A última conferência foi dolorosa, pois lidou com o mal como elemento que invade todo o mundo em que vivemos. Chegados à sua conclusão, vimo-nos diante do contraste entre as duas maneiras de encarar a vida, características, respectivamente, dos que chamamos mentalmente equilibrados, que precisam nascer apenas uma vez, e das almas enfermas, que precisam nascer duas vezes para serem felizes. O resultado são as duas concepções diferentes do universo da nossa experiência. Na religião dos nascidos uma vez o mundo é uma espécie de negócio retilíneo, ou de um único andar, cujas contas se fazem sob uma só denominação, cujas partes têm exatamente os valores que parecem ter, e cujo valor total será fornecido por uma simples soma algébrica dos “mais” e dos “menos”. A felicidade e a paz religiosa consistem em viver do lado “mais” da conta. Na religião dos nascidos duas vezes, por outro lado, o mundo é um mistério de dois andares. A paz não pode ser alcançada pela simples adição dos “mais” e pela eliminação dos “menos” da vida. O bem natural não é apenas quantitativamente insuficiente e transitório; em seu próprio ser jaz, emboscada, uma falsidade. Cancelado como tudo o mais pela morte, quando não por inimigos mais precoces, não proporciona o equilíbrio final e nunca pode ser o objeto pretendido do nosso culto definitivo. Antes, nos mantém afastados do verdadeiro bem; e a renúncia e o desespero são o primeiro passo na direção da verdade. Há duas vidas, a natural e a espiritual, e precisamos perder uma delas para participar da outra.
Em suas formas extremas, de puro naturalismo e puro salvacionismo, os dois tipos contrastam violentamente; se bem aqui, como na maioria das classificações atuais, os extremos radicais sejam abstrações um tanto ou quanto ideais, e os seres humanos concretos, com os quais topamos mais amiúde, sejam variedades e misturas intermediárias. Praticamente, no entanto, todos reconhecemos a diferença: compreendemos, por exemplo, o desdém do metodista convertido pelo mero moralista equilibrado, e entendemos igualmente a aversão deste último ao que se lhe afigura o subjetivismo enfermiço do metodista, que morre para viver, como ele mesmo diz, e faz do paradoxo e da inversão das aparências naturais a essência da verdade de Deus.{86}
A base psicológica do caráter nascido duas vezes parece ser uma certa discordância ou heterogeneidade do temperamento congênito do sujeito, uma constituição moral e intelectual incompletamente unificada.
“Homo duplex, homo duplex!” escreve Alphonse Daudet. “A primeira vez que percebi que eu era dois foi por ocasião da morte de meu irmão Henri, quando meu pai gritou tão dramaticamente, ‘Ele está morto, ele está morto!’ E ao passo que o meu primeiro eu chorava, o segundo pensava: ‘Como foi natural e espontâneo esse grito, como ele ficaria bem no teatro!” Eu tinha, então, catorze anos.
“Essa horrível dualidade forneceu-me, reiteradas vezes, matéria para reflexão. Oh, esse terrível segundo eu, sempre sentado enquanto o outro está de pé, agindo, vivendo, sofrendo, atarefando-se. Esse segundo eu que nunca fui capaz de embebedar, de fazer chorar, ou de adormecer. E como ele enxerga o fundo das coisas, como zomba!”{87}
Obras recentes sobre a psicologia do caráter têm tido muita coisa para dizer sobre esse ponto.{88} Algumas pessoas nascem com uma constituição interior harmoniosa e bem equilibrada desde o princípio. Os impulsos são compatíveis uns com os outros, a vontade segue sem dificuldade a orientação do intelecto, as paixões não são excessivas, e suas vidas são pouco assediadas pelos pesares. Outros são constituídos de maneira oposta; e assim o são em graus que podem variar desde alguma coisa tão leve, que resulta numa inconsequência apenas estranha ou caprichosa, até uma discordância cujas consequências podem ser inconvenientes ao extremo. Dos tipos mais inocentes de heterogeneidade encontro bom exemplo na autobiografia da Sra. Annie Besant,
“Sempre fui a mais estranha mistura de fraqueza e força, e tenho pago um preço alto pela fraqueza. Criança, eu costumava sofrer as torturas da vergonha, e, se o atilho do meu sapato estivesse solto sentia, acanhadíssima, todos os olhares fitos no desastrado cordão; moça, fugia de estranhos e me julgava não desejada e desamada, de modo que me enchia de gratidão por quem quer que se mostrasse bondoso comigo; jovem dona de casa, eu tinha medo dos criados, e preferia deixar passar serviços descuidados ao sofrimento de recriminar o desleixado; depois de haver pronunciado uma palestra ou participado de um debate sem que me faltasse o ânimo no tablado, eu preferia voltar para o hotel sem ter obtido o que desejava a tocar a campainha e mandar o garçom trazer-mo. Combativa no palanque em defesa de qualquer causa que me interesse, fujo de discussões ou desaprovações em casa, e sou essencialmente covarde em particular, embora me mostre boa lutadora em público. Quantas vezes passei infelizes quartos de hora cobrando coragem para admoestar algum subordinado que o dever me obrigava a escarmentar, e quantas vezes escarneci de mim mesma como a falsa heroína de palanque, quando fugia de censurar algum rapaz ou rapariga por haverem feito mal o seu serviço. Um olhar desamorável ou uma palavra desamável me obrigam a encolher-me dentro em mim, como a lesma se recolhe ao caracol, ao passo que, no palanque, a oposição sempre me faz defender com ardor minhas idéias.”{89}
Essa dose de incoerência só será considerada uma amável fraqueza; mas um grau mais forte de heterogeneidade pode estragar a vida do sujeito. Há pessoas cuja existência é pouco mais que uma série de ziguezagues, quando ora uma tendência, ora outra, levar a melhor: O espírito entra em choque com a carne, os desejos são incompatíveis entre si, impulsos caprichosos lhes interrompem os planos mais deliberados, e suas vidas são um longo drama de arrependimento e esforço para reparar inconveniências e erros.
