11. O Conservador: Permanência e Mudança
11. O Conservador: Permanência e Mudança
A definição mais viva para conservador é a de Ambrose Bierce, encontrada em sua obra Dicionário do Diabo: “Conservador: substantivo. Estadista enamorado com males existentes, distinto do progressista, que deseja substituí-lo por outros do seu próprio pensamento”.
O conservador verdadeiramente representa o sentimento de simpatia pelo passado, forças de permanência na sociedade; o progressista representa o sentimento de glória no futuro, forças de mudança na sociedade.
Uma vez que é o progressista que deseja a mudança radical da ordem existente, naturalmente é mais ativo do que o conservador. Naturalmente é o progressista que escreve panfletos polêmicos e organiza movimentos de massas; o conservador, ao menos quando motivado por medo de mudanças radicais ou alarmado pela decadência de sua sociedade, tende a confiar nas forças poderosas e estáveis do costume e do hábito.
Lord Silverbridge, no romance de Trollope, The Duke’s Children, diz a seu pai, o Duque de Omnium, a título de desculpa por ter aderido ao Partido Conservador: “Se comparado a outros homens, sei que sou um tolo. Talvez seja por saber disso que sou conservador. Os radicais sempre dizem que para ser conservador a pessoa precisa ser tola. Então o tolo deve ser conservador”.
Porém, quando o conservador inteligente é levado a sério em seus pensamentos e ações, com frequência consegue se mover com poder surpreendente contra seus adversários radicais e progressistas.
Cícero durante a dissolução da República Romana, Falkland nas Guerras Civis Inglesas, Burke na era da Revolução Francesa e John Adams nos primeiros anos de nossa República são exemplos deste poder. E hoje atuam com esse mesmo propósito os conservadores americanos que acordaram para a terrível ameaça do Estado totalitário.
O conservador acredita que a vida, apesar de todas as suas aflições, é boa; e acredita que a sociedade americana, apesar de todos os seus defeitos, é sólida em seu âmago. Portanto, ao desfrutar a vida e nossas antigas instituições, o conservador não partilha do frenético desejo radical de reinventar a roda.
O conservador não acredita que o nosso seja o pior dos mundos, nem que haverá um mundo perfeito na Terra.
Os conservadores formam o partido estúpido somente no sentido de que radicais são o partido neurótico: isto é, se alguns conservadores são enfadonhos e complacentes, alguns radicais, pelo contrário, são meramente histéricos e descontentes — Os homens que foram a Davi na Caverna de Adulão.
“Naturalmente”, o falecido professor F. J. C. Hearnshaw certa vez escreveu, “para o conservador é suficiente que ele apenas se sente e pense, ou talvez simplesmente se sente”.
Burke comparava o conservador inglês de sua época ao vasto gado pastando sob os carvalhos ingleses, silencioso e aparentemente estúpido quando comparado com a miríade de gafanhotos radicais gorjeando nos prados ao redor deles; mas quando a verdadeira força é colocada à prova, acrescentava ele, os gafanhotos são como nada se comparados ao gado conservador.
A realidade permanece a mesma. Um grande número de conservadores agora percebe que não será suficiente meramente sentar-se; eles também precisam pensar e agir. E, acredito eu, esses mesmos conservadores podem agir com propósito.
O fator estupidez é uma das principais acusações contra os conservadores — embora normalmente se queira dizer com isso que os conservadores não acreditam que esquemas abstratos de leis positivas e encontros em massa possam tornar nosso mundo um paraíso.
Outra acusação frequente contra os conservadores é taxá-los de opositores do Progresso. E essa acusação tem tanto fundamento quanto a primeira: isto é, há certa justificativa, embora superficial; mas quando os verdadeiros princípios primordiais do conservadorismo são examinados, chega-se à conclusão de que o conservador inteligente é grosseira e erroneamente interpretado por seus críticos radicais.
O conservador não se opõe ao progresso por pura e simplesmente se opor, apesar de duvidar muito de que exista força tal como um Progresso místico, com P maiúsculo e redondo, operando no mundo.
Geralmente, quando a sociedade progride em alguns aspectos, cai em outros. O conservador sabe que qualquer sociedade saudável contém dois elementos, o que Coleridge chamou de Permanência e sua Progressão.
