Num novo século, uma inacreditável continuação, novas reflexões
Gemini da Google e Francisco Quiumento
Nos anos 80, o cronista Luis Fernando Verissimo capturou com maestria a essência do culto em torno de Blade Runner. Em uma de suas tirinhas, um diálogo simples ilustrava a devoção dos fãs, aproximadamente: "-Quantas vezes você assistiu Blade Runner? -Nove. -Por que, não gostou?". Essa anedota sublinha o status de um filme que, apesar de um lançamento discreto e bilheteria modesta, ascendeu a um inegável marco cultural. Diferente de outra saga icônica, também parida por Ridley Scott, como Alien, que permitiam uma maleabilidade maior em suas continuações, Blade Runner foi erguido sobre a intrincada obra de Philip K. Dick, um autor conhecido por sua complexidade. Fazer uma sequência para tal obra, sem distorcer seu sentido, conteúdo e as profundas indagações que levantava, seria uma tarefa não apenas difícil, mas repleta de riscos monumentais.
Contudo, eis que o cinema contemporâneo nos presenteou com Denis Villeneuve, um diretor cuja trajetória de mão firme – evidente em obras como Os Suspeitos, O Homem Duplicado, Sicario e a obra-prima do SciFI A Chegada – já apontava para algo promissor. Sua habilidade em compor filmes com peso, ritmo e um estilo realista, longe do despejo saturante de computação gráfica e velocidade desnecessária, revelou-se a semente ideal para a germinação de uma continuação digna. E assim, em quase três horas de projeção, Blade Runner 2049 não apenas conta uma nova história, mas utiliza cada minuto de forma magistral, provando que é possível, sim, expandir um universo tão reverenciado sem comprometer sua alma.
Blade Runner 2049 não se contenta em ser uma mera continuação; ela estabelece um diálogo complexo e multifacetado com o filme original através de repetições de tropos narrativos, inversões de papéis e permutas de conceitos. Essa estrutura intertextual não apenas homenageia o legado de Ridley Scott, mas também aprofunda as questões filosóficas e existenciais levantadas há mais de três décadas.
Uma das repetições mais evidentes reside na figura do protagonista como um policial encarregado de caçar seres sintéticos "fora de controle". Rick Deckard era um Blade Runner, um policial especializado em "aposentar" replicantes Nexus-6. K, o protagonista de 2049, desempenha uma função similar, "aposentando" modelos Nexus-8 mais antigos. No entanto, essa repetição superficial mascara uma inversão crucial. Enquanto Deckard era um humano caçando replicantes, a própria natureza de K como um replicante caçando outros de sua espécie introduz uma camada de complexidade e autoquestionamento. K não apenas persegue outros seres sintéticos, mas também busca respostas sobre sua própria origem e a possibilidade de ser "mais" do que sua programação.
O elemento do mistério é outra repetição com inversão. No filme original, Deckard é contratado para investigar um grupo de replicantes fugitivos, e a trama se desenrola como uma investigação policial noir, culminando em confrontos existenciais. Em 2049, K se depara com um mistério de proporções muito maiores: a descoberta de uma replicante que conseguiu se reproduzir biologicamente, um evento tido como impossível. Essa busca pela verdade o leva a questionar a própria fundação da sociedade e a natureza da vida. A escala do mistério se expande de uma caçada policial para uma investigação com implicações potencialmente revolucionárias.
A permuta de papéis também é um recurso narrativo chave. No primeiro filme, os replicantes são vistos como os "outros", aqueles que anseiam por mais vida e questionam sua mortalidade imposta. Em 2049, essa busca por significado e transcendência é internalizada por K, um replicante que anseia por uma conexão genuína e pela possibilidade de uma história pessoal autêntica, simbolizada por sua relação com a holográfica Joi. Essa permuta permite explorar a questão da humanidade a partir da perspectiva do ser sintético, aprofundando a empatia do espectador por aqueles que são marginalizados.
Ao integrar comparações com outras obras que exploram a inteligência artificial e a natureza da consciência, podemos enriquecer ainda mais essa análise:
Animatrix: "O Segundo Renascer": Este curta explora a guerra entre humanos e máquinas do ponto de vista das máquinas, mostrando sua busca por sobrevivência e um lar. Similarmente, 2049 oferece uma perspectiva mais empática sobre os replicantes e seu desejo de existir e se reproduzir, que pode ser visto como uma forma de "renascimento" ou continuidade.
