A Estação Ferroviária de Brodowski foi inaugurada em 1894, integrando a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, uma das principais responsáveis pela ligação entre Campinas e o nordeste paulista (em direção a Ribeirão Preto e ao Triângulo Mineiro).
Na época, Brodowski ainda era um núcleo agrícola em formação, e a ferrovia foi determinante para seu desenvolvimento urbano — tanto que a cidade se organizou em torno da estação, que passou a ser o centro de referência social e comercial. Deve-se ressaltar aqui, portanto, a importância do conjunto ferroviário enquanto testemunha de todo o crescimento da cidade de Brodowski e desenvolvimento de sua comunidade. Desde sempre participou como referência da memória local, símbolo de um momento importante para a cidade, já que foi ao redor da estação ferroviária que a cidade se desenvolveu.
A estação se encaixa na tipologia típica das estações secundárias e rurais que se espalharam pelo interior paulista entre o fim do século XIX e meados do XX, acompanhando o avanço das ferrovias do café e depois das cargas agrícolas. Elas têm enorme valor técnico e histórico, mas foram construídas com recursos mais modestos e soluções padronizadas, o que as diferencia fortemente das grandes estações urbanas, como a Estação da Luz e da Estação Julio Prestes, em São Paulo - SP. O edifício segue o padrão eclético simplificado da Companhia Mogiana com a simetria presente na fachada principal, o ritmo das salas marcadas pelas meias-colunas que sangram na fachada e a pouca ornamentação, restrita ao embasamento pré-moldado e aos elementos em argamassa fundida aplicados na fachada. É um exemplar bem preservado (ainda que com danos) da tipologia de estação secundária da Mogiana, com composição eclética simplificada e técnicas construtivas tradicionais.
Nesse sentido, a Estação Ferroviária de Brodowski é um exemplo emblemático da arquitetura ferroviária secundária paulista, que combina simplicidade construtiva e racionalidade funcional. Ela sintetiza a lógica da expansão ferroviária do interior — padronização, economia e presença institucional — e, ao mesmo tempo, representa um marco urbano e afetivo para a comunidade. Sua preservação e recuperação são fundamentais não apenas pela memória ferroviária, mas também como testemunho da história local e elemento articulador do patrimônio cultural de Brodowski.
Um dos desafios do projeto é dotar os imóveis de condições para o uso e a acolhida da população. Tendo em vista que a estação, particularmente, esteve fechada em grande parte dos últimos anos, a população mais jovem nunca pode entrar na edificação, conhecer o imóvel e fazer uso de seus espaços. Assim, além de recuperar as estruturas e componentes materiais da estação, um dos principais objetivos do projeto é oferecer esse patrimônio para uso e apropriação por parte da população.
Está prevista a utilização de suas dependências como espaços expositivos (sob gestão da ACAM Portinari), sanitários e um pequeno café, voltado para a plataforma. As áreas expositivas e demais dependências serão abertas à visitação do público.
O uso será o eixo condutor de um programa enxuto, que mantém praticamente o esquema de paredes e estrutura atual da construção, prevendo pequenas adaptações para adequação à acessibilidade e ao conforto dos usuários, principalmente no que diz respeito às instalações e áreas molhadas. No caso do armazém, já existe o uso como parada de ônibus de viagem e como cineclube. São usos que já atendem a população e que se manterão, porém, dotados de melhores condições.
Dessa forma, a presente proposta tem dois grandes objetivos: 1) restaurar as edificações do ponto de vista matérico-físico, com a consolidação das estruturas e recuperação de componentes construtivos, e 2) viabilizar o uso público, dotando as edificações de equipamentos que permitam o desenvolvimento das atividades propostas, isto é, a implantação de acessibilidade universal, sanitários, café, depósito, copa, novas instalações hidráulicas e elétricas, etc.
A proposta enfrenta o maior desafio conceitual do projeto, que é o tratamento das áreas que estão sofrendo com o recalque diferencial das fundações e o refazimento do telhado da estação. No caso do armazém, porém, há a necessidade não apenas de reforços das fundações, mas de demolições de paredes e lajes que representam sobrecarga para a estrutura.
Para tanto, a proposta terá como metodologia adotada o restauro crítico-conservativo, o que a faz permear pelos binários histórico-crítico e histórico-técnico, garantindo a preservação da edificação enquanto documento, na sua integridade e autenticidade, mas considerando a figuratividade da obra e sabendo que tal figuratividade também faz parte do seu reconhecimento como bem cultural.
