A arte da guerra baseia-se no engano. Portanto, quando és capaz de atacar, deves aparentar incapacidade e, quando as tropas se movem, aparentar inatividade. Se estás perto do inimigo, deves fazê-lo crer que estás longe; se longe, aparentar que se está perto.
Sun-Tzu, A Arte da Guerra
CORRER ATRÁS DE FANTASMAS
Domingo, 3h15m, madrugada de 22 de Junho de 1941.
Na véspera, o Oberkommando der Wehrmacht (OKW) havia emitido a palavra de código «Dortmund» e com ela a ordem irreversível para o início da invasão da União Soviética. Três grupos de exércitos da Wehrmacht atacam a Pátria do Socialismo numa frente que se estende desde os Cárpatos até ao Mar Báltico, dando cumprimento à «Directiva 21» («Operação Barbarossa»), assinada por Adolfo Hitler em 18 de Dezembro de 1940.
Aí se determina que:
O exército terá que empregar todas as formações disponíveis para este fim, com a reserva de que os territórios ocupados devem ser protegidos de contra-ataques de surpresa. A Força Aérea disponibilizar-se-á para a campanha a Leste, apoiando com forças de tal poder que permitam que o Exército seja capaz de levar as operações terrestres a uma rápida conclusão e que a Alemanha Oriental não seja, tanto quanto possível, afectada por ataques aéreos inimigos (…) A maior parte do exército russo estacionado na Rússia Ocidental será destruído por operações lideradas por ousadas pontas de lança blindadas penetrando profundamente no dispositivo inimigo. As forças russas ainda capazes de dar batalha serão impedidas de retirar para as profundezas da Rússia. O inimigo será, então, energicamente perseguido e será alcançada uma linha a partir da qual a Força Aérea da Rússia já não possa atacar o território alemão. O objectivo final da operação é o de erguer uma barreira contra a Rússia asiática na linha geral Volga-Arcangel. As áreas industriais remanescentes da Rússia, nos Urais, poderão em seguida, se necessário, ser eliminadas pela Força Aérea.
No seu Diário de Guerra referente ao dia 22 de Junho, o general Franz Halder, chefe do OKW, relata que:
O inimigo foi surpreendido pelo ataque alemão. As suas forças não se encontravam em disposição táctica defensiva (…) Após o primeiro choque, o inimigo começou a combater (…) contudo verificaram-se operações de retirada e fuga desordenada (…) Em alguns sectores não existe comando ao nível superior (…). O avanço das forças alemãs é de tal forma rápido que não há tempo para desarmar a totalidade das forças russas que são ultrapassadas e cercadas.
Na entrada do dia seguinte, acrescenta:
Parece que os movimentos locais de retirada do Exército [Vermelho] e da Força Aérea ocorrem sob pressão do nosso avanço, sendo por isso impossível de momento falar em retirada organizada.
Nesses primeiros dias, o avanço do Panzergruppe II foi de tal forma vertiginoso379 que o seu comandante, general Heinz Guderian, teve de agradecer a vida à perícia do seu motorista, que manobrando de rompante pelo meio das colunas de tropas soviéticas evitou que os espantados soldados tivessem sequer tempo de colocar o general alemão na mira das suas espingardas.
Heinz Guderian tinha como oponente directo o tenente-general D. Pavlov, que contava sob o seu comando com algumas das mais importantes e fortemente armadas forças militares da União Soviética. Entre as quais o III, o IV e X Exércitos concentrados nas proximidades da linha de fronteira soviético-alemã, no interior do enclave de Bialystok, mantendo ainda em reserva o XIII Exército, recém-instalado na Frente.
No primeiro dia de desenvolvimento da «Operação Barbarossa», fiéis à sua doutrina, os blindados alemães limitaram-se a contornar as unidades inimigas potencialmente mais resistentes e avançaram rapidamente para a sua retaguarda.
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E SE TUDO ISSO MARCHASSE CONTRA NÓS?
No Verão de 1941, o Exército Vermelho sofreu derrotas militares e consequentes perdas humanas e materiais, sem precedentes quantitativos absolutos na História da Humanidade e só comparáveis na relação entre perdas sofridas e infligidas aos confrontos entre as tropas europeias e os seus oponentes nativos nas Américas e em África, pelo início do período colonial.
