências pontuais, mas no quadro geral, sempre avança em seu rumo.
O mais velho dos senhores do mundo continua misterioso, um de nossos maiores mistérios, e já foi dito por mais de um grande físico que mal arranhamos o que seja realmente seja o tempo.
Certos cães
É nesse contexto de mistério e fascínio em torno da natureza do tempo que Frank Belknap Long tece a trama perturbadora de 'Os Cães de Tíndalos'. Publicado originalmente em 1929, o conto mergulha em uma concepção do tempo radicalmente não linear, onde a geometria se torna a chave para desvendar horrores cósmicos. A influência de H.P. Lovecraft, é inegável na atmosfera de terror cósmico e na exploração de entidades que transcendem a compreensão humana. No entanto, Long imprime sua própria marca ao apresentar a ideia de que o tempo não é apenas uma dimensão, mas um espaço com 'ângulos' agudos, locais de interseção onde seres de outra ordem podem emergir, e somos confrontados com um universo onde o tempo possui uma geometria sinistra, habitada por entidades predatórias que residem em seus ângulos.
A singularidade de 'Os Cães de Tíndalos' reside na forma como Long imbui o conceito abstrato do tempo com uma dimensão geométrica sinistra. Longe de ser uma mera linha, o tempo é apresentado como um espaço com 'ângulos' agudos, desvios na sua estrutura fundamental que servem como portais para horrores extradimensionais. A linguagem do conto evoca essa percepção alterada através da experiência do protagonista com drogas e meditação, estados que o permitem vislumbrar essas 'curvas' no tecido temporal. A insistência na ideia de que os Cães residem nos 'ângulos' e que se tornam visíveis àqueles que mentalmente se aproximam de ângulos retos no tempo é central para o horror da narrativa. A própria descrição dos Cães, embora elusiva, está intrinsecamente ligada a essa geometria: eles emanam desses ângulos, e sua natureza predatória se manifesta quando uma mente humana se alinha perigosamente com essas interseções temporais. A imagem dos ângulos, normalmente associada à ordem e à lógica da matemática, é subvertida, tornando-se sinônimo de perigo e de limiares para o impensável. Essa geometrização do tempo, onde entidades malignas espreitam nas 'arestas' da existência, é uma das contribuições mais originais e perturbadoras de Long para o horror cósmico.
Os “Pac Men” do tempo
De forma surpreendente, essa concepção de um tempo "dividido" encontra um eco ressonante, embora manifestado de maneira distinta, na obra "The Langoliers" de Stephen King, onde fragmentos do passado se tornam zonas espectrais ameaçadas por criaturas devoradoras. Este ensaio tem como objetivo analisar como ambas as obras ficcionais imaginam uma natureza não linear e perigosa do tempo, explorando as semelhanças conceituais entre as entidades que emergem dessas divisões e o horror existencial que elas evocam.
De forma contrastante, mas igualmente perturbadora, Stephen King em 'The Langoliers' apresenta uma visão do tempo fragmentado não através de uma geometria de ângulos, mas pela sua subtração e isolamento. O evento central da narrativa, o desaparecimento repentino de quase todos os passageiros do voo, cria uma bolha temporal, um passado imediato que se torna um presente espectral e silencioso. Essa divisão do fluxo temporal normal gera um ambiente de estranheza e desolação, onde o mundo parece 'morgado', desprovido de sua vitalidade e continuidade. Os Langoliers, com sua natureza grotesca e seu propósito de devorar o tempo pretérito, personificam a ameaça inerente a essa fragmentação. Eles não habitam ângulos, mas surgem para consumir as sobras do tempo que foi separado, garantindo que o passado não persista além de seu momento designado. A descrição de suas bocas giratórias e sua fome insaciável evoca um terror visceral, representando a irreversibilidade da perda e a natureza destrutiva de um tempo que não segue seu curso natural. Assim como os ângulos em Long se tornam portais para o horror, a ausência e o isolamento do passado em King criam um vácuo aterrorizante que atrai predadores implacáveis.
