A única base material do socialismo deve ser a grande indústria mecânica, capaz de reorganizar também a agricultura.
V. I. Lenine, Teses do Relatório Sobre Táctica do PCR(b), no III Congresso da Internacional Comunista, Obras, t. XXXII
COMO PRODUZIR E DISTRIBUIR A RIQUEZA
O lançamento da Nova Política Económica (NEP), em 1921, foi a resposta de Lenine à necessidade premente de enfrentar a fome e a miséria que resultaram do processo revolucionário e da consequente destruição do milenar sistema agrário e do embrião de sistema industrial russo. Na prática, o reconhecimento de que a construção de uma sociedade comunista não era possível sem a prévia produção de riqueza que pudesse posteriormente ser redistribuída.
A Rússia não era suficientemente capitalista para se tornar socialista. A transição da velha Rússia semi-feudal para um Estado comunista exigia a produção de riqueza industrial e agrícola em larga escala.
Embora menos virado para responder às necessidades específicas do dia a dia das pessoas concretas, mas visando constituir o fundamento de um Estado imperial, Estaline desenvolveu como vectores mais significativos da acção política económica a industrialização e a colectivização da agricultura da União Soviética.
De acordo com a doutrina marxista, só uma economia industrializada e moderna produziria uma verdadeira classe proletária. Sabemos hoje que o desenvolvimento de uma economia verdadeiramente desenvolvida e diversificada não gera proletários revolucionários, mas sim uma classe média, burguesa e poderosa, ansiosa por aumentar os seus padrões de bem-estar, e pouco dada a aventuras extremistas.
Na década de 30 do século passado, a teoria marxista ainda era considerada um pouco por todo o mundo como um enorme avanço intelectual, político e económico, e na União Soviética de Estaline era considerada mais sagrada do que os próprios Evangelhos.
A necessidade de industrialização, assente num modelo de metalo-mecânica pesada concentrada em grandes unidades industriais do Estado, apresentava-se como uma questão fundamental de auto-defesa colectiva.
Estaline aproveitou, em benefício das suas teses, a intervenção de forças militares das potências capitalistas na guerra civil em apoio dos Russos Brancos, para promover um ambiente de paranóia que transformava a pátria dos sovietes num gigantesco campo militar, cercado de inimigos, ansiosos pela rapina das suas riquezas e pela substituição do jovem regime popular, saído da revolução de Outubro, pelos velhos oligarcas, exploradores do trabalho operário e camponês.
Esta psicose de cerco alimentou a consolidação da ideia que a União Soviética teria de lutar permanentemente pela sua sobrevivência.
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COMO SE ALIMENTAVA A MÁQUINA SOVIÉTICA
A análise dos dados estatísticos dos tanques produzidos entre 1940 e 1945 permite colocar em perspectiva a capacidade instalada na União Soviética e na Alemanha.
Complementarmente, a análise da infraestrutura montada para a produção de tanques permite uma conveniente analogia da estrutura produtiva criada na União Soviética em tempo de paz para servir a guerra durante os 3 primeiros planos quinquenais.
Em 1942, os soviéticos produziram cerca de 25 000 tanques e os alemães aproximadamente 6 000; no final de 1945, a Alemanha contabilizava uma produção acumulada de 47 000 tanques e a União Soviética mais de 106 000. Que meios utilizou Estaline para criar e depois alimentar o gigantismo desta máquina de guerra?
Para além de arquitectos e projectistas, seguiram para a União Soviética, pagos literalmente a peso de ouro de Kolima, engenheiros industriais, máquinas-ferramenta e tecnologia em geral, como é o caso dos tanques com suspensão Christie, cujo primeiros exemplares foram expedidos dos Estados Unidos com uma licença de exportação de tractores.
Os soviéticos puderam assim desenvolver uma larga rede de fábricas produtoras de locomotivas e de tractores, susceptíveis de serem rapidamente reconvertidas para a produção de tanques.
Por exemplo, a fábrica Dzerzhinsky e a unidade industrial de tractores de Chelyabinsk que deram origem à célebre Tankograd foram planeadas pela empresa americana Albert Kahn Associates Incorporated.
Este arquitecto prussiano de origem judaica, naturalizado americano, montou escritório em Moscovo e projectou a partir daí a construção de 521 fábricas entre 1930 e 1932.
Se o ouro comprou conhecimentos e tecnologia, já a mão-de-obra mobilizada por Estaline para fazer triunfar o seu projecto de industrialização era verdadeiramente escrava.
Apesar dos muitos crimes cometidos contra o povo soviético, alguns sectores mais conservadores da sociedade continuam hoje a considerar um sacrilégio colocar em causa o papel da industrialização e da colectivização na salvação da Rússia do ataque alemão.
Para muitos, foi um pesado preço, pago em sangue, mas que terá valido a pena.
Resta saber qual teria sido a opinião dos milhões de mortos na abertura do canal do Volga e nas minas de ouro de Kolima, das vítimas do Holodomor, dos mineiros de carvão da Sibéria e dos muitos inimigos dos trabalhadores que por esta ou aquela razão mais frívola viram as suas vidas destruídas nos gulags.
Estes Campos de Trabalho Correctivo foram criados entre 1929 e 1930 com o objectivo de isolar e recuperar «contra-revolucionários» através da sua «reabilitação pelo trabalho forçado». Localizados principalmente nas regiões mais inóspitas do Extremo-Oriente e Sibéria, apesar de existirem um pouco por toda a União Soviética, os gulag rapidamente se tornaram «reservatórios» inesgotáveis de trabalho escravo.