Na historiografia soviética, essas derrotas, talvez mesmo massacres foram explicados como derrotas ocasionais em batalhas de fronteira, provocadas pela surpresa, pela falta ou obsolescência dos meios de combate, ou numa explicação simultaneamente mais querida à nomenklatura soviética, mas horrível nos seus fundamentos e nos milhões de vítimas que provocou, ou seja, como uma «brilhante estratégia do Camarada Estaline para desgastar as forças fascistas, fazê-las deslocar para o interior da União Soviética para então lhes aplicar o coup de grâce e assim garantir a vitória».
Como contrariar o facto de o ataque das tropas nazis ter ocorrido sem declaração prévia e logo tomado o pacífico povo soviético de surpresa quando este se dedicava por inteiro a construir a felicidade e o bem-estar?
Como não aceitar que nestas circunstâncias pudessem ter ocorrido «derrotas momentâneas» ou «perdas em combates de fronteira»?
Nesse primeiro mês de combate, o Exército Vermelho foi afectado por uma catástrofe sem paralelo que o fez recuar até 500 quilómetros, perder mais de 700 000 km2 de território, bem como o grosso dos equipamentos que haviam sido construídos nos últimos dois Planos Quinquenais e cuidadosamente concentrados junto às fronteiras com a Alemanha.
Em meados de Julho, as 70 divisões inicialmente acumuladas a 22 de Junho de 1941 nas frentes Noroeste e Oeste, haviam sido derrotadas e os seus soldados dispersos ou aprisionados. Duas semanas mais tarde, mais 60 divisões, encaminhadas para os mesmos locais, tinham sofrido o mesmo destino. Em consequência, cerca de 12 000 tanques, 1 milhão de armas pessoais, 19 000 canhões e morteiros e 10 000 aviões, acabaram destruídos ou capturados pelo inimigo após abandono.
Nenhum exército no mundo, e mesmo o somatório dos maiores 5 exércitos da época, excluindo os contentores, possuíam, no seu conjunto, tal quantidade de armas nos seus arsenais.
O material destruído só nas primeiras semanas de combate testemunha que o Exército Vermelho, pelo menos no que diz respeito à disponibilidade de armamento, não foi vítima de um ataque surpresa.
Aliás, da análise historiográfica da Segunda Guerra Mundial, concluímos que os únicos países que reclamaram serem atacados de surpresa foram a União Soviética e os Estados Unidos, curiosamente os vencedores incontestados do conflito. Para todos os outros, a concentração de tropas junto às fronteiras ou amplos indícios de movimentos militares e diplomáticos esclareceram qualquer tipo de surpresa.
A mobilização, incluindo a chamada de recrutas ao serviço militar, a preparação da indústria para a produção de material militar, os meios de transporte, o trabalho político junto das populações, o armazenamento de munições e de matérias-primas, já se desenvolviam muito tempo antes da invasão.
Por outro lado, a própria filosofia política do Partido e do Estado soviético pressupunham que o objectivo final dos comunistas era o de espalharem, mais cedo ou mais tarde, pelo convencimento ou pela acção libertadora do Exército Vermelho, a doutrina socialista pelo mundo.
Armados desta doutrina ofensiva e exclusivista e acarinhados pela poderosa mão de Estaline, os estrategas soviéticos, independentemente de quem sobrevivesse às sucessivas purgas, desenvolveram um conjunto de planos, não para a guerra em abstrato, mas para confrontarem o exército alemão em concreto e o empurrarem até Berlim.
Entre Agosto de 1940 e Maio de 1941, foram desenvolvidos pelo Comando Geral Operacional do Exército Vermelho (Stavka), 5 variantes de um plano para a distribuição e movimentação das Forças Armadas, bem como a definição dos meios materiais necessários para o sucesso dessas operações. Em paralelo com o seu aperfeiçoamento, esses planos, bem como os meios adstritos, foram testados em jogos de guerra levados a cabo em Janeiro de 1941.
O que permitiu a Estaline decidir pelo movimento em «Corte de Foice» com o centro de rotação das operações estendendo-se até à Roménia, em prejuízo da versão que previa o ataque principal a norte contra a Prússia Oriental.
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O INIMIGO AMEAÇA AS NOSSAS FRONTEIRAS
Apesar de não estarem muito convictos de que tal pudesse acontecer, os próprios alemães não descuraram a possibilidade de um ataque soviético de surpresa, no momento em que se encontravam na fase de concentração de forças, em que parte das unidades ainda se encontravam em trânsito ferroviário ou não tinham chegado às suas posições de combate, e parte do material ainda estava a ser descarregado ou alojado em depósitos e, portanto, de grande debilidade estratégica.
