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Notícias
3º Encontro Internacional de Fotógrafos de Cavernas é realizado na Turquia.
Por Leda Zogbi (Meandros Espeleo Clube) De 25 a 31 de julho de 2015, ocorreu em Pinarbasi, Kastamonu, Norte da Turquia, o 3º Encontro Internacional de Fotógrafos de Cavernas. O encontro contou com a participação de 63 pessoas, entre fotógrafos, assistentes e pessoal de apoio da organização. Foram fotógrafos de 13 países participantes: Bélgica (Vincent Gerber), França (Philippe Crochet e Michel Renda), Alemanha (Rainer Staub e Franz Lindenmayr), Hungria (Gergely Ambrus), Indonésia (Akhmad Adiardi), Iran (Yones Shaiatmadari, Yousef Vaghef, Fatemeh Vaghef, Majid Zaravandi e Homammad Khorshidy), Itália (Antonio Danieli e Silvia Arrica), Japão (Satoshi Goto), Russia (Daniel Lee), Espanha (Victor Ferrer), Suiça (Mirjan Widmer), Reino Unido (Paul Dold) e Estados Unidos (Norman Thompson, Kevin Downey e Dan Legnini). Pelas regras desses encontros internacionais, os fotógrafos do país organizador não fotografam durante o evento, partindo do princípio que eles têm mais tempo para realizar suas fotos posteriormente. Portanto, não havia equipes turcas de fotografia. A organização foi excelente: todos ficaram alojados em uma grande casa de madeira, com opção para quartos individuais, quartos comunitários ou camping, com uma área de suporte com banheiros e chuveiros quentes, e um rio ao fundo, para lavar o material de espeleo. Logo na chegada, questionaram a todos sobre o conhecimento em técnicas de resgate em cavernas, e constituíram um plano de resgate emergencial, caso houvesse algum problema. Por sorte, terminamos o evento sem nenhum acidente. Foi interessante, pois todos ficaram em sobreaviso. Durante o dia, as equipes se distribuíam nas cavernas selecionadas, bastante diversificadas: algumas horizontais, outras verticais; algumas fáceis, outras bem técnicas; algumas com água, outras secas; algumas com vestígios arqueológicos e ossadas, outras com buracos feitos pelos ursos para hibernarem no inverno... Muitas formações interessantes, muito entusiasmo e satisfação de todos nesses trabalhos de campo. Á noite, após o jantar (a comida também foi excelente durante todo o período do acampamento), era o momento das apresentações de fotos e filmes trazidos pelos participantes. Participei do evento como assistente da fotógrafa Suiça Mirjam Widmer. Tive a oportunidade de mostrar uma apresentação sobre cavernas das diversas regiões do Brasil, para a qual contei com a colaboração de diversos fotógrafos brasileiros, como Daniel Menin, Alexandre Camargo (Iscoti), José Humberto M. de Paula, Fernando Andrade, Paulo Peixoto e Vinicius Tostes, entre outros, aos quais agradeço. Após a apresentação fui abordada por diversos fotógrafos que se interessaram muito pelas nossas cavernas. Certamente organizarei uma visita desses fotógrafos ao Brasil de maneira informal (sem a estrutura de um encontro internacional) em julho do próximo ano. No último dia do evento, houve uma troca de técnicas de fotografia, onde cada fotógrafo pode mostrar seus truques e adaptações nos equipamentos fotográficos, como as hastes caseiras para suporte das câmeras duplas para fotografias 3D. Philippe Crochet fez também uma apresentação muito interessante sobre as teorias e boas práticas para fotografias em caverna. Depois disso, fomos todos para uma bela cachoeira na região, Ilica waterfall (lago verde e gelado). À noite houve uma apresentação das cinco melhores fotos de cada fotógrafo para toda a comunidade de Pinarbasi, no auditório da prefeitura. O prefeito fez discurso (em turco, sem tradução) todos estavam muito animados e reconhecidos pelo trabalho realizado.A noite se terminou com caipirinha (que eu levei do Brasil), danças turcas e muita animação. Foi realmente um encontro memorável, rendeu belas fotos e boas trocas entre todos os participantes. O próximo Encontro Internacional de fotógrafos de caverna deve ocorrer dentro de dois anos. Três fotógrafos se candidataram para organizar o próximo encontro: os Iranianos (seria no Irã), Dan Legnini (em Carlsbad, Novo México, Estados Unidos) e Kevin Downey (em Porto Rico). Entretanto, o próximo Congresso Internacional de Espeleologia ocorrerá também daqui a dois anos na Autrália, e diversos fotógrafos presentes manifestaram que pretendem participar ao evento. Seria mais simples para todos que o encontro de fotografia fosse realizado num local próximo à Austrália, por exemplo, na Nova Zelândia. Os organizadores do primeiro encontro (os franceses) ficaram de tentar contato com os Neozelandeses para tentar viabilizar a ideia. De toda forma, os países interessados em sediar o próximo encontro poderão enviar sua candidatura por email ao casal Philippe e Annie Crochet (philippecrochet@wanadoo.fr), com uma descrição do local, dificuldade de acesso, cavernas sugeridas para visitação, alojamento, preços aproximados, etc., para que seja realizada futuramente uma votação entre os fotógrafos para a escolha do local. Certamente, onde quer que seja, o próximo encontro será imperdível!