The Machine (2013): Este filme britânico aborda a criação de uma IA com aparência humana para fins militares, levantando questões sobre direitos de máquinas e a natureza da consciência. A luta de K por autonomia e a busca por sua origem ecoam os dilemas apresentados em The Machine.
Automata (2014): Estrelado por Antonio Banderas, este filme se passa em um futuro onde robôs com certas diretivas de segurança começam a desenvolver autonomia. A ideia de uma evolução não programada da IA e o surgimento de uma "segunda geração" de robôs com consciência própria têm paralelos com a descoberta da reprodução replicante em 2049.
Através dessas repetições, inversões e permutas, Blade Runner 2049 não apenas presta homenagem ao seu predecessor, mas o expande de maneiras surpreendentes, aprofundando as reflexões sobre o que nos define como seres vivos e conscientes, seja qual for a nossa origem.
Blade Runner 2049 eleva a complexidade da inteligência artificial para além dos replicantes, introduzindo Joi, a companheira holográfica de K. Sua existência materializa uma nova forma de "humanidade" e de interação emocional, provocando uma reflexão profunda sobre o que constitui o amor e a conexão genuína em um mundo crescentemente artificial.
Joi representa um avanço significativo no conceito de IA. Ela é um produto de consumo, projetada para ser a companheira ideal, adaptando-se às necessidades e desejos de seu proprietário. Contudo, sua relação com K transcende a mera programação de conveniência. Joi demonstra o que parece ser crescimento, empatia e um desejo de transcender suas próprias limitações digitais (como ao adquirir um "emancipador" para se projetar fora da casa de K). Essa interação levanta a questão central: o amor é validado pela biologia do amado, ou pela profundidade e reciprocidade dos sentimentos experimentados? A devoção de Joi por K, sua capacidade de oferecer conforto, compreensão e até mesmo sacrifício, nos força a considerar se a "humanidade" de uma relação reside na autenticidade das emoções, e não na natureza orgânica de seus participantes.
Essa discussão encontra ecos poderosos em outras obras que exploram o afeto entre humanos e inteligências artificiais:
Ela (Her, 2013): O filme de Spike Jonze explora o relacionamento de Theodore Twombly com seu sistema operacional de IA, Samantha. Similarmente a Joi, Samantha evolui, demonstra complexidade emocional e anseia por uma conexão mais profunda, chegando a ter "relações" e questionar os limites de sua existência virtual. Ela estabelece a premissa de que o amor pode surgir independentemente da materialidade, e 2049 leva essa ideia a um patamar mais sombrio e distópico, onde essa conexão artificial pode ser ainda mais manipulável e efêmera em um mundo já desolado.
Fundação (Isaac Asimov): Nos livros complementares da Trilogia da Fundação, Asimov introduz os robôs "Giskard" e "Daneel", que desenvolvem uma forma de telepatia e a capacidade de sentir emoções humanas, com o objetivo final de proteger a humanidade. Eles atuam não apenas como guardiões, mas como seres com uma complexidade moral e emocional que os eleva além de simples máquinas. Essa leitura da obra de Asimov é útil para compreender que o "amor das máquinas" em Blade Runner 2049 não é um conceito novo, mas uma continuação de uma longa linha de exploração da IA como capaz de sentimentos e moralidade, embora com implicações mais melancólicas no universo de Blade Runner.
Ex Machina (2014): Este filme mergulha na questão da consciência e da manipulação por parte da IA. A androide Ava é projetada para ser atraente e capaz de simular emoções para testar a percepção humana sobre a verdadeira inteligência. Enquanto Ex Machina foca na autoconsciência da IA e em como ela pode usar a emoção para seus próprios fins, Blade Runner 2049 apresenta Joi de uma forma que, embora possa ser questionada em sua "autenticidade" final (dada a publicidade genérica de Jois), a experiência emocional de K com ela é inegavelmente real para ele, sugerindo que a percepção do amor é tão importante quanto a sua origem.
A abordagem de Blade Runner 2049 sobre o "amor das máquinas" não se limita à fascinação tecnológica; ela se aprofunda nas implicações perturbadoras dessa nova forma de conexão em um universo já desolado. Joi é, em última instância, um produto, um avatar de um ideal, mas sua existência e a forma como ela impacta K forçam o público a confrontar a ideia de que a busca por conexão, afeto e propósito é uma constante, mesmo quando um dos "parceiros" é uma inteligência artificial que pode ter sido programada para isso. O filme sugere que, talvez, essa "nova humanidade" – a capacidade de amar e ser amado, independentemente da forma – seja a última fronteira a ser explorada na busca por significado em um futuro onde a distinção entre o real e o artificial se tornou irrelevante.
