9. O Conservador e o Poder
9. O Conservador e o Poder
Observação de Lord Acton, que disse: “o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe de forma absoluta”. No entanto, as barreiras contra a concentração de poder — poder político e poder econômico — são cada vez mais reduzidas em nosso tempo, em quase todo o mundo, com pouco protesto efetivo.
O conservador, que tem a intenção de preservar a ordem, a justiça e a liberdade, faz o que pode para lembrar o mundo moderno da verdade quanto à afirmação de Acton, e manter as restrições sobre o poder arbitrário que distinguem a sociedade livre da sociedade servil.
O poder deve ser restringido, limitado, refreado, contido em equilíbrio. Em essência, a Constituição Federal é o instrumento para restringir e equilibrar o poder político: os poderes dos governos federais e estatais, os poderes da autoridade política e dos cidadãos, os poderes do executivo, legislativo e judiciário.
Politicamente falando, o poder é a habilidade de fazer aquilo que deseja, independentemente da vontade das pessoas ao seu redor e do seu próximo.
É déspota o Estado no qual o indivíduo ou um pequeno grupo é capaz de dominar sem freios as vontades de seus companheiros, não importando se é chamado de “monárquico”, “aristocrático” ou “democrático”.
A sociedade entra em anarquia quando cada indivíduo reivindica ser o poder para si mesmo.
A anarquia nunca dura muito, sendo intolerável a todos e contrária ao fato inescapável de que alguns são mais fortes e mais sagazes do que outros.
Na anarquia, a tirania e a oligarquia, nas quais o poder é monopolizado por alguns, sempre desfrutam sucesso.
O conservador procura limitar e equilibrar o poder político para que a anarquia e a tirania não consigam se erguer.
Homens e mulheres, porém, em todas as eras, são tentados a desconsiderar as limitações sobre o poder em favor de alguma fictícia vantagem temporária.
É característico do radical pensar sobre o poder como uma força para o bem, mas só enquanto estiver em suas mãos.
Em nome da liberdade, os revolucionários franceses e russos aboliram as antigas restrições sobre o poder. Este, contudo, jamais pode ser abolido, pois sempre se encontra sob o controle de alguém — na França, no final do século XVIII, e na Rússia, no começo do século XX, o poder que os revolucionários consideravam opressivo nas mãos do antigo regime tornou-se por vezes igualmente tirânico nas mãos dos novos mestres radicais, que aboliram restrições ao poder que as monarquias francesa e russa jamais haviam ousado alterar.
Em certo grau, quase todos desejam poder; e para alguns, o desejo por poder é luxúria e presunção. Nenhuma paixão é mais poderosa do que essa.
O marxismo erra ao exagerar a importância da motivação econômica na sociedade. De fato, a maioria dos homens e das mulheres deseja posses materiais, porém muitos são mais afeiçoados pelo poder do que pelas riquezas.
A riqueza se mantém no centro das aquisições humanas porque geralmente significa poder.
O conservador, olhando para a natureza humana como um misto de bem e mal, por vezes alguém capaz de elevada nobreza, mas sempre de alguma forma defeituosa, sabe que a sede de poder entre nós jamais será saciada.
Independentemente da prosperidade ou da igualdade e desigualdade entre homens e mulheres, todos sempre buscarão o poder. Ao aceitar esse triste fato, o conservador procura limitar o apetite por poder por meio da instrução ética e de boas leis.
Se a propriedade privada fosse simplesmente abolida, insistem alguns reformadores radicais, então a humanidade seria feliz: porque a propriedade, argumentam eles, é a raiz de todos os males.
Se o privilégio social fosse simplesmente abolido, afirmam outros reformadores radicais, então a humanidade seria emancipada da inveja e da ambição injusta; porque o privilégio, eles pensam, é a fonte da desumanidade para com o próximo.
Essas eram as noções que tendiam a dominar a era progressista do século passado, e que ainda permanecem influentes, embora falaciosas.
O inescrupuloso busca a propriedade não tanto por sua essência, mas por causa do poder que normalmente a propriedade confere.
O inescrupuloso busca o privilégio muito mais por causa do poder do que por mera ostentação. Se elementos já característicos da civilização ocidental como a propriedade privada, o privilégio particular e todas as velhas motivações para a integridade e incentivos à diligência fossem abolidos amanhã, o feroz atrito entre o homem e o seu próximo ainda persistiria.
