10. O Conservador e a Educação
10. O Conservador e a Educação
Para o conservador inteligente, o propósito da educação é claro: desenvolver as faculdades mentais e morais do indivíduo, para o seu próprio bem.
Agora, esse processo de cultivar a mente e a consciência de jovens (aqui falo da educação no sentido de “educação escolar”, embora seja bem verdade que a educação autodidata deveria continuar durante a maior parte da vida do homem ou da mulher) tem certos propósitos menores e benefícios secundários.
Um desses propósitos menores é instruir os jovens nas crenças e costumes que possibilitam a ordem social e civil decente.
Outro desses objetivos menores é inculcar certas habilidades e aptidões que ajudarão os mais novos quando estes se tornarem adultos.
Ainda outro é o desenvolvimento de hábitos de sociabilidade, isto é, ensinar meninos e meninas a participar de forma natural na sociedade.
E ainda há outros propósitos e benefícios. Apesar de tudo, os conservadores não se esquecem daquele objetivo essencial e do principal benefício da educação formal, que é criar pessoas inteligentes e boas. Por si mesmas, as escolas não podem criá-las.
A família e a comunidade exercem influência direta sobre as inclinações naturais ou a falta delas nos jovens, sobre o fato de serem sábios ou tolos, bons ou maus.
As escolas, contudo, ajudam no processo. E se negligenciarem essa função primária em favor de mecanismos vagos como “atividades em grupo”, “desenvolvimento da personalidade”, “aprender fazendo” ou “absorver boas maneiras em sociedade”, logo essas mesmas instituições se tornarão ambientes prejudiciais.
O conservador sempre pensa primeiro no ser humano individual. O que é ruim para indivíduos é ruim para a sociedade. Caso a maioria dos homens e mulheres seja relativamente boa e inteligente, a sociedade em que vivem não será má.
Portanto — especialmente nesta hora em que Ortega y Gasset chama de “era das massas” este tempo em que a padronização de várias formas de coletivismo ameaçam todo o conceito de verdadeira personalidade individual — o conservador nunca deixa de enfatizar que a escola existe primariamente para ajudar a melhorar o entendimento e a moral dignos de pessoas comuns.
A escola não é meramente uma instituição de custódia que mantém crianças em um cativeiro tolerável enquanto seus pais estão ocupados em qualquer outro lugar. Tampouco é um lugar onde jovens aprendem como ganhar dinheiro para o futuro. Nem é a escola um simples meio de doutrinação para determinada atitude social aprovada. Não, a escola é muito mais importante: trata-se de uma instituição que tem por objetivo transmitir disciplinas intelectuais e morais sólidas à nova geração.
O conservador não teme o abuso da palavra “disciplina”.
Sem disciplina, homens e mulheres desperdiçam a vida em injúrias e em ociosidade.
A melhor forma de disciplina é a disciplina própria; a autodisciplina mental e ética é o que as escolas tentam transmitir aos alunos.
Aos olhos do radical moderno, porém, fiel a seus próprios princípios basilares, a educação formal é algo bem diferente daquilo que o conservador imagina.
Para o radical — comunista, fascista, socialista, ou qualquer tipo de ideólogo radical — a escola é um instrumento de poder. É um meio de endoutrinar o jovem com o que o radical acredita ser o conceito de boa sociedade.
Na opinião do radical, a escola existe para trabalhar em prol da “sociedade”, e não primariamente em favor do indivíduo. E o estudioso, na opinião do radical, não deve perder seu tempo buscando a Verdade, mas, pelo contrário, lhe cabe pregar doutrinas socialmente aprovadas aos jovens, ou avançar a luta de classes, ou planejar um mundo melhor.
O radical pensa na escola como um meio de melhorar, ou ao menos de mudar, a sociedade como um todo.
Para o radical moderno, a simples ideia de encorajar o desenvolvimento de talentos particulares pelo puro caráter privado é incômoda. Ele pensa na escola como um meio de avançar em direção a alguma forma de coletivismo.
Os olhos do radical moderno só conseguem enxergar as árvores, mas não a floresta.
A pessoa privada e seus argumentos pouco importam para ele; as massas amorfas são tudo. Agora, é claro que existem pessoas de visões políticas radicais entre nós hoje que não abraçam a teoria radical da educação que descrevi acima. Mas estes são radicais inconsistentes, bem como existem conservadores inconsistentes.
Ora, se o único objeto real da vida é o melhoramento material das massas, hipoteticamente alcançado pela igualdade de condições, então não há razão para encorajar o desenvolvimento da forte opinião privada e da rígida mente individual.
O coletivismo não requer fortes personalidades e um alto nível de cultura particular, mas conformidade inquestionável aos dogmas seculares do coletivismo.
