Tudo começa com Pessoa: o Logos encarnado

●●

Há um ponto que desmente a suposta complexidade da vida que os cientistas tanto alardeiam: tudo começa com Pessoa. Não com conceito, sistema, matéria ou informação — mas com alguém. E não alguém simplesmente humano, mas sim alguém em quem o homem pode se inspirar como divino. Trata-se de uma Pessoa central e especial, que para muitos está mal definida, e por isso, recebe o nome genérico de "Deus".

··

A partir disso, o que importa é se essa Pessoa está presente ou ausente na vida humana. É dessa relação que nasce a teologia pessoal de alguém — e, no fim, a própria teologia como campo de estudo, que finalmente se conecta com a própria ciência. Isso mesmo: a reconciliação entre teologia e ciência só aparenta ser um problema porque o problema foi fabricado. Nunca houve, de fato, duas coisas separadas para reconciliar. O que existe é uma divisão imposta propositalmente — uma conspiração intelectual para bloquear a abordagem interdisciplinar.

··

Se no centro de tudo está a pessoa de Deus, então a vida se reduz a uma questão de vir a conhecer ou ignorar esta Pessoa. Todo o resto — ciência, poder, verdade, violência — são ramos e consequências dessa única escolha. Algumas escolhas levam à aproximação e à semelhança com Deus; outras, ao afastamento e à semelhança com outra coisa que não a Deus — a antítese, a ausência. Por isso, a vida é justamente esse movimento relacional: com Deus ou na ausência de Deus, de aceitação a Deus ou rejeição a Ele. Nada mais.

··

O Homem insiste na necessidade de se declarar Deus, afastando-se Dele. Mas ele se esquece de que não pode ser deus afastando-se de Deus, mas sim aproximando-se e estando junto com Ele. E não só isso — como Deus é a fonte de toda a vida, presente na natureza pristina (i.e. pura, imaculada), afastar-se Dele fez com que a humanidade incorresse nas doenças, no envelhecimento e na morte. Esse foi o resultado. O Homem trocou a imortalidade por um senso de divindade própria, mas pagou o preço por isso. É a mesma lógica da queda em Gênesis: a promessa era divindade; o resultado foi morte. Ele comeu do fruto proibido para ser como Deus e descobriu que estava despido, mortal, expulso do Jardim do Éden.

··

A ciência que esse Homem caído fundou e pratica hoje tenta ignorar o afastamento de Deus e as consequências da queda, confiando tudo à tecnologia. Ela se declara autônoma e funcional, sem precisar estabelecer nem reconhecer que Deus está no centro de tudo, e que a vida e a verdade só podem ser dadas por Ele. Os cientistas se regozijam no poder de ignorar Deus e, mesmo assim, afirmar que conhecem o universo sem ter que conhecer o Criador. Pior ainda: acham que podem manipular o universo, usurpá-lo, retirá-lo das mãos do Criador e apresentá-lo ao público como se fossem seus donos. Pois no fundo estão dizendo: "O Homem é Deus. Nós somos deuses."

··

Alguns, como Heráclito, diziam que o Logos era a razão ordenadora do universo; outros, como os estoicos, que era a razão divina imanente a todas as coisas. Para Filo de Alexandria, o Logos aparece como a ponte entre o Deus transcendente e o mundo material, servindo, assim, de instrumento na criação. Na filosofia grega, o Logos era, a princípio, um conceito abstrato e impessoal. O apóstolo João, porém, pega o conceito mais universal da época e o reconstrói completamente, escrevendo algo inesperado no Evangelho: o Logos é apresentado como a Pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ou seja, o Logos "se fez carne e habitou entre nós" (João 1:14).

··

Isso significa que a ordem do cosmos não é impessoal. Ela deriva de uma Pessoa; é o resultado da inteligência de alguém. E muitos acreditam que esse Logos já se manifestou como pessoa viva na Terra. Isto é, Deus não ficou distante; Ele veio habitar. A questão agora é: receber ou rejeitar essa presença? Ao menos João 1:11-12 mostra que, durante a presença terrena de Jesus, alguns o receberam e se tornaram filhos de Deus; outros o rejeitaram.

··

O Esquema abaixo mostra um triângulo relacional entre três polos. No caso, Deus está no topo e permanece um, mas há duas abordagens em relação ao Ser/Pessoa dele: Há uma bifurcação do saber, do entender e do conhecer: dois ramos que saem do mesmo ponto. No eixo do SABER, o movimento é buscar conhecer a Pessoa de Deus e, nesse movimento, ser conformado à sua imagem e semelhança. É o mesmo que seguir o caminho traçado por Jesus Cristo — o Logos encarnado. No eixo do NÃO-SABER, entretanto, o caminho é o da recusa e de querer tomar o lugar de Deus. É o movimento de afastamento, de rejeição, de usurpação. Ele culmina com o Anti-Logos, que é o mesmo que se tornar o Anticristo em sentido arquetípico ( e não necessariamente no escatológico ).