Ana Paula Gladcheff
Camille Bordin Botke Milani
Lukas Adriel Francisco Alves
Maria Marta da Silva
Moisés Alves Fraga
A linguagem, desenvolvida pela necessidade de comunicação entre os sujeitos sociais, é apresentada neste texto a partir de nossos estudos fundamentados nas ideias de Vigotski, Leontiev, Luria e outros autores da Teoria Histórico-Cultural. Mostramos que a linguagem é um instrumento fundamental para o processo de apropriação da experiência humana acumulada historicamente. Terminamos nossa exposição destacando a palavra como a principal ferramenta de trabalho do profissional da educação.
A linguagem, fruto da necessidade de comunicação entre os sujeitos sociais, pode ser entendida como um instrumento determinante para a produção e apropriação do conhecimento humano, conferindo ao homem a condição de superar os limites da experiência sensorial, particularizar as especialidades dos fenômenos e estabelecer generalizações. É por meio da linguagem que há possibilidade de generalização e transmissão da experiência da prática sócio-histórica da humanidade.
À luz da perspectiva marxista, podemos afirmar que a especificidade da atividade humana, perante o comportamento animal, é constituída pela capacidade de assimilar a experiência da humanidade acumulada no processo histórico-social e transmissível nas relações humanas. Esse processo torna-se possível a partir das relações do homem com os fenômenos da realidade por meio da comunicação com outros homens. Vigotski (2007) afirma que a atividade e a consciência humana interconectam-se socialmente pela realidade objetiva. Esta, por sua vez, é influenciada pelos processos de mediação que (re)organiza e (re)cria a realidade objetiva. Por meio desse movimento, é possível desencadear no sujeito formas psíquicas qualitativamente novas e superiores que, com o auxílio de estímulos extrínsecos, provocam nele o controle de seu próprio comportamento.
Em vista disso, baseado em Marx, Leontiev (1978, p. 85) indaga:
Mas então, sob que forma concreta opera realmente a consciência da realidade circundante? Esta forma é a linguagem que, segundo Marx, é “a consciência prática” dos homens. Razão por que a consciência é inseparável da linguagem. Como a consciência humana, a linguagem só aparece no processo do trabalho, ao mesmo tempo que ele. Tal como a consciência, a linguagem é o produto da coletividade, o produto da actividade humana, mas é igualmente “o ser falante da coletividade” (Marx); é apenas por isso que existe para o homem tomado individualmente.
Logo, é por meio da linguagem que o sujeito se apropria da experiência acumulada historicamente.
A linguagem é aquilo através do qual se generaliza e se transmite a experiência da prática sócio-histórica da humanidade; por consequência, é igualmente um meio de comunicação, a condição da apropriação pelos indivíduos desta experiência e a forma da sua existência na consciência. (LEONTIEV, 1978, p. 172).
Mediada pela linguagem, é na interação social que o sujeito constrói a sua própria singularidade. Corroborando tal ideia, Luria (1991) defende que a linguagem se transformou em instrumento determinante do conhecimento humano, conferindo ao homem a condição de superar os limites da experiência sensorial, particularizar as especialidades dos fenômenos e estabelecer generalizações, podendo distingui-la como aspecto da atividade coletiva humana. Assim, para Luria (1991, p. 124), a “linguagem não é apenas um meio de generalização; é, ao mesmo tempo, a base do pensamento”.
O homem que vive em sociedade está sempre subordinado às influências do outro por meio da linguagem. Na Teoria Histórico-Cultural, a influência da linguagem é determinante para o desenvolvimento do pensamento conceitual, visto aqui como aquele relacionado às operações teóricas próprias do uso de instrumentos culturais, ou signos, em que a classificação dos objetos baseia-se no significado social que o objeto assume como termo linguístico (BERNARDES, 2008). É nesse contexto, ao serem estabelecidas as relações sociais por meio da atividade coletiva de trabalho, que surge o que podemos compreender como a fundamental forma de linguagem humana: a fala, resultado de um sistema de códigos cujo elemento essencial é a palavra. A linguagem nasce da necessidade de comunicação entre os sujeitos, e a palavra tem o papel de conter a generalização “como modo absolutamente original de representação da realidade na consciência” (VIGOTSKI, 2009, p. 407). Contudo, nem sempre a linguagem é expressa verbalmente e pode aparecer frequentemente de formas combinadas associando o desenho, o gesto e a entonação da palavra oral à palavra escrita (BERNARDES, 2000).
