África antiga O Império de Kush - J. Leclant - A estela de Peye (Piankhy)
Embora atualmente a região esteja muito isolada pelos desertos e pelos difíceis obstáculos da Segunda, Terceira e Quarta Cataratas do Nilo, Dongola e as bacias vizinhas do Médio Nilo foram outrora o centro de formações políticas ricas e poderosas. Na primeira metade do II milênio, a chamada cultura de Kerma correspondia ao rico e próspero reino de Kush, mencionado nos textos egípcios. As prospecções arqueológicas bastante irregulares dessa região ainda hoje pouco conhecida tornam muito difícil elaborar o seu quadro histórico após a fase brilhante, mas relativamente curta, de domínio egípcio durante o Novo Império (-1580 a -1085); por quase três séculos parece ter-se rompido o vínculo entre a África e o mundo mediterrânico e um silêncio quase total envolve a Núbia. Contudo, há um despertar a partir do final do século IX antes da Era Cristã; a escavação empreendida por G. A. von Reisner na necrópole de el-Kurru, perto de Napata, a jusante da Quarta Catarata, revelou os túmulos de uma série de príncipes: de início apenas montes de terra e depois estruturas de alvenaria do tipo mastaba.
São os reis ancestrais da linhagem que efetivou a união do Egito e do Sudão, conhecida na história como XXV dinastia do Egito ou dinastia etíope. A semelhança de certos nomes e o papel desempenhado pelo deus Âmon e seu clero fizeram com que por muito tempo se acreditasse que a dinastia descendia de refugiados egípcios originários da região tebana. Posteriormente, algumas pontas de flecha do tipo saariano levaram a crer numa origem líbia. Na realidade, trata-se de uma dinastia nativa, constituída talvez pelos sucessores dos antigos soberanos de Kerma. Desconhece-se quem foram seus primeiros reis. Sabe-se que, a Alara, sucedeu Kashta, nome que parece derivar de “Kush”; seus cartuchos, de estilo egípcio, figuram numa estela descoberta em Elefantina. Naquela época (cerca de -750), os núbios ocupavam, pelo menos parcialmente, o Alto Egito.
Com o monarca seguinte, o ilustre Piankhy, cujo nome terá doravante a grafia “Peye, entramos no curso principal “da história: uma das inscrições que ele mandou gravar em Napata e que, descoberta na metade do século passado, encontra-se hoje preservada no Museu do Cairo – a Estela da Vitória – é um dos textos mais longos e detalhados do antigo Egito. Nas suas duas faces e nos lados encontram-se 159 linhas de hieróglifos descrevendo as deliberações do reiem seu palácio e as etapas de sua campanha contra os príncipes líbios, senhores do Médio Egito e do Delta. Nesse relato sucedem-se episódios piedosos e discursos: Peye sabe ser complacente; grande amante de cavalos, encoleriza-se em Hermópolis por encontrar os animais mortos nos estábulos, mas perdoa. Por outro lado, recusa-se a ir ao encontro dos “impuros”, os dinastas do Delta, que comiam peixe. E repentinamente, em meio a demonstrações de alegria, tem lugar uma retirada para o sul, de volta ao Sudão. Ao mesmo tempo, em Tebas, a filha do próprio Kashta, Amenirdis, a anciã, é investida Divina Adoradora de Âmon.
Outra grande estela de Peye6, descoberta em 1920, define o caráter federativo do Império Cuxita, ao mesmo tempo que afirma a supremacia do deus Âmon: “Âmon de Napata fez-me soberano de todo o povo; aquele ao qual eu digo, ‘tu és rei’, será rei; aquele ao qual eu digo, ‘tu não serás rei’, não será rei. Âmon de Tebas fez-me soberano do Egito; aquele ao qual eu digo, ‘veste-te como rei’, vestir-se-á como rei; aquele ao qual eu digo, ‘tu não te vestirás como rei’, não se vestirá como rei ... os deuses fazem um rei, o povo faz um rei, mas foi Âmon quem me fez”.