Ana Paula Gladcheff
Camille Bordin Botke Milani
Lukas Adriel Francisco Alves
Maria Marta da Silva
Moisés Alves Fraga
Apresentamos aqui uma síntese de nossas discussões, baseadas nos fundamentos de Vigotski, Leontiev e outros pesquisadores, sobre o que compreendemos do conceito de mediação. O tema, complexo, está intimamente relacionado aos processos de aprendizagem e desenvolvimento. Por isso, o texto se desenrola a partir do destaque às relações sociais humanas.
A mediação, essencial para o processo de aprendizagem, é compreendida como um elo entre atividade e consciência humana que provoca transformações e promove desenvolvimento. É pela tríade sujeito-conhecimento-sujeito que a mediação se torna um conceito fundamental à aprendizagem que, ao ser intencionalmente organizada, conduz ao desenvolvimento humano.
Na perspectiva de Vigotski (2007), a mediação, por ele usada como fundamento para explicar o processo de aprendizagem, é compreendida como a interconexão entre o universo objetivo e o subjetivo. O autor estabelece, dessa forma, uma coerência teórica que pressupõe a mediação como criadora de possibilidades de (re)organização e (re)criação da realidade objetiva. A realidade está constituída como um elo entre a atividade e a consciência humana, que se interconectam socialmente. Nesse sentido, não é considerada como um simples elo, mas sim como uma “interposição que provoca transformações, encerra intencionalidade socialmente construída e promove desenvolvimento” (MARTINS, 2012, p. 3).
[...] Toda forma elementar de comportamento pressupõe uma relação direta à situação-problema defrontada pelo organismo — o que pode ser representado pela forma simples (S -- R) —, por outro lado, a estrutura de operações com signos requer um elo intermediário entre o estímulo e a resposta. Esse elo intermediário é um estímulo de segunda ordem (signo), colocado no interior da operação, onde preenche uma função especial; ele cria uma nova relação entre S e R. [...] Estudos cuidadosos demonstram que esse é um tipo básico de organização para todos os processos psicológicos superiores, ainda que de forma muito mais elaborada do que a mostrada acima. O elo intermediário nessa fórmula não é simplesmente um método para aumentar a eficiência da operação pré-existente, tampouco representa meramente um elo adicional na cadeia S-R. Na medida em que esse estímulo auxiliar possui a função específica de ação reversa, ele confere à operação psicológica formas qualitativamente novas e superiores, permitindo aos seres humanos, com o auxílio de estímulos extrínsecos, controlar o seu próprio comportamento (VIGOTSKI, 1999, p. 53-54).
Desse modo, relacionando-se com o mundo e a coletividade onde vive, o sujeito apropria-se do conhecimento historicamente produzido por meio de uma interação mediada por relações intra e interpessoais. A apropriação de tal conhecimento, dado pelas operações físicas e mentais que estão incorporadas nos instrumentos, sejam eles simbólicos ou materiais, dá-se por meio de uma atividade prático-teórica e, por isso, o processo de apropriação, mediado pelas relações sociais, mediante a comunicação entre sujeitos, é considerado um ‘processo de aprendizagem’ (ou processo de educação). Nesse sentido, Leontiev (1978, p. 272, grifos do autor) explicita que:
As aquisições do desenvolvimento histórico das aptidões humanas não são simplesmente dadas aos homens nos fenômenos objectivos da cultura material e espiritual que os encarnam, mas são aí apenas postas. Para se apropriar destes resultados, para fazer deles as suas aptidões, “os órgãos sua individualidade”, a criança, o ser da humano, deve entrar em relação com os fenômenos do mundo circundante através doutros homens, isto é, num processo de comunicação com eles. Assim, a criança aprende a actividade adequada. Pela sua função, este processo é, portanto, um processo de educação.
Dessa forma, os instrumentos físicos e simbólicos objetivam-se como um elemento mediador entre o ser humano e a natureza (da qual também é parte constitutiva), possibilitando-nos afirmar que as ações humanas são mediadas. Dado que a mediação permite essa relação entre atividade e consciência, confere formas psíquicas superiores. As qualitativamente funções humanas novas e surgem gradualmente e efetivam-se sempre no interior de relações concretas com outros indivíduos, que atuam como mediadores entre o indivíduo e o mundo humano; ou seja, o mundo da atividade humana objetivada (DUARTE, 2004). Conforme Marx, nas palavras de Leontiev (1978, p. 267, grifo do autor):
[...] Todas as suas (trata-se do homem – A. L.) relações humanas com o mundo, a visão, a audição, o olfacto, o gosto, o tacto, o pensamento, a contemplação, o sentimento, a vontade, a actividade, o amor, em resumo, todos os órgãos da sua individualidade que, na sua forma, são imediatamente órgãos sociais, são no seu comportamento objectivo ou na sua relação com o objecto a apropriação deste, a apropriação da realidade humana.
