Janus também tem um templo em Roma com portas duplas a que eles chamam portões da guerra; Pois o templo permanece sempre aberto em tempo de guerra, mas está fechado quando chega a paz. Porém isso era difícil e raramente acontecia, já que a nação estava sempre envolvida em alguma guerra, pois o seu tamanho crescente colocava-a em colisão com as nações bárbaras que a cercavam.
Plutarco, Vida do rei Numa 20.1-2
A CRIATURA E O SEU REFLEXO
Afirmar que Hitler e Estaline eram duas faces da mesma moeda pode parecer grotesco, mesmo uma verdadeira heresia e ofender a polidez do politicamente correcto dos mais sensatos. Afinal, Hitler foi responsável pelo desencadear da Segunda Guerra Mundial, as suas forças militares e policiais invadiram uma dezena de países, mataram milhões de seres humanos, destruíram bens, ofenderam e humilharam inocentes, assumiram-se como seres superiores, condenaram a campos de concentração e morte os que consideravam inferiores, forçaram o trabalho de milhões de presos.
Em suma, o inventário de horrores de Hitler parece não ter fim e fez dele o ícone da destruição e da barbárie no século XX. Como pode Estaline, pai dos povos, líder dos soviéticos que sofreram, lutaram e venceram Hitler, ser colocado no mesmo prato da balança?
Pois exactamente por ter lutado e vencido Hitler é que os compêndios de História (que como bem sabemos, são escritos pelos vencedores) apresentam uma visão mais benévola do rasto de morte e destruição deste ditador implacável.
Ao longo dos anos foram salientados por diversos autores, nomeadamente Viktor Suvorov, um conjunto de características pessoais e semelhanças macabras entre os dois homens e os regimes que criaram ou dirigiram e que vão muito além da mera contabilidade dos mortos ou do nível de violência que protagonizaram.
Ambos provinham de famílias modestas, amavam as suas mães e temiam a brutalidade dos pais; ambos desenvolveram um desapego afectivo para com os restantes seres humanos e, para todos os efeitos, não tinham um passado ou vida social e pessoal fora dos eventos políticos em que se envolveram. Isto é: como se o facto de possuir uma vida privada com aspirações e anseios de gente comum os diminuísse e fizesse menos predestinados para as tarefas históricas que a si próprios se atribuíram.
A mãe de Hitler deu à luz três crianças antes de Adolfo, todos morreram; a mãe de Estaline deu à luz três crianças antes de José, e todos morreram. Os pais de ambos morreram quando estes ainda eram adolescentes.
Ambos frequentaram escolas religiosas e as suas mães ambicionavam que se tornassem sacerdotes; ambos admitiram ter perdido a fé algures pelos 13 anos de idade. Hitler vivia em Viena em 1913 e Estaline vivia em Viena em 1913. Ambos foram presos por razões políticas. Hitler foi forçado a solicitar aos guardas que lhe restringissem as visitas para poder trabalhar. Quanto a Estaline, sempre que o dever revolucionário o chamava, suspendia os jogos de cartas e as caçadas com os companheiros de infortúnio, apanhava o comboio e fugia.
Hitler viveu sob a bandeira vermelha com a cruz suástica que criou; sobre o caixão de Estaline estava uma
bandeira vermelha com a foice e o martelo. Hitler governava em nome dos trabalhadores e o seu
partido era o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães; Estaline governava em nome dos trabalhadores e o seu regime designava-se por ditadura do proletariado.
Hitler tudo fez para acabar com a democracia e destruiu os restantes partidos políticos; Estaline era odiado pelos democratas e nunca teve de se confrontar com as opiniões de outros partidos. Ambos cuidaram de encher os respectivos campos de concentração de adversários reais e imaginários.
Hitler tentou construir um socialismo nacional; Estaline tentou espalhar o socialismo pelo mundo. Ambos consideravam a sua via para o socialismo como a correcta e todas as outras eram vistas enquanto perversões a aniquilar.
