Tutankamon - Foi um faraó egípcio que viveu há mais de 3 mil anos.
Grande esfinge de Tanis, granito rosa, 183×480 cm, Antigo Império, 2686-2160 A.C
AS MÚMIAS - EGITO ANTIGO
COUTO, Sérgio Pereira.
Símbolo do mistério que a civilização egípcia representa, as múmias são bem mais do que um simples corpo humano transformado em objeto de estudo. Aquelas tentativas de preservação dos corpos de seus poderosos monarcas fornecem vários e preciosos dados sobre o pensamento religioso vigente na civilização faraônica e são testemunhas mudas de suas antigas crenças numa ressurreição da alma por meio da conservação de seu “habitat natural”, por assim dizer.
Os livros de egiptologia mais conhecidos definem que uma múmia bem produzida deveria ser “leve como uma casca de ovo e dura como uma estátua”. Esses vestígios servem para nos mostrar que a preocupação do homem com sua própria mortalidade é um assunto antigo e lembram-nos da precariedade da existência. Trechos do famoso Livro dos Mortos egípcio, reproduzidos nas tampas dos caixões e nas paredes dos túmulos, falam coisas como “eu não deteriorarei” e “meu corpo não será presa dos vermes”. E exalta os esforços da alma em atingir um patamar de paz no outro mundo: “ela (a alma) é durável e não será aniquilada no país da eternidade”.
Talvez haja bem mais no processo de mumificação do que nos parece à primeira vista. Uma prova disso é o fato de a múmia de Ramsés II ter sofrido consideravelmente quando assumiu seu lugar no Museu do Cairo. Depois de ser retirada do local de seu descanso no Vale dos Reis e levada para um esconderijo em Deir El-Bahari (um complexo de templos mortuários e túmulos localizados na margem ocidental do rio Nilo, do lado oposto à cidade de Luxor), juntamente com outras múmias famosas numa tentativa de os sacerdotes protegerem seus soberanos da depredação dos ladrões de túmulos e caçadores de tesouros, ela estava em perfeito estado de conservação quando foi descoberta em 1881 e colocada no museu quatro anos depois. De lá para cá simplesmente começou a se decompor, não por incompetência dos embalsamadores, mas sim das condições climáticas do local onde estava. Em 1976, ela foi enviada para Paris onde cientistas franceses a examinaram e descobriram que a rápida decomposição era causada por um cogumelo, o Daedela Biennis, que foi destruído com doses de irradiação gama de cobalto 60. Não demorou muito para que todos respirassem aliviados e afirmassem que o grande faraó ficaria por perto por mais algum tempo sem grande perigo.
Mas muitos que estudam o Egito fariam de tudo para pôr as mãos nos objetos e processos usados para obter a mumificação. O estranho costume teria começado ainda nos primórdios do Egito, quando os cadáveres eram enterrados diretamente na areia do deserto que, por ser muito porosa e estar num clima muito quente e seco, causou a mumificação natural de alguns corpos. Uma das mais impressionantes está no Museu Britânico, de Londres, e é chamada carinhosamente de Ginger. Trata-se de uma múmia preservada naturalmente (uma vez que possuía ainda os órgãos que são retirados num processo de mumificação comum) do Período Pré-dinástico. Quem teve a oportunidade de vê-la pessoalmente fica simplesmente impressionado com a vista. A múmia, um homem, ganhou esse nome por causa do seu cabelo vermelho e está cercada de objetos funerários, incluindo as ferramentas que ele usava durante sua vida e vasos de cerâmica que uma vez contiveram comida que o acompanharia na vida no além. Pesquisas acadêmicas dão conta de que ele pode ser uma das primeiras pessoas a ter passado por esse processo, embora não se saiba se a intenção de quem o enterrou era exatamente torná-lo uma múmia. Ginger foi encontrada intacta e enterrada diretamente na areia, substância que provavelmente drenou todos os fluídos do corpo. Graças a esta ação natural seu corpo, secou a um ponto em que uma simples bactéria não poderia se alimentar dos músculos ou da pele. De fato, muito da pele está intacta, embora tenha ganho uma coloração marrom.
Acredita-se que o processo de mumificação tenha sido desenvolvido porque nem todos tinham condição de preservar seus entes queridos diretamente na areia do deserto, embora isso é o que não falta na região do Egito. Mas a pergunta que fica na cabeça dos curiosos é apenas uma: “Por que alguém iria querer preservar seu corpo após a morte?” Para entendermos o motivo religioso que gerou tal hábito é necessário abrirmos espaço neste capítulo para contarmos aquele que talvez é o conto mais famoso de toda a mitologia egípcia. Vamos conhecer o mito de Osíris.