A personalidade heterogênea tem sido explicada como resultado da hereditariedade - supõem-se preservados os traços de caráter de antepassados incompatíveis e antagônicos, ao lado uns dos outros.{90} Essa explicação pode passar pelo que vale - necessita, sem dúvida, de corroboração. Mas seja qual for a causa da personalidade heterogênea, encontramos os seus exemplos extremos no temperamento psicopático, ao qual aludi em minha primeira conferência. Todos os que escrevem a respeito desse temperamento destacam em suas descrições a heterogeneidade interior. Frequentemente, na verdade, apenas esse traço nos leva a imputar a um homem tal temperamento. Um “dégénéré supérieur” é simplesmente um homem de sensibilidade em muitas direções, que encontra maior dificuldade do que é comum em manter sua casa espiritual em ordem e em traçar direito o seu sulco, porque seus sentimentos e impulsos são demasiado intensos e discrepantes em relação uns aos outros. Nas idéias obsedantes e insistentes, nos impulsos irracionais, nos escrúpulos, terrores e inibições mórbidas, que sitiam o temperamento psicopático quando é muito pronunciado, temos magníficos exemplos da personalidade heterogênea, Bunyan tinha uma obsessão pelas palavras “Vende Cristo por isto, vende-o por aquilo, vende-o, vende-o!’, que lhe percorriam a mente cem vezes por minuto, até que, um belo dia, sem fôlego de tanto responder, “Não venderei, não venderei”; disse impulsivamente, “Deixa-o ir, se quiser”, e essa derrota o deixou desesperado por mais de um ano. As vidas dos santos estão cheias dessas obsessões blasfemas, atribuídas invariavelmente à intervenção direta de Satanás. O fenômeno está ligado à vida do chamado eu subconsciente, do qual teremos de falar, daqui a pouco, mais diretamente.
Ora, em todos nós, seja qual for a nossa constituição, num grau tanto maior quanto mais intensos, sensíveis e sujeitos a tentações diversificadas formos, e no maior grau possível se formos decididamente psicopatas, a evolução normal do caráter consiste principalmente no endireitamento e na unificação do eu interior. Os sentimentos mais altos e os mais baixos, os impulsos úteis e os desviados, começam criando um caos relativo dentro de nós - precisam acabar formando um sistema estável de funções em correta subordinação. A infelicidade tende a caracterizar o período da ordenação e da luta. Se o indivíduo tiver a consciência tema e a religião viva, a infelicidade tomará a forma do remorso e da compunção moral, de se sentir a pessoa interiormente vil e errada, e de manter relações falsas com o autor do seu ser e com o indicador do seu destino espiritual. Essa é a melancolia religiosa e a “convicção do pecado” que representaram tão grande papel na história do Cristianismo protestante. O interior do homem é um campo de batalha para dois eus, que ele sente mortalmente hostis um ao outro, um real e outro ideal. Como Vitor Hugo faz dizer ao seu Maomé:
Je suis le champ vil des sublimes combats:
Tantôt I homme d en haut, et tantôt l homme den bas;
Et le mal dans ma bouche avec le bien alterne,
Comme dans le désert le sable e la citerne.
Vida equívoca, aspirações impotentes: “O que eu queria fazer, não faço; mas faço o que odeio”, como diz São Paulo; nojo de si, desespero de si; fardo ininteligível e intolerável, de que somos misteriosamente herdeiros.
Deixem-me fazer citações de alguns casos típicos de personalidade discordante, com melancolia que assume a forma da condenação de si mesmo e do sentido do pecado. O caso de Santo Agostinho é um exemplo clássico. Os senhores hão de estar lembrados da sua educação, semicristã, em Cartago, sua migração para Roma e Milão, sua adoção do Maniqueísmo e o subsequente pessimismo, e sua busca incansável da verdade e da pureza da vida; e, finalmente, o modo com que, perturbado pela luta entre as duas almas em seu peito, e envergonhado da fraqueza da própria vontade, quando tantos outros que ele conhecia e de quem ouvira falar haviam lançado de si as peias da sensualidade e se tinham consagrado à castidade e à vida superior, ele ouviu dizer uma voz no jardim, “Sume, lege” (pega e lê), e, abrindo a Bíblia ao acaso, deu com o texto, “não em fornicação nem em libertinagem”, etc., que se lhe afigurou diretamente endereçado a ele, e fez a tormenta interior amainar para sempre.{91} O gênio psicológico de Agostinho deu- nos um relato insuperável do problema do eu dividido.