O Código Penal de 1926 constava de 148 artigos, dos quais era particularmente temido o 58.º, com os seus catorze parágrafos. Naqueles previa-se a condenação por uma década no desterro, justificada pela «propagação ou agitação que contenha um apelo ao derrube ou enfranquecimento do Poder Soviético (...) e a difusão, preparação ou conservação de literatura com esse mesmo conteúdo», ou ainda por «não denúncia dos mesmos». A condenação poderia ser ainda agravada nos casos de associação criminosa, bastando para tal que dois amigos trocassem correspondência entre si, menos abonatória das virtudes do partido ou do seu grande líder.
As razões práticas pelas quais podiam ser sumariamente decretados os desterros para esses inóspitos locais variavam significativamente. Desde 3 atrasos sucessivos ao local de trabalho, punidos com detenção por 3 anos, até uma anedota sobre o governo ou os seus membros, correspondente a uma condenação até 25 anos. Já guardar algumas batatas que tivessem ficado perdidas nos campos durante a colheita teria como castigo uma detenção até 10 anos.
Os trabalhadores destes campos de morte eram envolvidos em processos produtivos ineficientes e não-especializados, desenvolvendo todo o tipo de tarefas que pudessem de alguma forma alimentar a gigantesca máquina de exploração de recursos naturais e das obras de infraestruturas faraónicas levadas a cabo por Estaline.
Submetidos a um tratamento extremamente violento, sujeitos a climas extremos, à fome e à inexistência de condições sanitárias mínimas, enfrentavam a condenação para estes campos como uma muito provável condenação à morte.
Inúmeros intelectuais, engenheiros e cientistas foram colocados numa espécie de limbo prisional, encerrados sob vigilância policial, mas podendo trabalhar e desenvolver novos projectos. Tal é o caso de Nikolai Nikolaevich Polikarpov, engenheiro aeronáutico, que por não ter conseguido cumprir, no prazo fixado, o projecto que lhe havia sido imposto, de construir um novo avião de combate (I- 6), foi condenado à morte com outros 450 colaboradores.
A sentença foi sucessivamente comutada para 10 anos de trabalhos forçados e, por fim, para pena suspensa. Isto desde que continuasse a desenvolver o seu trabalho sob vigilância policial.
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A MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL PARA A GUERRA
A partir de 1934, a União Soviética criou o Comissariado Popular para a Defesa (NKO) em substituição do anterior NKVM. Em Setembro desse ano, aderiu à Liga das Nações e em Novembro foi forçada a cumprir uma resolução que obrigava os diferentes países membros a divulgarem os seus orçamentos para a Defesa.
Na sequência de demoradas trocas de correspondência entre o responsável pelas Relações Exteriores, Maxim Litvinov, e o responsável pelo NKO, Kliment Voroshilov, lá se concluiu que não havia interesse em continuar a esconder os valores ou apresentar dados sub-estimados, sob pena de, considerando-se a União Soviética impreparada para a guerra, atrair a cobiça de vizinhos vigilantes, nomeadamente os atentos japoneses.
A 25 de Março de 1935, o Politburo aprovou uma resolução favorável à transparência dos processos de decisão política e consequente disponibilização dos dados relativos ao Orçamento da Defesa à Liga das Nações. A glasnost teve o especial cuidado de deixar de fora os dados sobre investimento em unidades industriais de carácter militar, tendo Moscovo alegado que nos países ocidentais o investimento privado em unidades militares privadas também não era divulgado.
Para termos uma aproximação à experiência nacional do que representam estes valores, podemos indicar que Portugal gastou em 1974, isto é, no auge da Guerra do Ultramar, cerca de 7,4 % do PIB na totalidade das suas despesas militares. Trata-se do valor mais elevado em 60 anos, sendo que em 2015, os custos com a Defesa representaram 1,6% do PIB.
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DEVORANDO A ROMÉNIA
Independentemente dos discursos e mensagens concebidas para o consumo público, e tantas vezes vertidas e repetidas nos livros de história, importa tentar colocar em perspectiva o que terá motivado Hitler a atacar a União Soviética.
Em conversa particular ocorrida no sossego de um jantar doméstico no dia 18 de Maio de 1942, registada por iniciativa do seu secretário-pessoal Martin Bormann, o Führer garantiu aos comensais que:
(…) Nada demonstra tão claramente como o desencadear do nosso conflito com a Rússia quanto é essencial que um Chefe de Estado deva ser capaz de acção rápida e decisiva sobre a sua responsabilidade, quando uma guerra lhe parece ser inevitável.
Numa carta que encontrámos no filho de Estaline, escrita por um amigo, lê-se a seguinte frase: “Espero ser capaz de ver a minha Anuschka, uma vez mais, antes do passeio para Berlim”. Se, de acordo com o seu plano, os russos tivessem podido prever as nossas ações, é provável que nada tivesse sido capaz de parar as suas unidades blindadas, dado que, o altamente desenvolvido sistema viário da Europa Central, teria grandemente favorecido seu avanço. Em todo caso, eu fui responsável pelo facto de termos sido bem sucedidos em fazer os russos adiarem, até ao momento em que lançámos o nosso ataque e que o fizemos pela celebração de Acordos que eram favoráveis aos seus interesses. Suponha, por exemplo, que, quando os russos marcharam para a Roménia, não tínhamos sido capazes de limitar as suas conquistas à Bessarábia, eles de uma só vez teriam engolido todos os campos petrolíferos do país, e nós ficaríamos, a partir da Primavera daquele mesmo ano, completamente frustrados no que diz respeito ao nosso fornecimento de petróleo.
Esta parece-nos ter realmente sido a razão principal para Hitler atacar a União Soviética: o medo.