Os educadores radicais mais consistentes e diretos, como o professor Theodore Brameld, confessam essa verdade e nos exortam a converter as escolas em dispositivos de propaganda para o ensino de doutrinas em que “todo mundo pertence a todo mundo” e de que uma pessoa é tão boa quanto a outra, ou talvez um pouco melhor. Muito francamente, autodenominam-se Reconstrucionistas Sociais — educadores que colocariam as escolas para construir uma nova sociedade coletivista.
Educando a juventude e implantando nas crianças suas crenças, lealdades e o apego emulado por doutrinas coletivistas, eles pretendem romper com todas as antigas crenças e fidelidades. Se tivessem a oportunidade, alguns deles diriam que “a religião da democracia” deveria substituir as convicções religiosas nas quais quase todas as escolas tiveram origem.
Eles não querem intelectos reverentes ou inquisitivos, mas mentes submissas e uniformes. Quando teorias ruins como essas são apresentadas ao público americano com roupagens feias, o público prontamente as rejeita.
Mas o público americano ainda não rejeitou algo mais sutil, menos distinguível e — a longo prazo — talvez tão perigoso quanto outras teorias: as mais recentes ideias pedagógicas de John Dewey. Embora Dewey misture bom senso e falácias em suas teorias, as falácias tornaram-se praticamente o dogma educacional oficial de nosso país, enquanto o bom senso ou foi esquecido, ou perdeu seu significado por circunstâncias sociais modificadas.
Dewey queria que as escolas públicas se tornassem o meio de tornar a população americana homogênea.
Hostil à religião tradicional (embora às vezes fizesse algum tipo de elogio), Dewey esperava que o secularismo radical e agressivo nas escolas tomasse o lugar dos conceitos religiosos que fundaram a moral e política americanas.
Hostil às obras da imaginação mais elevada, propôs substituir os estudos literários e as disciplinas intelectuais que haviam dado à educação americana seu sólido caráter por metodologias de “esforço em grupo” e “aprender fazendo”.
As teorias e a influência de Dewey não podem ser examinadas em detalhe aqui; não faz muito, contudo, que foram criticadas com inteligência por Canon Bernard Iddings Bell, pelo professor Arthur Bestor, pelo Sr. Mortimer Smith, pelo Sr. Albert Lynd, pelo Dr. Gordon Keith Chalmers, entre outros.
O que desejo fazer, porém, é indicar a postura que o conservador inteligente deve tomar diante da educação formal.
O conservador inteligente combina disposição de preservar com habilidade de reformar. E, a bem da verdade, nossas escolas precisam de reforma o mais rápido possível.
Apesar de todo o diálogo sobre “a educação em prol da democracia”, esses radicais parecem educar em favor da submissão em massa — a enfadonha doutrinação secular substitui a mente inquiridora.
A República não sobreviverá com cidadãos incapazes de apreender ideias gerais, ou mesmo indispostos à leitura e à escrita.
O fracasso de nossas escolas — e em certa medida, de nossas faculdades e universidades — nos trouxe exatamente até essa transição.
Atualmente, muitos universitários não são capazes de escrever tão bem uma simples carta quanto um aluno do sexto ano a teria escrito há cinquenta anos. Assim, o conservador acredita que precisamos falar menos sobre “dinâmicas de grupo” e “reconstrução social” em nossas escolas, e fazer mais para restaurar as velhas e indispensáveis disciplinas como leitura, escrita, matemática, ciências, literatura imaginativa e história.
O conservador acredita que precisamos trazer de volta disciplinas essenciais e definitivas e abolir matérias vagas e superficiais como “estudos sociais” (ministrado como um curso amorfo e independente) e “comunicações”.
O conservador acredita que nossas faculdades e universidades poderiam se beneficiar com a volta de um aprendizado mais humano — com as verdadeiras Humanidades, disciplinas criadas para ensinar compreensão ética e desenvolver a imaginação elevada.
Nossas instituições de ensino precisam se redimir do vocacionalismo excessivo, da equivocada ânsia de atrair alunos para dar a todos um diploma, mas sem educação e com falsas especializações.
Certa vez, Alfred North Whitehead observou que o antigo filósofo ansiava por ensinar sabedoria, enquanto o professor moderno deseja ensinar unicamente fatos.
Fatos isolados, pensa o conservador, não constituem educação; e sentimentos vagos, “atitudes sociais aprovadas” têm relação ainda menor com o verdadeiro processo educacional.
Afinal, a República requer cidadania dotada do conhecimento da sabedoria de nossos ancestrais e respeito por esse saber; a República exige uma cidadania dotada com a habilidade de formar opiniões e fazer julgamentos.
E para tornar-se verdadeiramente humana a pessoa precisa compreender as mais puras disciplinas da mente, pois estas fazem dela um ser racional.
