6. O Conservador e a Comunidade
6. O Conservador e a Comunidade
A comunidade é um grande bem: possibilita a civilização, o crescimento moral e, quando enfraquecida, não costuma ser substituída pela liberdade anárquica, mas pelo coletivismo sufocante.
Aristóteles nos lembra de que somos seres sociáveis por natureza, que sentem prazer na companhia de outras pessoas. Portanto, a pessoa que rompe a verdadeira comunidade priva as demais de grande parte da natureza humana.
É a junção da independência local com a proximidade e a associação voluntária que torna possível aquilo que Orestes Brownson chamou de “democracia territorial” nos Estados Unidos — isto é, o governo local livre, o oposto das democracias centralizadas e fanáticas que se levantaram na Europa a partir da Revolução Francesa.
Agora, em nosso século, o reformador social radical detesta a verdadeira comunidade, e gostaria de ver a sociedade transformada à força em um único molde rígido, caracterizado por uma administração central, ordens sob decretos executivos, uniformidade de vida e erradicação de todas as distinções pessoais e locais.
O radical — especialmente o marxista — sabe que a comunidade saudável é inimiga de seus planos, porque incentiva a variedade de opiniões e costumes, abrigando todas as associações voluntárias que se opõem ao despotismo centralizado. Portanto, o doutrinador radical, uma vez no poder, procura eliminar o vigor da comunidade local, como Hitler tentou fazer na Alemanha e como os comunistas têm feito de forma assustadoramente minuciosa na Rússia e em outros lugares.
Atualmente, o reformador radical não é o único inimigo da verdadeira comunidade. Há grandes tendências cegas na tecnologia moderna e na vida econômica que também ameaçam a comunidade tradicional:
a centralização da produção e da distribuição;
o declínio dos padrões de vida rural;
a movimentação excessiva da população;
a padronização do lazer e dos costumes;
o movimento bem-intencionado (apesar de errado) em muitas paragens em prol da consolidação das funções políticas e beneficentes locais em burocracias estatais e federais.
Contra essas influências, não tão diretamente malignas quanto as doutrinas políticas revolucionárias, mas mais sutis que elas, o conservador inteligente deve lutar.
O verdadeiro conservador tem espírito público: ele acredita na comunidade. Não quer dizer, no entanto, que ele seja algum tipo de coletivista. O coletivista, pelo contrário, acredita no Estado de massas, uma dominação unitária consolidada na qual a compulsão é a ordem última, e na qual todo aspecto da vida é regulamentado por alguma espécie de corporação central, que, embora seja teoricamente a favor do benefício geral, atua em prol de grupos exclusivos e classes privilegiadas. Rompida a comunidade, o coletivismo então usurpa suas funções, e o retorno à comunidade voluntária se torna quase impossível.
O homem ou mulher de espírito público neste país acredita em uma República, uma nação na qual quase tudo é praticado voluntariamente por indivíduos ou grupos locais, para o benefício do todo. Em uma comunidade genuína, as decisões que afetam mais diretamente a vida dos cidadãos são tomadas por governanças locais e de forma voluntária:
a aplicação da justiça,
a aplicação da função da polícia;
a manutenção das estradas;
a manutenção dos edifícios públicos;
a manutenção dos benefícios distribuídos à comunidade;
a coleta de impostos;
o gerenciamento das instituições de caridade e dos hospitais;
o estabelecimento de escolas;
a supervisão do desenvolvimento econômico.
Algumas dessas funções são executadas por corpos políticos locais e outras por associações privadas. Enquanto se mantiverem sob administrações locais e debaixo de uma aceitação geral dos cidadãos, essas decisões de fato formarão uma comunidade saudável. Mas, se negligenciadas e usurpadas, passarem para as mãos de uma autoridade centralizada, a comunidade estará sob grande perigo — e não só a comunidade, mas também os direitos individuais e o bem-estar social.
Tudo o que há de benéfico e prudente na democracia moderna só é possível quando por meio de um senso comunitário vital.
Se, em nome de uma “democracia” abstrata, as funções da comunidade forem atribuídas a uma autoridade central, então o governo genuíno gerido sob o consentimento dos indivíduos governados abrirá caminho para um aparelhamento impessoal e para um processo de padronização hostil à liberdade e à dignidade humana.
As influências que tornam a comunidade saudável ainda são fortes nos EUA. Temos mais organizações voluntárias do que qualquer outra nação; costumamos ser zelosos por nossos direitos locais. Temos uma estrutura constitucional que coloca muitos impedimentos no caminho do reformador radical que deseja transformar a sociedade em uma massa amorfa.
No entanto, não podemos ser complacentes. Podemos perder nossa comunidade se ignorarmos a realidade.
É bastante tentador e cômodo permitir que o poder centralizado assuma o fardo que necessariamente acompanha os privilégios da comunidade.