“A nova vontade que comecei a ter ainda não era suficientemente forte para vencer a outra vontade, fortalecida por longa desídia. Destarte, duas vontades, uma velha, uma nova, uma carnal, outra espiritual, lutavam entre si e conturbavam-me a alma. Compreendi, por experiência própria, o que lera: a carne tem desejos contra o espírito, e o espírito contra a carne. Era eu mesmo, de feito, em ambas as vontades, porém mais eu mesmo na que aprovava em mim do que na que desaprovava em mim. No entanto, fora por meu intermédio que o hábito lograra o domínio sobre mim, porque eu chegara voluntariamente aonde não queria. Ainda preso à terra, recusei-me, ó Deus, a lutar do teu lado, tão temeroso de ser libertado de todos os laços, quanto devera temer ser entravado por eles.
“Assim os pensamentos com os quais eu meditava sobre ti eram como os esforços de alguém que quisesse despertar mas que, vencido pelo sono, logo adormece outra vez. Muitas vezes o homem, quando a pesada sonolência lhe avassala os membros, adia o momento de sacudi-la e, conquanto não a aprove, dá-lhe forças; mesmo assim eu estava certo de que fora melhor entregar-me ao teu amor do que ceder aos meus apetites sensuais; entretanto, embora o primeiro curso me convencesse, o último me agradava e mantinha prisioneiro. Nada havia em mim para responder ao teu chamado, ‘Acorda, dorminhoco’, senão palavras arrastadas, sonolentas, ‘Já vou; sim, já vou; espera um pouquinho’. Mas o ‘já vou’ não tinha ‘presente’, e o ‘pouquinho’ prolongou-se. … Pois eu receava que me ouvisses demasiado cedo e me curasses desde logo da minha doença da concupiscência, que eu mais desejava saciar do que ver extinta. Com que açoites de palavras não vergastei minha alma! Apesar disso, ela se encolheu; recusou-se, se bem não tivesse desculpas para oferecer. … Eu disse entre mim: ‘Vamos, que isso se faça agora’, e, ao dizê-lo, estive a ponto de resolver. Quase o fiz e, todavia, não o fiz. Envidei outro esforço, e quase tive êxito, mas não o alcancei, e tampouco o agarrei, hesitando entre morrer para a morte e viver para a vida; e o mal, a que estava tão avezado, segurou-me mais do que a vida melhor, que eu não experimentara.”{92}
Não poderia haver descrição mais perfeita da vontade dividida, quando os desejos mais elevados carecem da agudeza derradeira, daquele toque de explosiva intensidade, da qualidade dinamogênica (para usar o jargão dos psicólogos), que lhes permite rebentar a própria casca, o irromper eficazmente na vida e sufocar para sempre as tendências inferiores. Numa próxima conferência teremos muita coisa para dizer a respeito dessa excitabilidade mais elevada.
Encontro outra boa descrição da vontade dividida na autobiografia de Henry Alline, o evangelista da Nova Escócia, de cuja melancolia li uma pequena descrição em minha última conferência. Os pecados do pobre moço, como os senhores verão, eram do gênero mais inofensivo e, contudo, interferiam no que se revelou ser a sua vocação mais verdadeira, razão pela qual lhe acarretaram grande aflição.
“Eu era agora muito moral em minha vida, mas não encontrava repouso de consciência. Comecei a ser estimado na companhia de jovens, que nada sabiam das minhas idéias, e cuja estima começou a revelar-se uma armadilha para minha alma, pois logo principiei a gostar dos prazeres mundanos, se bem eu ainda alimentasse a esperança de que, se não me embebedasse, não blasfemasse, não dissesse palavrões, não haveria pecado em folgar e cultivar a alegria carnal, e cuidava que Deus concedesse aos jovens alguma recreação (a que chamava simples ou civil). Eu ainda conservava um conjunto de deveres, e não me permitiria nenhum vício declarado, e assim passava muito bem em época de saúde e prosperidade; mas quando estava desesperado ou ameaçado por doença, morte ou tempestades violentas, minha religião já não me bastava, e eu achava que me faltava alguma coisa, e começava a arrepender-me de tanta frivolidade; mas quando a aflição passava, o demônio e o meu próprio e perverso coração, com as solicitações dos companheiros e o prazer que me dava a companhia dos jovens, eram atrativos tão fortes que eu voltava a sucumbir, e assim me tomei muito selvagem e rude, embora, ao mesmo tempo, mantivesse meus hábitos de oração e leitura secretas; mas, não querendo que eu me destruísse, Deus ainda me seguia com os seus chamados, e me pressionava com tanta força a consciência, que minhas diversões não conseguiam satisfazer-me e, no meio do meu júbilo, salteava-me, às vezes, um tal sentido do meu estado perdido e desfeito, que eu desejava ficar só e, terminada a função, quando voltava para casa, fazia inúmeras promessas de nunca mais participar dessas pândegas, e pedia perdão por horas a fio; mas quando, de novo, sobrevinha a tentação, eu tomava a ceder: assim que ouvia música ou tomava um copo de vinho, perdia o juízo e me entregava a qualquer espécie de diversão ou passatempo, que não me parecesse debochado nem declaradamente vicioso; quando, porém, regressava dos meus prazeres mundanos, sentia-me tão culpado como sempre e, algumas vezes, só conseguia fechar os olhos horas depois de ter ido para a cama. Eu era uma das criaturas mais infelizes da terra.