O sistema “educacional” que nem mesmo isso faz não é educativo, e não passa de um aparelho de propaganda a serviço do Estado.
Aliado aos escolásticos medievais o conservador é da opinião de que nós, modernos, somos anões sobre os ombros de gigantes — capazes de enxergar mais longe do que nossos antepassados somente porque nos apoiamos no grande volume e na enorme força de suas realizações. Se rejeitarmos a sabedoria de nossos ancestrais, cairemos no fosso da ignorância.
Qualquer um que seja ignorante das antigas disciplinas que ainda incluem princípios éticos e encorajam a imaginação ordenada afunda em declínio cultural e permanece desprotegido dos sagazes ataques em bando dos manipuladores inescrupulosos. Entretanto, apesar de todas essas falhas na educação americana do século XX, o conservador sabe que nosso sistema ainda carrega alguns méritos consideráveis.
Com notável presença entre essas virtudes estão a diversidade e a competição que ainda sobrevivem entre nossas instituições educacionais.
Não temos apenas escolas públicas, mas um grande número de escolas privadas e de escolas apoiadas por igrejas — e os conservadores aprovam essa saudável variedade.
Discípulos de Dewey, como o Dr. James Conant, nos encorajam a eliminar qualquer instituto educacional privado ou paroquial e forçar toda a população a um modelo comum de escolarização, completamente secularizado e com a intenção de “ensinar democracia”.
O conservador se opõe a essas propostas arrogantes. Ao contrário, pensa que somos privilegiados por escapar da influência mortificante da uniformidade no processo educacional.
O conservador se alegra com o fato de não termos só universidades públicas, mas também universidades particulares já há muito fundadas e dotadas de boa reputação, centenas de faculdades patrocinadas por igrejas, oportunidade para experimentos e liberdade de escolha entre professores e alunos.
Se deseja vitalidade intelectual e originalidade, a nação deve encorajar essa diversidade; se quiser permanecer estagnada e moldada pelo secularismo, no entanto, a nação abraçará o design uniformizador de Dewey e Conant.
Toda centralização é suspeita aos olhos do conservador; e a centralização da estrutura educacional é uma das formas mais perigosas de centralização.
É com hostilidade ferrenha, então, que o conservador vê propostas de subvenções federais às escolas públicas.
O conservador sabe que quem paga o violinista é quem dita o tom; e, além disso, a educação é mais robusta quando apoiada pelo esforço local.
A única informação de fato valiosa extraída da Conferência de Educação da Casa Branca, em 1955, foi a conclusão de que nenhum estado da União era capaz de assumir suas próprias responsabilidades educacionais.
Cidadãos comuns, comunidades locais e os vários estados, o conservador sabe, são os melhores juízes das necessidades e dos interesses educacionais de sua região.
Quando confrontado com propostas de consolidação e unificação, o conservador é sensato e logo suspeita que nas entrelinhas dessas ofertas está o “Grande Design” de alguém para empregar a escola como ferramenta a fim de virar a sociedade do avesso. Mas o conservador não quer virar a sociedade do avesso.
O conservador acredita que abusar das escolas com esse propósito é o mesmo que corromper a educação, cuja função natural é conservadora, no melhor sentido da palavra: isto é, a educação formal conserva o melhor do que foi ensinado e escrito e descoberto no passado, e por meio de uma disciplina regular nos ensina a nos guiarmos pela luz da sabedoria de nossos antepassados.
Um amigo escocês me escreveu sobre as noções confusas que amaldiçoam a nossa era: “As pessoas parecem aceitar premissas que foram rejeitadas pelos sábios ao longo de todas as eras, e há um horrendo e sinistro estrondo no ar como de incontáveis cavalos no topo do penhasco em Gadara”. Todos os bons lugares e pessoas de bem estão sendo sacrificados, prossegue ele, “não debaixo de uma malignidade franca, mas sob uma hipocrisia insuportavelmente enganosa”.
A hipocrisia insuportavelmente enganosa caracteriza muito do que ocorre com a educação entre nós nos dias atuais.
A reforma conservadora precisa urgentemente retornar aos pensamentos ordenados e corretos, e restaurar disciplinas honráveis na educação. E o primeiro passo nessa reforma é reconhecer o princípio basilar de que a educação é destinada para a elevação da mente e a consciência individual.
O propósito da educação não é ser um brinquedo nas mãos dos doutrinadores radicais, muito menos uma grande farsa que proporcione lucro e prestígio ao que o Sr. David Riesman chama de “a rede de patrocínio do Teachers College da Universidade Columbia”.
O conservador respeita as obras do intelecto; já o radical de nossa era parece estar presunçosamente satisfeito com a hipocrisia e com a propaganda.