O grande líder, o supremo timoneiro
Dos perigos do messianismo no econômico
“Mas pode ser que sim, que a verdade e a justiça que vocês, nós, todos e todas, todoas, buscamos, se consiga graças à dádiva de um líder rodeado de gente tão inteligente como ele, um salvador, um amo, um chefe, um patrão, um pastor, um governante, e tudo com apenas o mínimo esforço de uma cédula na urna, com um tuit, com uma presença na marcha, na assembleia, na lista de filiados … ou calando frente à farsa que simula interesse patriótico onde só existe a ânsia pelo Poder.” - Sub Galeano, “O Muro e a Fenda: Primeiro Apontamento sobre o Método Zapatista”, México, 3 de maio de 2015.
Gemini da Google e Francisco Quiumento
Em períodos de turbulência, quando a incerteza paira sobre os mercados e a vida das pessoas é diretamente afetada por ventos econômicos adversos, uma tentação quase irresistível se manifesta: a busca por um salvador. É nesse cenário de fragilidade que emerge a figura do "grande líder", do "supremo timoneiro", que se apresenta como o único capaz de decifrar a complexidade dos problemas e, com sua visão inquestionável, guiar a nação para fora da crise. Essa figura messiânica, prometendo soluções rápidas e definitivas, centraliza em si todo o conhecimento e a capacidade de ação. No entanto, o presente ensaio argumentará que essa crença em um único "timoneiro" infalível é não apenas uma ilusão perigosa, mas uma abordagem que, historicamente, se mostra particularmente destrutiva no delicado e interconectado universo econômico.
A sedução do "supremo timoneiro" muitas vezes reside na promessa de simplificar o que é, por natureza, intrincado. Contudo, a economia não é uma máquina simples cujas engrenagens podem ser facilmente ajustadas por um único comando. Pelo contrário, trata-se de um sistema orgânico e complexo, impulsionado por milhões de decisões individuais, expectativas, inovações tecnológicas, dinâmicas sociais e eventos geopolíticos. As interconexões são vastas e as variáveis, inúmeras. Uma mudança em um setor pode ter efeitos em cascata imprevisíveis em outro, e o curto prazo raramente reflete as consequências de longo prazo. Portanto, a ideia de que existem soluções "mágicas" ou "balas de prata" para problemas econômicos profundos — seja para inflação, desemprego ou estagnação — é uma fantasia perigosa. O messianismo econômico, ao ignorar essa complexidade, promove uma simplificação excessiva que distorce a realidade, tornando as intervenções não apenas ineficazes, mas frequentemente prejudiciais.
A figura do "supremo timoneiro" no cenário econômico muitas vezes encontra sua explicação em um viés cognitivo bem conhecido: o Efeito Dunning-Kruger. Esse fenômeno psicológico descreve como indivíduos com baixa competência em uma determinada área tendem a superestimar drasticamente suas próprias habilidades, enquanto os verdadeiramente competentes podem, ironicamente, subestimar-se. No contexto econômico, essa ilusão de conhecimento pode ser catastrófica. O líder que se crê infalível, e que se posiciona como o único detentor das soluções "milagrosas", pode, na verdade, carecer de uma compreensão profunda da complexidade do sistema.
Essa autoconfiança excessiva, descolada da realidade e da expertise técnica, leva a decisões econômicas temerárias. Figuras messiânicas tendem a ser impermeáveis a críticas e a ignorar evidências que contradizem suas visões. Ao invés de buscar conselhos especializados e permitir o debate robusto, eles confiam plenamente em sua própria intuição ou em um conjunto de crenças simplistas, muitas vezes resultando em políticas que agravam, em vez de resolver, os problemas preexistentes. A crença na própria genialidade, sem a base de conhecimento e experiência necessária, é um perigo latente para a estabilidade e prosperidade de qualquer nação.
A figura do "grande líder" econômico não se limita a uma mera falha cognitiva; ela se traduz em uma perigosa centralização do poder de decisão. Quando um "supremo timoneiro" assume o leme, a tendência é que todas as importantes escolhas econômicas sejam tomadas por ele ou por um pequeno círculo de aliados inquestionáveis. Isso significa que especialistas, as dinâmicas de mercado, e, crucialmente, o pluralismo de ideias são marginalizados ou completamente ignorados.
Essa concentração de poder representa um risco imenso. Decisões econômicas que afetam milhões de vidas, o investimento, o consumo e o futuro de uma nação, são tomadas sem a robustez do debate, a validação de diferentes perspectivas ou os contrapesos institucionais. Erros, que são naturais em qualquer sistema complexo, tornam-se erros sistêmicos e, por vezes, irrecuperáveis, pois não há mecanismos eficazes para corrigi-los ou sequer apontá-los. Além disso, a supressão da inovação e da iniciativa individual se instala, já que a adesão à visão do "timoneiro" é mais valorizada do que a criatividade ou a proposição de alternativas. O resultado pode ser uma tirania econômica sutil, onde a liberdade de prosperar é cerceada em nome de uma visão única e, frequentemente, equivocada.
A história, tanto recente quanto distante, oferece um vasto repositório de lições sobre os perigos do messianismo econômico. Quando líderes se investem do papel de "supremo timoneiro" e tentam impor suas visões singulares sobre sistemas econômicos complexos, os resultados são, com alarmante frequência, crises profundas, estagnação e empobrecimento generalizado. Regimes que adotaram planificações econômicas centralizadas de forma rígida, baseadas na premissa de que um pequeno grupo (ou um único líder) poderia ditar a produção e a distribuição de recursos de forma mais eficiente que os mercados, invariavelmente enfrentaram a destruição de riqueza, desperdício massivo de recursos e a diminuição do padrão de vida de suas populações.
Exemplos de populismos econômicos, que prometem prosperidade instantânea através de medidas insustentáveis, também ilustram essa tragédia. Ao ignorar princípios econômicos básicos e a complexidade das interações de mercado, essas abordagens podem gerar bolhas, inflação descontrolada, escassez e, em última instância, recessões severas. Tais fracassos históricos servem como um lembrete contundente: a crença na infalibilidade de um líder econômico, e a consequente supressão do pluralismo e dos mecanismos de autorregulação, não pavimentam o caminho para a prosperidade, mas sim para a fragilidade e a instabilidade econômica.
Em contraste com a perigosa ilusão do "supremo timoneiro", a verdadeira resiliência e o progresso econômico são forjados no crisol do pluralismo de ideias, da descentralização de decisões e, fundamentalmente, da humildade intelectual. Reconhecer que a economia é um sistema complexo e multifacetado implica abandonar a busca por soluções universais e infalíveis. Em vez disso, a prosperidade duradoura exige uma abordagem que valorize a diversidade de perspectivas, o debate aberto e a capacidade de aprender com os próprios erros.
Isso significa respeitar os mecanismos de mercado – mesmo com suas imperfeições – como espaços para a descoberta e a alocação de recursos. Significa também empoderar uma multiplicidade de atores econômicos, permitindo que a inovação floresça em ambientes descentralizados. Acima de tudo, é vital que os líderes econômicos ajam com humildade intelectual, compreendendo os limites de seu próprio conhecimento e a imprevisibilidade de certas variáveis. O desenvolvimento econômico não é um roteiro pré-determinado a ser seguido por um único "timoneiro", mas sim um processo dinâmico de tentativa e erro, adaptação contínua e aprendizado coletivo. Somente assim é possível construir uma economia robusta, capaz de resistir a crises e gerar prosperidade de forma sustentável para todos.