“Por vezes, deixava os companheiros (não raro pedindo ao rabequista que parasse de tocar, porque eu estava cansado), saía e punha-me a andar, chorando e rezando, como se o meu coração fosse partir-se, e suplicando a Deus que não me desamparasse nem me deixasse com o coração duro. Oh, que horas e noites infelizes passei assim! Quando me encontrava, às vezes, com alegres companheiros, e meu coração estava prestes a soçobrar, eu diligenciava dar ao semblante o aspecto mais alegre possível, para que eles não desconfiassem de nada e, não raro, me punha a conversar com os moços ou com as moças de propósito, ou propunha cantarmos uma canção, para que a angústia da minha alma não fosse descoberta, nem ninguém suspeitasse dela, quando, na verdade, eu quisera antes estar num deserto, no exílio, do que com eles ou com qualquer um dos seus prazeres e divertimentos. Assim, por muitos meses, estando em companhia de outros, eu procedia como hipócrita e afetava alegria; ao mesmo tempo, porém, fazia o possível para evitar-lhes a companhia, oh, desgraçado e infeliz mortal que eu era! Fosse o que fosse que eu fizesse e onde quer que estivesse, eu me debatia sempre numa tormenta, embora continuasse a ser o principal inventor e cabeça das pândegas por meses a fio, conquanto fosse um trabalho e um suplício participar deles; mas o diabo e o meu perverso coração conduziam-me como a um escravo, dizendo-me que fizesse isso e aquilo, que suportasse isto e aquilo, que virasse para cá e para lá, que mantivesse o meu crédito e retivesse a estima dos companheiros: e tudo isso enquanto continuava, tão rigorosamente quanto possível, a cumprir meus deveres e não deixava pedra sobre pedra para pacificar minha consciência, vigiando até os pensamentos e orando continuamente onde quer que me encontrasse: pois não pensava que houvesse algum pecado em minha conduta, quando me achava entre companhias mundanas, já que não encontrava nenhuma satisfação nelas, e apenas as seguia, supunha eu, por razões suficientes.
“Mas mesmo assim, apesar de tudo o que eu fizesse ou pudesse fazer, minha consciência não cessava de rugir, noite e dia.”
Santo Agostinho e Alline imergiram ambos nas águas tranquilas da unidade e da paz interiores, e agora quero pedir aos senhores que examinem com mais atenção algumas peculiaridades do processo de unificação, quando ocorre. O processo pode vir aos poucos ou ocorrer de repente; pode vir através de uma alteração dos sentimentos ou dos poderes de ação; ou pode chegar mediante novas visões intelectuais ou experiências que mais tarde designaremos como “místicas”. Mas venha como vier, traz uma espécie característica de alívio; e nunca um alívio tão extremo como quando impresso no molde religioso. Felicidade! felicidade! a religião é apenas um dos modos com que os homens alcançam esse dom. Fácil, permanente e bem-sucedida- mente, ela amiúde transforma a angústia mais desgraçada na mais profunda e duradoura felicidade.
Mas encontrar a religião é apenas um dos muitos modos de atingir a unidade; e o processo de remediar a deficiência interna e reduzir a discórdia interior é um processo psicológico geral, que pode verificar-se com qualquer espécie de material mental, e não precisa assumir necessariamente a forma religiosa. Ao julgar os tipos religiosos de regeneração que estamos prestes a estudar, é importante reconhecer que eles são apenas uma espécie de um gênero que contém outros tipos também. Por exemplo, o novo nascimento pode ser produzido pela passagem da religião para a incredulidade; ou da escrupulosidade moral para a liberdade e para a licenciosidade; ou pode ser produzido pela irrupção na vida do indivíduo de algum novo estímulo ou paixão, como o amor, a ambição, a cupidez, a vingança ou a devoção patriótica. Em todos esses casos, temos precisamente a mesma forma psicológica de evento - a firmeza, a estabilidade e o equilíbrio que se seguem a um período de tempestade, tensão e incoerência. Nos casos não-religiosos, o homem novo pode também nascer gradativa ou subitamente.
O filósofo francês Jouffroy deixou um lembrete eloquente da sua própria “contra-conversão”, termo tão bem cunhado pelo Sr. Starbuck para indicar a transição da ortodoxia para a infidelidade. As dúvidas de Jouffroy o vinham mortificando havia muito tempo; mas ele data sua crise final de certa noite, quando a descrença se tomou fixa e estável, e o resultado imediato foi a tristeza diante das ilusões que ele perdera.
“Nunca esquecerei aquela noite de dezembro”, escreve Joffroy, “em que se rasgou o véu que escondia de mim minha própria incredulidade. Ouço de novo meus passos no estreito quarto nu onde, muito depois de haver soado a hora de dormir, eu tinha o hábito de andar de um lado para outro. Vejo de novo a lua, seminivelada pelas nuvens, que, de vez em quando, iluminava as frígidas vidraças da janela. As horas da noite fluíam e eu não lhes notava a passagem. Seguia, ansioso, meus pensamentos, à proporção que, de camada em camada, eles desciam para os alicerces da minha consciência e, dispersando, uma a uma, todas as ilusões que, até então, haviam ocultado suas voltas de minha vista, as tomavam a cada momento mais claramente visíveis.
“Debalde me agarrei às minhas últimas crenças como o marinheiro náufrago se agarra aos fragmentos da sua embarcação; debalde, assustado pelo vazio desconhecido em que estava a pique de flutuar, me virei com elas para a minha infância, minha família, minha terra, tudo o que me era caro e sagrado: a corrente inflexível do meu pensamento, forte demais, obrigou-me a deixar tudo para trás - pais, família, lembrança, crenças. A investigação prosseguiu, tanto mais obstinada e severa quanto mais se aproximava do fim, e não se interrompeu enquanto não alcançou o seu término. Conheci então que, nas profundezas da minha mente, nada ficara de pé.