Na verdade, essa mesma abolição provavelmente causaria ainda mais fúria, pois é quando tão só o poder permanece como prêmio à ambição que então será desejado com maior ardor e buscado com profunda crueldade. E, repito, ninguém jamais conseguirá abolir o poder.
Assim como a energia, o poder não se dissipa, mas meramente muda de forma.
No terrível romance 1984, George Orwell descreve uma sociedade não mais distante que uma geração de nossa era, na qual a única gratificação restante para as naturezas mais fortes e mais talentosas é a posse do poder.
A religião se foi;
o privilégio, no sentido antigo, se foi;
a propriedade privada se foi;
o aprendizado liberal se foi;
a vida familiar se foi;
a arte se foi;
a filosofia se foi;
o contentamento simples se foi.
E, ainda assim, permanece a feroz motivação para o sucesso, isto é, a fome de poder.
Naquela sociedade, ainda há uma sensação de prazer: a sensação de pisar para sempre no ser humano. E os mestres daquela sociedade apreciam tanto essa sensação que a consideram uma compensação mais do que suficiente para tudo o que foi perdido.
Este é o triunfo do impulso diabólico, a ascendência do Orgulho, a indulgência da vontade de dominar o próximo que o ensino cristão sempre procurou subjugar. Mas o quadro apresentado por Orwell não é mera fantasia.
Temos visto nos últimos quarenta anos a realização desse regime horrível em grande parte do mundo.
Um membro socialista do Parlamento, que voltou de uma visita à nação da Polônia, declarou recentemente que havia presenciado na Polônia Soviética o cumprimento literal da fantasia de Orwell.
Todas as antigas restrições de poder foram abolidas, bem como todas as velhas motivações para a integridade.
O resultado foi uma sociedade à parte em que o governo mais déspota do século XVIII era superficialmente liberal.
Todos os lemas humanitários dos comunistas não tiveram peso quando colocados na balança contra o poder puro.
Entre um povo que, como os americanos, estava acostumado há muito tempo com restrições e equilíbrios praticamente inconscientes — a ponto de quase esquecerem que controles e restrições do tipo existem — há uma tendência perigosa de negligenciar o grave problema do poder.
Boa vontade, reformas econômicas e lemas liberais podem remediar todas as doenças herdadas pela carne, argumenta o doutrinador progressista; e muitos americanos, protegidos pelos costumes nacionais e por constituições sólidas contra os riscos mais extremos da busca por poder, aceitam esses argumentos sem muitos questionamentos.
Dessa maneira, por exemplo, nossa política internacional tende a se degenerar em mera generosidade econômica — apropriação após apropriação em favor da assistência material para “países subdesenvolvidos”, ou recursos repletos de boas intenções, acompanhados de assistência técnica, voltados aos líderes da Ásia e da África, na crença de que se batalharem para subir ao padrão de vida americano, a desordem interna e a hostilidade internacional abrirão caminho para uma sociedade de bem.
Apesar disso, há casos em que a assistência material direcionada a outras nações pode trazer benefícios consideráveis. Mas presumir que a mera reforma econômica por si só é capaz de levar paz às nações significa ignorar todo o velho problema relacionado ao poder. E esse problema, mais cedo ou mais tarde, se recusará a ser ignorado.
Isso acontece porque o ganho econômico não é o maior desejo da maioria dos estadistas ou da maioria das nações. Prestígio, glória e especialmente o poder são motivos mais fortes.
Em nações razoavelmente prósperas, sacrificar um pouco de prosperidade em favor de grande poder parece frequentemente valer a pena: dessa forma, Hitler com sucesso persuadiu os alemães a substituir a manteiga por armas.
Entre as nações profundamente afundadas na pobreza, a possibilidade de verdadeira e duradoura melhoria na condição material é tão remota que estas quase sempre abandonam prontamente essa dolorosa batalha em favor da emocionante busca por poder.
Nesse aspecto os soviéticos se mostram mais espertos do que nós. Porque, embora os comunistas professem o “materialismo dialético” e o engrandecimento material das massas, na realidade os mestres da Rússia Soviética sempre fazem um jogo cruel de poder, cujo desejo é a dominação, e não a prosperidade universal. Eles sabem como aproveitar o antigo apetite pelo domínio das populações.