Até à sua morte, Hitler afastou e acabou por liquidar todos os velhos camaradas que se afastaram da via correcta; Estaline poderá ter sido liquidado pelos seus últimos camaradas quando se preparava para acabar com eles.
páginas 25 a 27
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página 28 não disponível
HITLER: A FACE DA FRATERNIDADE DE SANGUE
Um dos primeiros acasos que viriam a determinar a vida e obra de Adolfo Hitler ocorreu treze anos antes de ter sido concebido. Em 1876, Alois Shicklgruber, um jovem de pobres origens camponesas, oriundo de Waldviertel, na Baixa Áustria, decidiu que, para fazer face ao seu recém-adquirido estatuto de funcionário público e inspector alfandegário, deveria alterar o seu rústico apelido Shicklgruber, para um mais distinto Hitler.
Das poucas coisas que o futuro ditador agradeceria a seu pai, certamente que esta foi a que mais o marcou. Como comentaria mais tarde, Heil Shicklgruber!, teria sido uma saudação pouco menos que ridícula. Adolfo nasceu em Braunau am Inn, na Áustria, a 20 de Abril de 1889 e, em conjunto com a sua irmã Paula, foram os únicos filhos do casal Hitler a chegar à idade adulta. O pai de Adolfo, era localmente respeitado e propiciava à família as condições materiais da classe média daquela época. Em contrapartida, parece ter tido um temperamento irascível, autoritário e inflexível incapaz de manter relações de afectividade com os seus mais próximos.
Esta faceta de temperamento, que contra sua vontade muito influenciou o futuro carácter do jovem Adolfo, era amplamente compensado pelos afectos da mãe. Klara, de quem Hitler herdou os olhos de um azul-acinzentado penetrante, sufocava os filhos com um amor quase devoto que de alguma maneira era retribuído pelo jovem Adolfo, tentando compensar as sevícias a que os filhos, e até talvez a própria, eram frequentemente sujeitos.
A partir de 1898, os Hitler mudaram-se para Leonding, nos arredores da cidade de Linz, que Adolfo considerou até aos seus últimos dias como sua terra natal. O ensino primário foi particularmente acessível. No entanto, o secundário já não o cativou, sendo mais tarde descrito pelo seu professor, Eduard Huemer, como «um jovem magro e pálido (…) a quem faltava aplicação e incapaz de se adaptar à disciplina escolar». Nas suas relações com os colegas de turma «era autoritário e vivia num mundo de sonho criado à imagem dos heróis da sua literatura infantil».
O temperamento sonhador e artístico de Hitler confrontava violentamente com as ambições do seu pai, que o imaginava funcionário público, como ele próprio. No entanto, a 3 de Janeiro de 1903, a questão resolveu-se naturalmente, quando, fulminado por um colapso cardíaco, este faleceu.
Logo em 1905, Adolfo convenceu a mãe de que não tinha saúde para continuar os estudos secundários, tendo abandonado a escola sem uma perspectiva de futuro que não fosse a herança paterna.
Os dois anos seguintes foram vividos ociosamente em Linz, num apartamento próprio, onde não faltava um piano, e onde se dedicava a dormir manhã adentro, desenhar, pintar e escrever poesia, sempre apoiado pela mãe, irmã e tia que lhe resolviam as necessidades básicas de sobrevivência.
Tal como as personagens dos romances de Eça de Queiroz e de Camilo Castelo Branco, a vida de jovem herdeiro rural, recém-libertado da tutela paternal e ensaiando a sua adolescência no deslumbramento da vida urbana, era maravilhosamente ociosa e esbanjadora. O opinioso Hitler explodia tiradas a todos os que se atravessavam no seu caminho, especialmente após assistir às récitas teatrais de Wagner, a quem o futuro ditador considerava um génio artístico e um modelo a emular.
páginas 29 a 31
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páginas 32 a 34 não disponíveis
O PAPEL DE HITLER, SEGUNDO ESTALINE
Os anos 20 e início da década de 30 do século passado foram na Alemanha tempos de violência, de confronto físico e de ideais, em que abundavam milícias armadas, rixas nos comícios e espancamentos nas ruas. O Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nazi), não cresceu de forma nem mais nem menos civilizada que todos os restantes que se situavam nos extremos do espectro político da jovem república democrática que se tentava implantar. Esmagada pelas imposições das compensações de guerra impostas pelo Tratado de Versalhes, quanto mais dificuldades se encontrava para retirar os alemães da miséria, mais floresciam os movimentos extremistas de esquerda e direita.
