No século XIX, muitos agentes do meio artístico estavam infelizes com a rigidez do circuito oficial de arte, representado pelo Salon de Paris - criado para exibir obras dos membros da Academia Real de Pintura e Escultura. Segundo a Enciclopédia Britannica, o “Salão dos Recusados” de 1863 foi uma exposição paralela de obras rejeitadas que instigou artistas independentes a questionar o consenso e a validade das críticas às suas obras. Em 1884, foi fundada a Sociedade dos Artistas Independentes, que abriu espaço para artistas inovadores que não seguiam as convenções a terem visibilidade além do estigma de rejeitado – a arte se transformava e as vanguardas se consolidariam anos depois. (Britannica, 2022).
FIGURA 1: Autorretrato, por Henri Rousseau. (1890)
Nesse contexto, a obra de Henri Rousseau foi exibida e arbitrada pela crítica: sua pintura era “infantil”, “ingênua”. A composição tem elementos planificados e fugia às normas acadêmicas de padrão estético – nesta perspectiva ambígua, a expressão autodidata e livre de técnica foi associada ao infantil, e sua obra foi estigmatizada assim como a palavra “naïf” - Do latim “nativus”, traduz-se como “o que é natural”, “inato”.
Para além da conotação negativa, a liberdade plena de criação aproxima a expressão artística de uma forma menos estigmatizada por este desconhecimento do caráter técnico. Daí a associação com o infantil, numa expressão menos carregada por preconceitos.
“O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão de mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força, [...] só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário." (BOURDIEU, 1989, p. 14).
Associada com críticas de tom sarcástico, num contexto em que se aprecia o que é rejeitado, o poder simbólico exercido pela expressão naïf não tem uma definição rígida ou manifesto. Ocorre no mundo inteiro e no seu conjunto de forma livre, espontânea. Portanto,
“não se configura como um estilo específico, mas como um leque de poéticas únicas, formas profundamente pessoais de conceber e realizar a arte dentro de um registro que não deixa de ser contemporâneo” (NUNES, 2014, p. 12).
No Paraná, a arte naïf é diversificada, com expoentes oriundos de diversos estados do Brasil, incorporando suas experiências de modos diferentes em suas obras. Trazem paisagens, religiosidade, festejos, rituais culturais, cenas cotidianas, assim como obras que dão enfoque na figura humana ou que exploram o espaço geográfico das cidades, principalmente a capital Curitiba. Os saltos nas formas de representação pictórica de cada artista concedem às obras que se encaixam nessa definição uma variedade estética bastante acentuada.
BRITANNICA, The Editors of Encyclopaedia. Salon des Indépendants. In https://www.britannica.com/art/Salon-des-Independants. Acessado em 19, mai. 2022.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand, 1989.
CASILLO, Regina de Barros Correia. et al. Naïf no Paraná. Curitiba: Solar do Rosário, 2014.
FIGURA 1 - https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=21996964 Acessado dia 20/05/2022.