Contextualmente, outras razões terão ajudado a compor o resultado final.
Em primeiro lugar, antes que os Estados Unidos pudessem, como era previsível, entrar no conflito, era vital retirar à Grã-Bretanha a expectativa de conseguir encontrar um forte parceiro no continente, que pudesse desviar de si as atenções da máquina militar alemã e, portanto, deixá-la mais receptiva a um acordo de paz.
Em segundo lugar, deixar de depender da boa ou má vontade de Moscovo para o fornecimento de matérias-primas vitais.
Finalmente, conquistar um espaço que permitisse a expansão das futuras gerações de alemães.
Perante os testemunhos e documentos hoje disponíveis, somos levados a acreditar que Hitler não terá mentido quando publicamente afirmou que a razão determinante para desencadear um ataque, naquela data concreta, terá sido a sua convicção de que face à política expansionista da União Soviética, e às indicações dos serviços de informações (se bem que muito incompletas), de que esta estava a concentrar junto às suas fronteiras, e junto a pontos sensíveis de fornecimento de matérias-primas essenciais, grandes quantidades de meios humanos e materiais, Estaline iria inevitavelmente ordenar o avanço para Ocidente a qualquer momento.
Antes que tal acontecesse, Hitler procurou (tal como Estaline) protelar os acontecimentos pelo tempo necessário para concentrar as suas tropas e «extrair o quisto comunista» das suas costas para, então sim, poder resolver a questão britânica.
páginas 152 a 154
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EM DEFESA DA PAZ
Um dos argumentos mais relevantes para justificar a declaração de guerra das Democracias Ocidentais à Alemanha foi o carácter continuamente agressivo da política externa de Hitler, acrescentando mesmo alguns que o seu intuito seria a conquista e escravização do mundo.
A prova dessa intenção era que Hitler tinha ocupado a Renânia e não tinha ficado satisfeito, tinha anexado a Áustria e a região dos Sudetas e não tinha ficado satisfeito, quando chegou a altura da Polónia, deixara de ser admissível deixá-lo dar mais um passo e declarou-se guerra.
Hitler nunca esteve minimamente interessado em exportar a doutrina nacional-socialista para outras nações.
Tão pouco pretendia expandir-se para fora da Europa. Esse papel, no seu mundo ideal, seria atribuído aos britânicos. Era mesmo ferozmente adversário da ideia de adopção do nacional-socialismo por outros povos.
Entendia que esse tipo de regime era uma jóia de tal forma adequada ao povo alemão que só a ele deveria servir:
Oponho-me firmemente a qualquer tentativa de exportar o Nacional-Socialismo. Se outros países estão determinados a manter os seus sistemas democráticos e assim correrem para a sua própria ruína, tanto melhor para nós.
Se, de facto, Hitler ocupou sucessivamente todos aqueles territórios de maioria étnica germânica (Volksdeutsche), onde, aliás, foi na generalidade recebido como libertador, e por isso foi considerado como um perigo para a paz mundial, o que dizer de Estaline, que na sequência da partilha da Polónia atacou sucessivamente os Países Bálticos, a Finlândia e a Roménia, no espaço de pouco mais de um ano?
Foi o defensor dos povos amantes da paz Estaline, e não o agressivo Hitler, quem sucessivamente num período de dez meses após a assinatura do Pacto Germano-Soviético destruiu todas as barreiras geográficas que se interpunham entre os dois países. Do Ártico ao Mar Negro, o muro tinha sido derrubado e já não existiam mais países neutros entre os dois predadores.
Mandaria o bom senso que durante esse período de dez meses, em que Hitler concentrou as suas forças na resolução dos seus problemas a Ocidente, uma nação que se pretendesse defender de um potencial agressor aproveitasse para construir uma barreira usando todos os recursos naturais, humanos e materiais à sua disposição.
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Se utilizas o inimigo para derrotar o inimigo, serás poderoso em qualquer lugar aonde fores.
Sun Tzu , A Arte da Guerra
O PREÇO DO ENTENDIMENTO PERFEITO
Convencionou-se como data de início da Segunda Guerra Mundial, o dia 1 de Setembro de 1939, quando as forças da Wehrmacht invadiram a Polónia e, consequentemente, a 3 de Setembro, foi declarada guerra pela França e Grã-Bretanha à Alemanha. Trata-se de uma mera convenção formal. As raízes do conflito já se estendiam no tempo desde a invasão da China pelo Império do Japão, em 1937, e escalariam até Junho de 1941 com a invasão da União Soviética e, finalmente, em Dezembro do mesmo ano, com a entrada dos Estados Unidos no conflito e a subsequente mobilização dos países sul-americanos, como o Brasil, que acabou por declarar guerra à Alemanha em Agosto de 1942.
Se uma data singular é definitivamente relevante para o desencadear da guerra na Europa, essa data é 23 de Agosto de 1939.
Nesse dia, dois predadores, Hitler e Estaline, decidiram unir esforços para destruir a Polónia e repartir entre si os despojos, aproveitando ainda para estabelecer esferas de interesse na Europa Central. Como resultado, os Estados Bálticos e partes da Roménia foram engolidos pela União Soviética, que ainda se sentiu livre para atacar a Finlândia.
Inúmeros livros, estudos académicos, documentários e entrevistas analisam o documento conhecido como «Pacto Molotov-Ribbentrop». Se é facto que ambos os personagens o assinaram, a verdade é que nenhuma destas duas figuras teve qualquer papel significativo nos termos do Acordo e, sem pretendermos ser acintosos, poderse-á reclamar que Ribbentrop serviu de passa-palavra do Führer e que Molotov serviu de porteiro do Vozhd.