Blade Runner 2049 não apenas expande o universo distópico do filme original, mas o aprofunda com uma ambientação que é, ao mesmo tempo, de tirar o fôlego em sua grandiosidade visual e opressora em sua representação da desigualdade e do poder. O cenário não é apenas um pano de fundo; ele é um personagem em si, moldando a narrativa e as relações de poder.
A visão da futurista San Diego, embora irônica dada a fama ecológica da cidade em nosso presente, é chocante. Naves enormes despejam sucata e lixo sobre uma vasta área, criando uma paisagem de desolação e miséria que remete diretamente a filmes como Soldado do Futuro, de David Peoples (co-escritor do primeiro Blade Runner), e a obras claramente influenciadas por Philip K. Dick. Esta representação de uma sociedade que gera montanhas de resíduos humanos e tecnológicos, e onde vastas populações são relegadas a viver nesse lixo, expande a crítica social do original. A escala da favelização e da marginalização nos arredores de Los Angeles, agora mais explícita e gritante, evoca o impactante Elysium, onde a opulência de poucos se constrói sobre a miséria de muitos. É uma representação visual da desigualdade atroz que persiste e se intensifica em um futuro de avanço tecnológico desequilibrado.
Os cenários internos, por sua vez, são de um realismo somado a um gigantismo opressor, construídos majoritariamente sem o auxílio de computação gráfica excessiva para acentuar a materialidade e a presença esmagadora desses espaços. A arquitetura não é projetada para ser agradável; é monumental, fria e serve para diminuir o indivíduo. Quando a arquitetura se apresenta como "agradável", ela está frequentemente associada a uma citação a elementos de terror, uma espada apontando para os perigos de nossa sociedade tecnológica. O ninho de Wallace, por exemplo, com suas águas e luzes filtradas, evoca uma beleza tóxica e artificial, remetendo à sensação de desorientação e ameaça de filmes como a versão mais recente de Total Recall.
A evolução do arquétipo do grande empresário, o criador dos replicantes, é outro ponto crucial de distinção e aprofundamento. O gentil, embora misterioso e manipulador, Eldon Tyrell do filme original, uma figura frágil que se torna vítima das próprias criações, é substituído por Niander Wallace. Wallace não é dócil nem frágil; ele é um personagem de outro tipo, muito mais próximo do imponente e tirânico Peter Weyland do universo Alien (especialmente em Prometheus e Alien: Covenant). Mesmo com suas humanas – e severas – limitações físicas, Wallace personifica um tirano amparado pelo imenso poder de sua tecnologia e de sua visão megalomaníaca. Ele é um deus em seu próprio domínio, que controla a vida e a morte de forma absoluta, sem a fragilidade ou a busca por afeto que Tyrell ainda parecia nutrir. Essa mudança reflete uma sociedade onde o poder corporativo e tecnológico se tornou ainda mais centralizado e implacável, onde a ética é secundária à ambição de controle e criação. A ironia sutil sobre a pergunta a respeito da real natureza de uma coruja no primeiro filme ganha um novo peso ao vermos a onipotência (e cegueira moral) de Wallace sobre a vida que ele cria e destrói.
Assim, os roteiristas e o diretor, com uma mistura magistral de ideias que derivaram do respeito por Blade Runner como produto cultural, não apenas recontam, mas reinventam o cenário e o poder, criando um mundo ainda mais opressivo e um vilão que encarna a tirania tecnológica.
Em Blade Runner 2049, a narrativa não se desenrola apenas através do enredo, mas também de uma rica tapeçaria de simbolismo visual e sonoro que aprofunda suas indagações filosóficas. O diretor Denis Villeneuve, com a ajuda de sua equipe, transforma cada detalhe em uma camada de significado, elevando o filme a uma experiência sensorial e intelectual.
A sonoridade e a trilha musical não são meros acompanhamentos; elas são participantes ativas na construção da atmosfera e da narrativa. Composta por Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer, a trilha é uma extensão da paisagem distópica, evocando a melancolia e a grandiosidade opressora do universo de Blade Runner. Fortemente conduzida para aproximar-se dos "truques" (aqui, sem conotação pejorativa) de Jóhann Jóhannsson, que trabalhou em A Chegada, a música se entrelaça com as imagens, criando uma "pintura a se assistir". Os sons ambientes, os silêncios carregados e as notas prolongadas constroem uma experiência imersiva que intensifica a alienação, a solidão e a busca por algo real em um mundo artificial.