Isso nos permite apreender que a interface entre pensamento e linguagem interna, que se desdobra na linguagem externa, não ocorre exclusivamente por meio da palavra, podendo o sujeito fazer uso de sistemas de significação não verbais instituídos na cultura para comunicar o sentido pessoal acerca do objeto de estudo. Ou seja, “[..] o pensamento não se reflete na palavra, realiza-se nela” (VIGOTSKI, 2001 p. 342). Essa realização pode, segundo Bernardes (2000), sofrer transformações nas significações da palavra como formas desdobradas do pensamento dos próprios sujeitos a partir das relações com o outro, das interações, da atuação do outro, de maneira que medeie o movimento de transformação intencionalmente orientado e organizado.
O intuito dessas mediações propostas por esse outro — que pode ser o professor — é de criar situações que promovam a consciência do significado social das palavras utilizadas por eles no movimento de surgimento do pensamento. Deste modo, o pensamento, para que possa ser compreensível e passível de ser comunicado aos outros, deve ser transformado em um sistema de códigos estabelecido socialmente e que proclame as suas relações semânticas (BERNARDES, 2008). Carece, ainda, ser distendido em desempenhem enunciações o desígnio que da comunicação. A enunciação verbal desdobrada, segundo Luria (1983), compõe-se como um preceito extraordinário e completo pertencente à espécie humana.
Em todo esse processo de individualização da consciência, o mais importante sistema de signos é a linguagem, pois o sujeito nasce inserido numa determinada organização social e, para humanizar-se, há que se apropriar da cultura. Nesse movimento, a consciência vai deixando de ser guiada apenas por necessidades (que antes de serem individuais, são sociais) e passa a ser compreendida nas relações que são estabelecidas por meio da linguagem e do pensamento — agora enquanto unidade.
Então, a linguagem possibilita ao sujeito apropriar-se dos significados sociais presentes na realidade circundante. Nesse processo, ele também atribui sentidos pessoais a esses significados, estes que decorrem de sua atividade.
Assim, a linguagem expressa a subjetividade humana em seus diferentes aspectos, viabilizando a configuração do fenômeno em movimento. Ela é matéria-prima e componente que sustenta as funções interiores do comportamento; sendo que tais processos acontecem simultaneamente.
A linguagem é uma via que tanto institui como comunica os inúmeros sentimentos e habilidades objetivadas. Nesse sentido, com a internalização do discurso, o sujeito passa a arbitrar sobre seus próprios pensamentos, permeado pelos recursos da linguagem. Logo, faz com que a imaginação seja impossível sem a linguagem (VIGOTSKI, 2008).
Deduzimos, portanto, que a psiquê, em toda sua complexidade, origina-se no plano social graças à atividade produtiva. Individualiza-se pelas interações que têm na linguagem o veículo fundamental e, novamente, pelos mesmos meios, socializa-se. É essa a dialética responsável pelo psiquismo humano.
A linguagem, segundo analisamos, interfere na formação e no funcionamento de todos os processos psíquicos. Contudo, é na relação com o pensamento que suas implicações se mostram fundamentais e decisivas, pois está intimamente ligada a ele. Não é anterior nem posterior ao pensamento; ambos se elaboram juntos no trabalho e por meio dele, motivo pelo qual a linguagem só reflete o que é produzido no contexto das relações sociais mediadas. Logo, entendemos linguagem e pensamento como unidade constituída na atividade coletiva.
Ao considerarmos que o objetivo da educação escolar é organizar o ensino de modo a dar condições para que os estudantes se apropriem dos conceitos científicos e desenvolvam o pensamento teórico, destacamos a mediação de um conteúdo por meio da linguagem. Esta, na acepção de Moura (2004), é essencial para o trabalho do profissional da educação, visto que é a palavra sua principal ferramenta.
Sujeitos que lidam com o conceito como ferramenta precisam ter acesso e meios que os levem ao entendimento de seu objeto de modo muito preciso, pois necessitam dar significado ao que ensinam para que os seus educandos possam ver sentido naquilo que lhes dizem ser importante de aprenderem. Aqui nos parece que está o primeiro e principal problema que devemos abordar na formação do professor. Esse é um profissional que poderíamos chamar de criador de sentido para o que é ensinado e sua ferramenta principal, é a palavra (MOURA, 2004, p. 258).
Sendo assim, podemos concluir que com a linguagem, o sujeito adquire um conjunto de riquezas produzidas pela humanidade. Esse processo pode ocorrer de maneira alienada ou instituir-se como fundamento para compreensão e transformação da realidade e de si mesmo.
VYGOTSKY, L. S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
LEONTIEV, A. N. Atividade, consciência e personalidade. Bauru: Mireveja, 2021.
O texto que você acabou de ler é um verbete do livro "Verbetes da Atividade Orientadora de Ensino".
Acesse em o livro em: Verbetes da AOE
Referência:
OLIVEIRA, Natalia Mota; PANOSSIAN, Maria Lucia (org.). Verbetes da atividade orientadora de ensino: grupo de estudos sobre situações desencadeadoras de aprendizagem. Capivari de Baixo: Editora Univinte, 2022.