Este Pacto de saque dos povos que tiveram o infortúnio histórico de se encontrarem nas fronteiras destes predadores deveria na realidade ser conhecido como «Pacto Estaline-Hitler», «Pacto de Moscovo de 1939», ou melhor, como «Pacto para o Início da Guerra na Europa».
Como veremos ao longo deste capítulo, para Hitler tratava-se acima de tudo de garantir a sua retaguarda contra eventuais ataques da União Soviética, caso a França e a Grã-Bretanha levassem a sério os seus compromissos diplomáticos para com a Polónia. Tratava-se de uma mera medida cautelar, dado que o ditador estava convencido que as potências ocidentais se limitariam a encher o peito de ar durante o tempo necessário para salvar as aparências e acabariam por ser forçadas a engolir o facto consumado, tal como tinha acontecido anteriormente no Reno, na Áustria e na Checoslováquia.
Para Estaline, mais astuto e ponderado, o objectivo era bem mais complexo e distante.
As conquistas territoriais imediatas eram um simples patamar, seguramente bem-vindo, mas ainda assim intermédio, no desencadear de uma guerra de grandes dimensões que esgotasse económica, militar e animicamente as potências capitalistas burguesas ou fascistas e que permitisse ao Exército Vermelho, no momento adequado e «a pedido das classes trabalhadoras», libertar os povos e impor o socialismo.
Mas qual o percurso dos dois ditadores para passarem de inimigos declarados a cúmplices no Pacto de 23 de Agosto de 1939?
Os primeiros indícios sobre a possibilidade de um entendimento terão surgido, como é normal nas dinâmicas muito particulares da diplomacia, em comentários mais ou menos vagos, informalmente expressos por um qualquer oficial de segunda linha durante uma qualquer recepção do corpo diplomático. Assim terá acontecido em Fevereiro de 1939, quando o adido militar soviético na Alemanha, afirmou ao general Keitel a necessidade da União Soviética intervir militarmente, caso se desenvolvesse uma situação revolucionária na Polónia.
Hitler, cauteloso, terá registado a informação e o convite dissimulado de Estaline para um entendimento quanto à Polónia. No entanto, era demasiado cedo. Por esta data, o Führer ainda procurava uma solução diplomática para questão do acesso a Danzig.
Estaline é que não desistia. E se uma abordagem discreta não surtia o efeito desejado, então um convite mais explícito deveria ser colocado por debaixo da porta. Com grande espanto de toda a ortodoxia comunista, Estaline envia a Hitler um estimulante convite para um tango a dois.
páginas 162 a 164
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A AMIZADE SOVIÉTICO-ALEMÃ
O período que medeia entre assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop (em 23 Agosto de 1939) e Agosto de 1940 caracteriza-se por relações comerciais, mas sobretudo políticas, muito cordiais entre as potências do Eixo, sobretudo a Alemanha e a União Soviética.
Hitler e Estaline não alimentavam grandes ilusões mútuas e certamente não existia qualquer sentimento de estima entre ambos. Na realidade, o Pacto estava fundado no interesse de cada um e esse interesse próprio podia justificar o seu desaparecimento futuro, mas estavam ambos convencidos de que os interesses comuns se poderiam manter como tal por um período relativamente longo.
Estaline entendia que a guerra a Ocidente se prolongaria por vários anos ao longo dos quais a Alemanha se iria embaraçar e enfraquecer até chegar o tempo certo para expandir o poder soviético. Até lá, a União Soviética tudo faria para impedir que a Alemanha, tida como a parte mais fraca, se exaurisse prematuramente por falta de recursos naturais.
Os membros do governo alemão estavam divididos entre uma quase admiração por Estaline e a concepção mais realista de que o Pacto duraria enquanto fosse útil à União Soviética.
Göering referiu que Hitler lhe terá mencionado em Agosto de 1939:
Estou determinado a trabalhar com a Rússia por muito tempo e a Mussolini revelou estar decidido a manter relações amigáveis com aquele país no futuro.
Na entrada do seu Diário de 1 de Outubro de 1939, J. Goebbels menciona que:
(…) Em conversa particular com o Führer (…) ele está persuadido da lealdade da Rússia. Estaline cumprirá, tem grande vantagem nisso.
Numa conferência de Estado-Maior realizada em 23 de Novembro de 1939, Hitler citou Bismarck, referindo que «os pactos duram enquanto são úteis para cumprir o seu objectivo», acrescentando que a Rússia o cumpriria «enquanto considerasse que lhe era vantajoso».
Para Hitler, o acordo com os russos foi um «notável acto de diplomacia» capaz de durar por muito tempo.
páginas 188 a 189
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O Governo Soviético estava bem ciente do facto de que os elementos fascistas dentro dos círculos governamentais da Finlândia, os quais estavam intimamente ligados aos hitleristas, exerciam forte influência no exército finlandês e faziam todos os esforços para capturar Leninegrado.
Falsificators of History
Soviet Information Bureau, Moscovo
Fevereiro, 1948
TALVISOTA: O QUE ESTALINE APRENDEU COM A GUERRA NA FINLÂNDIA
A luta da pequena Bélgica contra a invasão alemã na Primeira Guerra Mundial e a posterior batalha pela sobrevivência da Finlândia contra o colosso russo são dois exemplos recentes da luta de David contra Golias que há muito capturaram o nosso imaginário. Estas epopeias de bravura colectiva continuam a fazer palpitar a característica bem humana de nos apaixonarmos pela determinação de homens convictos que lutam por uma causa, desprezando todas as probabilidades, contra adversários esmagadoramente mais poderosos.
