Ghislaine Teixeira de Macedo
Anágela Cristina Morete Felix
Gisele Cristina Cardoso Roque
Gláucia Luciana de Almeida Ferreira Silva
Fabiana Regina Cinegaglia
Lidiane Chaves Zeferino
Mariana Martins Pereira
Rossanne Ferreira Diniz Shimzu
O verbete aqui apresentado se estruturou a partir de três discussões que consideramos principais: o que são nexos conceituais e quais suas relações com o movimento histórico-lógico; a existência de nexos conceituais internos e externos e sua relação com o desenvolvimento do pensamento teórico.
Nexos conceituais são as relações entre os conceitos e só podem ser compreendidos a partir do estudo do movimento histórico e lógico do conhecimento.
Os nexos conceituais demonstram o movimento dos conceitos dentro de uma área do conhecimento e em relação a outras áreas, a partir de sua essência, superando seus aspectos aparentes.
Antes de outras discussões, é necessário destacar que o termo ‘nexos conceituais’ está diretamente relacionado à compreensão sobre o movimento histórico-lógico do conceito e da formação do pensamento teórico, sendo recomendável procurar tais verbetes neste glossário. Aqui, aproximaremo-nos da compreensão de pensamento e conceito.
Davydov entende que “o pensamento de um homem é o movimento das formas de atividade da sociedade historicamente constituídas e apropriadas por aquele” (DAVÝDOV, 1982, p. 279). O pensamento não é isento da influência da história do homem, suas experiências e sensações, tampouco da sociedade em que está inserido; pelo contrário, relaciona-se a estas vivências e decorre delas. Além disso, entende-se que para o conhecimento da realidade para além do que é sensível e aparente, há que se considerar processos de abstração, generalização e formação de conceitos em sua forma teórica, por meio dos quais elimina-se o que é circunstancial e pode-se destacar o necessário, o essencial. A partir de processos de abstração e generalização teórica que se revelam os fundamentos e nexos de fenômenos e objetos, suas causas e a lei que os rege (ROSENTAL; STRAKS, 1960).
A formação do humano se dá pela apropriação do conhecimento já constituído pela sociedade em que se vive. Tanto o pensamento quanto os conceitos elaborados pelo homem são construídos em um constante movimento que precisa ser mediado por conexões para que o conhecimento efetivamente aconteça. Tais conexões, no materialismo histórico-dialético, são compreendidas como nexos ou relações essenciais.
Vale destacar que os nexos internos diferem-se dos nexos externos, que ficam por conta da linguagem, focados no senso comum e que são confundidos com o conceito por muitos professores. Os nexos externos podem ser relacionados ao pensamento empírico, tendo em vista que ele “se constitui nos homens como uma forma verbalmente expressa e transfigurada da atividade dos “sentidos teóricos”, entrelaçados com a vida real. É um derivado direto da atividade sensorial objetiva dos homens” (DAVYDOV, 1972, p. 297). O pensamento teórico, por sua vez,
[...] tem seu conteúdo especial, distinto do conteúdo inerente do pensamento empírico: é o domínio de fenômenos objetivamente independentes inter-relacionados e constituindo um sistema abrangente. Sem ele e fora dele estes fenômenos só podem ser objetos de observação empírica.
(DAVYDOV, 1972, p. 306, tradução nossa).
Desta forma, adotando a distinção entre ‘nexos internos’ e ‘nexos externos’, entende-se que não é possível atingir formas teóricas de pensamento sem considerar os nexos internos do conceito estudado. Contudo, nem todos os autores utilizam esta separação de termos, o que será discutido a seguir.
Para Sousa (2014), os nexos internos denominados por Kopnin (1961, [1978]) e Davýdov (1972, [1982]), são chamados de nexos conceituais ou nexos internos do conceito. Ainda para a autora, “nexos conceituais são como os elos que fundamentam os conceitos” (SOUSA, 2018, p.50), isto é, “o elo entre as formas de pensar o conceito” (SOUSA, 2018, p.51). Concordando com esta autora, este texto irá adotar a nomenclatura ‘nexos conceituais’, somente para os nexos internos. Os nexos externos não podem ser considerados como conceituais, pois revelam apenas os aspectos externos do conceito, que, por vezes, aparecem nos currículos e na prática do professor, muitas vezes sem fundamentação científica. Todavia, mantém-se a utilização do termo ‘nexos externos’ para se referir aos aspectos externos, aparentes, casuais e não essenciais do conceito. Estes são derivados do que é casual, e para Rosental e Straks:
a casualidade é o que tem seu fundamento e causa fora de si, em outra coisa, não em si mesmo, não na essência dos fenômenos, dos processos, dos feitos mesmo, nem das coisas, é o que emerge de nexos acidentais ou externos, não dos nexos e vínculos internos, e o que em virtude disso, pode ser ou não ser, ou que pode suceder, assim ou de outro modo (1930, p.129).
