4. O Conservador e a Individualidade
4. O Conservador e a Individualidade
O “individualismo”, bem como o “capitalismo”, é um termo cunhado por partidários do socialismo. Com essa palavra os socialistas do século XIX queriam insinuar que enquanto o socialista está preocupado com a “sociedade” — isto é, com o bem-estar de todos —, o conservador é um “individualista” com tamanho orgulho que o faz se preocupar apenas com o próprio umbigo.
Essa caricatura do conservador já causou muito estrago.
O verdadeiro conservador, no entanto, não pode ser um individualista genuíno.
O pleno individualista é, no sentido estrito do termo, hostil à religião, ao patriotismo, à herança de propriedades e ao passado.
O conservador, contrariamente ao individualista, é amigo da crença religiosa, da lealdade nacional, dos direitos estabelecidos na sociedade e da sabedoria de nossos antepassados.
O conservador, porém, é um individualista no sentido de acreditar na primazia do indivíduo, no direito que a pessoa humana tem de ser ela mesma.
Quando o Estado presume ter o poder de ir contra os direitos individuais, o conservador fica ao lado do indivíduo.
O conservador se opõe à teoria de Hegel de que o Estado de alguma forma existe independentemente das pessoas humanas individuais que compõem a sociedade.
O conservador acredita que o governo é uma criação da sabedoria divina e que serve sob a Providência para cuidar das necessidades humanas. As principais dessas necessidades humanas são justiça, ordem e liberdade.
Se o Estado político começa a negligenciar os direitos individuais e estabelece um sistema de “ditadura do proletariado”, “despotismo democrático” ou “Estado das massas”, então o conservador se volta contra essa usurpação de autoridade. Isso porque o conservador acredita que um governo justo garante aos indivíduos toda a liberdade condizente com a justiça e a ordem.
A função do Estado de justiça é aumentar a liberdade individual sob a lei, não diminuí-la. Se, em nome de um “bem-estar geral” abstrato, o Estado reduz a liberdade ordenada dos cidadãos, então o conservador leva adiante a causa da individualidade com resolução.
Indo direto ao ponto, acredito no conservador como alguém totalmente a favor da individualidade, dos direitos individuais, da diversidade na sociedade.
O conservador é igualmente contra o “individualismo” como ideologia política radical, e contrário aos sistemas políticos que tornam o indivíduo um mero servo do Estado.
O governo sábio, na visão do conservador, procura garantir dois grandes princípios relativos à personalidade humana.
O primeiro desses princípios é o de que homens e mulheres de mente e habilidades notáveis merecem ter protegido o direito de desenvolver e manifestar personalidades excepcionais.
O segundo desses princípios é o de que homens e mulheres, no proceder comum da vida, que não têm a habilidade ou o desejo de realizar coisas extraordinárias, merecem ter protegido o direito de proceder tranquilamente com seus deveres e deleites, sem serem oprimidos por aquelas pessoas de capacidades extraordinárias.
Esses dois princípios, pensa o conservador, são orquestrados para abrigar e nutrir a individualidade verdadeira e saudável.
O conservador acredita que homens e mulheres, embora iguais perante a lei, são muito diferentes em suas capacidades e desejos.
Alguns homens e algumas mulheres são dotados de ambição, energia e extraordinárias qualidades de mente e coração. Pessoas assim devem ter o direito de desenvolver seus talentos ao máximo, contanto que não infrinjam os direitos dos demais. Mas outros homens e mulheres — e esses são a maioria da humanidade — preferem viver uma vida tranquila, ordinária e segura. Estes devem ter o mesmo direito de viver como quiserem, contanto que não tentem forçar pessoas cheias de vigor ou talentosas a se submeterem a seus próprios desejos e prazeres.
Quando os direitos de ambos os grupos são assegurados, logo a sociedade tem um governo justo e a individualidade humana é corretamente reconhecida.
O conservador, portanto, não é um “individualista” egoísta (segundo a expressão desagradável do socialista), passando por cima dos direitos e desejos do seu próximo; nem é um coletivista enfadonho, que deseja reduzir todos os homens e mulheres mortos de corpo e alma.
O conservador deseja que as pessoas sejam diferentes; porque um mundo em que todos fossem iguais seria infinitamente chato, e se afundaria para sua própria destruição. No entanto, todos precisam ser substancialmente iguais em algumas áreas da vida.
Homens e mulheres igualmente devem subscrever aos mesmos princípios morais, prestar igual respeito ao legado de sua civilização e manifestar a mesma lealdade às instituições sociais que lhes provêm justiça, ordem e liberdade.
O conservador não tem medo de ser taxado de “conformista” nessas grandes questões. E quando o revolucionário radical ou o boêmio inveterado tenta subverter essas convenções morais e sociais, então o conservador não hesita em condenar a “individualidade” que culminaria na ruína social.
O conservador acredita que o governo justo — como o governo constitucional, com seus poderes, freios e contrapesos, equilíbrios e garantias aos direitos individuais — é uma grande força para o bem.
A personalidade individual prospera precisamente porque sólidas estruturas e um governo prudente restringem o impulso anarquista da natureza humana.
Atuar de acordo com a vontade de terceiros, sem respeito pelos direitos e vontades do próximo, não é verdadeira liberdade, e não leva ao verdadeiro desenvolvimento da personalidade humana elevada, mas, pelo contrário, conduz a um estado de vida primitivo, “pobre, desagradável, raso e bruto”.
O conservador não é um coletivista. Ele acredita que, na medida do possível, homens e mulheres são livres, e espera que cada um faça suas próprias escolhas na vida.