Episódios como as batalhas de Ourique, Aljubarrota ou Chaimite, nas quais reduzidos recursos humanos portugueses terão enfrentado e derrotado forças adversas muito mais numerosas, tornaram-se marcos fundadores da nossa nacionalidade e fortaleceram a autoestima e o espírito de coesão nacional.
Também a história militar se funda em exemplos magníficos de crença colectiva e despojamento humano.
Um exemplo paradigmático será seguramente a batalha das Termópilas, travada no Verão de 480 a.C. No entanto, foram as menos conhecidas campanhas de Quintus Fabius Maximus, durante a Segunda Guerra Púnica, que acabaram por nos legar uma curiosa expressão para o léxico militar, o adjectivo fabiano, aqui usado para designar táticas ou estratégias de atraso, terra queimada e atrito progressivo.
Dos numerosos e fascinantes exemplos de guerras em que vingaram tácticas fabianas, interessa-nos uma em particular, travada na imensidão das frias regiões do Norte da Europa, cobertas por densas florestas de pinheiros, pontuadas alternadamente por lagos ou extensões de neve e gelo da província da Carélia, no sul da Finlândia.
Foi precisamente nesta paisagem cinematográfica que o carácter de gigante de pés de barro do poder soviético se tornou evidente com o desenrolar da Guerra de Inverno russo-finlandesa 1939/40.
Após o saque de metade da Polónia, os soviéticos preparam-se para continuar a recuperação das fronteiras do Império Russo anteriores ao Acordo de Paz Germano- Russo de Brest-Litowski, que pôs fim ao conflito com a Alemanha na Primeira Guerra Mundial. A Finlândia encontrava-se no limite da esfera de influência soviética que lhes tinha sido assegurada no aditamento secreto ao Pacto Molotov-Ribbentrop de 1939.
Em 1932, a União Soviética e a Finlândia assinaram um Pacto de Não-Agressão, que foi confirmado por mais dez anos em 1934. Em Abril de 1938, os soviéticos exigiram que os finlandeses assinassem um acordo de defesa comum contra os alemães.
No entanto, com a assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop a exigência caiu, tendo os finlandeses conseguido manter a sua neutralidade.
Não obstante V. Molotov ter reafirmado a política de neutralidade da União Soviética relativamente à Finlândia em 17 de Setembro de 1939199, logo a 6 de Outubro, enviou um ultimato ao governo de Helsínquia, advertindo «ser desejável a imediata chegada a Moscovo do ministro Finlandês dos Negócio Estrangeiros para discussão de assuntos relevantes das relações Soviético-Finlandesas, especialmente tendo em conta que na Europa existe uma grande guerra (...)».
páginas 192 a 194
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páginas 194 a 206 não disponíveis
O QUE HITLER NÃO APRENDEU NA POLÓNIA
A campanha militar da União Soviética contra a Finlândia foi considerada pelos estrategas alemães como a demonstração da inépcia a que o Exército Vermelho tinha chegado após as purgas dos seus oficiais. Um sinal de fraqueza. Um sedutor convite ao ataque.
A 22 de Março de 1940, Hitler decidiu deixar a cinzenta Berlim e dirigir-se para a desafogada paisagem do Berghof para desfrutar do fim-de-semana da Páscoa. A acreditar no testemunho do seu adjunto-militar, na época o ainda capitão Gerhard Engel, na viagem ter-lhe-á sido entregue um relatório do general Guderian sobre o pobre comportamento do Exército Vermelho na Finlândia.
Perante o documento Hitler terá secamente comentado: «Auch die müssen wir vernichten!».
Na sequência dos mesmos acontecimentos, idêntica imagem de indecisão e impotência foi deixada pelos aliados franco-britânicos. Só na véspera da rendição dos finlandeses, em 12 de Março de 1940, é que N. Chamberlain declarou na Câmara dos Comuns que «os governos britânico e francês estavam prontos a responder imediatamente a um eventual pedido de ajuda da parte de Helsínquia, para fornecer todos os recursos à sua disposição».
Tendo em consideração o tempo necessário para fazer deslocar forças militares com algum significado, e a oposição que o movimento de equipamentos e de tropas franco-britânicas não deixaria de encontrar por parte dos neutrais suecos e dos inimigos alemães, não é de admirar que tal manifestação de apoio tenha sido recebida com manifesta ironia em Berlim, suscitando a J. Goebbels o seguinte comentário:
[Essa manifestação de disponibilidade] só suscitou no mundo uma explosão tonitruante de gargalhadas. Ninguém, acreditará mais numa única palavra dos ingleses.
Hitler e os seus generais foram muito duros nos comentários que produziram e nas conclusões que retiraram sobre o comportamento em combate de homens e equipamentos do Exército Vermelho, mas teria sido bem mais prudente analisar as possibilidades das suas próprias Forças Armadas em idênticas circunstâncias.
Seguramente que os resultados não teriam sido substancialmente diferentes.
Aliás, poucos meses antes, a propaganda alemã tinha habilmente apresentado a campanha da Polónia como uma promenade de santé, exemplo acabado das virtudes de um exército moderno, mecanizado e sustentado por poderosas forças blindadas e uma aviação dominadora do espaço aéreo.
A realidade, porém, foi bem diferente.
Se é verdade que algumas, poucas unidades, podiam dispor das vantagens da mecanização, o grosso da Wehrmacht ainda se assemelhava em muito ao exército alemão do tempo do Kaiser, movimentando intermináveis colunas de carroças, peças de artilharia puxadas por cavalos e legiões de soldados de infantaria arrastando as pesadas botas por estradas poeirentas ou lamacentas.
