Rafael Padilla nasce em Cuba entre 1865 e 1869 – ninguém sabe ao certo. Possivelmente escravizado. Seu nascimento não foi registrado. Apesar do tráfico negreiro ter sido proibido em 1880, Cuba é o penúltimo país da América a abolir a escravatura em 1886.
Algumas fontes indicam que Rafael é de um 17 de setembro, em qualquer ano antes de 1870, pois a partir desse ano a corte espanhola emancipou todos os escravizados nascidos, em uma espécie de “lei do ventre livre”.
Chocolat é um ator cômico, bom na dança e na mímica e se transforma em atração solo em uma pantomima – um gênero da arte mímica em que o ator, silencioso, com o rosto pintado de branco, luvas, executa ilusões no espaço, normalmente com caráter cômico, contando uma história. O espetáculo se chama “O casamento de Chocolat”, é um grande sucesso e fica cinco anos em cartaz no Novo Circo.
Durante esse período, também, Rafael encontra o amor de sua vida, Marie Hecquet, uma mulher casada, com dois filhos, que se divorcia para ficar com ele.
Em 1895, o diretor do Novo Circo propõe um novo duo para Rafael, o juntando com o inglês George Foottit, que viria a se tornar seu parceiro de longa data. Juntos, Foottit & Chocolat criaram a base de um dos esquetes mais famosos do mundo da comédia: os “tapas cômicos” – Foottit, o sério e inteligente, bate sem dó em Chocolat, o bobo amigável e dócil. Até hoje essa fórmula é replicada em espetáculos circenses e na televisão. Footit & Chocolat eram sucesso absoluto. Encantaram multidões no final do século XIX.
Um novo e ótimo contrato para uma residência em Paris viria a ser o auge de sua carreira. Muitas pessoas nunca haviam visto um negro. As crianças passavam o dedo em Chocolat e se surpreendiam por não soltar tinta. Chocolat tinha consciência do racismo, combatia os estereótipos, mesmo apanhando durante os espetáculos. Fazia questão de mostrar seu talento e habilidades circenses para o público.
Fora do picadeiro, andava com os melhores ternos e jóias para ostentar o seu poder econômico, mas se envolveu com drogas e jogos de azar. Rafael vivia em um mundo único. Era um ator de sucesso, tinha muito dinheiro, mas não tinha documentos e sua pele era preta – características que causavam estranheza na sociedade e na polícia. A falta de uma carteira de identidade, de uma certidão de nascimento, de uma carta de alforria, de um papel legal que atestasse a sua liberdade de existir o levou para atrás das grades. Na prisão, ele conhece um ativista que influencia o seu olhar sobre si mesmo. Livre, Rafael passa a exigir salário igual ao de seu parceiro, a querer ser retratado nos cartazes de divulgação dos espetáculos com suas feições e não como um animal. Para a branquitude da época, entretanto, era demais.
Em 1905, o Novo Circo não renova seu contrato e a dupla passa a se apresentar no Folies Bergère, uma casa de música parisiense do tipo cabaré. É o início do século XX e logo eles são substituídos por grupos de negros norte-americanos que apresentavam o Cakewalk, uma dança tipicamente negra norte-americana que satirizava a dança dos brancos senhores de escravizados. A dança era uma novidade na Europa e, mesmo satirizando a branquitude, fazia sucesso.
A dupla retorna para o “Novo Circo” em 1909, mas sem a fama de antes.
No ano seguinte, a separação definitiva da dupla é anunciada nos palcos. Foottit é convidado pelo diretor Andre Antoine para interpretar um palhaço em Romeo e Julieta no Teatro Odeon em Paris e conta para a plateia:
“Vou interpretar Romeu no Odeon!”
Chocolat rebate:
“E daí? Estou interpretando Otelo no Comédie-Française!”
Chocolat abandona o picadeiro, quer ser ator de teatro e estreia com a peça Otelo. Pela primeira vez na França, o protagonista negro da peça de Shakespeare é interpretado por um ator negro. Mas o personagem não agrada o público. E Chocolat não se adapta à carreira solo e desenvolve a doença do alcoolismo.
Termina a vida do primeiro ator negro a fazer sucesso na França. Rafael Chocolat morre em 4 de novembro de 1917, na cidade de Bordéus, na França. Quase um século depois de sua morte, sua história é revisitada com Chocolat, de 2016. O palhaço negro é interpretado ator Osmar Sy, que propõe uma reflexão sobre do ator:
“Nascer escravo, fugir e se tornar um é um percurso inacreditável. Imagina a dose de coragem e trabalho que ele precisou ter para chegar lá. “Nascer escravo, fugir e se tornar um artista é um percurso inacreditável. Imagina a dose de coragem e trabalho que ele precisou ter para chegar lá. Será que o fato de ter superado essas etapas todas da vida e chegar onde chegou não é por si algo forte? Achei igualmente interessante a história de sua chegada ao sucesso e sua queda. Chocolat fazia rir através dos estereótipos que havia sobre os negros (…) Será que podia fazer outra coisa para além de se mover com este estandarte preto? Ele é preto. Há nele uma forma militante e livre de viver a sua época sem se questionar. Vive a sua vida. É um artista e, apesar de tudo, é uma sátira da sociedade…”
Reprodução: Primeiros Negros