A 15 de Junho de 1941, o comandante do 4.º Exército, General-Fieldmarshall von Kluge, assina a ordem 45/41 «Sobre as Medidas Contra um Possível Ataque Russo».
Este documento refere que:
A situação geral, os nossos próprios preparativos e a tensão crescente não permitem considerar como impossível que os russos, tendo na primeira linha de combate a aviação (e forças páraquedistas), em parte por ataques terrestres e por diversões súbitas, sejam capazes de interferir com os nossos preparativos. Nesta possível situação, os esforços da ofensiva inimiga serão direccionados, em primeiro lugar, para as pontes sobre os rios, Vistula, Bug e Narev, e igualmente contra os pontos de armazenamento. Os previsíveis ataques poderão ocorrer não somente de dia, mas principalmente de noite.
Em seguida, ordena um conjunto detalhado de medidas, especificando os locais a proteger, as unidades envolvidas e a respectiva forma de actuar, mencionando 8 aspectos fundamentais: Instruções-Gerais; Protecção de pontes especificadas; Procedimentos e formas de actuação; Protecção dos pontos de armazenamento, com a sua localização e formas actuação; Medidas contra ataques aéreos e permissão de proceder ao abate dos infractores; Suspensão de Concentração e Coordenação com os caminhos-de-ferro.
Von Kluge acrescenta depois ter ordenado «repetidamente que o início dos movimentos finais de concentração deveria ser realizado sob disfarce de tempo de guerra. A observação aérea revelou violações graves, por exemplo, os veículos dispostas em fileiras e em linhas como em tempo de paz. Nenhum disfarce e dispersão da localização dos veículos, etc».
À boa maneira centralista, nenhum responsável militar soviético, a qualquer nível da hierarquia, estava autorizado a tomar quaisquer medidas sem uma autorização escrita de Moscovo, ordenando a abertura do «Envelope Vermelho» onde estavam registadas as instruções de procedimento a seguir. Muitos dirigentes militares nunca chegaram a receber essa ordem, e aqueles que a receberam, em muitos casos já se encontravam cercados e impossibilitados de cumprir quaisquer ordens de carácter ofensivo.
Por outras palavras, o planeamento soviético não resultou do desenvolvimento de medidas reactivas a um ataque alemão, previamente bem conhecidas e treinadas por todos os escalões das forças militares envolvidas, mas sim do cumprimento de directivas secretas de carácter ofensivo que só deveriam ser conhecidas e executadas, não como resposta de um ataque, mas na sequência de uma ordem de Moscovo.
M. Solonin cita um conjunto de documentos assinados a 4 de Junho de 1941 pelo vice-chefe do Estado-Maior do 5.º Exército (Distrito Militar de Kiev), tenente-coronel Davydov. Os documentos, todos idênticos, foram colocados em «envelopes vermelhos» no cofre do comandante de cada divisão. Todas as ordens começavam com a mesma frase:
O inimigo ameaça as nossas fronteiras ocidentais Por decisão do governo soviético e do Partido, as unidades de cobertura devem avançar para a fronteira internacional.
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MÉTODOS DE ENCOBRIMENTO EM TEMPOS DE PAZ
Após sucessivos Planos Quinquenais a produzir e acumular um pouco por toda a União Soviética quantidades colossais de armamento, munições, veículos de transporte e de combate, vestuário e recrutas, chegara a hora de lhes dar bom uso e retirar, finalmente, proveito de todo o esforço despendido.
A mobilização, concentração e disposição nas posições de partida de milhões de homens, milhares de tanques e aviões, equipamento logístico e tudo o que em geral é necessário para o desencadear de uma operação desta envergadura, deveria, segundo os militares soviéticos, demorar no mínimo 30 dias. Sempre no pressuposto de que as linhas de caminho-de-ferro se encontravam à inteira disposição.
Temos, porém, descrições de que todo o movimento de comboios de transporte para a fronteira foi efectuado com a máxima descrição e no maior segredo, sem alterações dos horários habituais em tempo de paz. Este procedimento determinou um atraso nos preparativos e na data de lançamento da operação. Estaline, bem consciente do valor supremo da surpresa, optou pelo sigilo com prejuízo da urgência.