Os Panzer I revelaram-se impróprios para combate por falta de armamento adequado e os Panzer II só se mostraram adequados para missões de reconhecimento.
Somente os Panzer III e IV apresentaram verdadeiras características de carros de combate. No entanto, o seu número não representava mais de 12% do total do parque de carros blindados.
Após as primeiras semanas de combate começaram a registar-se cruéis faltas de peças de substituição, o que levou a que algumas unidades ficassem impedidas de proceder a reparações, mesmo que ligeiras, e retomar a sua acção de combate. Faltas semelhantes relativas a munições, e mesmo a combustíveis, foram relatadas em diversas unidades.
Não tivessem as forças francesas e britânicas oferecido a Hitler uma drôle de guerre de cerca de seis meses, e a Alemanha não teria tido qualquer possibilidade de manter uma guerra em duas frentes ou tempo para reorganizar os seus efectivos e as suas reservas de equipamentos e munições de forma a manter a iniciativa estratégica a Ocidente.
páginas 206 a 209
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páginas 209 a 217 não disponíveis
Deixem os social-democratas papaguearem sobre o pacifismo, a paz, o desenvolvimento pacífico do capitalismo e assim por diante. A experiência dos social-democratas no poder na Alemanha e na Grã-Bretanha mostra que para eles o pacifismo é apenas uma tela necessária para ocultar a preparação para novas guerras.
J. V. Estaline, (Relatório Político do Comité Central
ao XVI Congresso do P.C.U.S. (B), 27 de Junho de 1930)
TUDO PELA PÁTRIA DO SOCIALISMO!
Estaline bem sabia que a vitória militar só se consegue mobilizando todos os recursos de um contendor e criando em simultâneo todas as dificuldades para impedir que o adversário possa fazer o mesmo. A revolução socialista podia utilizar uma arma que nenhuma outra potência burguesa e capitalista sequer dispunha: ramificações nas sociedades e governos de todas as outras nações através das secções locais do Movimento Comunista Internacional e os seus aliados, actuando na legalidade e/ou na clandestinidade, agregando simpatizantes que de forma gratuita e altruísta boicotavam o esforço militar e político das suas nações em proveito dos interesses do Kremlin.
Essa massa imensa de idealistas para quem o apego ideológico e a propaganda soviética tinham transformado o país de Estaline no sol da Terra, pátria dos operários e camponeses, enfim, farol do socialismo e dos oprimidos do mundo constituíam um contingente abundante, a tudo dispostos e em tudo acreditando que servisse os interesses de Moscovo.
Estaline não se limitou por isso a mobilizar os canais diplomáticos convencionais de uma potência burguesa para apoiar as posições da Alemanha nazi. No bom estilo revolucionário, mobilizou todos os meios do Komintern para esse fim: havia que enfraquecer as potências capitalistas e burguesas por forma a prolongar a guerra conveniente.
O argumento utilizado já estava na altura estafado, mas continuou a prestar bons serviços à propaganda soviética até aos últimos dias do império: a defesa da paz.
Não deixa de ser irónico que a nação que por mais de 70 anos deteve o maior exército do mundo, que foi a única a expandir o seu território após o final da Segunda Guerra Mundial e que terminou os seus dias em parte devido à invasão de um país pobre e desértico (Afeganistão) tenha sempre tão despudoradamente esgrimido este argumento humanitário.
Pelos inícios da década de 30 do século XX, muitos acreditavam na generosidade e sinceridade dos argumentos de Estaline. Em boa verdade, como não aceitar que tudo se devia fazer para evitar a repetição da catástrofe de 1914–1918 que tanta desgraça tinha trazido aos povos da Europa?
Sob a fachada de apoio às várias iniciativas diplomáticas de Hitler junto da França, e specialmente da Grã-Bretanha, para conseguir a paz após a campanha Polónia, o Komintern iniciou um intenso movimento de agitação contra a mobilização imperialista e a guerra.
As directivas políticas foram emitidas por intermédio de várias fontes. O discurso de Molotov na quarta sessão do Soviete Supremo (Especial) de 31 de Agosto, em que se ratificou o Pacto Germano-Soviético; artigos de dirigentes do Komintern, caso de Georgi Dimitrov, que depois de bons serviços prestados à União Soviética foi colocado à frente do Estado búlgaro no final da guerra; e, finalmente, o manifesto do Komintern produzido por ocasião do XXII aniversário da Revolução de Outubro.
Como é evidente, o slogan «Paz, Já!» endereçado a todos os beligerantes, só poderia surtir efeitos em regimes democráticos, e foi a pedra de toque do movimento comunista na Europa entre Setembro de 1939 e 21 de Junho de 1941.
Em Portugal, país periférico, genericamente considerado nas chancelarias europeias como um semi-protectorado britânico, as directivas de Moscovo e do Komintern chegavam mais tarde e amortecidas pela distância aos centros de decisão política europeia e pela pouca importância que na época se atribuía ao papel da sua diplomacia, das suas Forças Armadas e mesmo do seu Império Colonial.
Apesar de o país não ser servido na época por um regime democrático, os comunistas portugueses não deixavam, sempre que para isso lhes era dada oportunidade, de mostrar que estavam integrados no Movimento Comunista Internacional e de divulgar obedientemente as instruções que lhes chegavam de Moscovo.
O movimento a favor da paz e de uma mitigada simpatia pela Alemanha nazi, ou no mínimo uma equidistância entre as potências democráticas ocidentais e a tirania nazi, fez o seu caminho entre os comunistas portugueses.