Fotos do evento tiradas por Philippe Crochet podem ser vistas pelo link: http://www.philippe-crochet.com/fr/nouveautes/details/198/turquie-juillet-2015 |
Gruta do Cinema é salva da destruição graças à rápida ação dos órgãos ambientais de Santa Catarina
Por: Leda Zogbi (Meandros Espeleo Clube) e Gustavo Monteiro. No último dia 5 de abril, foi realizada uma expedição de reconhecimento prospecção na região de Botuverá e Vidal Ramos, Centro Leste de Santa Catarina. Um dos objetivos do trabalho seria localizar e remapear a Gruta do Cinema, em mármore, que havia sido mapeada na década de 80 pelo grupo de espeleologia GEEP-Açungui do Paraná, que estimou seu desenvolvimento em 250 m. Seria, portanto, a segunda maior caverna cadastrada no Estado de Santa Catarina, atrás apenas da Gruta de Botuverá. Para nossa surpresa, ao chegarmos à região, fomos informados que as entradas da caverna haviam sido soterradas, e que uma mineradora local já tinha iniciado a destruição do maciço.
Alguns moradores do Bairro Ribeirão do Cinema (Município de Vidal Ramos) nos acompanharam até o local, e pudemos verificar que realmente as duas entradas da caverna estavam completamente obstruídas por terra e entulho. A caverna possui um sistema de drenagem, e um filete de água escorria através da terra, pela entrada de baixo. Bem perto deste ponto de ressurgência, verificamos que havia uma lavra iniciada em cima da caverna. Em toda a volta do maciço observamos perfurações realizadas para a colocação de dinamite. A informação que nos passaram, é que iam usar a rocha para fazer brita (pedregulho). Preocupados com o panorama apresentado, registramos as coordenadas das entradas obstruídas da caverna com GPS e fotografamos a área já minerada e as perfurações, com o objetivo de procurar interromper a sua destruição total, que parecia ser iminente. No dia 16 de abril, encaminhamos uma denúncia endereçada ao FATMA, Fundação do Meio Ambiente do Estado de Santa Catarina, com cópia para o Ministério Público de Santa Catarina, para o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas - CECAV/ICMBio e para a Superintendência do Ibama em Santa Catarina.