Na fronteira Ocidental da União Soviética foram definidas cinco regiões militares que constituíam a primeira área estratégica do Exército Vermelho.
Na Distrito Militar Especial de Kiev encontravam-se estacionados cinco exércitos (31.º, 36.º, 37.º, 49.º e 55.º), apoiados na retaguarda por outros tantos corpos de infantaria e quatro motorizados, que por sua vez representavam cerca de 250 000 homens, milhares de canhões, uma dezena de milhar de metralhadoras e mais de seis mil veículos.
Trata-se da maior concentração de meios militares já reunidos na História num só local.
Por toda a fronteira Ocidental, o clima de tensão escalava e não era mais possível esconder dos militares e dos cidadãos as nuvens negras que se aproximavam.
Em 13 de Junho de 1941, é emitida a «Directiva do Comissário Popular (Narkom) da Defesa», Timoshenko, e do Chefe do Estado-Maior do Exército Vermelho, Jukov, para os responsáveis da Região Militar de Kiev. Este documento está arquivado no Ministério da Defesa da Federação Russa e foi à data classificado como «Confidencial - Importância Especial», o que significava a existência de uma só cópia e o mais alto grau de segredo que podia circular fora das paredes do Kremlin.
Neste documento era ordenado:
(…) para melhorar a prontidão de combate das tropas [a] transferência de todos os comandos e divisões para novas posições mais próximas das fronteiras [para as florestas junto a Kovel [na Bielorrússia] em sigilo completo e marchando durante a noite.
No final da primeira semana de Julho, o exército alemão defrontou o XVI Exército soviético na região de Shespetovka, na Ucrânia, sendo óbvio que estas tropas, anteriormente estacionadas no Trans-Baical, tiveram de ser mobilizadas e iniciado o seu transporte muito tempo antes do desencadear das hostilidades.
Sabemos hoje que a sua deslocação se iniciou exactamente entre 22-26 de Maio de 1941, tendo chegado à Ucrânia entre 17 Junho e 10 Julho, conforme se conclui da análise da «Directiva» de 12 de Junho, com as mesmas assinaturas e classificação de sigilo da anteriormente mencionada, da qual só três pessoas (generais Lukin e Lobarchóv e o coronel Shalin) tomaram conhecimento.
No geral, as tropas foram informadas de que se dirigiam para a fronteira iraniana, tendo sido deslocadas em vagões de carga idênticos aos que vemos nos documentários a transportar judeus para os campos de concentração, com portas e janelas fechadas, só circulando durante a noite, evitando parar demasiado tempo nas estações para que as populações das regiões atravessadas não tivessem noção do que era transportado.
Além da Distrito Militar Especial de Kiev, em todas as restantes quatro regiões militares que constituíam a primeira linha de concentração, ocorreram fenómenos idênticos. As tropas e os novos equipamentos chegavam do interior do país acompanhadas por instruções de deslocamento com toda a urgência para novas posições junto à fronteira e, tanto quanto possível, camufladas. Sempre com instruções de estarem preparadas para combate iminente.
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A DISPOSIÇÃO DAS FORÇAS MILITARES
Temos hoje à nossa disposição documentação que nos elucida detalhadamente sobre a constituição e disposição tanto das forças de infantaria soviéticas como da Força Aérea, no dia 22 de Junho de 1941.
Por directiva do Estado–Maior das Forças Terrestres de Agosto de 1990, temos igualmente acesso à relação completa das forças blindadas existentes entre 1941 e 1945.
É assim possível traçar com rigor o local de concentração e o itinerário e em muitos casos obter relatórios de combate das principais divisões e mesmo regimentos do Exército Vermelho em Junho de 1941.
A credibilidade desses relatórios, preparados por oficiais que em muitos casos pretendiam simultaneamente garantir o seu espírito combativo e justificar a razão da destruição das suas unidades, muitas vezes sem qualquer confronto digno desse nome, é matéria que analisamos em função do contexto geral.
Não é possível no âmbito deste trabalho detalharmos individualmente o historial de vida e morte de todos os Corpos Mecanizados do Exército Vermelho. Criados para serem as mais poderosas formações blindadas jamais constituídas até aquela data, verdadeiras pontas de lança do poder ofensivo do RKKA, estas formações foram logo nos primeiros dias de operações, ultrapassadas, cercadas, abandonadas pelos seus militares em fuga e depois eliminadas do quadro de existências do exército.