“Esse momento foi pavoroso; e quando, ao romper da manhã, me atirei, exausto, sobre a cama, tive a impressão de sentir minha vida anterior, tão risonha e tão cheia, partir como um fogo, ao passo que, diante de mim, outra vida se abria, sombria e despovoada, onde, no futuro, eu teria de viver sozinho, sozinho com o meu pensamento fatal que me exilara para ali, e que eu me sentia tentado a amaldiçoar. Os dias que se seguiram a esse descobrimento foram os mais tristes de minha vida.”{93}
No Ensaio de John Foster sobre a Decisão de Caráter, vem relatado um caso de súbita conversão à avareza, tão ilustrativo que merece ser mencionado:
Parece que um moço “dilapidou, no prazo de dois ou três anos, vasto patrimônio, em pândegas crapulosas com certo número de companheiros indignos, que se diziam seus amigos, e que, quando se lhe esgotaram os últimos recursos, o trataram, é claro, com descaso e desprezo. Reduzido à miséria absoluta, ele, um dia, saiu de casa com a tenção feita de pôr fim à própria vida; mas, andando de um lado para outro quase inconscientemente, chegou ao alto de uma eminência, a cavaleiro do que antes haviam sido suas propriedades. Ali se sentou e deixou-se ficar, imerso em pensamentos, por algumas horas, ao cabo das quais levantou-se do chão com uma emoção veemente e exultante. Tomara a resolução de fazer que todas as antigas propriedades lhe voltassem às mãos; elaborara também o plano, que principiou a executar instantaneamente. Saiu à pressa dali, determinado a agarrar a primeira oportunidade, por humilde que fosse, de ganhar algum dinheiro, ainda que desprezível e insignificante, e absolutamente resolvido a não gastar, se possível, um centavo do que conseguisse obter. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi um monte de carvões jogados no chão pelos carroceiros diante de uma casa. Ofereceu- se para colocá-los, com uma pá ou um carrinho, no lugar que lhes fora reservado, e foi contratado. Recebeu algumas moedas pelo trabalho; e, logo, prosseguindo na parte econômica do plano, solicitou que lhe dessem de graça um pouco de comer e de beber, o que lhe foi concedido. Em seguida, pôs-se a procurar o que quer que o acaso lhe deparasse; e continuou, com infatigável indústria, fazendo uma série de serviços humildes em diferentes lugares, de maior ou menor duração, mas sempre com muito escrúpulo para evitar, quanto possível, o gasto de um centavo que fosse. Agarrava prontamente todas as oportunidades que se lhe ensejavam de avançar em seu propósito, sem olhar para a mesquinhez da ocupação ou da aparência. Por esse método ganhou, após um espaço considerável de tempo, dinheiro suficiente para comprar, e depois vender, algumas cabeças de gado, em cujo valor se dera ao trabalho de enfronhar-se. Rápida mais cautamente, converteu os primeiros ganhos em novos lucros; conservou, sem o menor desvio, a extrema parcimônia; e, assim, aos poucos, foi dilatando o vulto das transações e amealhou uma riqueza incipiente. Não fiquei sabendo, ou talvez me tenha esquecido, do curso continuado de sua vida; só sei que, no fim de contas, ele mais do que recuperou as propriedades perdidas e morreu, como avaro inveterado, dono de £60.000.”{94}
Permitam-me voltar agora ao tipo de caso, ou seja, ao caso religioso, que nos diz respeito mais de perto. Aqui está uma espécie simplíssima, a narrativa da conversão à religião sistemática do equilíbrio mental de um homem que já devia pertencer naturalmente ao gênero equilibrado. Mostra que, quando o fruto está maduro, basta um toque para fazê-lo cair.
Em seu livrinho intitulado Menticulture, o Sr. Horace Fletcher conta que um amigo com quem estivera conversando sobre o autodomínio alcançado pelos japoneses, através da prática da disciplina budista, disse:
“ ‘Você precisa, primeiro, livrar-se da raiva e das preocupações.’ ‘Mas’, tomei eu, ‘isso é possível?’ ‘Sim’, replicou ele; ‘e se é possível para os japoneses, deve ser possível para nós também.’
“Ao voltar para casa, não pude pensar em outra coisa que não fossem as palavras ‘livrar-se, livrar-se’; e a idéia deve ter continuado a possuir-me durante as minhas horas de sono, pois a primeira consciência na manhã seguinte trouxe de volta o mesmo pensamento, com a revelação de uma descoberta, que se encaixou no seguinte raciocínio: ‘Se é possível à gente livrar-se da raiva e das preocupações, por que será necessário, em primeiro lugar, experimentá-la?’ Senti a força do argumento e aceitei, de pronto, o raciocínio. O nenê descobrira que podia andar. Doravante, desdenharia engatinhar.
“Desde o instante em que compreendi que esses focos cancerosos das preocupações e da raiva eram removíveis, eles me deixaram. Com o descobrimento da sua fraqueza, foram exorcizados. A partir desse momento, a vida, para mim, assumiu um aspecto inteiramente diverso.