Prometemos dez vezes mais assistência econômica aos “países subdesenvolvidos” do que os russos; entregamos cem vezes mais do que prometemos; e ainda não temos sucesso em nossa competição contra a trama comunista na Ásia e na África.
Isso porque os russos têm jogado o jogo do poder, enquanto temos inocentemente praticado o materialismo que os russos pregam. E uma vez que os vigorosos anseiam mais por poder do que por riquezas, os soviéticos têm evocado intensas reações na natureza humana que nós, americanos, por vezes ignoramos.
Agora, o conservador reflexivo não recomenda que modelemos nossa conduta de acordo com as tramas soviéticas, ainda que bem-sucedidas.
O conservador não acredita que o incentivo inescrupuloso da fome por poder seja uma tática legítima de interesse nacional, mas percebe que não podemos nos dar ao luxo de ignorar as antigas inclinações do coração humano, não obstante na política internacional ou na política nacional.
Homens e mulheres desejam prestígio, glória, poder: muito bem, aceite o fato e tente direcionar esse anseio para formas de justiça, de ordem e de liberdade.
O poder, se corretamente nutrido, limitado e canalizado, é o meio pelo qual se pode alcançar todas as melhorias necessárias.
Em si mesmo, o poder não é moral ou imoral: tudo depende dos motivos pelos quais o poder é empregado e das instituições que fiscalizam seu abuso.
Tratar outras nações como se o único desejo delas fosse material é insultá-las profundamente; e ainda que aceitem nossa ajuda sob tais circunstâncias, estas se ofenderão com nossa presunção, ou se valerão de nossa assistência para jogar seu próprio jogo de poder. Contudo, quando corretamente refreado e equilibrado, o poder é respeitado e admirado; o exercício do poder irrestrito e sem escrúpulos é temido e invejado; mas o poder negligenciado é desprezado. Essas considerações, acredita o conservador, deveriam influenciar nossa política externa.
E nossa política doméstica também deveria ser governada por um verdadeiro entendimento da natureza do poder.
Homens e mulheres não são naturalmente bons. Pelo contrário, o bem e o mal estão interligados por natureza; e quando o bem predomina, normalmente predomina pela virtude da imitação, do hábito e da obediência a leis justas.
Se extintos os costumes, as decências e as leis de antigamente — independentemente de quão generosa e humanitária for a justificativa —, a frágil vantagem do bem sobre o mal pode ser contornada e o antigo desejo por poder solto para então colocar em prática sua antiga corrupção.
As restrições constitucionais, os direitos dos estados, o governo independente e local, os limites impostos sobre a autoridade executiva, a interpretação rígida das leis: todos esses instrumentos que servem para limitar e equilibrar o poder por vezes parecem antiquados e perturbadores, particularmente em uma era de rápida expansão econômica.
O impulso do doutrinador progressista é varrer essas barreiras para então praticar sua reforma.
A natureza humana, no entanto, também é antiquada e perturbadora; e quando os usos e costumes das providências constitucionais que controlaram a ordem, a justiça e a liberdade entre nós nesses três séculos são desconsiderados, surge todo tipo de problema e discórdia, raramente antecipado pelo doutrinador progressista.
O problema de fixar a responsabilidade na união gigante;
o problema de fixar a responsabilidade na corporação gigante;
a dificuldade de reconciliar o planejamento em uma grande escala com a falibilidade de qualquer intelecto humano —
Esses e muitos outros dilemas estão bastante relacionados ao apetite humano por poder e ao princípio conservador de que é melhor não fazer algo do que por meios que possam colocar em perigo toda a complexa ordem social e civil.
A ordem, a justiça e a liberdade não são produtos da natureza; pelo contrário, são artifícios humanos elaborados e desenvolvidos lenta e dolorosamente a partir da experiência de muitas gerações.
A ordem, a justiça e a liberdade não toleram que o poder se liberte de suas antigas algemas.
Seria difícil ter uma energia tão forte que fosse capaz de transformar o mundo em algo novo, e não a usar; mas ainda mais difícil é restaurar o equilíbrio de influências a que damos o nome de sociedade livre.