Limitaremos o âmbito deste trabalho a casos específicos que, por serem paradigmáticos, traduzem de forma fiel o historial do conjunto.
Em Junho de 1941, existiam 8 Corpos Mecanizados no Distrito Militar Especial de Kiev (KOVO), os XXII, XV, IV, VIII, XVI, IX, XIX e XXIV, em cujos inventários constavam 4 808 tanques.
Nessa data, os soviéticos concentraram no interior de um enclave centrado na cidade ucraniana de Lviv, que reentrava profundamente em território alemão, alguns dos seus Corpos Mecanizados cujo potencial combativo e modernidade de equipamentos (KV-1 e T-34) os tornavam nos mais poderosos Corpos do Exército Vermelho, nomeadamente os IV, VI, VIII e XV.
O IV Corpo Mecanizado, comandado até Julho de 1941 pelo major-general A. A. Vlasov440, estava equipado em 22 de Junho com 101 tanques KV; 313 T-34; 290 BT, entre outros tanques médios e pesados, num total de 892 unidades. No dia 15 de Julho, estava reduzido a 68 unidades, das quais 6 KV e 39 T-34, e no dia 1 de Agosto apenas restavam 3 T-34.
O VI Corpo Mecanizado incluía duas divisões blindadas e uma motorizada, com 114 tanques KV, 238 T-34, entre outros, no total de 1 022 tanques e 229 veículos blindados.
O VIII Corpo Mecanizado integrava a 22 de Junho de 1941, 171 KV e T-34, num total de 921 tanques médios e pesados. A 7 de Agosto de 1941, restavam 57 tanques.
Dos 31 927 oficiais e praças que serviam este Corpo Mecanizado em 22 de Junho, já só restavam 17 637 a 1 de Agosto de 1941.
O XV Corpo Mecanizado comportava 136 tanques KV e T-34 e vários de outros tipos, perfazendo um total de 738.
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O MISTÉRIO DOS TANQUES DESAPARECIDOS
A 10.ª Divisão Blindada, em particular, possuía a 22 de Junho no seu inventário 363 tanques operacionais.
Porém, passados quatro dias já só restavam 39 unidades, sendo que 95 tinham sido perdidas em combate ou em resultado de ataques aéreos. Quanto aos restantes 230 blindados retirados do inventário, nomeadamente 97 T-34 e KV-1 foram, na expressão do seu comandante, «abandonados devido a avarias de diferente natureza durante a retirada, impossível de reparar ou evacuar».
Seria talvez mais simples dizer que estes equipamentos foram abandonados na beira de uma qualquer estrada por tripulações em pânico que não tiveram sequer condições ou tempo para os sabotar e impedir assim a sua utilização pelos alemães.
Sendo certo que o número de tanques efectivamente destruídos em combate possa sofrer alguma contestação, o que é aceite por todas as fontes é que seguramente mais de metade das unidades disponíveis «desapareceram» da contabilidade da 10.ª Divisão Blindada por abandono, destruição nos locais de concentração, falta de combustível e lubrificantes, etc.
A 6 de Julho, esta Divisão já só contava com 20 tanques de todos os tipos.
O desaparecimento, fora do combate directo, de todas estas unidades merece uma atenção especial. O facto de 37 dos 51 tanques T-28 disponíveis no dia 21 de Junho terem desaparecido sem notícia a 26 de Junho poder-se-á ter ficado a dever, segundo alguns historiadores, a deficiências técnicas da sua concepção e fabrico.
Como deixámos referido em capítulo anterior, o T-28 não era o que de mais moderno o Exército Vermelho podia apresentar na Frente de combate, mas seria certamente o motivo de orgulho da indústria de qualquer outra potência militar industrial em 1941.
Esse mesmo veículo tinha passado com distinção a sua fase «juvenil», tendo prestado provas durante a guerra de Inverno na Finlândia, onde as perdas registadas foram devidas essencialmente ao facto de ter sido usado em ataques directos a casamatas e não a avarias mecânicas.
O mesmo critério se pode aplicar ao veloz BT-7: dos 181 exemplares inventariados em 22 de Junho, 108 haviam desaparecido passados 4 dias!
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MUNIÇÕES: A VOZ DOS CANHÕES
Quando se pretende avaliar a capacidade e vontade de uma nação se lançar numa guerra ofensiva, ou desenvolver os meros recursos para assegurar a sua defesa, particular atenção deve ser prestada a duas questões:
Onde se devem localizar as fábricas de munições;
Qual o ritmo de produção.