“Conquanto, desde então, a possibilidade e a desejabilidade de libertação das paixões deprimentes tenham sido uma realidade para mim, levei alguns meses até me sentir absolutamente seguro em minha nova posição; mas como as ocasiões habituais de preocupações e de raiva se tenham apresentado repetidas vezes e eu tenha sido incapaz de senti-las no mais leve grau, já não as temo nem me guardo delas, e estou assombrado com o aumento da minha energia e vigor mental; com a minha força para enfrentar situações de todos os gêneros, e com a minha disposição para amar e apreciar tudo.
“Tendo tido ocasião de viajar mais do que dezesseis mil quilômetros de trem desde aquela manhã, voltei a encontrar-me com o guarda, do Pullman, o condutor, o garçom do hotel, o vendedor ambulante, o vendedor de livros, o chofer, e outros que sempre tinham sido para mim fonte de aborrecimentos e irritação, embora eu não tivesse consciência de uma única incivilidade sequer da parte deles. De repente, o mundo inteiro passou a tratar-me com bondade. Tornei-me, por assim dizer, sensível apenas aos raios do bem.
“Eu poderia referir muitas experiências que provam uma condição mental nova em folha, mas uma bastará. Sem o mais leve sentimento de contrariedade ou impaciência, vi um trem que eu planejara tomar com boa dose de interesse e prazer antecipados, sair da estação sem mim, porque minha bagagem não chegara. O porteiro do hotel entrou correndo e esbaforido na estação no exato momento em que o trem se perdia de vista. Quando me viu, deu-me a impressão de que estava com medo de levar uma descompostura, e começou a explicar que se vira bloqueado na rua apinhada de gente e incapaz de sair de lá. Quando ele terminou,. eu disse-lhe: ‘Isso não tem a menor importância, a culpa não foi sua, tentaremos outra vez amanhã. Aqui está a sua gorjeta e só lamento que você tenha tido todo esse trabalho para ganhá-la.’ O olhar de surpresa que lhe tomou conta do rosto estava tão cheio de prazer que me senti repago, na mesma hora, do atraso em minha partida. No dia seguinte ele não quis aceitar um centavo sequer pelo serviço, e ele e eu somos agora amigos para sempre.
“Durante as primeiras semanas de minha experiência pus-me em guarda apenas contras as preocupações e a raiva; nesse meio tempo porém, tendo notado a ausência das outras paixões deprimentes e desmedrantes, comecei a traçar uma relação entre elas, e cheguei à conclusão de que são todas formações mórbidas das duas raízes que especifiquei. Venho sentindo a libertação há tanto tempo que tenho certeza, agora, da minha relação com ela; e eu não poderia alimentar nenhuma dessas influências nocivas e deprimentes, que acalentava outrora como herança da humanidade, tanto quanto um salta-pocinhas não se espojaria voluntariamente numa sarjeta imunda.
“Não há dúvida em minha mente de que o Cristianismo puro e o Budismo puro e as Ciências Mentais e todas as Religiões ensinam, fundamentalmente, o que tem sido um descobrimento para mim; mas nenhum deles o apresentou à luz de um simples e fácil processo de eliminação. Tempo houve em que entrei a imaginar se a eliminação não capitularia diante da indiferença e da preguiça. Em minha experiência, o resultado é o contrário. Sinto um desejo tão aumentado de fazer alguma coisa útil que é como se eu fosse menino outra vez e me tivesse voltado a energia para brincar. Eu poderia lutar tão prestesmente. como antes (e melhor do que antes), se houvesse necessidade de fazê-lo. Isso não me faz covarde. Não pode fazê-lo, eis que O medo é uma das coisas eliminadas. Noto a ausência de timidez em presença de qualquer público. Quando menino, eu me achava debaixo de uma árvore, que foi golpeada por um raio, e recebi um choque de cujos efeitos só me livrei após dissolver a sociedade com as preocupações. Depois disso, relâmpagos e trovões têm sido arrostados em condições que, antigamente, me teriam causado grande depressão e desconforto, sem experimentar um traço sequer de qualquer um deles. A surpresa também foi muito modificada, e fiquei menos sujeito a assustar-me com cenas ou ruídos inesperados.
“No que me diz respeito individualmente, não estou preocupado agora com os possíveis resultados dessa condição emancipada. Não tenho dúvida de que a saúde perfeita almejada pela Ciência Cristã talvez seja uma das possibilidades, pois noto acentuada melhoria no modo com que meu estômago cumpre sua obrigação, assimilando o alimento que lhe forneço, e estou certo de que ele trabalha melhor ao som de uma música do que sob o atrito de uma carantonha. Tampouco estou gastando o meu precioso tempo formulando a idéia de uma existência futura ou de um futuro Céu. O Céu que tenho dentro de mim é tão atraente quanto qualquer outro que me haja sido prometido ou que eu possa imaginar; e estou disposto a deixar o novo sentimento crescer como quiser, contanto que a raiva e seus filhotes não se metam a desviá-lo do bom caminho.”{95}
A medicina mais antiga costumava falar em dois modos, lysis e crisis, um gradativo, outro abrupto, com que alguém podia recuperar-se de uma enfermidade do corpo. No reino espiritual também há dois modos, um gradativo, outro súbito, com que pode ocorrer a unificação interior. Tolstoi e Bunyan novamente nos servem de exemplos, exemplos, por sinal, do modo gradativo, se bem seja mister confessar de início que é difícil seguir as voltas dos corações dos outros, e sentimos que as suas palavras não lhes revelam todo o segredo.