O princípio de tais funções, de acordo com Vigotski (2005), reside fora do indivíduo, nas ferramentas psicológicas e nas relações interpessoais, o que significa que, para se apropriar de algo (material ou simbólico), o sujeito primeiro se relaciona com ele por meio de atividades sociais (interpsíquico) para depois torná-lo para si (intrapsíquico) (VIGOTSKI, 2009). Na sua compreensão, é pela presença dos nexos, na qualidade de signos ou ferramentas, que se torna possível o aparecimento das funções psíquicas superiores e relata que:
Todas as funções psicointelectuais superiores aparecem duas vezes no decurso do desenvolvimento da criança: a primeira vez nas atividades coletivas, nas atividades sociais, ou seja, como funções interpsíquicas; a segunda, nas atividades individuais, como propriedades internas do pensamento da criança, ou seja, como funções intrapsíquicas (VYGOTSKI, 2005, p. 389).
Os estudos de Vigotski revelam a complexidade do conceito de mediação ao concentrar-se no processo de aprendizagem e destaca que “a aprendizagem não é desenvolvimento, mas, corretamente organizada, conduz o desenvolvimento mental da criança, suscita para a vida uma série de processos que, fora da aprendizagem, se tornariam inteiramente inviáveis” (VIGOTSKI, 2004, p. 484).
O processo de aprendizagem, por sua vez, pode ser direto ou indireto, intencional ou não, mas o importante é que ele sempre deve ocorrer. Sem ele, a transmissão dos resultados do desenvolvimento sócio-histórico da humanidade para as gerações seguintes seria impossível, assim como a continuidade do progresso histórico. Isso significa que é somente na tríade sujeito-conhecimento-sujeito que a mediação se torna um conceito fundamental à aprendizagem e, consequentemente, ao desenvolvimento humano (SFORNI, 2001).
No que tange o desenvolvimento psíquico, a relação professor-aluno tão somente se concretiza quando a atividade pedagógica dispõe os conteúdos escolares como elementos mediadores da ação dos alunos, ou seja, de modo que eles sejam capazes de realizar intencional e conscientemente as ações mentais objetivadas nos conteúdos, isto é, conhecimentos historicamente produzidos.
Tanto Vigotski (1999) como Leontiev (1978) ressaltam a característica da mediação entre o conhecimento e o aluno durante o processo de apropriação dos produtos culturais por estes seres humanos em desenvolvimento. Assim, é possível compreender a relevância da atividade pedagógica como mediadora entre sujeitos, bem como reconhecer o conhecimento, por possuir especificidades no processo educativo existente na educação formal, por esta possuir como finalidade a garantia de que os alunos se apropriem do conhecimento elaborado e não do conhecimento espontâneo; do saber sistematizado e não do saber fragmentado (SAVIANI, 2011).
Destacamos, portanto, a necessidade de se compreender a mediação no processo de ensino para além de relação interpessoal ou presença corpórea entre professor e aluno. O essencial é a ação sobre e com objetos específicos — os elementos mediadores, que podem ser representados pelos conteúdos —, que realmente devem ser o foco da práxis pedagógica, acompanhado da forma que esse conteúdo estará organizado para o ensino para que se torne próprio ao aluno. Moura (2012, p. 148) afirma que os conteúdos são identificados como “sínteses produzidas por certos grupos sociais ao lidarem com problemas, fruto de necessidades físicas ou psicológicas, cujas soluções puderam permitir uma vida melhor”. Portanto, considerados como objetivo social a serem trabalhados em sala de aula, de modo a permitir a integração de novos sujeitos na dinâmica da sociedade da qual faz parte, tais conteúdos passam a ter uma história, que é a da humanidade ao resolver problemas (CARAÇA, 2010).
Isso sugere compreendermos que as ações docentes voltadas a criar situações que promovam aprendizagem e desenvolvimento humano, de modo intencionalmente organizado, assim como a mediação entre sujeito e mundo, principiam muito antes da aula propriamente dita. Inicia-se quando o professor, em atividade, planeja ações de ensino, das quais destacamos a organização de situações desencadeadoras de aprendizagem, que envolvam a linguagem, a qual se materializa na comunicação prática e verbal entre professor e aluno, ou alunos e alunos, em torno das ações com o objeto da aprendizagem, que são os conteúdos escolares.
BERNARDES, M. E. M. Mediações simbólicas na atividade pedagógica: contribuições do enfoque histórico-cultural para o ensino e aprendizagem. 2006. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-05122007-145210/pt-br.php
BERNARDES, M. E. M. A educação como mediação na teoria histórico-cultural: compromisso ético e político no processo de emancipação humana. Rev. psicol. polít., v. 10, n. 20, jul./dez, p. 293–296. 2010. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-549X2010000200008
LEONTIEV. A. N. Atividade, consciência e personalidade. Bauru: Mireveja, 2021.
VIGOTSKI, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 7 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
O texto que você acabou de ler é um verbete do livro "Verbetes da Atividade Orientadora de Ensino".
Acesse em o livro em: Verbetes da AOE
Referência:
OLIVEIRA, Natalia Mota; PANOSSIAN, Maria Lucia (org.). Verbetes da atividade orientadora de ensino: grupo de estudos sobre situações desencadeadoras de aprendizagem. Capivari de Baixo: Editora Univinte, 2022.