A Permanência em uma sociedade é formada por aqueles valores e interesses duradouros que nos dão estabilidade e continuidade; sem Permanência, as fontes do grande abismo são rompidas, e a sociedade cai em anarquia.
A Progressão em uma sociedade é o espírito e o corpo de talentos que nos instam à reforma prudente e melhora; sem essa Progressão, com o povo estagnado, a sociedade cai na letargia egípcia ou peruana. Portanto, o conservador inteligente se esforça para reconciliar as reivindicações de Permanência e as reivindicações de Progressão.
O conservador acredita que o progressista e o radical, cegos às reivindicações justas de Permanência, colocam em perigo toda a grande herança legada por nossos ancestrais em uma tentativa precipitada de nos conceder um futuro duvidoso de suposta felicidade universal. Em suma, o conservador é a favor do progresso racional e moderado; ele se opõe ao culto do Progresso, que presume que qualquer coisa nova seja necessariamente melhor do que tudo que é antigo.
O conservador pensa que a mudança é essencial para uma boa sociedade. Assim como o corpo humano repõe tecidos velhos por outros novos, o corpo político deve descartar, de tempos em tempos, algumas de suas velhas práticas e assumir determinadas inovações benéficas.
O corpo que parou de se renovar começou a morrer. Mas para o corpo ser saudável, a mudança deve ser contínua e harmoniosa com a forma e natureza do corpo; ao contrário, a mudança produz um inchaço monstruoso, um câncer que devora seu hospedeiro.
O conservador cuida para que nada na sociedade seja completamente antigo, mas também nada absolutamente novo. Esse é o meio de conservar nossa sociedade, assim como é o meio de conservação do nosso corpo físico. No entanto, quanto à mudança e sua natureza que a sociedade requer, depende do espírito da época e das condições peculiares dos meios sociais abordados.
Uma das falhas mais habituais do radical é defender de imediato mudanças perigosas no exato momento em que a mudança gradativa e moderada já começou. Assim foi na Revolução Francesa: como Tocqueville escreveu para a sua nação, “No meio da escadaria, nos lançamos da janela para chegarmos ao chão mais depressa”.
O conservador considera perigosa qualquer mudança que signifique uma ruptura abrupta com os interesses e usos já estabelecidos. No entanto, ele também defende que, se sua existência for inevitável, essa mudança precisa alcançar benefícios reais e deve resultar do esforço voluntário de muitos indivíduos e associações, e não imposta pela presunção de alguma autoridade centralizadora.
Os Estados Unidos mudaram grandemente desde a fundação da República: algumas dessas mudanças serviram para o bem e outras para o mal. Mas um dos principais méritos do nosso país é o de não amarmos a mudança pelo simples fato de mudar.
Nossa prosperidade e tranquilidade são o resultado proporcional ao fato de que sempre tentamos conciliar o melhor da antiga ordem com as melhorias propostas por nossa inventividade.
Nossa mudança tem sido operada pelo trabalho não do Grande Design de alguém, mas pelos esforços independentes de muitos homens e mulheres trabalhando de forma prudente.
O conservador, porém, sabe que certas realidades importantíssimas são imutáveis, e afirma que é perigoso demais mexer com aquilo que provavelmente não pode ser melhorado.
Grosso modo, ele não acredita que possamos mudar a natureza humana para melhor; há um só tipo de melhora na natureza humana, e esta é a melhoria interna — homens e mulheres se aprimorando na esfera particular.
O conservador não crê que possamos melhorar os Dez Mandamentos como um guia para a virtude, nem que sejamos capazes de criar a partir do nada uma forma de governo mais adequada ao nosso temperamento nacional.
Em suma, o conservador acredita que as grandes descobertas na moral e na política já foram feitas; faremos bem em aplicar essas verdades, ao invés de buscarmos vagamente por uma nova dispensação.
O conservador concorda com Burke, que há mais de um século e meio respondeu àqueles que no século XVIII defendiam uma nova moralidade e uma nova política: “Sabemos que não há novas descobertas, e cremos que nenhuma descoberta deve ser feita na moralidade, nem nos grandes princípios de governo, nem nas ideias de liberdade, compreendidas bem antes de nascermos e assim continuarão a existir depois que o túmulo tiver selado nossa presunção e a sepultura silenciosa houver imposto sua lei sobre nossa petulante loquacidade”.