Seja como for, prosseguindo em sua intérmina indagação, Tolstoi parecia chegar a uma visão intuitiva depois da outra. Primeiro percebeu que a sua convicção de que a vida não tinha sentido só levava em consideração a vida finita. Ele estava procurando o valor de um termo finito no de outro, e o resultado total só poderia ser uma daquelas equações indeterminadas em matemática que terminam com 0 = 0. Entretanto, isto é o mais longe a que pode chegar sozinho o intelecto raciocinante, a menos que o sentimento ou a fé irracionais tragam o infinito para o campo. Acreditem no infinito como o faz o povo comum e a vida se toma possível outra vez.
“Visto que o gênero humano existe, onde quer que a vida tenha existido, sempre existiu também a fé que deu origem à possibilidade de viver. A fé é o sentido da vida, o sentido em virtude do qual o homem não se destrói, mas continua a viver. É a força pela qual vivemos. Se o Homem não acreditasse que precisa viver por alguma coisa, não viveria de maneira alguma. A idéia de um Deus infinito, da divindade da alma, da união das ações dos homens com Deus - são idéias elaboradas nas infinitas profundezas secretas do pensamento humano. São idéias sem as quais não haveria vida, sem as quais eu mesmo”, disse Tolstoi, “não existiria. Comecei a ver que eu não tinha o direito de me fiar do meu raciocínio individual e fazer pouco das respostas dadas pela fé, pois elas são as únicas respostas à pergunta.”
Entretanto, de que modo acreditar como o povo comum acredita, se ele está afundado na mais grosseira superstição? É impossível - mas, no entanto, é a vida deles! a vida deles! Normal. Feliz! É uma resposta à pergunta!
Pouco a pouco, Tolstoi chega à convicção firmada - ele diz que levou dois anos para chegar lá — de que o seu problema não dizia respeito à vida em geral, nem à vida comum dos homens comuns, senão à vida das classes superiores, intelectuais, artísticas, a vida que ele pessoalmente sempre levara, a vida cerebral, a vida do convencionalismo, da artificialidade e da ambição pessoal. Ele andara vivendo no erro e precisava mudar. Trabalhar para satisfazer às necessidades animais, abjurar mentiras e vaidades, acudir a necessidades comuns, ser simples, acreditar em Deus, nisso reside a felicidade.
“Lembro-me”, diz ele, “de um dia, no princípio da primavera, em que eu estava sozinho na floresta, prestando atenção aos seus ruídos misteriosos. Fiquei ouvindo, e meu pensamento voltou àquilo de que eu sempre me ocupara nos últimos três anos - a busca de Deus. Mas, disse eu comigo, como foi que cheguei à idéia dele?
“E novamente surgiram em mim, com esse pensamento, alegres aspirações à vida. Tudo despertou em meu íntimo e recebeu um significado …. Por que olhar para mais longe? perguntou-me uma voz interior. Ele está aqui: ele, sem o qual não se pode viver. O mesmo é reconhecer à Deus e viver. Deus é a vida. Pois, então, muito bem! vive, busca a Deus, e não haverá vida sem ele ….
“Depois disso, as coisas se aclararam melhor do que nunca dentro e ao redor de mim, e a luz nunca mais se apagou de todo. Eu me salvara do suicídio. Não posso dizer com exatidão como nem quando se operou a mudança. Mas quão insensível e gradativamente a força da vida fora anulada dentro de mim, e eu atingira o meu leito de morte moral, tão gradativa e imperceptivelmente voltou a energia da vida. E o mais estranho é que a energia que voltou nada tinha de novo. Era minha antiga força de fé juvenil, a crença em que o único propósito de minha vida era ser melhor. Desisti da vida do mundo convencional, reconhecendo que aquilo não era vida, senão paródia de vida, que as suas superfluidades simplesmente nos impediam de compreender” - e Tolstoi, em consequência disso, abraçou a vida dos camponeses, e desde então se sentiu honesto e feliz, pelo menos relativamente.{96}
Tal como a interpreto, sua melancolia, portanto, não era apenas uma viciação acidental dos seus humores, se bem fosse, sem dúvida, isso também. Foi logicamente suscitada pelo choque entre o caráter interno e as atividades e metas externas. Conquanto fosse um artista literário, Tolstoi era um daqueles carvalhos humanos primitivos para os quais as superfluidades e insinceridades, a cupidez, complicações e crueldades da nossa civilização polida são profundamente insatisfatórias, e para os quais as eternas veracidades da vida estão nas coisas mais naturais e animais. Sua crise foi a arrumação da sua alma, o descobrimento de seu habitat e vocação genuínos, a fuga das falsidades na direção do que, para ele, representava os caminhos da verdade. Era um caso de personalidade heterogênea que encontrou, tardia e lentamente, sua unidade e seu nível. E, posto que poucos dentre nós possamos imitar Tolstoi, por não termos, talvez, em quantidade bastante o tutano humano aborígene em nossos ossos, quase todos, pelo menos, achamos que melhor seria se, de fato, pudéssemos imitá-lo.
A recuperação de Bunyan parece ter sido mais lenta ainda. Por anos a fio ele foi alternadamente obsidiado por textos da Escritura, que ora o levantavam, ora o deprimiam, mas que, afinal, lhe realçaram o sentido crescente da sua salvação pelo sangue de Cristo.
