1. Jovens brasileiros são muito religiosos: pesquisa Datafolha sobre religiosidade no Brasil
2. Preconceito em se tratar diretamente de experiências religiosas e fenômenos religiosos em geral: algo bem difundido na cultura científica e filosófica das últimas décadas. Exemplo: "Em nossa primeira reunião com Wittgenstein, Schlick infelizmente mencionou que eu estava interessado no tema de uma língua internacional, como o Esperanto. Como eu antecipava, Wittgenstein era definitivamente contra essa ideia. Mas fiquei surpreso com a veemência de suas emoções. Uma linguagem que não tivesse ‘crescido organicamente’ parecia-lhe não apenas inútil, mas desprezível. Em outra ocasião, tocamos no tópico da parapsicologia, e ele manifestou-se fortemente contra essa disciplina. As supostas mensagens produzidas em sessões espíritas, disse ele, eram extremamente triviais e bobas. Concordei com isso, mas observei que, não obstante, a questão da existência e explicação dos supostos fenômenos parapsicológicos era um problema científico importante. Ele ficou chocado que algum homem razoável pudesse ter qualquer interesse em tal lixo [rubbish].” (Carnap, “Intellectual autobiography”, p. 26)
3. A religiosidade funciona psicologicamente como uma moldura dentro da qual vivemos. Podemos trocar a moldura, mas não eliminá-la, pois a mente consciente é bastante limitada em sua capacidade de resolver problemas e de estabelecer metas e dar sentido ao que faz.
4. Do ponto de vista subjetivo, a mente consciente encontra forças ou personagens dentro de si que efetivamente funcionam como agentes: parecem ter vontade própria, força própria, uma história particular que é distinta da história da mente consciente. Tradições religiosas distintas interpretaram de modos distintos essas "forças" ou "personagens". Um deles é o que chamamos de Deus, mas que pode ser chamado de muitas outras maneiras.
5. O encontro da mente consciente com essas forças ou personagens produzem experiências místicas: são encontros com algo que, para a mente consciente, é incompreensível e paradoxal.
6. O Aleph (J.L. Borges): "
Chego, agora, ao inefável centro de meu relato; começa aqui meu desespero de escritor. Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartem; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que minha temerosa memória mal e mal abarca? Os místicos, em análogo transe, são pródigos em emblemas: para significar a divindade, um persa fala de um pássaro que, de algum modo, é todos os pássaros; Alanus de Insulis, de uma esfera cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma; Ezequiel, de um anjo de quatro faces que, ao mesmo tempo, se dirige ao Oriente e ao Ocidente, ao Norte e ao Sul. (Não em vão rememoro essas inconcebíveis analogias; alguma relação têm com o Aleph.) É possível que os deuses não me negassem o achado de uma imagem equivalente, mas este relato ficaria contaminado de literatura, de falsidade. Mesmo porque o problema central é insolúvel: a enumeração, sequer parcial, de um conjunto infinito. Nesse instante gigantesco, vi milhões de atos prazerosos ou atrozes; nenhum me assombrou tanto como o fato de que todos ocupassem o mesmo ponto, sem superposição e sem transparência. O que viram meus olhos foi simultâneo; o que transcreverei, sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, entretanto, registrarei.
Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera furta-cor, de quase intolerável fulgor. A princípio, julguei-a giratória; depois, compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espetáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava aí, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto roto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando-me como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi num pátio da rua Soler as mesmas lajotas que, há trinta anos, vi no vestíbulo de uma casa em Fray Bentos, vi cachos de uva, neve, tabaco, veios de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um câncer no peito, vi um círculo de terra seca numa calçada onde antes existira uma árvore, vi uma chácara de Adrogué, um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemon Holland, vi, ao mesmo tempo, cada letra de cada página (em pequeno, eu costumava maravilhar-me com o fato de que as letras de um livro fechado não se misturassem e se perdessem no decorrer da noite), vi a noite e o dia contemporâneo, vi um poente em Querétaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu dormitório sem ninguém, vi num gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicam indefinidamente, vi cavalos de crinas redemoinhadas numa praia do mar Cáspio, na aurora, vi a delicada ossatura de uma mão, vi os sobreviventes de uma batalha enviando cartões-postais, vi numa vitrina de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de algumas samambaias no chão de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisões, marulhos e exércitos, vi todas as formigas que existem na terra, vi um astrolábio persa, vi numa gaveta da escrivaninha (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, inacreditáveis, precisas, que Beatriz dirigira a Carlos Argentino, vi um adorado monumento em La Chacarita, vi a relíquia atroz do que deliciosamente fora Beatriz Viterbo, vi a circulação de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph, e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetura) cujo nome usurpam os homens, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo.
Senti infinita veneração, infinita lástima."
7. James
Características das experiências místicas: inefabilidade, qualidade noética, passividade, transitoriedade
Graus da experiência mística: compreensão de uma frase já conhecida, "já estive aqui antes", álcool
Autoridade da experiência mística: apenas sobre a própria consciência, embora não sejam experiências racionais
8. Econtro de Jacó com "alguém" (Gênesis 32):
i. encontro: "E Jacó ficou só. E alguém lutou com ele até surgir a aurora."
ii. luta, ferida: "Vendo que não o dominava, tocou-lhe na articulação da coxa, e a coxa de Jacó se deslocou enquanto lutava com ele."
iii. persistência: "Ele disse: 'Deixa-me ir, pois já rompeu o dia'. Mas Jacó respondeu: 'Eu não te deixarei se não me abençoares.'"
iv. revelação, prêmio: "Ele lhe pertuntou: 'Qual o teu nome?' -- 'Jacó', respondeu ele. Ele retomou: 'Não te chamarás mais Jacó, mas Israel, porque foste forte contra Deus e contra os homens, e tu prevaleceste'. Jacó fez esta pergunta: 'Revela-me teu nome, por favor.' Mas ele respondeu: 'Por que perguntas pelo meu nome?'. E ali mesmo o abençoou.
9. Krishna revela-se a Arjuna
10. Iluminação de Buda
11. Anunciação (Lucas 1)
12. Paulo
13. Zaratustra revela-se a Nietzsche