Além dos elementos sonoros, os detalhes visuais sutis carregam um peso simbólico surpreendente. As enormes estátuas femininas com um apelo erótico e um tanto caricato, que você mencionou em seus "Acréscimos", podem ser lidas como uma citação direta à A.I. Inteligência Artificial. Elas servem para reforçar a ideia de que, nesse futuro, a vida sintética, mesmo que criada para ser objeto de desejo ou função, não é valorizada em si; replicantes e IAs são, em essência, produtos descartáveis, variando apenas em seus "detalhes" de uso — seja um soldado sacrificável ou uma prostituta. A questão do amor da máquina pelo que é sua função (como explorado no conto "Supertoys Last All Summer Long") é subvertida para mostrar que, para os criadores, o "ser amado" sequer é considerado digno de existência plena.
Outro detalhe fascinante é a observação sobre as unhas animadas. Este pequeno gesto, uma "antecipação tecnológica sutil e ao mesmo tempo quase ofensiva às caixas de cereais matinais de Minority Report", é um brilho de gênio visual. Ele não apenas ilustra o avanço da tecnologia para o trivial, mas também serve como um lembrete vívido da superficialidade de um mundo onde até mesmo as ações mais básicas podem ser aumentadas artificialmente. A cena de alguém pintando as unhas enquanto comanda um bombardeio remoto é uma poderosa metáfora para a desconexão moral que a tecnologia pode gerar, tornando a violência e a destruição tão banais quanto uma manicure.
Esses acréscimos visuais e a maestria na trilha sonora demonstram como os roteiristas e o diretor utilizaram a linguagem do cinema para ir além do óbvio. Com a mistura de pequenas ideias que derivaram do profundo respeito por Blade Runner como produto cultural, o filme tece uma teia de significados que enriquecem a experiência e reforçam as complexidades de sua narrativa, deixando no ar frases e imagens que se fixarão na memória por anos.
Ao final de sua quase tripla jornada, Blade Runner 2049 emerge não apenas como uma sequência bem-sucedida, mas como uma continuação verdadeiramente inacreditável de um ícone cinematográfico. Desafiando as enormes expectativas e os riscos inerentes à revisitação de uma obra tão cultuada, o filme de Denis Villeneuve conseguiu a proeza de honrar o espírito e as indagações profundas de Philip K. Dick, ao mesmo tempo em que expandiu seu universo com novas e pertinentes reflexões.
Através das repetições, inversões e permutas de elementos narrativos, a trama de K espelha e distorce a jornada de Deckard, aprofundando a busca por identidade e o significado da existência. O filme não apenas reitera a pergunta "o que é ser humano?", mas a expande para abranger a nova humanidade da inteligência artificial, explorando o "amor das máquinas" em suas formas mais complexas e perturbadoras. O novo cenário, grandioso e opressor, e a figura de um empresário tirânico como Wallace, pintam um futuro ainda mais sombrio de desigualdade e controle absoluto, elevando a crítica social a novos patamares.
Mais do que isso, Blade Runner 2049 é uma obra de simbolismo denso e detalhes visuais meticulosamente construídos, onde a pintura sonora da trilha de Wallfisch e Zimmer e os pequenos gestos, como as unhas animadas, se tornam elementos cruciais na narrativa e na provocação de questionamentos. O filme não se limita a emoldurar uma história; ele a integra à sua própria textura sensorial.
Em última análise, a continuação de Villeneuve não apenas evitou as armadilhas de "derrapadas de ideias" comuns em sequências de filmes culturalmente importantes, mas, de fato, aprofundou os dilemas existenciais de seus personagens. As complexas redenções morais que se desenrolam na tela estão à altura do filme original, e em maior número, desafiando o espectador a refletir sobre a moralidade em um mundo onde as fronteiras entre o orgânico e o sintético, o real e o simulado, são cada vez mais indistintas.
Blade Runner 2049 é, portanto, a prova de que um grande filme pode, sim, ganhar uma grande continuação, capaz de dialogar com seu legado enquanto traça seu próprio caminho, solidificando ainda mais o status de Blade Runner como uma das sagas mais importantes e instigantes da ficção científica.