3. O Conservador e a Consciência
3. O Conservador e a Consciência
O conservador é um egoísta endurecido?
Ele acredita no “individualismo frio” e na exclusão dos deveres tradicionais para com Deus e com o homem?
Resumindo, o conservador é dotado de consciência?
"A simples inteligência não está associada à moralidade. Que relação há entre o mecanismo de um relógio de parede ou de pulso e o sentimento de bem ou mal moral, entre o certo e o errado? A faculdade ou qualidade de distinguir entre o bem e o mal moral, assim como entre a felicidade e a miséria física, isto é, o prazer e a dor, ou, em outras palavras, uma consciência — palavra antiga, quase fora de moda — é essencial à moralidade". JOHN ADAMS
“Consciência”, na definição do dicionário, é “o reconhecimento inato de certo e errado perante ações e motivações; a faculdade que decide sobre a qualidade moral das ações e dos motivos do ser humano, exigindo que a pessoa se conforme à lei moral”.
A consciência é de domínio particular: não existe “consciência pública” ou um “Estado de consciência”.
A consciência tem dois aspectos: um que governa a relação entre Deus e o indivíduo, e o outro que governa a relação entre o indivíduo e o próximo, homens e mulheres.
A persuasão política não pode por si mesma produzir a virtude privada, e todos nós somos pecadores em algum grau, seja qual for o nosso partido.
Dito isso, a teoria do conservador pensante e sua prática comum remam a favor da consciência privada, retendo diante de Deus e da humanidade os direitos e os deveres que a consciência diligente exige em qualquer sociedade de qualquer época. Pelo contrário, é o radical doutrinador dos tempos modernos que nega a fonte divina da consciência, o senso de responsabilidade pessoal e o dever tradicional que dá significado à consciência.
A sociedade será boa, acredita o conservador, quando tiver homens e mulheres governados pela consciência, por um forte senso moral de certo e errado, pelas convicções inatas de honra e justiça, seja qual for seu maquinário político; mas será uma sociedade ruim se tiver homens e mulheres que permanecem no abandono da moralidade, ignorantes da consciência, buscando apenas a gratificação da luxúria, independentemente de quantas pessoas votem ou quão “liberal” seja sua constituição formal.
A justiça e a generosidade de uma nação não são melhores nem piores do que as convicções particulares que prevalecem em seus cidadãos.
Visto que o radical moderno tem desconsiderado a responsabilidade particular na vida moral, política e econômica, assim também ele deprecia a ideia de consciência particular. Ao mesmo tempo, também sabe que ainda há poder na palavra “consciência”, e que não pode fugir do fato de que a sociedade se deteriora quando não reconhece padrões permanentes de certo e errado.
Assim, tentando distorcer o termo “consciência” a fim de encaixá-lo em sua ideologia, o radical frequentemente fala sobre “consciência social”, embora raramente defina essa expressão. Seu significado é exposto somente pelo contexto usado pelo próprio fanático.
Por “consciência social” o radical deixa implícita a crença de que o indivíduo deve se sentir culpado por ser de alguma forma superior — e mais, que de alguma forma uma justiça abstrata dita à humanidade o direito e o dever de manter todos num só patamar imóvel de igualdade.
A consciência sempre governou a caridade. Receio, então, que, falando de “consciência social”, a maioria dos radicais queira simplesmente derrubar estabelecimentos políticos, destruir a propriedade privada e minar as capacidades privadas superiores.
O conservador nunca ergue um muro entre a consciência individual e a sociedade. À parte das obrigações diante de Deus e do próprio eu que a consciência dita, a verdadeira função da consciência é ensinar-nos a lidar justamente com o nosso próximo, sejam homens, sejam mulheres.
Ora, a sociedade consiste justamente em homens e mulheres considerados coletivamente. Não pode haver uma espécie de consciência para lidar com todos aqueles que conhecemos, homens e mulheres como pessoas, e uma segunda espécie para lidar com a “sociedade” abstrata, como se de alguma forma esta não fosse composta por seres humanos individuais.
A consciência é simplesmente consciência. Ela não é “social” ou “antissocial”. Ela é o senso de certo e de justiça que ensina o ser humano como pessoa moral a conviver com outras pessoas morais.
O conservador, portanto, não é “antissocial” ou “sem consciência”.
O conservador consciente acredita que a consciência permanece saudável enquanto lida com os seres humanos em sua pessoalidade, e deixa de ser saudável quando se torna abstrata, sentimental, genérica, institucionalizada, ditada pela impessoal autoridade política.
Muitos daqueles que “abraçam o universo” e falam vagamente sobre “consciência social” são os menos confiáveis para serem guardiões do certo e do errado quando se deparam com deveres pessoais e com a responsabilidade diante do próximo.
O conservadorismo tem sido chamado de “lealdade ao povo”, em oposição a um apego ideológico abstrato a estabelecimentos impessoais de dogmas teóricos. Dessa forma, o conservador é consciente porque respeita a pessoa verdadeiramente humana, o indivíduo moral.
O conservador é caridoso precisamente porque sabe que a caridade começa em casa; ele é justo precisamente porque olha para homens e mulheres como seus irmãos e irmãs, sob o mandamento divino de amor, e não como unidades em uma economia planejada eficiente.
A boa e velha consciência sempre impeliu homens e mulheres a serem caridosos (“caridade”, se entendida literalmente, significa “ternura”, e não simplesmente “alívio”).
A caridade sempre ensinou o forte, o sábio, o trabalhador, o prudente, o afortunado, o rápido, o belo, o herdeiro de riquezas a socorrer com a caridade de seu coração e com o máximo de suas habilidades nossos companheiros, homens e mulheres fracos, desafortunados, doentes, idosos, perplexos. Nesse sentido, a consciência sempre foi “social”.
O conservador não precisa de nenhuma nova dispensação para reaprender esses deveres de caridade, mas está convencido de que o caminho para a boa consciência é trilhado pela caridade pessoal, por relacionamentos pessoais e deveres privados — e não pelo aparelhamento mecânico e impessoal de algum grandioso plano de Estado.
O conservador deseja manter a consciência, assim como a caridade, perto do lar. Ora, uma vez que a consciência deixa de ser pessoal, deixa de ser consciência, sendo transformada em nada mais que egoísmo iluminado ou lei positiva.
O conservador reconhece que, em alguns tópicos e casos de emergência, a consciência particular deve trabalhar coletivamente mediante agências públicas. Ao entender a natureza da consciência, contudo, ele tenta manter, o máximo que pode, a operação da consciência como um assunto pessoal e privado.
Quando se engaja na caridade, por exemplo, o conservador procura primeiramente fazer tudo o que pode no âmbito pessoal e privado.
Quando essa postura se mostra insuficiente — quando o ato de ajudar a si mesmo e a cooperação familiar não são suficientes —, ele então se volta para as agências voluntárias privadas. Quando essas, por sua vez, também parecem ser insuficientes, ele então recorre à ação municipal, local e estatal.
Se todos esses recursos de alguma maneira fracassarem, daí ele se volta às resoluções de esfera nacional.
O conservador, contudo, está inclinado a acreditar que os problemas comuns da sociedade, exceto em situações de grande emergência, podem ser solucionados de maneira satisfatória e bastante humana, com base no alicerce pessoal, local e voluntário de uma consciência simples, e com fundamentos no senso de dever que bons homens e boas mulheres têm pelo próximo.
Agora, se essa consciência privada saudável cair na apatia ou no vício, não fará sentido falar sobre “consciência social”: não pode haver uma nação em que a moralidade particular seja má e a moralidade pública, boa.