Para nossa surpresa, fomos rapidamente contatados pelos órgãos que receberam a denúncia (FATMA e IBAMA-SC), buscando apurar mais detalhes sobre a caverna, como o mapa feito pelo GEEP-Açungui, que infelizmente não conseguimos localizar. Por outro lado, o CECAV-ICMBio, encaminhou em 17 de abril um parecer reforçando a seriedade e a importância da denúncia. O FATMA e o IBAMA-SC realmente se mobilizaram para resolver o problema: fizeram vistorias no local, entrevistaram moradores locais, buscaram outras provas de que a caverna existia realmente. Localizaram biólogos do CIDASC (Companhia Integrada de Desenvolvimento agrícola de Santa Catarina) que fizeram uma pesquisa com morcegos na caverna em Outubro de 2013, e que disponibilizaram fotos dos morcegos na caverna, prova formal da existência da caverna. Cinquenta e um dias após o envio da denúncia (menos de 2 meses), no dia 9 de junho foi emitido o Laudo de Vistoria N. 024/2014 da Superintendência do Ibama de Santa Catarina, com uma explicação detalhada da importância do local e dos impactos ocasionados pela Calwer Mineração Ltda, que foi autuada em R$189.000,00 (R$ 180.000,00 por deteriorar a caverna, R$ 4.000 por destruir abrigo de animais silvestres, R$ 5.000,00 por danificar área de Preservação Permanente (150 m2). Além disso foi embargada um polígono de 2 hectares na região onde se encontra a caverna. Para terminar, o órgão sugere como medida imediata a reabertura das entradas originais da caverna e recuperação da área degradada. A rapidez e a eficácia da ação dos órgãos ambientais de Santa Catarina foram fundamentais para salvar esta importante caverna. Ficamos também muito bem impressionados com a seriedade com que o assunto foi tratado, e com a profundidade da abordagem do tema no Laudo. Gostaríamos de expressar aqui nosso agradecimento a todos os profissionais envolvidos e a todos aqueles que apoiaram de alguma forma esta ação. É importante frisar que a legislação brasileira prevê a possibilidade de destruição de cavernas1, porém estudos preliminares de relevância da caverna devem obrigatoriamente ser realizados por especialistas das diversas técnicas e ciências relacionadas (como espeleometria, biologia, geologia, paleontologia, arqueologia, entre outras), para determinar a sua relevância. Esses estudos devem ser submetidos aos órgãos ambientais competentes que, após análise, determinam se a caverna pode ou não ser suprimida e em que condições. No caso da Gruta do Cinema, mesmo sem estes estudos, podemos presumir que se trata no mínimo de uma caverna de “alta relevância” por ser a segunda maior caverna do estado de Santa Catarina. Esperamos que esta denúncia, que resultou no resgate de uma caverna importante, sirva de exemplo para outros espeleólogos e ambientalistas do Brasil, e que a ação conjunta realizada com muito profissionalismo pelos órgãos ambientais de Santa Catarina possa inspirar órgãos ambientais de outros Estados brasileiros. 1 Decreto 6640/08, regulamentado pela Instrução Normativa MMA 02/2009. |
Visitas a cavernas turísticas do Mato Grosso e Amazonas
Realizada expedição no Sudoeste da Bahia
Por: Leda Zogbi - Meandros Espeleo Clube De 27/12/12 a 06/01/13, foi realizada uma expedição no
Sudoeste da Bahia com o objetivo de mapear algumas cavernas interessantes,
recentemente descobertas pela CPRM em projeto que vem desenvolvendo na região
de Santa Maria da Vitória (Projeto Geokarst 1). A expedição contou com a
participação de três espeleólogos brasileiros e um peruano, do Espeleo Clube
Andino (ECA), que veio ao Brasil especialmente para este fim.
A primeira gruta topografada foi a “Gruta do Pajeú,” situada pouco ao sul do sistema da Gruta do Padre, registrada por José Aloisio Cardoso (Baiano). A caverna se inicia por um conduto amplo, com uns 5 ou 6 m de largura por 4 m de altura, que evolui em um meandro bastante pronunciado. A uns 100 m da entrada, existe uma grande colônia de morcegos e um acúmulo de guano, onde encontramos uma enorme quantidade de baratas e outros insetos. Após a passagem por esse local, a caverna continua se desenvolvendo em curvas, até um grande banco de sedimentos, que parece ter sido escavado no passado. Como o chão “sobe”, diversos os condutos “teto baixo”, continuam para várias direções. Num deles, depois de um bom tempo de rastejamento, chegamos a outro conduto amplo, paralelo ao principal. Neste conduto que nos pareceu intocado, encontramos travertinos brancos e diversos outros espeleotemas não observados no restante da caverna. Foram mapeados mais de 1 km de condutos, e o mapa deve ficar muito interessante.