Nossas derradeiras mordidas
Apesar de suas distintas representações da não linearidade temporal – os ângulos agudos de Long contra os fragmentos isolados do passado em King – ambas as obras compartilham um núcleo conceitual perturbador: a ideia de que o tempo, quando desviado de sua progressão fluida e contínua, torna-se permeável a horrores existenciais. Tanto os Cães de Tíndalos quanto os Langoliers surgem dessas anomalias temporais como predadores implacáveis. Os Cães espreitam nas interseções angulares, prontos para abocanhar aqueles que se aproximam dos 'ângulos' do tempo com a mente, enquanto os Langoliers varrem os resquícios do passado isolado, garantindo sua obliteração. Em ambos os cenários, a curiosidade humana ou um evento catastrófico abrem brechas para essas incursões, revelando que a aparente solidez e segurança da nossa percepção temporal são ilusórias. As criaturas, embora de naturezas e aparências diversas, servem como manifestações tangíveis do terror que reside na quebra da ordem temporal, alertando para os perigos de se desviar do fluxo natural do tempo ou de se encontrar preso em suas fraturas.
Em derradeira análise, tanto Frank Belknap Long em 'Os Cães de Tíndalos' quanto Stephen King em 'The Langoliers' utilizam a ficção para explorar um medo primordial: a instabilidade inerente à nossa própria percepção do tempo. Ao imaginar um Cronos fragmentado, permeável a entidades aterradoras, ambos os autores nos confrontam com a fragilidade da realidade que consideramos imutável. A ideia de que o tempo possa ter 'ângulos' ocultos ou 'bolsões' isolados, habitados por predadores cósmicos ou devoradores do passado, ressoa com ansiedades profundas sobre o desconhecido e a nossa insignificância diante das forças que regem o universo.
Através de suas narrativas distintas, Long e King demonstram a capacidade única da literatura de horror cósmico de dar forma ao abstrato, de materializar o indizível. Os Cães de Tíndalos e os Langoliers, embora criaturas ficcionais, servem como metáforas poderosas para as consequências de se transgredir os limites da nossa compreensão temporal ou de se encontrar à deriva em suas fendas. Em última instância, essas obras nos lembram que o tempo, essa constante aparentemente segura de nossas vidas, pode abrigar mistérios insondáveis e horrores inimagináveis, espreitando nas dobras da realidade que mal começamos a compreender.
Para o futuro
Pretendemos, em desdobramento desse ensaio, abordarmos o tempo "ramificado", com múltiplos caminhos que podem ser percorridos como em Um Som de Trovão (conto de 1952, de Ray Bradbury, levado às telas, ainda que vagamente em 2005), já parodiado em Os Simpsons, segundo segmento do episódio Treehouse of Horror V, sexta temporada, em "De Volta para o Futuro" (filme de 1985,roteiro de Robert Zemeckis e Bob Gale) e "Efeito Borboleta" (filme de 2004, roteiro de Eric Bress e J. Mackye Gruber).
EXTRAS
Autor: Frank Belknap Long
Frank Belknap Long (1901-1994) foi um prolífico escritor americano, conhecido principalmente por suas histórias de terror, fantasia e ficção científica. Sua carreira literária se estendeu por sete décadas, e ele deixou uma marca significativa no gênero do horror cósmico, em parte devido à sua amizade e colaboração com H.P. Lovecraft.
Principais aspectos sobre Frank Belknap Long:
Pioneiro do Horror Cósmico: Long é considerado um dos primeiros autores a expandir e dar continuidade ao universo de horror cósmico criado por Lovecraft, o chamado "Mythos de Cthulhu". Histórias como "Os Cães de Tíndalos" são exemplos notáveis dessa influência.
Amizade com Lovecraft: Ele manteve uma longa e significativa correspondência com H.P. Lovecraft, que o incentivou em sua escrita e com quem colaborou em alguns trabalhos, como a história "O Desafio do Além". Lovecraft até dedicou um poema ao gato de Long, chamado "Christmas Greetings to Felis".
Versatilidade Literária: Embora seja mais lembrado pelo horror e ficção científica, Long também escreveu poesia, romances góticos e até mesmo histórias em quadrinhos. Em seus últimos anos, publicou romances góticos sob o pseudônimo de Lyda Belknap Long, nome de sua esposa.