“A paz me procurava e me deixava vinte vezes por dia; conforto agora e desconforto logo depois; agora em paz, mas, antes que pudesse percorrer meia milha, cheio de toda a culpa e todo o medo que o meu coração podia carregar.” Quando se lembra de um bom texto, “Este”, escreve, “me proporcionou refrigério pelo espaço de duas ou três horas”; ou “Este foi um bom dia para mim, espero não o esquecer”; ou “A glória dessas palavras
revelou-se, naquele momento, tão pesada sobre mim que, quando me sentei, estava prestes a desmaiar; mas não de mortificação e pesar, senão de sólida alegria e paz”; ou “Isso produziu grande impressão em meu espírito; trouxe luz e silenciou em meu coração todos os pensamentos tumultuosos que antes costumavam, quais sabujos sem dono do inferno, rugir, bramir e fazer um estardalhaço medonho dentro de mim. Isso me mostrou que Jesus Cristo não desamparara minha Alma nem a lançara de si.”
Tais períodos foram-se acumulando até que ele pôde escrever: “E agora sobrava apenas a parte atrasada da tempestade, pois os raios e trovões já me haviam ultrapassado e apenas algumas gotas, de longe em longe, caíam sobre mim”; e, por fim: “Agora as correntes se desprenderam das minhas pernas; libertei-me das aflições e dos ferros; minhas tentações também fugiram; de sorte que, a partir desse momento, as pavorosas Escrituras de Deus cessaram de perturbar-me; também voltei para casa, jubiloso, pela graça e amor de Deus. … Eu podia verme no Céu e na Terra ao mesmo tempo; no Céu, pelo meu Cristo, por minha Cabeça, pela minha Retidão e Vida e, na Terra, pelo meu corpo ou pessoa …. Cristo foi um Cristo precioso para a minha alma naquela noite; eu mal podia ficar deitado na cama de tanta alegria, paz e triunfo através de Cristo.”
Bunyan tomou-se ministro do evangelho e, à despeito da sua constituição neurótica e dos doze anos em que ficou na cadeia por não-conformismo, sua vida passou a ser ativa e útil. Era um pacificador e um benfeitor, e a Alegoria imortal que escreveu reconduziu aos corações ingleses o próprio espírito da paciência religiosa.
Mas nem Bunyan nem Tolstoi poderiam transformar-se no que nós denominamos equilibrados mentais. Haviam bebido tão profundamente na taça da amargura que nunca poderiam esquecer-lhe o sabor, e a sua redenção está num universo de dois andares. Cada qual concebeu um bem que embotou o fio eficaz da sua tristeza; sem embargo disso, preservou-se a tristeza como ingrediente menor no coração da fé pela qual ela foi vencida. O que nos interessa é que, na realidade, eles puderam encontrar, e encontraram, alguma coisa brotando nos recessos mais íntimos da consciência, por cujo intermédio uma tristeza tão grande poderia ser vencida. Tolstoi refere-se a isso chamando-lhe aquilo de que os homens vivem, pois é exatamente o que é, um estímulo, uma excitação, uma fé, uma força que reinfunde a vontade positiva de viver, até em presença das más percepções que, pouco antes, lhe davam à um semblante insuportável. Pois as percepções do mal de Tolstoi parecem, dentro da sua esfera, ter permanecido inalteradas. Suas obras subsequentes mostram-no implacável com todo o sistema de valores oficiais: o ignóbil da vida segundo os ditames da moda; o infame do império; o espúrio da igreja, o vão presunçoso das profissões chamadas liberais; as mesquinharias e crueldades que acompanham o grande triunfo; e todos os mais crimes pomposos e instituições mentirosas deste mundo. Em relação à paciência com essas coisas, sua experiência foi para ele um permanente ministério de morte. Bunyan também deixa este mundo ao inimigo.
“Preciso primeiro pronunciar uma sentença de morte”, diz ele, “contra tudo o que pode apropriadamente chamar-se uma coisa desta vida, até para considerar-me a mim, a minha esposa, a meus filhos, a minha saúde, aos meus divertimentos, e a todos, mortos para mim, e eu mesmo morto para eles; confiar em Deus através do Cristo, no que tange ao mundo por vir; e, no que toca, ao mundo, considerar o túmulo minha casa, fazer minha cama na treva e dizer à corrupção, Tu és meu pai, e ao Verme, Tu és minha mãe e minha irmã. … Quando eu me despedia de minha esposa e dos meus pobres filhos tinha a impressão, frequentemente, de estar arrancando a carne dos meus ossos, sobretudo quando se tratava do meu pobre filho cego, que está mais perto do meu coração do que qualquer outra coisa na terra. Pobre criança, pensei, quanta tristeza estará à tua espera como teu quinhão neste mundo! Serás açoitado, pedirás esmola, sofrerás fome, frio, nudez e mil calamidades, ainda que, agora, eu não suporte sequer que o vento sopre sobre ti. Apesar de tudo isso, preciso entregar-vos todos a Deus, embora me doa profundamente deixar-vos.”{97}
O “sinal da resolução” aí está, mas a maré plena da libertação extática parece que nunca se derramou sobre a alma do pobre John Bunyan.
Esses exemplos talvez bastem para familiarizar-nos, de um modo geral, com o fenômeno tecnicamente chamado de “Conversão”. Na próxima conferência convidá-los-ei a estudar-lhe as peculiaridades e concomitâncias mais circunstanciadamente.