Dois factores acabaram por ser determinantes nesta dinâmica da ascensão de Hitler ao poder. Em primeiro lugar, a Grande Depressão de 1929 e o tributo de desemprego e miséria que cobrou a uma Alemanha que começava a sair do desespero e a crescer economicamente.
O Partido Nazi passou de uns modestos 2,6% dos votos nas eleições de 1928, para uma confortável vitória com 37,3 % dos votos, em Julho de 1932. Daí, aos 98,8% dos votos bastariam meros 4 anos e, o que não foi seguramente menos relevante, o completo domínio de todo o aparelho do Estado, das forças de segurança, da alteração das leis sobre direitos civis e finalmente o domínio dos meios de comunicação de massas.
Um outro factor determinante para a obtenção do poder por Hitler foi a incapacidade de entendimento, ou melhor, o total antagonismo entre as forças de esquerda nomeadamente os social-democratas e os comunistas.
Para Moscovo, os social-democratas representavam um perigo muito superior ao dos nacional-socialistas. Desde logo porque ainda não haviam sarado os ódios abertos nos tempos que antecederam a tomada do poder na Rússia, entre mensheviks e bolsheviks, mas principalmente porque nos diferentes países estas visões antagónicas do socialismo representavam entre si uma alternativa política dentro do mesmo espectro.
Por outras palavras, competiam pelo mesmo tipo de eleitorado, sendo claro que os social-democratas não respondiam às ordens emanadas desde Moscovo pela Internacional, constituindo assim uma grave ameaça de cisão no movimento operário e camponês a nível mundial.
Finalmente, Hitler cumpria na perfeição aquilo que Moscovo pretendia de um dirigente alemão: que fosse um rastilho para um novo e final conflito armado que permitisse estender o socialismo para além das fronteiras da Rússia.
páginas 39 e 40
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páginas 41 a 44 não disponíveis
ESTALINE: A FACE DA FRATERNIDADE NO TRABALHO
Mas quem era de facto Estaline?
Trotsky apelidava-o de «mediocridade eminente» e o próprio Lenine desde cedo o considerou como pouco inteligente, e mais tarde como violentamente perigoso.
Na lista dos doze comissários elaborada para o primeiro governo em 1917, Estaline, o camarada arquivo, é colocado em último lugar. Numa época de oradores populares, Estaline não possuía qualquer dote nesta matéria, limitando-se a ler textos pré-escritos num tom sorumbático.
Fumador, de face marcada pelas bexigas, baixo, coxo, Estaline não era todavia estúpido ou ignorante. Onde noutros brilhava a extroversão e a oratória, nele vingava a argúcia, o pragmatismo e a gestão do silêncio; noutros, encontra-se a táctica, nele, a estratégia.
Comparado com a elite intelectual bolchevista culta e educada, se bem que nem sempre polida, Estaline era grosseiro, bebia muito, era brusco e muitas vezes obsceno. A sua educação social era mais próxima dos bandidos com quem conviveu na sua juventude do que com os chefes de Estado com quem privou. De Churchill a Ribbentrop, poucas são as visitas que não contaram estórias rocambolescas dos seus encontros sociais.
Era vingativo e cruel para aqueles que considerava serem seus inimigos, o que ao longo do tempo em que exerceu o poder acabaram por ser todos os que dele se aproximavam.
Desconfiado até à paranóia, não se conhecem a Estaline verdadeiros amigos.
A partir do final da Segunda Guerra, quando o poder militar da União Soviética levou a que fosse considerado pelos restantes dirigentes mundiais como um personagem como quem era forçoso falar, a sua auto-confiança parece ter aumentado e, pelo esforço de uma eficaz máquina de promoção pessoal, a faceta macambúzia do seu temperamento transformou-se num exemplo de ponderação, a falta de educação social, como a afirmação pública de modéstia e o culto da personalidade, que tanto estimava em privado, passou a ser algo com que publicamente se mostrava incomodado.
páginas 64 e 65
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páginas 66 não disponível
A política é a História sendo feita.
