… e onde ela é solução
Gemini da Google e Francisco Quiumento
A interação entre diferentes campos do saber, por vezes percebida como uma fronteira rígida, é, na verdade, um espaço dinâmico de intersecções, tensões e, surpreendentemente, humor. As piadas acadêmicas e as críticas históricas não são meras anedotas; elas revelam as percepções, os desafios e as contribuições de disciplinas que, em sua essência, buscam compreender a realidade, cada uma à sua maneira.
Uma piada recorrente no meio universitário ilustra a visão (por vezes irônica) sobre a natureza fundamental de certas disciplinas. Na versão clássica, uma reitoria, em busca de cortes orçamentários, impõe reduções drásticas em quase todos os departamentos, mas poupa a Matemática e a Filosofia. O motivo? Se esses departamentos fossem cortados, "quem explicaria por que precisamos cortar custos?" Essa versão sublinha a percepção de que a lógica (Matemática) e a razão (Filosofia) são pilares indispensáveis, mesmo que de forma abstrata.
Uma outra abordagem, mais concisa, amplia essa ideia: o curso de Matemática permanece intocado por só necessitar de papel, lápis e lixeira. Já o de Filosofia, por sua vez, nem de lixeira precisa. Essa variação ressalta a noção de que essas disciplinas demandam recursos materiais mínimos, enfatizando a primazia do pensamento, da abstração e da discussão em sua prática. É um comentário espirituoso sobre o essencialismo e a autossuficiência intelectual percebidos nessas áreas, que conseguem operar além das grandes estruturas e investimentos, dependendo primariamente da capacidade humana de raciocinar e teorizar.
A interação entre ciência e filosofia, no entanto, nem sempre é vista com a mesma leveza. Há uma frase que, com humor ácido, sugere o desconforto de alguns cosmólogos ao se depararem com filósofos: "Um cosmólogo gosta tanto de encontrar um filósofo quanto de ser pego saindo de um cinema que passa filmes pornográficos." A comparação, propositalmente mordaz, aponta para uma sensação de constrangimento ou de ser flagrado em algo "não sério" ou "não científico", ou ainda, o julgado como socialmente criticável ou imoral.
Essa brincadeira expõe uma tensão subjacente que pode surgir das diferenças metodológicas e dos focos distintos. Cosmólogos, ancorados em modelos matemáticos, observações e dados empíricos, buscam descrever e prever o universo. Filósofos da ciência, por outro lado, frequentemente se dedicam a questões conceituais, epistemológicas e metafísicas: as fundações dos modelos, as pressuposições subjacentes, as interpretações dos resultados e os limites do conhecimento. Para alguns cientistas, essa análise crítica pode parecer abstrata, improdutiva ou até mesmo um "atraso" ao progresso científico, gerando a percepção de uma falta de contribuição concreta ou um incômodo com a crítica. No entanto, essa caricatura não reflete a realidade de muitos cientistas que valorizam o rigor conceitual e a clareza filosófica que a filosofia pode trazer à pesquisa científica.
Essa tensão entre o rigor científico e a reflexão sobre seus fundamentos não é um fenômeno novo. Um exemplo notável historicamente reside na crítica que um teólogo fez ao modelo de universo de Isaac Newton. Richard Bentley, um teólogo e mestre do Trinity College, questionou a estabilidade do universo newtoniano. Sua crítica principal era que, se as estrelas estivessem distribuídas infinitamente e de maneira mais ou menos uniforme no espaço, a força da gravidade inevitavelmente as atrairia umas às outras. Com o tempo infinito, isso levaria ao colapso de toda a matéria em um único ponto ou em aglomerados densos, contradizendo a observação de um universo vasto e aparentemente estável.
Essa objeção teológica, com sua base na lógica da gravidade, não era trivial e representava um problema sério para a cosmologia newtoniana da época. Embora Newton tivesse suas próprias tentativas de explicação, a crítica de Bentley ilustra como considerações "externas" ao domínio puramente matemático e físico – neste caso, uma preocupação teológica sobre a perfeição e estabilidade da criação divina – puderam desafiar e aprofundar o pensamento científico. Ela demonstra que a busca por compreender o cosmos sempre envolveu diversas perspectivas, e que as fronteiras entre ciência, filosofia e até teologia foram e continuam sendo mais porosas do que se costuma imaginar.
É crucial observar que esse problema de instabilidade gravitacional persistiria mesmo com o advento da Teoria da Relatividade Geral de Einstein, nas suas formulações iniciais de um universo estático. Somente com o desenvolvimento da Cosmologia moderna e a percepção de que o universo não era estático, mas sim está em expansão, é que uma solução adequada para essa questão foi encontrada, oferecendo uma explicação para a não-colapso da matéria sob sua própria gravidade. Essa persistência e subsequente resolução demonstram como as questões levantadas por outras áreas do conhecimento podem, ao longo do tempo, impulsionar avanços fundamentais na própria ciência.
As piadas sobre os departamentos de Matemática e Filosofia e a tensão entre cosmólogos e filósofos, assim como a crítica histórica ao modelo de Newton, revelam uma verdade fundamental: a busca pelo conhecimento é multifacetada e raramente se confina a silos disciplinares. Embora as metodologias e os focos possam variar, a interação, por vezes marcada pelo desconforto ou pela crítica, é essencial. Seja na busca por uma compreensão mais profunda dos fundamentos de uma teoria científica ou na reflexão sobre o que é essencial para o próprio ato de pensar, o diálogo entre o rigor empírico, a reflexão conceitual e até as indagações metafísicas é indispensável. Em última análise, a compreensão do universo e de nosso lugar nele se beneficia imensamente quando aceitamos que a inquirição sobre a realidade exige a contribuição de todas as suas formas e perspectivas.