Saliente-se, em primeiro lugar, que a União Soviética, contrariamente a todas as restantes nações em guerra, criou um ministério (NKO, Narkomat - Naródnikh Komissarov), exclusivamente para os assuntos relacionados com a produção de munições.
Sob a consistente direcção deste organismo, só nos anos de 1938/40 foram produzidas mais de 45 milhões de cartuchos, mais de 20 milhões de granadas de morteiro e mais de 12 milhões de bombas.
No que se refere à disponibilidade de munições para artilharia, coloca-se uma questão que merece alguma análise.
Após a decisão de Hitler de renunciar à obediência das imposições do Tratado de Versalhes na Primavera de 1935, a Alemanha fez um esforço muito relevante para, em cerca de quatro anos, produzir a quantidade de munições que lhe permitisse alimentar uma artilharia compatível e capaz de se confrontar com os seus equivalentes das restantes potências.
Para tal, a indústria militar alemã dispôs de muito pouco tempo e de poucos recursos naturais, tais como os metais não-ferrosos e os nitratos. Podemos afirmar, para além de qualquer dúvida, que não teria sido possível produzir tais concentrações de munições e terminar com sucesso as campanhas da Polónia e a Ocidente sem a mão amiga de Estaline e a preciosa ajuda dos recursos fornecidos pela União Soviética.
(…)
O facto de, em Junho de 1941, o Exército Vermelho exceder de forma tão marcada a Alemanha em número de peças, mas simultaneamente não possuir equivalente superioridade no número de munições por peça, pode ter duas explicações:
A indústria soviética de munições não conseguia acompanhar o esforço da indústria de produção de peças de artilharia,
A produção de munições cumpriu as determinações do poder soviético, que por sua vez resultavam das previsões de utilização estratégica daquela arma.
O que se verifica é que, efectivamente, a indústria soviética de munições funcionou de acordo com as solicitações que lhe foram feitas pelo poder executivo soviético.
A grande dificuldade estava no seu armazenamento.
Uma média de 900 salvas por boca de fogo, disponíveis pelos soviéticos em meados de 1941, é muito ou pouco?
A resposta não pode deixar de ser: depende do que se pretende fazer com esse recurso.
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Ich bereue nichts!
Rudolf Hess
A VINGANÇA DOS VENCEDORES?
Passados mais de 70 anos sobre o início das hostilidades entre a Alemanha e a União Soviética, é ainda hoje difícil, sem preconceitos ideológicos, afastando o peso de milhares de trabalhos impressos da opinião politicamente correcta de muitos académicos e políticos, que sem cessar repetem todos os lugares comuns que a propaganda das potências vencedoras do conflito se encarregou de transformar em História oficial, afirmar que Estaline, e por sua ordem toda a estrutura do Partido e do Estado Soviético, foram os principais, ou pelo menos co-responsáveis, pelo desencadear da guerra entre a Alemanha nacional-socialista e a Rússia comunista.
Durante todos estes anos, tanto a propaganda soviética como a dos países capitalistas, e com elas a opinião pública e académica bem formada, concordaram que Adolfo Hitler era um perigoso maníaco que tinha arrastado com o seu aventureirismo a Humanidade para um dos episódios mais tenebrosos da sua história, aproveitando no processo para liquidar 6 milhões de judeus.
Em alguns países, por exemplo, na Alemanha ou na Áustria, é mesmo considerado crime negar ou simplesmente discutir este pressuposto.
Frequentemente pintado com os traços de uma caricatura grotesca, Adolfo Hitler personifica uma espécie de anticristo, simultaneamente ridículo e tenebroso, responsável por muito do sofrimento e destruição que afligiram a Europa entre 1939-1945.
A transfiguração de um homem, com defeitos e virtudes no paradigma do mal, talvez seja o pior serviço que podemos prestar às gerações futuras, levando-as a confiar que as situações de catástrofe emanam por natureza de seres particularmente perversos, que pela sua singularidade surgem muito excepcionalmente ao longo da História.
Apesar de sedutora, no sentido em que só muito esporadicamente nos poderá afligir, infelizmente não podemos partilhar esta visão.