A segunda caverna mapeada foi a “Gruta Invocada do Pedreiro”, localizada ao norte de Santa Maria da Vitória. Trata-se de uma caverna extremamente labiríntica, com diversas entradas. Infelizmente, os moradores locais utilizam diversas entradas como depósito de lixo. A topografia foi trabalhosa, realizamos mais de 1,1km de visadas, mas estimamos que a gruta deva ficar com aproximadamente 500 a 600 m.
A terceira caverna mapeada se situa na Serra do Ramalho, no Município de Coribe, sul de Santa Maria da Vitória. Ela se encontra na beira da trilha que leva ao vale onde se encontra a Gruta da Mamona, mapeada anteriormente pelo Grupo Bambui, e foi nomeada de “Gruta da Estrada da Mamona”. A caverna se desenvolve por alguns condutos amplos ligados por uma grande rede labiríntica. Após um dia de trabalho, foram mapeados 400 m, e tínhamos a intenção de voltar no dia seguinte para continuar, mas a chuva intensa que começou a cair na região naquela noite, aliada ao fato de não estarmos de caminhonete, nos fez mudar de planos. Pretendemos voltar assim que possível para dar continuidade ao trabalho.
Por fim, no último dia de campo, fomos mapear a “Gruta Tanque do Cunha”, situada no centro do município, a Oeste da cidade de Santa Maria da Vitória. A caverna também se desenvolve em meandros, e possui diversos níveis. No nível superior, encontramos lindos depósitos de travertinos e muitas colunas. Encontramos também alguns depósitos de ossos calcificados, e um crânio de macaco que não nos pareceu ser muito antigo. A caverna deve atingir perto de 350 m de desenvolvimento.A região de Santa Maria da Vitória, na bacia do Rio Corrente, é extremamente rica no aspecto espeleológico. Em seis dias de campo, uma equipe reduzida (4 espeleólogos) mapeou perto de 3 km de condutos. Ainda há muito que fazer na região. Esperamos organizar novas expedições em breve. |
Curso de topografia de cavernas é ministrado em Paripiranga, BA
Por Leda Zogbi – Meandros Espeleo Clube. No final de 2005, durante uma expedição, passamos por Paripiranga, cidadezinha do nordeste da Bahia, e lá encontramos o João, apicultor e interessado por cavernas nas horas vagas. Ele nos levou para as maiores cavernas que ele conhecia nas redondezas, sempre acompanhado de seu filho Fernando, na época com 16 anos. Mapeamos algumas cavernas muito interessantes. Fernando nos acompanhava por toda parte, completamente envolvido pela nossa atividade. Demos a ele um livro “Espeleologia, Noções Básicas”, mas nunca imaginávamos o que aconteceria depois. O tempo foi passando, e o Fernando nunca nos esqueceu: todos os anos ele ligava perguntando quando voltaríamos para Paripiranga, dizendo que ele tinha descoberto outras cavernas para nos mostrar... Em agosto de 2012, estive em Aracaju a trabalho, e liguei para o amigo Elias, do grupo Centro da Terra para nos encontrarmos. Elias me contou que o grupo estava realizando diversas atividades interessantes, e que tinha inclusive adquirido recentemente um equipamento de topografia, mas que eles ainda não sabiam produzir os mapas. Na mesma hora, disse a ele que eu poderia voltar para dar um curso para a equipe dele, e marcamos para o feriado de 7 de setembro, quando eles iriam justamente para Paripiranga, cavernar com o Fernando e seus amigos. Quando disse ao Fernando que eu iria dar o curso de topografia em Paripiranga, ele ficou eufórico. Como o tempo disponível para o curso seria curto (três dias), preparei uma apostila ilustrada com diversas fotos e desenhos explicando os princípios básicos da topografia de cavernas. No dia 7 de Setembro de 2012, chegamos em Paripiranga na hora do Almoço. Eram 9 espeleólogos do grupo Centro da Terra de Aracaju, e mais 9 do Grupo Mundo Subterrâneo de Espeleologia (GMSE) – O grupo do Fernando. Fomos no mesmo dia para uma caverna pequena para iniciar o curso. Toda a equipe do GMSE estava uniformizada, com macacões vermelhos novinhos e camisetas pretas, com logo do grupo. Todos eles usando motocicletas... Bonito de ver!