Hitler
RETALHOS DE UMA DOUTRINA
Para várias gerações de homens e mulheres do século passado, a utopia de uma pátria dos trabalhadores dominou o pensamento, os actos e mesmo o seu trajecto de vida. Nessa pátria do homem novo, sem exploradores nem explorados, em que o trabalho determinava os factores de produção e a própria História, entendida como o desenrolar da luta dos proletários contra os terratenentes e os detentores do capital, terminava numa sociedade comunista sem classes.
Era a promessa do paraíso na Terra.
A foice e o martelo, símbolo da unidade sagrada entre operários e camponeses, foi, e para alguns ainda continua a ser, o espelho da liberdade, capaz de gerar sentimentos de adesão tão fervorosos que teremos de recuar ao romantismo nacionalista do século XIX, ou mesmo ao martírio da implantação das religiões monoteístas, para encontrarmos tantos exemplos sublimes de desprendimento da própria vida em favor de um ideal.
Não se pense sequer que só os mais incultos, aventureiros ou oportunistas se envolveram nesta ascensão pelo sacrifício. Pelo contrário, alguns dos melhores intelectuais da sua época aderiram àquela que parecia ser a causa da justiça e futuro da Humanidade.
Genuinamente empenhados e motivados pela nobreza dos ideais, muitos pensadores, cientistas e artistas notáveis, bem como uma legião de cidadãos comuns, foram facilmente aliciados por agitadores profissionais e constituíram durante décadas bolsas de recrutamento gratuito de espiões e informadores, de opinion leaders e activistas em geral, ao serviço do Komintern e dos interesses transnacionais da União Soviética.
Os testemunhos são abundantes e, quando observados à luz dos nossos dias, absolutamente inquietantes. O teatrólogo Bertolt Brecht, bem conhecido pela sua aderência às causas da esquerda europeia, apoiou os processos judiciais encenados em Moscovo que condenaram G. Zinoviev e L. Kamenev, bem como a actuação de Estaline durante o Grande Terror. O seu carácter militante é espelhado em frases lapidares deste calibre: «Para um comunista a verdade e a mentira são apenas instrumentos, ambos igualmente úteis à prática da única virtude que conta, que é a de lutar pelo comunismo».
Sobre os mesmos julgamentos-farsa, Lion Feuchtwrang, romancista e dramaturgo alemão, classificou-os como «um debate conduzido (...) por pessoas bem--educadas e interessadas em estabelecer a verdade».
Também o romancista britânico H. G. Wells, escreveu sobre Estaline que «nunca havia encontrado homem mais cândido, justo e honesto».
Após uma bem encenada visita à União Soviética durante o período da Grande Fome, o prémio Nobel G. Bernard Shaw, descreveu Estaline como «o Cavalheiro Georgiano» no qual «não havia malícia». Disse ainda que as prisões na pátria do socialismo eram lugares em que um homem entrava «como um tipo criminoso e sairia como um ser humano, não fosse a grande dificuldade de convencê-los a sair da prisão. Pelo que eu depreendi, os criminosos poderiam permanecer na prisão tanto tempo quanto desejassem». Por sua vez, o compatriota Harold Laski, membro do Partido Trabalhista, elogiava as prisões soviéticas por «conduzirem os condenados a uma vida plena de dignidade».
A 13 de Dezembro de 1931, Estaline concedeu uma entrevista ao historiador alemão Emil Ludwig. Ao mesmo tempo que contribuía para que a fome devastasse milhões de crianças na União Soviética, e deixasse outras tantas sem abrigo e sem família, o ditador tudo fazia para cativar os seus ingénuos visitantes.
páginas 77 a 79
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páginas 80 a 83 não disponíveis
O TERROR REVOLUCIONÁRIO
A prática do terror como forma de obter a obediência das massas não é recente. Foi mesmo uma forma comum usada pelos detentores do poder ao longo da História para impor regimes políticos, chefias, doutrinas ou simplesmente se apropriar dos bens alheios.