Estaline e Hitler foram homens sem dúvida determinados na transcendência de uma missão, mas em tudo o resto vulgares, como a maior parte de nós, capazes de momentos de ternura com crianças e animais, mas que fruto de circunstâncias específicas, desabrocharam sentimentos e práticas repugnantes que em diferentes circunstâncias possivelmente não ocorreriam.
É o reconhecimento da efemeridade do poder e da necessidade de constante vigilância e controlo sobre os seus detentores que torna a Democracia uma forma superiormente eficaz de governo. Não basta, porém, o permanente contraditório do poder democrático. É necessário o efeito dissuasor do Direito e dos tribunais para que os eventuais prevaricadores saibam que as más condutas ser-lhes-ão pessoalmente assacadas, e que por elas pagarão.
Esta foi, quanto a nós, a principal consequência positiva dos julgamentos dos dirigentes nazis em Nuremberga.
Mas terão sido os dirigentes alemães os únicos a merecer punição?
Quais terão sido os limites da vingança dos vencedores?
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JUSTIÇA SOVIÉTICA
Para os soviéticos, este tipo de julgamento, apesar de ataviado de preceitos de Direito burguês, era uma oportunidade para legalizar a liquidação de mais uns tantos odiados dirigentes alemães, mas simultaneamente uma perda de tempo e um risco de que as suas próprias atrocidades viessem a ser invocadas em tribunal.
Para garantir que todo o processo de julgamento corria segundo os seus termos, Estaline enviou I. Nikitchenko para as funções de juiz do tribunal. Este general já tinha dado sobejas provas de que estava particularmente habilitado a condenar quem Estaline ordenasse, tendo presidido a alguns dos julgamentos da Grande Purga de 1936 a 1938, nomeadamente a condenação à morte Zinoviev e Kamenev.
Logo no início do julgamento, Nikitchenko deixou claro que o tribunal estava a «lidar com os principais criminosos de guerra que já foram condenados e cuja condenação já foi anunciada nas declarações de Moscovo e Crimeia [Yalta], pelos chefes dos governos [Aliados] (...) O objectivo agora é garantir a punição justa e rápida para o crime», acrescentando que «se o juiz é suposto ser imparcial, tal só irá conduzir a atrasos desnecessários».
Importa igualmente referir o percurso e a personalidade do homem que Estaline enviou como Procurador para proceder à acusação.
Roman A. Rudenko foi responsável pelo Campo Especial N.º 7 do NKVD, localizado nas instalações do antigo campo de extermínio nazi de Sachsenhausen, onde foram em 1945 encarcerados 60 000 presumíveis opositores políticos, dos quais 12 500 morreram de subnutrição.
Sublinhe-se a este propósito que muitos outros campos de concentração das SS foram reutilizados por Estaline após a sua captura aos nazis. Auschwitz, Buchenwald, Saksenhausen, Bautzen, entre outros, continuaram até 1950 em pleno funcionamento como locais de horror e morte, agora geridos pelo NKVD.
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SHOAH A LESTE
Durante a maioria do seu consulado, Estaline não manifestou mais do que uma displicente indiferença pela origem étnica daqueles que o rodeavam, nomeadamente para com os judeus. Apesar das suas origens georgianas, que nunca renegou, pode dizer-se que o ditador vestiu como suas as roupagens dos russos eslavos que constituíam na sua perspectiva a alma mater do império soviético. No entanto, não deixou de manifestar o seu descontentamento para com a sua filha Svetlana, quando primeiramente esta se apaixonou pelo realizador cinematográfico judeu soviético Aleksei Kapler476, e mais tarde, após reiterados pedidos da filha, acabou por aceitar que esta se casasse com o judeu Grigori Morozov, não aceitando porém estar presente na cerimónia.
Desde 1928 que os judeus soviéticos eram «formalmente convidados» a instalarem-se em Birobidzhan, uma região remota do Extremo-Oriente, junto ao rio Amur, em condições de clima e geográficas de tal forma duras que dos primeiros colonos só cerca de metade sobreviveu aos primeiros 6 meses no local. A partir de 1948, a vida tornou-se ainda mais dura, tendo-se tornado impossível obter instrução e emprego para todos os que fossem de confissão judaica.
Até 1948, seguindo a sua visão pragmática de apoiar tudo e todos os que pudessem afrontar as potências capitalistas, Estaline sustentou a criação do Estado de Israel.
Os judeus que haviam emigrado para a Palestina após o final da Segunda Guerra Mundial criaram toda a espécie de problemas à administração britânica da região, por forma a aí poderem estabelecer um Estado independente.