Expliquei a parte
teórica fora da caverna, depois entramos todos. A caverna era pequena (uns 20 m), gente por todo lado. Tínhamos 3 equipamentos de topografia e montamos 3 equipes, mas todos estavam juntos mapeando o mesmo trecho. E eu explicando como colocar as bases, como fazer as visadas, que “numerozinho” tinha que olhar, como tinha que anotar e ainda como fazer o croquis! Mas foi divertido. No sábado, fomos numa caverna bem maior que eu já tinha mapeado anteriormente, a gruta “Fim do Morro do Parafuso”. Montamos três equipes e posicionei cada uma delas num lugar diferente da caverna. Fiquei passando de um grupo para o outro, para esclarecer as dúvidas. Foi bem melhor. Os croquis ficaram muito interessantes, todos eles em escala. Todos saíram satisfeitos, pois cada um tinha aprendido uma função diferente.No domingo, fomos visitar a gruta do Bom Pastor, a caverna mais conhecida da região, famosa pela romaria que é organizada todos os anos, e que tínhamos mapeado durante a nossa primeira passagem por Paripiranga. Uma grande escadaria de alvenaria dá acesso a um salão onde é celebrada a missa, durante a romaria. Depois desse salão, existe uma escada de ferro que desce na vertical, e no paredão há diversos ossos grandes, fossilizados, incrustados no conglomerado. Realmente impressionante. Outro fator notável é o calor dentro da caverna: deve beirar os 34 graus. Depois dessa escaldante cavernada, fomos todos almoçar no Babalu, maravilhoso restaurante bem próximo da caverna, com a presença do amigo apicultor João, que continua a visitar cavernas e a incentivar a nova geração de espeleólogos que acabou criando naturalmente. De volta a Paripiranga, ainda arrumei tempo para explicar ao Fernando e ao seu amigo Lucas como fazer para passar a topografia para o computador e produzir o mapa. Já de volta em Aracaju, dei essa mesma explicação aos amigos do Centro da Terra... Uma verdadeira maratona. Foi tudo muito rápido, muita informação concentrada, mas espero que com a ajuda dos manuais disponíveis online, e com a enorme motivação que percebi no brilho dos olhos desses interessados aprendizes, eles vão chegar lá, com toda a certeza. Quero ver em breve belos mapas sendo produzidos pelos espeleólogos de Aracaju e de Paripiranga. Acredito que a conscientização das pessoas que vivem em regiões cársticas e a difusão dos conhecimentos relacionados às técnicas de documentação e cadastramento das cavernas são deveres de todos os espeleólogos conscientes. Somente assim conseguiremos ampliar, pouco a pouco, a nossa representatividade na defesa do Patrimônio Espeleológico Nacional. Vamos ajudar quem tem vontade de aprender, as cavernas agradecem! Os Manuais “Curso básico de topografia de cavernas” e “Como fazer mapas digitais passo a passo” estão disponíveis para neste site, (procurar a aba Mapas, ir até o final da página, procurar “documentos para download”).
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Mapeada gruta da Pedra Pintada, em Roraima
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Por: Leda Zogbi
No dia 24 de março de 2012, aproveitando uma passagem por Boa Vista, Roraima, resolvi conhecer a Pedra Pintada, um sítio arqueológico que se encontra dentro da Reserva Indígena de São Marcos, no sul do município de Pacaraima.
Descobri que o procedimento necessário para obter a autorização para entrar na reserva indígena demoraria no mínimo dois dias, o que inviabilizaria a minha ida. Por sorte do destino, pude contar com o apoio do Deputado Federal, Sr. Raul Lima, que me acompanhou até o local, com a sua família (esposa e dois filhos).
A Pedra Pintada é um afloramento de granito em formato de cogumelo, de 35 m de altura, com um belo paredão com pinturas rupestres em seu flanco, e uma pequena gruta atrás. Com a ajuda da família Lima, fiz a topografia da caverna, que somou aproximadamente 30 m. Trata-se de um conduto único, que vai se afunilando até terminar. O que mais incomodou na topografia foi o acúmulo de fezes (possivelmente de cabra), por todo o piso da caverna, que deve ser utilizada pelos índios como abrigo noturno para suas criações.
Como registro histórico, há mais de 10 anos uma equipe de japoneses fez um filme que foi rodado nas cavernas do Petar e em Roraima, justamente na Pedra Pintada.
