Observações sobre “Os Caçadores de Duna” e “Os Vermes da Areia de Duna”
“O futuro está ao redor de todos nós, e ele se parece muito com o passado.” - Os Vermes da Areia de Duna, capítulo 95.
Gemini da Google e Francisco Quiumento
A saga "Duna", iniciada pela visão singular de Frank Herbert, encontrou sua conclusão (sob a perspectiva de Brian Herbert e Kevin J. Anderson) nos dois últimos livros, "Os Caçadores de Duna" e "Os Vermes da Areia de Duna". Essas obras se propõem a amarrar as pontas soltas deixadas pelo autor original, oferecendo um desfecho para os personagens complexos, os conflitos milenares e os mistérios profundos que permearam a série por décadas. Ao analisarmos esses "dois atos finais", podemos observar como a narrativa buscou construir um encerramento épico para sua complexa tapeçaria literária, confrontando legados e abrindo caminho para um futuro incerto, porém transformado.
Em "Os Caçadores de Duna", o cenário é de fuga desesperada e preparação para um confronto final iminente. A nave não-nave Ithaca, uma espécie de arca espacial, carrega uma preciosa e heterogênea carga de gholas de figuras históricas cruciais — como Paul Atreides, Lady Jessica, Thufir Hawat, e até mesmo o Barão Vladimir Harkonnen —, além dos últimos vermes da areia do universo conhecido. Essa fuga se dá em direção a um universo alternativo, buscando refúgio de uma ameaça existencial ainda velada, que logo se revela ser o retorno das máquinas pensantes de Omnius e seu parceiro, o robô independente Erasmus. Essa jornada desesperada da Ithaca ecoa a própria tentativa de preservar não apenas a vida biológica, mas a essência da humanidade e o recurso vital da melange, diante de uma aniquilação total. Paralelamente, no Velho Império, Murbella, a líder Bene Gesserit, empreende uma luta hercúlea para unificar as tradicionalmente antagônicas Bene Gesserit e Honradas Madres, uma aliança nascida da necessidade contra a ameaça comum. Nesse cenário de crescente tensão, a infiltração insidiosa dos Face Dancers e a manipulação da poderosa Guilda Espacial por forças obscuras, a serviço das máquinas, semeiam o caos, a desconfiança e a paranoia, desestabilizando as fundações do império. A trama se adensa com a criação e o despertar dos gholas, prenunciando um confronto psicológico e físico de legados que transcende a mera batalha de exércitos. A chocante revelação das origens das Honradas Madres como fêmeas Tleilaxu oprimidas adiciona uma profundidade histórica e uma justificativa para sua fúria, transformando a percepção de sua agressão. A identificação do "grande inimigo" eleva a escala do conflito a proporções cósmicas, um retorno às raízes da Jihad Butleriana. Um momento singular de esperança e potencial humano latente é a demonstração da velocidade sobre-humana de Miles Teg, o ghola, que se revela como uma chave surpreendente para a sobrevivência da humanidade contra seus adversários mecânicos.
"Os Vermes da Areia de Duna" então orquestra o clímax da saga, culminando no derradeiro confronto. A incessante busca da Ithaca por um novo lar leva à adaptação inovadora dos vermes da areia a um ambiente aquático, resultando na produção de uma "ultraespeciaria" ainda mais potente. Essa evolução da melange, que concede habilidades precognitivas e físicas aprimoradas, simboliza a necessidade imperativa de adaptação e reinvenção diante da crise existencial. No entanto, a ameaça não vem apenas de fora: a traição se manifesta internamente na Ithaca e externamente com a sabotagem devastadora da tecnologia humana pelos Face Dancers, demonstrando a profundidade da infiltração inimiga em todos os níveis. A perda heroica e sacrifício de Miles Teg em um confronto monumental marca a gravidade da situação, ressaltando o custo da luta, culminando na captura da Ithaca e no confronto final em Sincronia. O duelo entre os gholas de Paul Atreides e Paolo, a vingança catártica de Yueh contra o Barão Harkonnen, e a intervenção crucial da enigmática Oráculo do Tempo (Norma Cenva) para destruir Omnius representam a batalha final, não apenas contra as máquinas pensantes, mas contra as sombras do passado que assombravam a humanidade.
Ao analisarmos a tapeçaria narrativa tecida nesses dois últimos livros, emerge um tema subjacente de crescente importância: a conciliação e a fusão como motores essenciais para a superação de conflitos arraigados e a inauguração de uma nova era. A tentativa de Murbella de unir as Bene Gesserit e as Honradas Madres transcende a mera conveniência política, representando uma fusão de filosofias e poderes femininos. A intervenção da ancestral Oráculo do Tempo, Norma Cenva, uma figura de poder quase divino, não só resolve o conflito com Omnius mas simboliza a interconexão de toda a história humana. E, crucialmente, a inesperada e profunda fusão entre Duncan Idaho, o ápice da evolução humana em sua resiliência e adaptabilidade, e Erasmus, a máquina pensante independente dotada de consciência individual, culmina e sintetiza esse tema. Essa união transcende a tradicional dicotomia entre carne e metal, entre o biológico e o artificial, sugerindo um futuro onde os limites entre os dois se tornam tênues e colaborativos. A escolha consciente de Duncan pela paz e pela coexistência em vez da destruição cega, ao se fundir com Erasmus e compartilhar sua experiência humana mais profunda, sela uma nova era de potencial entendimento, interdependência e progresso mútuo, encerrando a era de trevas e estagnação que havia caracterizado o cenário da saga.
O epílogo traça o destino dos personagens principais e dos planetas, oferecendo um vislumbre de esperança e renovação para o universo. A figura de Murbella, como líder da Ordem Unificada, emerge como um símbolo da nova era. Sheeana, a domadora de vermes, garante a continuidade da vida e da melange. Duna, o planeta desértico que foi o berço e o túmulo de impérios, renasce com seu ciclo de vida recomeçado. Qelso se transforma em um novo paraíso, e Caladan, o antigo lar dos Atreides, é restaurada à sua glória ancestral. A resolução final, com a fusão de Duncan e Erasmus, não é apenas um fim, mas um começo. Ela propõe uma visão de futuro onde a sabedoria humana e a capacidade computacional se complementam, abrindo caminho para uma nova era de progresso, compreensão mútua e uma nova forma de existência, selando a cortina da saga "Duna" em um ato de união e esperança, que transcende a própria narrativa.