Para escapar das exigências dos impostos locais, toleramos a crescente mudança nos custos escolares, a crescente mudança nas melhorias públicas, a crescente mudança nas cobranças por parte das instituições de caridade e até mesmo a crescente mudança nas funções de polícia do Estado e da administração pública.
De certo modo, já estamos trilhando esse caminho faz tempo. Nas primeiras fases desse processo, pode parecer que a maioria dos benefícios da comunidade permanece retida, ainda que suas responsabilidades, há muito desfrutadas, sejam transferidas para os ombros de outra entidade.
Talvez décadas ou gerações passem até que as consequências dessa entrega de direitos e deveres sejam completamente sentidas. Contudo, qualquer um com o mínimo de conhecimento histórico pode prever as consequências desse processo se não for controlado.
Albert Jay Nock, em seu livro Memoirs of a Superfluous Man [Memórias de um Homem Supérfluo], indicou o curso natural dos eventos:
Maior centralização, burocracia crescente;
poder estatal e fé no poder do Estado cada vez maiores, poder social e fé no poder social cada vez menores;
o Estado absorve uma proporção continuamente maior da renda nacional;
produção decadente;
o Estado, em consequência disso, controla ‘indústrias essenciais’,
uma após a outra, gerindo-as com corrupção, ineficiência e paternalismo cada vez maiores, e finalmente lança mão de um sistema de trabalho forçado.
Então, em algum momento deste processo, uma colisão dos interesses do Estado, no mínimo tão abrangente e violenta quanto aquela que ocorreu em 1914, resultará em uma desorganização industrial e financeira severa demais para a frágil estrutura social suportar; e, a partir disso, o Estado será deixado à ‘morte do maquinário enferrujado’ e às eventuais forças anônimas da dissolução.
Além do mais, posso dizer que essa desintegração da comunidade e seu controle por uma autoridade centralizada geralmente acompanham proporcionalmente a deterioração da cultura e da moralidade, virtudes que parecem florescer apenas quando a comunidade ensina os padrões da civilização e da decência.
Ora, uma nação não é mais forte do que as várias pequenas comunidades que a compõem. Uma administração centralizada, ou um grupo de governantes selecionados e servidores públicos, ainda que bem-intencionados e devidamente preparados, não podem conferir justiça, não podem conferir prosperidade, não podem conferir paz e não podem conferir boa conduta à massa de homens e mulheres privados de suas responsabilidades e instituições tradicionais. Esse experimento já foi aplicado antes, de forma notável na Roma antiga, e foi um desastre.
É o desempenho de nossos deveres que nos ensina a responsabilidade, nos ensina a prudência, nos ensina a eficiência, nos ensina a caridade e nos ensina a moralidade. Se outra pessoa assume esses deveres, ela é forçada a carregá-los, ou então atrofiamos, socialmente e moralmente, pela falta de seu exercício.
E o corpo burocrático que assume essas responsabilidades sociais que até então não lhe competiam não permanece diligente e com as faculdades mentais sãs por muito tempo. A sociedade vigente é quem recruta seus governantes e servidores públicos; eles não escaparão da corrupção e da indolência se vivem em um período de comunidades desintegradas.
Sem dúvida, por vezes é cansativo trabalhar na diretoria de escolas locais, ou ter de participar de reuniões organizadas por instituições de caridade, ou pagar por melhorias regionais com os fundos locais, ou diminuir o crime por meio de reformas presenciais. Mas se esses deveres e responsabilidades forem passados da comunidade para alguma agência centralizada, em pouco tempo a comunidade deixará de existir.
E se um dia todos os povos civilizados se virem na necessidade de tomar uma forma de ação conjunta, voltaremos aos dias do “Bom Selvagem”: nos encontraremos oprimidos, ao invés de em uma época de coletivismo.
A princípio, essa nova dominação pode parecer benéfica, mas não será eficiente nem pacífica após o decorrer de alguns anos.
O conservador inteligente, portanto, cumpre seu dever perante a comunidade — cumpre seu dever perante sua cidade, cumpre seu dever perante seu país, cumpre seu dever perante seu negócio, cumpre seu dever perante sua posição civil, cumpre seu dever perante sua união, cumpre seu dever perante seu grupo na igreja, cumpre seu dever perante seu corpo profissional, cumpre seu dever perante sua escola ou universidade e cumpre seu dever perante seu fundo de caridade. Tudo isso faz parte da verdadeira comunidade.
O conservador não acredita que cumpriu seu dever como cidadão se meramente votou em favor de legislações positivas, formuladas com o propósito de manter um corpo burocrático distante executando as funções de todas essas associações vitais.
A comunidade é essencial à liberdade, aos direitos individuais e à composição integral da ordem social e civil. Sem isso, homens e mulheres são rebaixados a uma posição inferior à humana — ou serão como as bestas solitárias da frase de Aristóteles, ou se tornarão a massa servil do Estado unitário.
O conservador não se posiciona como o anarquista, desprezando seus deveres para com o próximo.
O conservador não propõe trocar seu patrimônio que é a comunidade pela Utopia centralizada.