A partir dessa definição, podemos entender um pouco mais sobre a relação entre os nexos conceituais e o desenvolvimento do pensamento teórico.
Nexos conceituais configuram-se no meio pelo qual os aspectos lógicos do conceito unem-se dialeticamente aos seus aspectos históricos, vinculando a gênese do conceito por meio da história de sua formulação, considerando as contribuições humanas, a fim de possibilitar ao aprendente um pensamento teórico que leve em consideração não só os aspectos externos do objeto estudado. Para Sousa (2018, p.50): “Os nexos conceituais contêm a lógica, a história, as abstrações, as formalizações do pensar humano no processo de constituir-se humano pelo conhecimento”. Nesse sentido, os denominados conteúdos escolares revelam nexos conceituais internos e externos. No entanto, os nexos internos mobilizam o movimento de apropriação do conceito pelo estudante de forma diferente dos nexos externos, que dão poucas possibilidades ao indivíduo para elaborar o conceito.
Nexos externos consistem nas particularidades aparentes do conceito, sem denotar sua história, limitando-se a uma visão estática do objeto de estudo, pois não abarcam os elementos constitutivos que deram origem a esse conceito, configurando-se na sua linguagem de comunicação.
Os nexos externos são explicitados na sala de aula, a partir dos aspectos simbólicos contidos nos conceitos. É como se os símbolos tivessem vida própria; falassem por si só. Aqui, os conceitos são apresentados, em seu último estágio de rigor, a partir de alguns experimentos ou memorizações. ainda Não de há preocupações em analisar mudanças históricas, ou ainda, as sínteses históricas que se apresentam nos conceitos matemáticos (SOUSA; MOURA, 2016, p. 2).
Os nexos internos explicitam o processo histórico de criação humana de um conceito, bem como as necessidades que o geraram, possibilitando assim ao aprendente apropriar-se de relações a partir de formas de pensamento teóricas. Ao compreender a motivação do conhecimento teórico e apropriar-se dele, o sujeito se humaniza, uma vez que os conceitos são flexíveis, pois carregam movimentos de todo trabalho em que foram gerados.
Por meio das ações perceptivas sensoriais é possível captar o objeto tal como ele é; como já existe. Entretanto, para revelar como ele chegou a vir a ser o que é, é necessário revelar os nexos internos e que não são observáveis. Esta é a função do pensamento teórico: “[...] é abarcar toda a representação em seu movimento, ou seja, expressar todo o conjunto dos dados sensoriais em desenvolvimento, e para isso é necessário o pensamento dialético” (DAVÝDOV, 1982, p. 328).
Os nexos conceituais são lógico-históricos e se apresentam no movimento do pensamento tanto daquele que ensina como daquele que aprende (SOUSA, 2014). Esse movimento do pensamento possibilita reconhecer diferentes nexos relativos a um mesmo conceito.
Corroborando com Davydov no sentido do pensamento como forma do movimento humano, não encerramos esse verbete, mas, na verdade, evidenciamos a necessidade do aprofundamento neste tema, bem como dos estudos desse grupo, pois as proposições que norteiam as compreensões de nexos conceituais não se definem em si só, mas abrem precedentes para novas discussões.
FABRI, G. J. C. Nexos conceituais da estatística manifestados por professores em formação na Oficina Pedagógica de Matemática. 2022. Dissertação (Mestrado em Formação Científica, Educacional e Tecnológica) - Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2022. Disponível em: https://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/handle/1/29436
SOUSA, M. do C. de. O ensino de álgebra numa perspectiva logico-histórica: um estudo das elaborações correlatas de professores do ensino fundamental. 2004. 285 p. Tese (Doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação, Campinas, SP. Disponível em: https://hdl.handle.net/20.500.12733/1597573
O texto que você acabou de ler é um verbete do livro "Verbetes da Atividade Orientadora de Ensino".
Acesse em o livro em: Verbetes da AOE
Referência:
OLIVEIRA, Natalia Mota; PANOSSIAN, Maria Lucia (org.). Verbetes da atividade orientadora de ensino: grupo de estudos sobre situações desencadeadoras de aprendizagem. Capivari de Baixo: Editora Univinte, 2022.