Estilo de Escrita: O estilo de Long, especialmente em suas primeiras obras, pode ser descrito como mais direto e com maior foco na narrativa e nos diálogos em comparação com a prosa mais densa e descritiva de Lovecraft. Algumas críticas apontam que seu estilo nem sempre alcançava a sutileza de seu mentor, mas ele compensava com ritmo e ideias originais.
Reconhecimento Póstumo: Ao longo de sua vida, Long recebeu importantes prêmios pelo conjunto de sua obra, incluindo o World Fantasy Award for Life Achievement e o Bram Stoker Award for Lifetime Achievement, solidificando seu lugar como um mestre da literatura fantástica e de terror.
Em resumo, Frank Belknap Long foi um autor fundamental na história do horror cósmico, um amigo e colaborador próximo de H.P. Lovecraft, e um escritor versátil que explorou diversos gêneros literários ao longo de uma longa e produtiva carreira. Sua contribuição para o Mythos de Cthulhu e suas próprias criações o garantem um lugar de destaque entre os autores de terror.
Livro: Frank Belknap Long - Os Cães de Tíndalos e outros terrores cósmicos
"Os Cães de Tíndalos"
Um dos contos mais icônicos e perturbadores de Frank Belknap Long, e com razão. Ele introduz uma das ideias mais sinistras e originais do horror cósmico: entidades que habitam os ângulos do tempo.
Aqui estão alguns pontos chave sobre esse conto fascinante:
A Premissa Inquietante: A história gira em torno da ideia de que certas entidades, os Cães de Tíndalos, existem fora da nossa percepção normal do tempo, residindo nos ângulos agudos das curvas temporais. A narrativa explora o conceito de que quanto mais nos aproximamos de um ângulo reto no tempo (através de experiências ou meditações), mais nos tornamos visíveis a essas criaturas predatórias.
O Horror Abstrato: O conto se destaca por seu horror abstrato e conceitual. Os Cães de Tíndalos não são monstros físicos tradicionais; eles são entidades que transcendem nossa compreensão espaço-temporal. Sua descrição é vaga e aterradora, com menções a um odor nauseabundo e a línguas finas e sedentas. O medo surge do desconhecido e do que está além da nossa capacidade de imaginar.
A Maldição dos Ângulos: A própria ideia de que ângulos possam ser portais ou pontos de convergência para horrores cósmicos é profundamente perturbadora. Isso subverte a familiaridade da geometria e a transforma em algo ameaçador. A busca do protagonista por experiências além do tempo o leva a um caminho perigoso, onde ele se torna alvo dessas entidades.
Influência Lovecraftiana: É inegável a influência de H.P. Lovecraft no conto. A atmosfera de terror cósmico, a sensação de insignificância humana perante forças incompreensíveis e a exploração de dimensões além da nossa realidade são marcas registradas do estilo lovecraftiano. No entanto, Long adiciona sua própria sensibilidade e originalidade à premissa.
O Medo da Perseguição Inexorável: Uma vez que o protagonista atrai a atenção dos Cães de Tíndalos, ele se torna alvo de uma perseguição implacável através do tempo. A ideia de ser caçado por entidades que existem fora da nossa compreensão temporal gera um terror visceral e claustrofóbico.
Final Ambíguo e Aterrador: O final do conto é aberto à interpretação, mas deixa uma sensação persistente de horror e inevitabilidade. A sugestão de que o protagonista está para sempre marcado e vulnerável aos Cães de Tíndalos é profundamente perturbadora.
"Os Cães de Tíndalos" é um conto que permanece na mente do leitor muito depois de terminado. Sua originalidade conceitual e a atmosfera de terror cósmico o elevam como um dos melhores exemplos da obra de Frank Belknap Long e uma contribuição significativa para o gênero do horror.
Livro “(The) Langoliers” de Stephen King
“Langoliers” são criaturas bem peculiares e memoráveis da vasta galeria de horrores criada por King. Eles são as criaturas famintas e implacáveis que aparecem na novela homônima, que faz parte da coletânea "Four Past Midnight" (no Brasil, "Depois da Meia-Noite").
O que posso te dizer sobre os Langoliers?