Coincidentemente nossos amigos Jurandir (Jura) e Junior (Parque Aventuras) foram protagonistas do filme e estiveram no local. Trata-se, provavelmente, do registro de localização de caverna mais ao norte do território Brasileiro, até o momento. Gostaria de agradecer ao Deputado Raul Lima e à sua simpática família pelo apoio neste trabalho. |
Gruta da Velha Duda é mapeada em Morro do Chapéu, Bahia
Colômbia: um maravilhoso carste praticamente desconhecido
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Por: Leda Zogbi
Já fazia um bom tempo que ouvia falar da Colômbia: país desenvolvido, boa comida, preços razoáveis, povo simpático... Mas foi quando o amigo Chico Bill (Prof. Francisco Cruz – IGc-USP) me falou das cavernas daquele país é que atiçou de vez a vontade de ir, e organizamos uma viagem no final de dezembro de 2011. Os principais objetivos da viagem eram: realizar um reconhecimento preliminar das cavernas da região de Santander (centro-norte da Colômbia); estabelecer contatos para a promoção de intercâmbio de informações e de colaboração entre espeleólogos brasileiros e colombianos visando trabalhos futuros na região e coletar amostras de espeleotemas para estudos sobre paleoclima realizados em uma parceria entre a Universidade de São Paulo, Universidade de Medellín e o IRD – Institut de Recherche pour le Développement. Este trabalho foi coordenado por Jean-SebastienMoquet, que realiza seu pós-doutorado na USP na equipe de Chico Bill. Quem nos levou às cavernas foi Jesus Auderset, um Suiço-espanhol que adotou a Colômbia como moradia. De Bogotá até a região das cavernas são apenas uns 300 quilômetros, que representam cerca de seis horas de viagem pelo asfalto (muitas curvas e caminhões na estrada) e mais uma hora e meia por uma estrada de terra terrível, com trechos que despencaram em precipícios bem mais assustadores do que os do Vale do Ribeira... Foi muito bom termos alugado um 4 x 4!.. Ficamos alojados em um “campo base” organizado pelo Jesus, uma casinha muito simples – mas aconchegante – ao lado de um maravilhoso paredão calcário. Além de dois brasileiros, também participaram da expedição um francês, um peruano, um suíço-espanhol e nove colombianos. A espeleologia na Colômbia está ainda em um estágio inicial. O grupo que participou dessa expedição era formado por interessados oriundos principalmente dos esportes de escalada em alta montanha, trabalhadores em altura e funcionários da Cruz Vermelha colombiana. Todos possuíam equipamentos de exploração vertical mas nenhum deles conhecia as técnicas de mapeamento em cavernas. Ficaram muito interessados pela apresentação que fizemos sobre a espeleologia no Brasil, e pela série de livros técnicos da Redespeleo que levamos para presentear o Jesus. Também tivemos a oportunidade de realizar um mini-curso de topografia em cavernas, que contou com a participação de seis colombianos, e juntos mapeamos parcialmente duas cavernas. Segundo Jesus, a região de Santander permanece praticamente intocada, pois foi ocupada pela guerrilha e pelos narcotraficantes, sendo então abandonada. Agora a região está completamente dominada pelos militares, e o clima que observamos é bem tranqüilo. O relevo é bastante irregular, calcário por toda parte... Para chegar em cada caverna passávamos por 3 ou 4 abismos ainda inexplorados. Um verdadeiro paraíso espeleológico! O terreno estava bem instável, com muita lama, pois a época das chuvas acabava de terminar. Tudo muito verde, um sobe-e-desce cansativo, mas vale o esforço! A maioria das cavernas visitadas tem grande volume interno e desnível acentuado. A predominância local é mesmo de abismos, com poucos espeleotemas. Um dos abismos explorados pelos colombianos atingiu 180 m de desnível. Mas existem também algumas cavernas muito ornamentadas, como a Cueva Caracos, com áreas cobertas de helictites brancas e amarelas, flores de aragonita, cortinas, enfim, uma grande qualidade e variedade de espeleotemas. Lá puderam ser coletadas algumas amostras de estalagmites neces sárias para os estudos paleoclimáticos. Também vale citar a Cueva Escuillas: uma gigantesca entrada dá acesso a um amplo salão inferior, onde observamos uma grande quantidade de ossos humanos. Trata-se de um cemitério muito antigo, possivelmente dos índios pré-colombianos (que habitavam a região antes da ocupação espanhola). Segundo Jesus, a população local entra na caverna para desenterrar os ossos à procura de jóias de ouro (na tradição antiga, os mortos eram enterrados com suas jóias). Com isso, os túmulos continuam a ser saqueados até o presente. A viagem foi um sucesso: os objetivos foram todos atingidos com pleno êxito, e voltamos com a certeza de que essa não será a única viagem que faremos para a Colômbia, mas a primeira de muitas! A região a ser prospectada e explorada é gigantesca, e existe trabalho a ser feito para muitas gerações de espeleólogos. Agradecemos especialmente a maravilhosa acolhida que tivemos por todos os amigos Colombianos, especialmente Jesus e Toya (organizadores da expedição), e por todos os novos amigos colombianos que tornaram a nossa viagem inesquecível. Podem aguardar, voltaremos!