Logo que tal Estado foi formalmente criado em 1948, a União Soviética de imediato procedeu ao seu reconhecimento, chegando mesmo a enviar armamento para a sua defesa contra as nações árabes, que se sentiram espoliadas pela criação desta nova entidade política.
Sem aviso prévio, tudo mudou em Novembro de 1948.
Todas as manifestações de cultura judaica foram proibidas e as suas figuras mais proeminentes desapareciam sem rasto nem protesto. Na noite de 12-13 de Agosto de 1952 ocorreu a «Noite dos Poetas Mortos». Nessa data, 13 dos mais significativos poetas Yiddish, foram executados às ordens de Estaline, sem outra razão que não fosse a utilização da sua língua materna.
Em Maio de 1952, foram julgados os membros do Comité Antifascista Judaico, e após interrogatórios, como sempre, acompanhados por tortura, dos 15 réus acusados de «nacionalismo judaico burguês», espionagem e traição, 13 foram executados a 12 de Agosto de 1952.
Com o início do julgamento em Praga de Rudolf Slansky, a 20 de Novembro de 1952, os impulsos antissemitas do regime soviético adquiriram novas facetas. No âmbito de uma purga mais geral que Estaline maquinava para afastar os seus velhos companheiros, desenhou o caso, enviando interrogadores directamente de Moscovo, para assegurar a «boa vontade» dos arguidos em colaborar com as investigações. De facto, assim aconteceu, e depois de confessarem os crimes de espionagem e sabotagem económica de que vinham acusados, foram os próprios a pedir ao tribunal para os sentenciar com a pena capital!
Tendo sido cumprida essa vontade a 11 dos 14 réus, o Pravda seguiu diariamente o julgamento, realçando o carácter sionista, nacionalista e burguês da conspiração.
A partir deste momento, seguiu-se uma espiral de condenações dos mais destacados membros da comunidade judaica.
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CULPADO!
Não se conhece, e provavelmente nunca terá existido qualquer documento assinado por Estaline, ordenando violações de mulheres. Tão pouco nos parece credível que mesmo o ditador soviético tenha descido tão baixo na condição humana ou que tivesse olhado para estes factos que eram de seu conhecimento com um olhar mais sinistro do que a simples displicência.
Da mesma forma, por paradoxal que possa parecer, não se conhece nenhum documento ou mesmo a descrição de qualquer conversa privada em que Hitler tenha ordenado a extinção de judeus em campos de concentração. Contudo, estamos certos de que, tivesse ele sido capturado pelos Aliados, seguramente teria respondido pelo facto e por certo assumido orgulhosamente a responsabilidade do mesmo.
Está hoje documentalmente comprovado que Estaline não só tomou conhecimento, como assinou pelo seu próprio punho a ordem que autorizou o massacre de cerca de 22 000 oficiais polacos indefesos nas florestas perto de Katyn.
Nas circunstâncias de regimes fortemente autoritários, a responsabilidade formal por actos criminosos praticados por subordinados, quando atingem proporções endémicas, ainda que não resultem de directivas formais escritas, não pode deixar de ser assacada aos dirigentes máximos desses regimes.
Como responsável máximo da União Soviética, Estaline deveria ter sido indiciado e respondido em tribunal pelos mesmos quatro crimes que levaram à condenação capital dos dirigentes nazis:
1. Estaline participou, e conspirou com outros, num plano para atacar nações neutrais, como a Polónia, a Finlândia e os Países Bálticos, que de nenhuma forma poderiam constituir risco para a segurança da União Soviética, sendo assim culpado de crimes contra a paz;
2. Estaline foi culpado de planear, tomar a iniciativa e conduzir guerras de agressão contra vários povos fronteiros da União Soviética;
3. Por ordem ou com conhecimento de Estaline foram cometidos crimes de guerra, contra militares e civis alemães, polacos, romenos e húngaros, sendo por isso culpado com dolo ou simples negligência desses mesmos crimes;
4. Estaline foi ainda culpado de crimes contra a Humanidade, sendo responsável pela morte de milhões dos seus concidadãos, pela fome, pelo exílio e trabalhos forçados, ou simplesmente por ter instalado um regime de terror sistemático, ordenando a liquidação de todos aqueles que na sua desconfiança patológica poderiam constituir risco ou embaraço para o exercício do seu poder.
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