A 9 de Março de 1940, Álvaro Cunhal escreve no jornal O Diabo um delicioso artigo intitulado «Nem Maginot nem Siegfried». Nele, o então jovem intelectual em ascensão questiona retoricamente: «Mas haverá na verdade alguma diferença profunda entre a Alemanha do Sr. Hitler e a França do Sr. Daladier ou mesmo a Inglaterra do Sr. Chamberlain?». E prossegue, explicando que a guerra não é culpa de homens individualmente considerados: «Não creio que a guerra tenha eclodido em virtude da existência de objectivos tenebrosos de alguns homens. Ela é uma consequência inelutável de fenómenos que nada têm a ver com a psiquiatria (...) Nenhuma vontade individual teria energia bastante para conduzir o mundo à sangreira».
Depois de induzir (afirmar abertamente não seria seguramente permitido pela censura) que a guerra era uma consequência inelutável dos regimes capitalistas, Álvaro Cunhal reproduz a concepção soviética de uma guerra na Europa Ocidental em que as mesmas potências capitalistas se iriam esvair em sangue:
Dum lado e doutro: o mesmo tom de voz, a mesma manobra de pulso. Maginot e Siegfried futuras necrópoles de milhões de vidas.
Os principais esforços, e quiçá sucessos, na difusão do derrotismo verificaram-se em França. O Partido Comunista Francês (PCF) encontrava-se inicialmente dividido entre as ordens de Moscovo e a sua tradição de oposição ao militarismo alemão, gerando mesmo uma cisão entre os deputados comunistas, que no Parlamento, por inércia das decisões anteriores, votaram na sessão de 2 de Setembro de 1939 pelo aumento do orçamento para as Forças Armadas, tendo sido rudemente repreendidos como «oportunistas» e «legalistas», entre outros mimos do jargão político comunista pelos militantes «puros» que seguiam a cartilha enviada pelo Komintern desde Moscovo.
O certo é que a partir desta data não ocorreram mais desvios ou enganos e o PCF passou a seguir de forma disciplinada as ordens emitidas em Outubro pelo camarada Secretário-Geral do Komintern, Dimitrov, iniciando uma campanha a favor da «Paz, Já!», por meios legais quando possível, e ilegais sempre que necessário.
páginas 218 a 221
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páginas 221 a 226 não disponíveis
A ESPIONAGEM: O QUE ESTALINE SABIA
O documento seguinte demonstra de forma definitiva que os soviéticos não só estavam devidamente informados das exactas intenções dos alemães, como se tinham preparado para o ataque «surpresa» da Wehrmacht, ou seja, o sistema de informações funcionou de forma perfeitamente articulada:
Directiva do Comissário do Povo para a Defesa S.K. Timoshenko e do Gen. Jukov para os comandantes dos distritos de fronteira, para colocarem as forças em estado de prontidão dada a possibilidade ataque da Alemanha fascista à URSS, 21 de Junho de 1941.
Ordem de execução imediata.
1. Nos dias 22–23 de Junho de 1941, existe a possibilidadede ataque surpresa pelos alemães nas frentes de LVO (Leninegrado), PribOVO (Báltico), ZapOVO (Ocidental), KOVO (Kiev), OdVO (Odessa). O ataque pode começar com acções provocadoras;
2. A tarefa das nossas tropas é não responder a quaisquer acções provocadoras que possam causar complicações mais sérias;
Ao mesmo tempo as tropas dos distritos militares de Leninegrado, Báltico, Ocidental, Kiev e Odessa, deverão estar em prontidão de combate total, por forma a responder a um possível ataque surpresa dos alemães ou seus aliados.
ORDENO:
a) Durante a noite de 22 de Junho de 1941, secretamente ocupar as áreas fortificadas na fronteira do Estado;
b) Antes do alvorecer de 22 de Junho de 1941, os aeródromos deverão dispersar todas as aeronaves, incluindo militares e escondê-las cuidadosamente;
c) Colocar todas as unidades em prontidão de combate. As quais deverão estar dispersas e camufladas;
d) Colocar a defesa aérea em prontidão sem aumento adicional do pessoal afectado. Preparar o «black-out» de todas as cidades e instalações;
e) Não desenvolver quaisquer outras iniciativas, sem autorização especial.
páginas 226 a 227
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páginas 227 a 248 não disponíveis
ESTÁVAMOS PRONTOS PARA A GUERRA?
Ao tentar lidar com o pesadelo estratégico alemão de sempre, isto é, duas potenciais ameaças em duas frentes, Hitler, aventureiro, cometeu um erro fatal. Contudo, o erro não foi cometido em Junho de 1941, quando as alternativas estavam esgotadas e um ataque soviético era iminente.
O erro foi cometido em Agosto de 1939 quando Hitler, ao tentar proteger-se de um ataque soviético na sua retaguarda, concluiu um pacto que previa inicialmente a destruição da Polónia independente, e mais tarde nas conversações entre Ribbentrop e Estaline de 28/29 de Setembro de 1939, concordou em não reconstruir um Estado-tampão polaco, mesmo que mais pequeno e politicamente controlado.
A partir dessas decisões, os adversários estavam frente a frente, sem obstáculos de permeio. O futuro estava irremediavelmente traçado. Onde antes era geograficamente impossível as duas potências se defrontarem, o astuto e ponderado Estaline levou Hitler a suicidar-se criando o teatro para uma guerra em duas Frentes da qual os soviéticos não poderiam deixar de ser vencedores.