O conservador não deseja uma sociedade de insetos, onde as vontades das grandes massas ficam sujeitas às decisões de uma oligarquia.
O conservador acredita que o Estado existe a fim de prover justiça, ordem e liberdade para a pessoa humana, e não que os indivíduos existem para simplesmente servir um Estado abstrato. Ele acredita que não há verdadeira humanidade se autoridades políticas, julgando-se onipotentes, decidem pelo indivíduo.
O conservador deseja ver a diversidade rica, revigorante e interessante de uma sociedade na qual todos — sujeitos à lei moral e às restrições moderadas de um governo limitado — possam ser livres e “transparentes”.
O conservador sabe que tanto a liberdade sem qualquer tipo de restrição pode levar à opressão ou à anarquia quanto o governo sem qualquer refreio pode levar ao coletivismo. Mesmo sabendo disso, porém, ele acredita que a melhor e mais efetiva restrição sobre o individualismo anárquico é a obediência à lei moral e a consciência individual, ao invés de um exercício constante e perturbador do poder policial da autoridade política.
O conservador acredita que o governo por si só não tem a capacidade, ao menos não de forma bem-sucedida, de regulamentar o egoísmo e o desejo por poder do coração humano.
Mesmo que houvesse uma lei extremamente complexa que munisse a autoridade estatal de poder para interferir em todas as áreas da vida privada a fim de eliminar o egoísmo, a vanglória e a fome por poder, ainda assim sua aplicação provavelmente não mais que agravaria os males que pretenderia reprimir.
A sociedade só será boa se os indivíduos que a integram forem bons e verdadeiramente livres sob a lei moral.
A individualidade sem restrições morais ou leis justas costuma conduzir ao egoísmo excessivo.
O conservador prefere tentar a reforma do “individualismo cruel” operando na consciência individual, e não com a força da polícia estatal.
A única forma de reprimir o egoísmo, diz Aristóteles, é “treinar a natureza mais nobre, e não desejar mais”.
E a única maneira de repelir a inveja é lembrar as massas de que os talentos extraordinários têm tantos direitos quanto os talentos ordinários.
Irving Babbitt expôs a visão conservadora acerca deste ponto com grande dignidade: "O remédio para o homem que está no topo e falha em frear seus desejos não está, como o agitador quer que acreditemos, no inflamar dos desejos do homem que está abaixo, nem no ato de substituir a verdadeira justiça por alguma fantasmagoria de justiça social. Como consequência de tal substituição, a pessoa estará deixando de punir o indivíduo ofensor para atacar a instituição da propriedade. A guerra contra o capital depressa se degenerará, como sempre ocorreu no passado, numa guerra contra a economia e contra a indústria, batalhando em favor da preguiça, da incompetência e, finalmente, dos planos de confisco, que professam ser idealistas, mas são, na verdade, uma subversão da honestidade comum. Acima de todas, a justiça social é, provavelmente, a mais insalubre em sua prática de suprimir parcial ou completamente a competição. Sem competição, é impossível cumprir o propósito da verdadeira justiça — isto é, que todos receberão de acordo com suas obras. O princípio de competição, como Hesíodo salientou há tempos, é fundamentado nas próprias raízes do mundo; há algo na natureza das coisas que chama por uma verdadeira vitória e uma verdadeira derrota. A competição é necessária para erguer o homem de sua indolência natural; sem competir, a vida perde seu entusiasmo e seu vigor. Há somente, como Hesíodo continua a dizer, dois tipos de competição: aquela que leva à guerra sangrenta e a outra que é a mãe do empreendimento e das grandes realizações".
Logo, o verdadeiro conservador dedica-se à verdadeira individualidade, isto é, o direito e o dever que homens e mulheres têm de serem eles mesmos; o conservador busca a competição consciente, as diferentes posições, classes e oportunidades, e uma vida com diversidade, ainda que com riscos.
O conservador não busca um “individualismo” doutrinador que favorece o egoísmo, a ambição privada ilícita e a ideia de que “os meios justificam os fins”.
O conservador combate tanto esses princípios quanto combate o coletivismo sufocante. Ele acredita que a sociedade deve encorajar a verdadeira individualidade e que as armas corretas contra o individualismo cruel são a consciência privada e as boas constituições, e não a vigilância política severa de nossa economia e da vida particular de cada indivíduo.
O conservador não é um ideólogo; isto é, não deseja a mais absoluta anarquia moral e política, ou um “bem-estar estatal” oposto à diversidade individual.
O conservador acredita, pelo contrário, que a sociedade americana estabelecida no passado, na qual ambição e ordem pública harmonizavam-se em um controle mútuo, apresenta a solução ao problema “indivíduo vs Estado”.
Não há sociedade que acabe de uma vez por todas com as reivindicações conflitantes do governo organizado contra a ambição privada.
O melhor a esperar é uma sociedade na qual homens e mulheres reconheçam o princípio geral de que naturezas superiores têm o direito de se desenvolver, e que naturezas medianas têm o direito a viver com tranquilidade.
Na história de nosso país, o individualismo cruel já ameaçou derrubar esse princípio. Mas esse tempo passou; e no presente, o perigo é de o Estado reprimir a verdadeira individualidade em nome de uma “justiça social” niveladora.
Hoje, portanto, o conservador prudente procura mais uma vez alcançar o equilíbrio ao apoiar, com toda a força a seu dispor, os direitos do indivíduo contra as exigências arrogantes do Estado das massas.