Na madrugada de 29 de abril de 1945, enquanto era possível ouvir os tanques e canhões do Exército Vermelho bombardeando o centro de Berlim, um curioso evento ocorreu no bunker sob o jardim da antiga Chancelaria do Reich. Tendo como testemunhas o ministro da Propaganda Joseph Goebbels e o chefe da Chancelaria do partido nazista Martin Bormann, um delegado regional do partido conduziu formalmente uma cerimônia de casamento civil entre o ditador alemão e Eva Braun, bávara de 33 anos de idade e cerca de 23 anos mais jovens que Hitler.
Terminada a cerimônia, eles reuniram-se na sala de estar com um pequeno grupo de secretárias e oficiais nazistas do alto escalão para uma taça de vinho espumante e, como mais tarde registrou um dos presentes, para relembrar “alegremente os bons e velhos tempos”.
Foi um casamento solenizado à sombra da morte. Pouco antes, Hitler havia ditado a uma das secretárias no bunker seu “testamento político”. No documento, declarava que, quase no fim de sua vida terrena, decidira “casar-me com a mulher que, após vários anos de leal amizade, entrou por vontade própria na cidade já sitiada para compartilhar do meu destino. Ela ingressa na morte comigo na condição de minha esposa, segundo o meu desejo”.
Na tarde de 30 de abril, o casal retirou-se para os aposentos privativos de Hitler, onde agora Eva Hitler sentou-se no sofá. Ela mordeu uma cápsula de cianeto e teve morte instantânea. Hitler fez o mesmo e, a fim de se certificar de que daria fim à própria vida, simultaneamente disparou um revólver contra a própria têmpora. Ao ouvir o barulho, alguns dos outros presentes no bunker entraram no aposento e organizaram a remoção dos corpos para o jardim, onde, seguindo instruções, despejaram gasolina sobre os cadáveres e os queimaram até que ficassem irreconhecíveis.
Ainda em funcionamento, a máquina de propaganda nazista divulgou um comunicado afirmando que Hitler morrera lutando até o fim. Nenhuma menção foi feita a sua nova esposa. Eva morreu exatamente como havia vivido, invisível ao mundo exceto para um punhado de íntimos do Führer.
EVANS, Richard J. Terceiro Reich – Na História e na Memória, ed. Crítica