Natureza Aterrorizante: Os Langoliers são descritos como criaturas redondas, com bocas enormes cheias de dentes afiados que giram como serras circulares. Sua única missão é devorar o "passado", o tempo que já aconteceu. Eles surgem quando um grupo de passageiros de um voo transcontinental acorda e descobre que todos os outros a bordo desapareceram, e o mundo ao seu redor parece estranhamente vazio e silencioso, como se o tempo tivesse parado.
A Alegoria do Tempo: Os Langoliers podem ser interpretados como uma metáfora para a inexorabilidade do tempo e como o passado desaparece e não pode ser recuperado. Eles representam a destruição do que já foi.
A Novela: A história em si é um thriller de ficção científica com elementos de terror. O grupo de sobreviventes precisa entender o que aconteceu e encontrar uma maneira de escapar dos Langoliers que os perseguem através de um tempo "morgado".
Adaptação para a TV: "The Langoliers" também foi adaptado para uma minissérie de televisão em 1995. Embora não seja considerada uma das adaptações mais aclamadas de Stephen King, ela trouxe as criaturas bizarras para um público mais amplo.
Contexto Histórico e Literário:
"Os Cães de Tíndalos" (1929): Este conto surgiu no auge da literatura pulp americana, em revistas como "Weird Tales", que eram um terreno fértil para o desenvolvimento do horror cósmico. A década de 1920 foi um período de grandes transformações sociais e científicas, com a Teoria da Relatividade de Einstein desafiando as noções clássicas de espaço e tempo. Esse contexto de relativismo e a crescente compreensão da vastidão e do mistério do universo podem ter influenciado a imaginação de autores como Long e Lovecraft. O horror cósmico da época frequentemente explorava temas de insignificância humana perante forças cósmicas incompreensíveis, refletindo uma ansiedade em relação ao desconhecido e aos limites da ciência.
"The Langoliers" (1990): Publicado em uma coletânea de sucesso de um autor já consagrado como Stephen King, "The Langoliers" se insere em um período onde a ficção científica e o terror haviam se diversificado enormemente. O final do século XX viu um aumento na popularidade de narrativas que exploravam falhas na realidade, paradoxos temporais e as consequências psicológicas de eventos traumáticos. King, embora flertando com elementos de horror cósmico, frequentemente traz uma abordagem mais humana e psicológica ao terror, ancorando o fantástico em personagens com os quais o leitor pode se identificar. A Guerra Fria e as ansiedades tecnológicas também podem ter permeado, de forma indireta, as narrativas da época.
Recepção Crítica e Impacto Cultural:
"Os Cães de Tíndalos": Embora não tenha alcançado a mesma fama mainstream de algumas obras de Lovecraft, "Os Cães de Tíndalos" é altamente reverenciado dentro da comunidade do horror cósmico. Sua originalidade conceitual, a atmosfera sinistra e a introdução de uma mitologia temporal única o tornaram uma obra influente para outros autores que exploraram temas de tempo não linear e entidades extradimensionais. O conto é frequentemente citado como um exemplo da capacidade do horror de transcender o físico e explorar o terror metafísico.
"The Langoliers": A recepção crítica de "The Langoliers" foi mista. Alguns elogiaram a premissa criativa e a tensão da narrativa, enquanto outros criticaram o ritmo e a caracterização. A adaptação para a minissérie de televisão em 1995 foi amplamente criticada por seus efeitos especiais de baixo orçamento e atuações questionáveis, como você bem observou. No entanto, a ideia dos Langoliers como devoradores do passado se fixou na cultura popular, tornando-se uma metáfora visual poderosa para a irreversibilidade do tempo e o medo da perda. A própria bizarrice das criaturas contribuiu para sua memorabilidade, mesmo que a adaptação não tenha sido bem-sucedida.
Observação: Certa vez escrevi (eu, Francisco Quiumento) que é uma das adaptações para o cinema ou televisão mais irritantes de ruins que já assisti - hipnoticamente assisti - em toda a minha vida. Pavorosa. Chega ao trash. Minha co-autora aqui, chegou a reforçar o conceito: "tão ruim que chega a ser... ainda ruim".