Se tivermos de escolher entre os dois, a Permanência é mais importante do que a Progressão. Entre uma instituição tradicional e já conhecida por funcionar razoavelmente bem e uma instituição personalizada e de qualidades desconhecidas, é mais sábio preferir a antiga e já testada à nova e não testada.
Randolph de Roanoke bradou diante de uma Câmara dos Representantes assustada: “Senhores, encontrei a pedra filosofal! Eis no que consiste: jamais, não sem o maior acinte, perturbar algo que esteja em repouso”.
O elaborado tecido que convém chamarmos de ordem social e civil — o complexo de hábitos morais, estabelecimentos políticos, direito consuetudinário e meios econômicos — foi erigido ao longo de muitos séculos por um processo doloroso e trabalhoso de tentativa e erro.
É o resultado dos filtros de sabedoria, “da democracia dos mortos”, das opiniões ponderadas e da experiência de muitas gerações colocada na balança. Se abolirmos esse edifício, dificilmente conseguiremos reconstruí-lo.
A ordem estabelecida que temos funciona; não temos certeza de que uma nova ordem, tratada apenas na imaginação, funcionaria. E não temos o direito de usar a sociedade como se fosse um brinquedo; o direito de milhões de viventes e de milhões que ainda nascerão está em jogo aqui.
Então, repito, quando a escolha a ser feita se mostra clara, é sábio preferir a Permanência à Progressão. Mas geralmente não é necessário fazer essa escolha.
Por vezes temos em mãos o poder de combinar progressão moderada e mensurada com as vantagens presentes na sociedade estabelecida.
O conservador prudente não se esquece do dever de unir-se à disposição de preservar a habilidade de reformar.
O caráter conservador americano permitiu que crescêssemos de alguns milhões de pessoas em colônias na Costa Atlântica para uma grande nação de 180 milhões de habitantes, que se estende do Ártico ao Caribe e das bases na África às bases na Coreia.
Trata-se de progresso genuíno, mas dentro dos moldes da tradição. Ao realizar esse progresso, temos preservado a moral e as instituições sociais com as quais nossa República começou de maneira quase intacta.
Esse é o ideal conservador da relação satisfatória entre permanência e mudança. Os grandes princípios perduram; é apenas sua aplicação que se altera.
Uma descrição precisa e impiedosa do progressismo moderno que conheço: "Para ser breve, o progressista é alguém que acredita que o ser humano é bom e confiável por natureza, e que tem certeza de que tudo vai melhorar pela mera passagem do tempo, basta livrarmos nossa vida dos tristes desajustes sociais provocados por antigas perversidades que, é claro, não existem mais. Evidentemente, o progressista é aquele que pode libertar a mente humana das inibições da religião sobrenatural. O progressista acredita que o homem é um sujeito nobre sem alma e como tal certamente reterá para si as mais sublimes criações da cultura como uma espécie de subproduto do autointeresse esclarecido, ou, como diria o grosseiro, do fato de “ficar com um olho no peixe e outro no gato”. Na educação, o progressista olha com admiração “o bebê humano intocado” e procura instruí-lo não com as disciplinas necessárias, mas sim deixando-o fazer o que quiser. Na política, acredita que terá o maior bem social possível se der seu voto de confiança a todos e sempre direcionar as políticas públicas de acordo com essa confiança".
Já basta do progressista.
O conservador é um ser muito diferente.
O conservador sabe que não nasceu ontem. Ele está ciente de que todos os benefícios de nossa complexa civilização são o resultado do frágil engenho de muitas gerações, criação de esforços, esmeros e sacrifícios.
Não é “por mero lapso de tempo” que tudo fica cada vez melhor; quando as coisas melhoram, é porque homens e mulheres conscienciosos, trabalhando dentro da estrutura da tradição, têm lutado bravamente contra o mal e a preguiça.
O progresso, embora muito raro na História, é real, mas é obra do artifício, da engenhosidade e da prudência humana, e não um maquinário automático.
E o progresso só é possível se finalmente empreendido em bases seguras de permanência.