No entanto, o terror socialista é, talvez fruto da época em que foi imposto, aquele que parece ser o menos envergonhado, e mesmo exaltado por quem o praticou, junto daqueles que poderiam ser potencialmente as suas vítimas.
Lenine afirmou que o povo só podia escolher entre duas distintas ditaduras de classe:
“Ou a ditadura dos proprietários da terra e dos capitalistas, ou a ditadura do proletariado (…) Não existe meio-termo (…) Não existe meio-termo em nenhum lugar do mundo, nem pode existir.”
Lenine explicou ainda de forma mais clara o papel da vanguarda revolucionária, ou seja, ele próprio e os seus amigos mais chegados:
“O proletariado ainda está tão dividido, tão degradado, tão parcialmente corrompido (…) que uma organização integrando todo o proletariado não pode directamente exercer a ditadura do proletariado. Tal «poder», só pode ser exercido por uma vanguarda que tenha absorvido a energia revolucionária da classe.”
Para além de Estaline ou Trotsky, o próprio Lenine chegou a redigir pelo seu punho, directivas para chacinar kulaks, de forma a que as aldeias em redor soubessem o que acontecia a quem teimosamente não aderisse ao regime.
páginas 83 e 84
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páginas 84 a 86 não disponíveis
REVOLUÇÃO: A LOCOMOTIVA DA HISTÓRIA?
Perante a derrota das tentativas da revolução socialista entre 1917 e 1921 que ocorreram na sequência da Primeira Guerra Mundial, nomeadamente na Alemanha e Hungria, Estaline, em 1924, e Bukharin em 1925, definiram aquela que seria a política oficial externa dos soviéticos no futuro, ou seja, socialismo num só país.
Mais do que uma doutrina assimilada e coerente de política externa, esta posição parece ter resultado das várias batalhas pelo poder dentro do Estado soviético, que Estaline e os seus aliados de momento travaram contra Trotsky. Este último, defendia que o sucesso do socialismo num país dependia do sucesso das revoluções proletárias nos países mais avançados da Europa Ocidental, como, aliás, era opinião de Lenine.
Apesar de continuar a defender a revolução mundial imediata, Trotsky tinha consciência dos reveses ocorridos entre 1918 e 1920 um pouco por toda a Europa.
Em Junho de 1921, dirigiu-se ao III Congresso do Komintern, lamentando:
“Agora, pela primeira vez, vemos e sentimos que não estamos tão imediatamente próximos do objetivo da conquista do poder e da revolução mundial. Naquela época, em 1919, dizíamos a nós próprios: “É uma questão de meses”. Agora dizemos: ‘É talvez uma questão de anos’.”
Por seu lado, Estaline, em artigo publicado no Pravda a 14 de Fevereiro de 1938, refere que, de facto, é possível construir o socialismo na União Soviética, aliás, na sua opinião já estava em vigor, mas quanto aos outros países, citando Lenine, advertia que era necessário o apoio dos trabalhadores.
Estaline defende que, estando a Rússia cercada pela hostilidade de vizinhos capitalistas e a sua indústria atrasada décadas relativamente a estes países; era necessário primeiro desenvolver a indústria pesada, a exploração dos recursos naturais e assegurar a sua independência, e só depois partir para o fim último da revolução socialista mundial.
páginas 91 a 92
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páginas 92 a 93 não disponíveis
A REVOLUÇÃO NA RÚSSIA
Indissociável desta análise é a natureza do povo russo. Generalizar idiossincrasias a todo um povo é uma abordagem de risco, sujeita ao desenvolvimento de estereótipos inapropriados. No entanto, algumas características do povo russo são bem conhecidas e resultam do seu desenvolvimento histórico.
Desde logo, o seu apego à terra e à pátria (Rodina), resultando num profundo nacionalismo. Em segundo lugar, a sensação de cerco por vizinhos agressivos e desejosos de se apoderarem das riquezas do país. Depois, um apego bisonho e quase supersticioso a um líder bondoso, distante, supremo e que está sempre correcto mesmo quando as suas ordens são incorrectamente aplicadas. É conhecida a expressão: O czar está sempre certo, mesmo quando os boiardos erram.