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Encontradas evidências paleoclimáticas em cavernas no Sul da Bahia
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Por: Leda Zogbi - Meandros Espeleo Clube
Entre os dias 05 e 08 de maio foi realizada uma expedição ao Sul da Bahia, região situada a aproximadamente 150 km ao norte de Porto Seguro, com o objetivo principal de localizar cavernas que pudessem fornecer registros do clima do passado da região (paleoclima). Estes registros são obtidos através da análise geoquímica e datações das estalagmites. A expedição foi organizada pelo Dr. Francisco da Cruz (Chico Bill) e também contou com a participação do biólogo Leopoldo Bernardi, doutorando da Universidade Federal de Lavras, MG.
Neste curto período, foram visitadas seis cavernas nos municípios de Mascote, Canavieiras, Pau Brasil e Potiraguá, das quais foram mapeadas quatro delas. As cavernas localizadas são bastante interessantes, apesar de nenhuma ser de grande porte. Nelas conseguimos encontrar os registros necessários, tanto na parte geológica, como também na biológica, onde uma abundante fauna cavernícola foi observada e fotografada.
Dentre as cavernas visitadas, vale destacar a gruta São Gotardo, no município de Mascote. A caverna se desenvolve por um conduto amplo (em média 5 m de largura por 8 m de altura), bastante ornamentado (em boa parte depredada) que se bifurca no final. O ramo da direita forma uma sala com muitas colunas e escorrimentos, e no fundo existe uma belíssima parede de cherts. Voltando pelo conduto principal, a uns 50 m da entrada, existe um pequeno orifício no paredão, no rés do chão. Esta estreita passagem dá acesso a uma outra rede de condutos de padrão completamente distinto do restante da caverna. São condutos muito menores (com aproximadamente 1,5 m de largura por 2 m de altura) e muito menos ornamentados. Muitas concreções estão bastante erodidas. O odor do guano dos morcegos é bastante forte nesta rede de condutos laterais. Seu desenvolvimento deve atingir a casa dos 300 m.
Outra caverna que merece destaque é a Gruta do Fernando, no município de Potiraguá. A entrada é muito bonita em um paredão circundado de mata. Da entrada principal, é possível avistar outra entrada superior majestosa: a caverna se desenvolve por dois condutos paralelos sobrepostos. Entramos pelo conduto inferior, bastante amplo, e logo na entrada localizamos um fóssil de um animal de médio porte, possivelmente um ruminante, completamente fixado pela calcita. Subimos, então, por um grande travertino, que ocupa praticamente toda a largura do conduto, que têm uns 10 m. No fundo do conduto, há uma passagem por cima de um escorrimento que dá acesso à galeria superior que desemboca na outra entrada da caverna. Infelizmente não houve tempo para mapear esta caverna, mas estimamos que deva atingir aproximadamente 200 m de desenvolvimento.
