Projeto de Ensino
Projeto de Ensino
Com o projeto de ensino ― “O Vale além do Aço” ― busca-se trabalhar com as turmas de 2ª série do ensino médio técnico integrado as vivências dos povos originários da região do leste de Minas Gerais, mais especificamente do Vale do Rio Doce, na sua interconexão com o rio que denomina o território mencionado: o rio Doce, ou melhor, o Watu, na língua krenak, aquele, como tão bem Ailton Krenak descreve: “o rio Doce, que nós, os Krenak, chamamos de Watu, nosso avô, é uma pessoa, não é um recurso, como dizem os economistas. Ele não é algo de que alguém possa se apropriar; é uma parte da nossa construção como coletivo que habita um lugar específico, onde fomos gradualmente confinados pelo governo para podermos viver e reproduzir as nossas formas de organização” (KRENAK, 2020, p. 40). Tal compreensão, em caráter transdisciplinar, se dará a partir da perspectiva filosófica, geográfica, histórica, corporal, das linguagens e da biodiversidade das experiências desses povos, tendo como referencial que a principal demanda da vida indígena, tanto no presente quanto no passado, é a terra, condição fundamental para a continuidade da vida e da saúde, a reprodução social, a sua autodeterminação e o seu etnodesenvolvimento (SILVA, 2018, p. 492-493). Sob este aspecto, é mister compreender o etnodesenvolvimento por meio das problematizações na relação homem/natureza, analisando, por exemplo, a exploração extrativista que levou a denominação de uma parte dessa região a partir unicamente do seu perfil econômico: Vale do Aço, onde, ressalta-se, localiza-se o campus Timóteo do CEFET-MG, unidade em que se desenvolve o projeto. Para tanto, resgatar um Vale para além do Aço se torna peça fundamental para superar o apagamento histórico-geográfico de uma região e de seus povos originários. Cabe lembrar que, devido às omissões, aos apagamentos e também aos estereótipos relacionados à temática indígena nos currículos escolares da educação básica, este projeto de ensino vai ao encontro da Lei 11.645/08, que estendeu à história indígena as disposições da Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história africana e afro-brasileira. Para tanto, o objetivo geral do projeto visa a confecção de produtos correlacionados e problematizadores em relação à temática, e a elaboração de projetos de exposição de tais produções para a realização de uma mostra no 4º bimestre.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
SILVA, Elizângela Cardoso de Araújo. Povos indígenas e o direito à terra na realidade brasileira. Serv. Soc. Soc. São Paulo, n. 133, p. 480-500, set./dez.2018.
Discentes da 2º série dos cursos técnicos:
Desenvolvimento de Sistemas | Edificações | Química
Apresentar o tema da história e da filosofia indígena, do espaço geográfico, da biodiversidade, das práticas corporais e das linguagens de povos originários da região do Vale do Rio Doce a partir da leitura de escritores indígenas, destacando a atuação destes homens e mulheres como pensadores atuantes em defesa de suas comunidades e da nossa mãe, a Terra.
Compreender as identidades culturais indígenas a partir de suas perspectivas e não dos discursos colonizadores e eurocêntricos.
Confrontar a adoção de um conceito genérico de índio a partir da problematização das diversas culturas indígenas e sua distribuição no espaço geográfico do território
Estabelecer uma relação de empatia com as vivências dos povos originários da região do Vale do Rio Doce em correlação com os sucessivos crimes ambientais que seu espaço vem sendo alvo.
Identificar e comparar os espaços geográficos para além das atividades industrial e extrativista que há tempos se impõem como únicos elementos caracterizadores da região do Vale do Aço.
Atribuir aos povos indígenas o protagonismo de sua própria história, abordando temas que privilegiam os atos de resistência e de negociação desses sujeitos em um contexto marcado pela desigualdade de forças e, nesse sentido, desfazendo estereótipos.
Estimular o exercício da cidadania e a responsabilidade social de preservar e valorizar patrimônios material e imaterial a partir do local e do cotidiano como objetos de investigação, possibilitando que as/os discentes possam se situar, compreender e intervir no meio em que vivem como cidadãos críticos.
Exercitar a autonomia da/o discente, aprendendo a trabalhar de modo mais solidário e colaborativo.
Valorizar a própria identidade étnica-social e cultural.
Ao longo do projeto de ensino, mais de uma orientação metodológica é empregada. A fase de estudos teóricos e conceituais se fundamenta em pressupostos do interacionismo sociodiscursivo (BRONCKART, 1999) e é operacionalizada por meio de atividades organizadas em itinerários (DOLZ; NOVERRAZ; SCHNEUWLY, 2004), que preveem a reiteração de atividades com vistas à progressão das aprendizagens. Em seguida aos estudos teóricos, a fase de elaboração do projeto parte de conceitos centrais à aprendizagem, à escrita colaborativa e à própria pedagogia dos projetos (CARVALHO, 2015). Essa terceira abordagem metodológica é potencializada durante a execução dos projetos criados pelos grupos e sua apresentação final à comunidade escolar. Essas escolhas implicam a adoção de diferentes mecanismos de acompanhamento e avaliação. Nesse sentido, ressalta-se o emprego das tecnologias de informação e comunicação (TICs), que proporcionam a automação e a comunicação dos processos de pesquisa científica e de ensino-aprendizagem. Assim, busca-se, por meio das funções disponibilizadas pelas ferramentas do Google Workspace, criar produtos e escrever projetos de exposição e diários de bordo, de forma colaborativa, que se integram dentro de um processo que culminará com uma mostra dos estudantes. Além disso, o processo de acompanhamento das atividades e da avaliação das tarefas também se utiliza de tais ferramentas, facilitando a interação entre aluno e professor, e o feedback de cada etapa, o que permite a orientadores e estudantes conhecer limites e possibilidades, reorientar caminhos de aprendizagem e, por conseguinte, elemento de reflexão e autocrítica.
BRONCKART, Jean-Paul. Atividades de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sociodiscursivo. Tradução de Anna Rachel Machado e Péricles Cunha. 2ª ed. São Paulo: EDUC, 2007.
CARVALHO, Frank Viana. Trabalho em equipe, aprendizagem cooperativa e pedagogia da cooperação. São Paulo: Scortecci, 2015.
DOLZ, Joaquim; NOVERRAZ, Michèle; SCHNEUWLY, Bernard. Sequências Didáticas para o oral e a escrita: apresentação de um procedimento. In: DOLZ, Joaquim; SCHNEUWLY, Bernard e colaboradores. Gêneros orais e escritos na escola. Trad. e org. de Roxane Rojo e Glaís Sales Cordeiro. Campinas: Mercado das Letras, 2004.