Um pouco ao norte de Belo Horizonte, a região de calcário de Lagoa Santa e a encosta da serra do Cipó forneceram a maior coleção de esqueletos disponíveis para o estudo biológico das primeiras populações americanas. Muito parecidos entre si, formam a chamada “raça de Lagoa Santa”; o mais antigo esqueleto, popularizado sob o nome de Luzia, foi encontrado no abrigo no IV da Lapa Vermelha.
Grande número de abrigos e salões de entrada de grutas – ainda na zona iluminada pela luz natural – foi utilizado como cemitério entre 11.000 e 8.000 anos atrás. Dezenas de corpos (cerca de 80 na Lapa Mortuária de Conϧns) em posição ϩetida foram depositados em pequenas covas, eventualmente embrulhados numa rede (Santana do Riacho); a terra que preenchia a cova era misturada com pigmentos vermelhos. Colares de sementes vegetais acompanhavam certos corpos, e blocos de pedra cobriam a fossa, protegendo-a dos animais.
Nos abrigos de Santana do Riacho e de Cerca Grande VI, parte do espaço disponível era utilizado para trabalhar. Encontram-se ali milhares de lascas de quartzo, muitas delas obtidas ao se esmagarem os cristais sobre uma bigorna. As menores eram utilizadas como canivetes, enquanto as maiores eram retocadas numa face para obter raspadores, ou em ambas as faces para se tornarem pontas de projétil. Instrumentos lascados mais robustos (“raspadeiras”), porém menos cortantes e destinados ao trabalho da madeira, eram feitos a partir de plaquetas de quartzito marginalmente retocadas numa das faces. Ao mesmo tempo, transportavam-se rochas resistentes (como a hematite, o anϧbolito e o gabro) a partir de dezenas de quilômetros para fabricar, por picoteamento e polimento, lâminas de machado e mãos de pilão.
Esse uso da técnica do polimento (que permite obter gumes resistentes, embora menos cortantes que os criados pelo lascamento) encontra-se na mesma época no Piauí, mas não aparece nos demais sítios brasileiros. Só iria se generalizar milhares de anos depois.
Com patas de veados faziam-se espátulas, e com a ponta dos chifres, sovelas. Foram encontrados também anzóis e contas de osso para colares.
Os restos alimentares incluem alguns cervídeos, mas sobretudo animais de porte médio ou pequeno, como tatus. Não sabemos se esses vestígios representam a alimentação do dia a dia, mas a patologia dentária sugere uma dieta baseada muito mais em vegetais que em proteínas animais.
Prous, André. O Brasil antes dos brasileiros A pré-história de nosso país. 2ª edição Zahar.RJ