Para ganhar e consolidar o poder obtido com a queda do czar, o governo soviético teve de pedir a paz aos alemães e de assinar com as Potências Centrais, em Março de 1918, o tratado de Brest-Litovsky.
Com a sua assinatura, os comunistas ganhavam tempo para respirar e consolidar internamente o seu poder sobre a vastidão do Império Russo, mas, em contrapartida, perdiam vastas parcelas do que era a velha Rússia czarista, nomeadamente a Finlândia e a Bessarábia, tendo ainda assistido ao nascimento dos Países Bálticos e, acima de tudo, à consolidação da Polónia, na sua fronteira Ocidental.
O Exército Vermelho foi desde a sua génese pensado como braço armado da revolução mundial, instrumento da expansão do poder dos soviéticos na Europa, e desde logo para a reconquista dos territórios perdidos.
Por decreto do Conselho dos Comissários do Povo, assinado entre outros por Lenine, e datado de 15 de Janeiro de 1918, sobre «Organização do Exército Vermelho dos Operários e Camponeses», é definido que:
“O antigo exército serviu como um instrumento de opressão da classe trabalhadora pela burguesia. Com a transição de poder para os trabalhadores e explorados tornou-se necessário criar um novo exército que será o baluarte do poder soviético no presente e a base para substituir o exército permanente, fornecendo no futuro próximo suporte para a chegada da Revolução socialista à Europa.”
Já no «Manual do Instrutor Político», publicado em 1922, se referia a propósito do papel do Exército Vermelho:
“Os inimigos do regime soviético querem roubar a nossa terra e as nossas fábricas, retomar o seu poder e comandar o povo. Estes inimigos são os capitalistas e latifundiários, nacionais e estrangeiros.
Adiantando de seguida que:
“Eles odeiam o governo soviético, odeiam os trabalhadores que criaram este poder, eles querem a nossa morte (...).”
O mesmo documento afirma depois que:
“Os trabalhadores de todos os países travam uma luta heroica e difícil contra os seus opressores, mas estes não vão cair facilmente. Na maioria dos países estrangeiros os governantes e a burguesia são mais inteligentes e mais organizados do que os nossos capitalistas.”
Concluindo sobre o papel do Exército Vermelho:
“Mas o mais importante, é que eles estão à luta por um governo operário e camponês (…) para a felicidade dos trabalhadores da Rússia e do mundo inteiro, para a destruição da classe capitalista. É por esta razão que o nosso exército deve ser um exército de classe. [O seu papel] é o de limpar os inimigos do proletariado. Não se podem confiar a nobres e capitalistas armas nas fileiras de um exército que luta pela abolição da dominação burguesa.”
páginas 93 a 95
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páginas 95 a 97 não disponíveis
Traição de segredos militares a uma certa potência fascista hostil e operando como espião para obter a queda do Estado Soviético e restaurar o capitalismo.
Extrato da acusação de conspiração contra o marechal Tukhashevsky e vários outros generais em Maio de 1937.
OS MILITARES TRAIDORES
O povo russo sempre demonstrou um considerável sentido de humor, mesmo nos momentos mais sombrios.
O estado de espírito que permite recorrer ao absurdo para suportar a realidade, pode ser ilustrado com uma das anedotas que corria em segredo durante o período das grandes purgas:
«Os murros na porta acordam toda a família a meio da noite. Todos os familiares, tremendo de terror, saltaram da cama. Ouve-se uma voz no exterior: Levem convosco tudo o que puderem e saiam imediatamente…! Mas por favor não entrem em pânico! Sou eu, o vosso vizinho. Não é nada de importante, é só a nossa casa que está a arder».
Se para Estaline as massas populares eram os grandes motores da história, os seres humanos individualmente considerados não eram mais do que parafusos que podiam ser substituídos e apertados segundo as necessidades da engrenagem comunista, e particularmente do seu timoneiro de circunstância.