Existem aqui questões de conservação ordinária, como a recuperação dos caixilhos e pisos, e questões de intervenção mais incisiva na edificação, como o tratamento das áreas em recalque, o refazimento dos telhados e o tratamento para as áreas com alterações dos vãos das janelas, realizadas em reformas anteriores. Estas últimas demandam uma maior reflexão, com uma postura crítica, sempre guiada pela Carta de Veneza, pela Teoria da Restauração e seus conceitos já ampliados na atualidade.
Parte daí um intenso questionamento acerca da dialética das duas instâncias, a estética e a histórica, sempre procurando respeitar a obra, e tendo como horizonte as razões pelas quais ela é preservada e reconhecida como patrimônio. Assim, entende-se que a proposta aqui apresentada é a melhor equação entre seus aspectos históricos, estéticos e de uso, tendo em mente o objetivo primeiro de transmiti-la às futuras gerações “na plenitude de sua autenticidade”. (ICOMOS, 1964)
Dentre os princípios de restauro e conservação atualmente aceitos estão:
A garantia da distinguibilidade, em que não se pode induzir o observador ao engano de confundir a intervenção atual com o original, além de documentar a si própria.
A reversibilidade ou re-trabalhabilidade, pois a restauração e a conservação não devem impedir, mas sim facilitar o retorno ao seu estado anterior.
A mínima intervenção, pois a restauração e a conservação não podem desnaturar o documento histórico, além de não dever fazê-lo passar por um processo agressivo a sua natureza.
Além disso, Giovanni Carbonara, citando Brandi nos lembra:
"'o único momento legítimo que se oferece para o ato da restauração é o do próprio presente [...] o presente histórico', nem poderia ser de outro modo; portanto, o restauro como ato que 'está na história. [...] não deverá presumir nem o tempo como reversível, nem a abolição da história'"
Parte daí a proposta para o tratamento das áreas em recalque. Tal como mencionado acima, a equipe de projeto entende que se faz necessária a demolição das paredes e lajes do armazém, construídas pelo DER na década de 80 e que representam uma sobrecarga. Além disso, está prevista a retirada das atuais caixas d’água e dos trilhos em ferro que atualmente se encontram sobre as lajes dos wcs.
Entende-se ainda que, uma vez as paredes demolidas, faz sentido que o imóvel tire proveito da desobstrução do espaço, de forma que os visitantes possam ter a leitura do volume interno do armazém enquanto pavilhão. Assim, o que se propõe é que não mais existam paredes até o topo do forro, reduzindo a leitura do volume total ao volume do salão, mas que haja paredes com altura intermediária, que ainda possibilitem a apreensão do volume total do armazém pelos visitantes. Para tanto, está prevista a remoção do atual forro tipo paulistinha e a instalação de novo forro em madeira, acompanhando a inclinação do telhado e mantendo as tesouras aparentes ao usuário.
No caso do refazimento do telhado, a questão que se coloca diz respeito ao material a ser utilizado, já que o madeiramento que hoje está ali não pode ser recuperado devido ao apodrecimento dos elementos da estrutura primária. Considerando que o beiral da fachada voltada para a calçada e o prolongamento do telhado sobre a plataforma estão íntegros e podem ser mantidos, a escolha pelo mesmo material e projeto fac-simile ao existente se justifica, de forma a concordar estruturalmente (em termos de comportamento de esforços) com o material que irá permanecer.
No que se refere às áreas onde houve alteração dos vãos das janelas com fechamento utilizando outro tipo de tijolos e paginação, revestidos com argamassa emulando o aparelho original, está prevista a remoção desses blocos e reintegração com tijolos e aparelho de mesmas características do restante das alvenarias. A nata de argamassa que reveste a alvenaria e filma os rebaixos do aparelho deve seguir o traço e composição do restante da parede. A mesma nata deverá ser aplicada nas áreas com obturações executadas com argamassa cimentícia, que deverão ser removidas. O procedimento se justifica na medida em que: a/ a argamassa que reveste o trecho com nova alvenaria é de base cimentícia, representando um problema à respirabilidade e ao equilíbrio hídrico do sistema, gerando outras patologias como pulverulência dos tijolos e desprendimento de reboco; b/ do ponto e vista estético, a figuratividade do conjunto fica prejudicada, uma vez que os baixos relevos que emulam o aparelho foram desenhados erroneamente, além de induzir o observador ao erro de imaginar que a alvenaria tem aquela conformação de tijoleira. Pede-se, no entanto, que os novos tijolos tenham a inscrição do ano da obra e que todo o procedimento seja documentado e juntado ao processo de tombamento do conjunto ferroviário, para posteriores pesquisas. Se possível, seria interessante que os registros da obra fossem incorporados à exposição que terá lugar na estação.