Estivemos também em Pau Brasil, onde as cavernas se encontram em território indígena. O clima é de tensão, e tivemos dificuldade em conseguir um guia que nos levasse até as cavernas. Todos temem os forasteiros, pois houve muitos confrontos e assassinatos.
agrosa, com uns 150 m de desenvolvimento, um altar logo na entrada. A caverna era usada para rituais indígenas e possui um altar logo na entrada, mas não observamos sinais de visitação recente. Também possui amplos salões, muitas ornamentações infelizmente depredadas e muitos morcegos. Além da galeria principal, há ainda uma rede de condutos menores que dá acesso a outras entradas.Toda essa região do Sul da Bahia, denominada “Costa do Descobrimento”, é muito verde, coberta pelas plantações de cacau. O carste não está exposto como em outras regiões baianas, mas se insinua, com seus rios transparentes e dolinas cobertas de resquícios de mata atlântica. A população é muito hospitaleira, mas é necessário realizar contatos prévios com representantes das comunidades indígenas, caso as cavernas estejam situadas no território deles na região de Pau Brasil, pois pode haver perigo real para espeleólogos desavisados. O objetivo da expedição foi cumprido com êxito. Esperamos conseguir bons resultados com as amostras coletadas, ampliando o conhecimento do paleoclima brasileiro para esta área do sul da Bahia. Há certamente muito trabalho de prospecção e de topografia a ser realizado. Esperamos voltar em breve para continuar a explorar esse lugar fantástico. |
Cavernas são mapeadas na Serra da Piedade, Caeté, MG
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Por Leda Zogbi e Roberto Cassimiro, Meandros Espeleo Clube. Desde novembro de 2010, o Meandros Espeleo Clube tem realizado expedições na Serra da Piedade com o objetivo de documentar esse importante patrimônio espeleológico e cultural brasileiro e contribuir com o trabalho da mestranda em geografia, Manuela Corrêa Pereira, vinculado ao Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais, que escolheu a Serra para sua área de estudo (ver artigo neste boletim). Além de ajudar a compreender a gênese das cavernas em formações ferríferas, seu mapeamento deverá contribuir para a compreensão de diversos documentos históricos deixados por naturalistas e religiosos que descrevem cavernas da região. Trata-se de uma área de preservação: desde 1956, a Serra da Piedade é protegida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em 09 de dezembro de 2010, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural aprovou a extensão de tombamento do conjunto arquitetônico e urbanístico da Serra da Piedade, que é tombada em nível estadual e municipal. Ainda assim, o monumento natural tem sido ameaçado pela ação de mineradoras que atuam na área, e infelizmente é vitima da degradação da paisagem e do desmatamento. Neste período de quatro meses, foram realizadas seis investidas na Serra da Piedade, e dentre as diversas cavernas localizadas e mapeadas, vale um destaque especial para a maior delas, denominada Gruta da Piedade. A entrada da caverna se localiza na encosta, a aproximadamente 300 metros da estrada que leva ao santuário. O acesso é realizado escalando-se as rochas, em meio à vegetação arbustiva e espinhosa da região. A entrada da caverna é volumosa, e abre-se em um salão que prossegue em diversos condutos, praticamente para todas as direções. Estes condutos são geralmente bastante tortuosos, e subdividem-se por sua vez, formando uma verdadeira “teia de aranha” na vertente da montanha. Diversos condutos levam a novas saídas. Um verdadeiro labirinto, que acompanha a declividade e morfologia da encosta. A caverna se desenvolveu no contato do itabirito com a canga. Não há nenhum curso de água perene na caverna, porém as fortes chuvas que tivemos a oportunidade de presenciar transformaram muitos trechos em verdadeiras cachoeiras, que exemplificam a erosão que continua atuando na cavidade. Foi também observada a presença de uma grande colônia de morcegos em um dos salões laterais. A topografia foi bastante prejudicada pelo magnetismo do itabirito, que modifica significativamente os resultados da bússola, à medida que o instrumento se aproxima do teto ou das paredes. Por este motivo, esta etapa foi lenta, pois houve a necessidade de constantes conferências das leituras. Finalmente, após 3 expedições unicamente para esta caverna, foram mapeados aproximadamente 400 m em linha de trena, que devem render, após os descontos, entre 300 e 350 m de desenvolvimento, dimensão bastante significativa para cavernas formadas em formações ferríferas. Os trabalhos na Serra da Piedade prosseguem. |