Em 25 de Junho de 1945, numa cerimónia realizada no Kremlin, por ocasião da comemoração da vitória sobre a Alemanha, o grande camarada Estaline, incomodado com os muitos brindes efectuados em sua honra, e que seguramente feriam a sua proverbial modéstia, confessou emocionado que «gostaria de brindar às pessoas comuns que são consideradas parafusos do grande mecanismo do Estado, mas sem as quais nós, os marechais e comandantes das frentes e exércitos, não valemos “um chavo”». E explicou de imediato que se «alguns parafusos» estiverem fora de ordem tudo estará perdido:
“Eu ergo um brinde às pessoas comuns, normais e modestas - para os parafusos que mantêm o nosso grande mecanismo do Estado em prontidão em todas as áreas da ciência, da economia e das forças armadas. São pessoas modestas. Ninguém escreve sobre eles, não têm títulos ou grandes patentes, mas são essas pessoas que nos prendem, como a base mantém o topo. Eu bebo à saúde dessas pessoas, nossos respeitados camaradas.”
Foram várias as circunstâncias em que Estaline decidiu remover parafusos da engrenagem comunista.
As purgas de 1933, por exemplo, foram descritas como resultado do clima de grande «entusiasmo popular» que rodeava o Partido Comunista. O que justificou a necessidade de «abrir as portas» às «centenas de milhar de novos membros que pretendiam lutar pelo socialismo».
A situação acabou por degenerar num «verdadeiro assalto» ao grande mecanismo.
O Partido Comunista ficou assim na contingência de avaliar todos os novos parafusos, ou seja, «caçar» oportunistas, burocratas corruptos, criminosos, anti-semitas e alcoólicos que violavam a disciplina partidária. Naturalmente, tratando todos estes meliantes «numa atmosfera de camaradagem e sem excessiva intrusão na vida privada das pessoas».
Trata-se evidentemente de uma enorme construção política.
páginas 101 e 102
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páginas 102 a 107 não disponíveis
A EXPERIÊNCIA MILITAR DOS OFICIAIS SOVIÉTICOS
Sem dúvida que faltava experiência de combate a muitos oficiais que defrontaram o bem treinado Exército Alemão em Junho de 1941. No entanto, dos relatos existentes e dos actos heróicos então ocorridos, e que foram ao longo do tempo enaltecidos pela propaganda soviética, conclui-se que o que eventualmente faltaria em termos de experiência a esses oficiais intermédios era compensado na maior parte dos casos pela coragem e determinação com que combateram.
Na realidade o afastamento de cerca de 40 000 oficiais do Exército Vermelho durante o período de 1937 a 1941 não poderá ter significado na hecatombe que ocorreu em 1941.
Desde logo, o afastamento não significava, pelo menos de imediato, a liquidação.
Em muitos casos, os acusados eram enviados para campos de trabalho, onde poderia ou não ocorrer a sua morte. Muitos dos que sobreviveram foram mais tarde reintegrados com o início das hostilidades.
Foi o caso de K. K. Rokossovsky. Este futuro marechal, de origem polaca, foi arrastado nas purgas, em Agosto de 1937, e acusado de ser um espião. As razões da acusação nunca foram claras e provavelmente resultaram do simples facto de ocupar um posto de relevância militar, e como tal ter privado com alguns dos outros acusados.
Em qualquer caso, acabou indiciado de estar ao serviço de polacos e japoneses, a soldo dos quais teria cometido actos de sabotagem, como «ter levado a sua Divisão para o campo durante mau tempo, causando a morte de cavalos e doença entre as tropas».
Em consequência, a mulher e filha do «traidor» foram, como era usual, enviadas para o exílio. A vida do general terá eventualmente sido poupada por se ter recusado a assinar as falsas confissões que lhe haviam preparado. O que ainda assim não evitou os espancamentos, dedos partidos e simulações de fuzilamento.
Após o julgamento, K. K. Rokossovsky foi enviado para a prisão Kresty, em Leninegrado, onde se manteve até 22 de Março de 1940, data em que foi libertado sem qualquer explicação, tendo sido reintegrado no exército com a patente de coronel. O início dos combates iriam encontrá-lo como major-general e comandante do IX Corpo Mecanizado, Distrito Militar Especial de Kiev (KOVO).
páginas 107 a 109
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páginas 109 a 115 não disponíveis