A proposta para o restauro do conjunto ferroviário foi bastante conservativa no que se refere às questões construtivas, prevendo um projeto complementar de recuperação estrutural. Além disso, na estação, com exceção de paredes divisórias dentro dos sanitários, não houve construções, demolições ou fechamentos de vãos. As novas paredes divisórias serão em drywall, garantindo a distinguibilidade e re-trabalhabilidade, além de não gerar carga sobre os pisos. A estrutura e o esquema de vedações da construção, portanto, permanecerá tal como é atualmente, porém adequando os ambientes para o uso proposto e dotando-os de instalações que promovam o conforto dos usuários, sem, contudo, prejudicar as estruturas do imóvel.
O projeto propõe ainda o tratamento cupinicida em todas as estruturas de madeira, sejam do piso (barroteamento e assoalho), sejam das estruturas do telhado, caixilhos ou ainda da parede divisória em madeira entre os sanitários e a Sala 01. Está previsto também tratamento cupinicida para cupins de solo em toda a edificação.
Os trabalhos na cobertura, além do refazimento do madeiramento da parte interna, preveem substituição de todas as telhas por telhas cerâmicas de mesmas características (modelo, dimensões, coloração, etc) e das ripas, que se encontram comprometidas na totalidade dos dois telhados – estação e armazém. Está previsto ainda o tratamento antifúngico do madeiramento.
Os caixilhos deverão ser restaurados e aqueles que terão as folhas removidas deverão ser catalogados e armazenados em local seco e seguro.
Os pisos em madeira também serão recuperados, com reintegração das lacunas, tratamento das áreas atacadas, raspagem e aplicação de resina de proteção. O piso em ladrilho do Saguão, devido ao alto grau de desgaste, deverá ser substituído por ladrilho de mesmo modelo. Os pisos cerâmicos dos sanitários e das Salas 05 e 06 serão substituídos por ladrilho hidráulico liso cinza claro, enquanto os do armazém serão substituídos por placa pre-fabricada de granilite, adequada para maior pisoteio. Os ladrilhos da Sala 02 serão restaurados.
As pinturas murais também serão restauradas, passando por consolidação, limpeza e reintegração de lacunas com técnica que permita a distinguibilidade e a reversibilidade (tratteggio com aquarela, por exemplo).
As fachadas terão a nata de argamassa de revestimento consolidada e receberão nova pintura com tinta mineral.
Os elementos em ferro, como vitrôs e portão, também serão restaurados e receberão tratamento antioxidante e pintura. O gradil da plataforma será removido reestabelecendo o acesso livre da população à plataforma.
Outro ponto de destaque na proposta é a adequação da acessibilidade, que se faz essencial. Para tanto, serão utilizadas rampas metálicas e simples adequações do nível dos acessos.
Sendo assim elencamos, a seguir, o programa pensado para a ocupação dos imóveis, com vistas às obras de restauro e sua posterior utilização, sempre em obediência ao rito legal e à aprovação do CONDEPHAAT:
Estação Ferroviária:
Saguão: Acesso / Recepção
Sala 01: Café
Sala 02, 03, 04, 05 e 06: Espaço Expositivo
Sanitários: WC Feminino, Masculino e PCD
Plataforma: mesas de jogos para uso livre e mesas do Café
Armazém:
Copa
Depósito
Sanitários: WC Feminino, Masculino e PCD
Salão: Multiuso e Cineclube
Área Externa: Parada de ônibus
Finalmente, sobre o coreto, as orientações para restauro são puramente conservativas e de manutenção, recuperando as estruturas e componentes construtivos. Exceção se faz à estrutura do lanternim e forros que precisarão ser substituídos por apresentarem mau estado de conservação, assim como as instalações elétricas.
Os demais elementos – caixilhos, alvenarias, pisos, cobertura, etc – deverão receber manutenção ordinária. Pede-se, no entanto, em ocasião das obras, que seja realizada uma prospecção no piso do nível do coreto para verificação de existência de ladrilhos sob o atual cimentado.
Vale ressaltar que a obra de restauro deverá ser documentada com desenhos técnicos, fotografias, croquis, e toda forma de registro que se fizer necessária. Essa documentação deverá ser enviada para compor o processo do Condephaat, constituindo referência para futuras pesquisas a respeito das edificações.
Estudo de layout proposto para o prédio da Estação Ferroviária
Estudo de layout proposto para o prédio do Armazém
Estudo de implantação para o Complexo Ferroviário
Estudo de restauro proposto para o Coreto
Perspectiva Volumétrica - Conjunto Estação e Armazém
Perspectiva Volumétrica - Área de Embarque e Desembarque - Estação Ferroviária
Perspectiva Volumétrica - Rampa de Acessibilidade - Armazém
Perspectiva Volumétrica - Área Interna - Armazém