É realmente muito fácil prever resultados depois do jogo terminado, e é facto que nos primeiros meses de combates ninguém apostaria a totalidade das suas poupanças na vitória soviética, mas qualquer um pode aceitar que a vitória alemã só se poderia concretizar por duas razões:
Sem que a primeira hipótese, de desagregação do Estado soviético ocorresse, mesmo que parcialmente, não se compreende como seria possível a concretização da segunda em tempo útil, isto é, no decorrer do primeiro ano de campanha.
Assim sendo, Estaline bem sabia que uma guerra contra a Rússia seria um risco excessivamente elevado para Hitler correr em qualquer circunstância e seguramente nunca enquanto durasse o conflito a Ocidente.
Bastava-lhe então calmamente esperar que a Wehrmacht de Hitler se exaurisse a tentar entrar triunfante em Londres, para em seguida atacar na outra ponta da Europa, ou em alternativa, igualmente compensadora, que a guerra se arrastasse em ferozes combates a Ocidente, sem solução aparente e sempre com a exaustão dos recursos alemães.
Qualquer que fosse a peça movimentada no tabuleiro, Estaline ganharia sempre.
páginas 248 a 251
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páginas 251 a 255 não disponíveis
O que pode ser dito, jamais poderá ser escrito.
Adolf Hitler
O SOLDADO FAZ-SE ENTENDER EM QUALQUER LUGAR
Nos primeiros dias de Junho de 1940, é impresso em Moscovo pelo Comissariado para a Defesa da União Soviética, um folheto designado «Dicionário de Conversação Militar Russo-Estoniano». Este manual foi distribuído aos soldados do Exército Vermelho e incluía expressões como:
São expressões essenciais para o contacto entre o exército invasor e os estónios que defendiam a sua pátria.
A 16 de Junho de 1940, o Exército Vermelho invadia a Estónia, justificando assim plenamente o esforço colocado na publicação daquele folheto.
Na preparação da «Operação Barbarossa», também a Wehrmacht sentiu necessidade de encomendar um idêntico dicionário de bolso a uma editora da especialidade, a Mittler & Sohn, para distribuir pelos seus soldados que se preparavam para invadir a União Soviética, seguindo uma metodologia idêntica ao referido documento do exército soviético.
Tratam-se essencialmente de frases simples em alemão, traduzidas para russo, escritas em alfabeto cirílico e em alfabeto latino. Na sua reedição de 1942, os autores explicam no prefácio com lapidar clareza que não era necessária demasiada conversa, na medida que «a guerra demonstrou que por meios muito simples, o soldado alemão se faz entender em qualquer lugar».
A forma simples como o documento está redigido, permite até aos menos habilitados para as línguas estrangeiras fazerem-se entender, bastando para tal apontar para a frase que se pretende e o seu interlocutor lê-la-ia na sua própria língua.
Durante a Segunda Guerra Mundial, e mesmo actualmente, nos conflitos entre os exércitos das forças ocidentais e insurgentes islâmicos, qualquer força militar que se prepare para combater em território alheio deverá contar, entre as ferramentas distribuídas aos seus soldados, com folhetos de tradução de expressões simples e directas que lhes permitam contactar com os habitantes locais e com o inimigo capturado, por forma a receber informações básicas e fornecer indicações sobre o que pretende que seja cumprido.
Estaline mandou imprimir esse tipo de folhetos antes invadir a Estónia.
Hitler mandou imprimi-los quando se preparava para invadir a União Soviética.
páginas 256 a 257
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páginas 257 a 260 não disponíveis
ATAQUE À ALEMANHA
Mas eis que no Verão de 1940 toda a estratégia desenvolvida nos últimos anos sofre uma reviravolta. A potência teoricamente mais débil, a Alemanha, com o imprescindível recurso às matérias-primas fornecidas por Estaline, submete toda a Europa Ocidental, força a evacuação em desordem do Corpo Expedicionário britânico e passa a ter à sua disposição todo o parque industrial dos países ocupados, bem como dos seus recursos humanos e materiais.
A partir de Agosto de 1940, fica claro para Estaline que:
Tornou-se assim premente para a Stavka dotar o Exército Vermelho de um plano estratégico ofensivo que projectasse poder militar para lá das fronteiras geográficas do Estado soviético, o qual teria vários desenvolvimentos e aperfeiçoamentos sucessivos até à versão final de Maio de 1941.
Quem acompanhou a política de propaganda e comunicação interna e externa da União Soviética desde os tempos de Estaline até ao seu colapso final, sabe que nesse imenso território nenhuma catástrofe natural ou humana era noticiada na comunicação social. As colheitas eram sempre superiores às dos anos precedentes, os índices de produção industrial sempre subiam e as façanhas dos heróis e atletas soviéticos eram sempre superiores às dos países capitalistas. Nenhuma notícia que beliscasse ou minimamente diminuísse a suprema sabedoria dos dirigentes do Partido seria jamais impressa ou divulgada. Um verdadeiro paraíso na Terra.
Ora, nos tempos de Estaline, esta censura, idolatria e culto de personalidade do líder, atingiu paroxismos de loucura.
[…]
Como entender então que neste clima de idolatria da direcção do Partido, o justificativo para as colossais perdas humanas e materiais dos primeiros meses de campanha tenham sido atribuídos ao facto de Estaline ter sido tão inconsciente e irresponsável que, apesar dos muitos avisos de que um ataque estava eminente, vindos da sua rede de espiões, desertores alemães e até de dirigentes de outros países, como foi o caso da comunicação dirigida por Churchill, não ter acautelado minimamente a defesa da União Soviética?
Por muito menos, inúmeros generais soviéticos foram fuzilados.
Muitos argumentam que Estaline considerava que o programa de rearmamento da União Soviética não se encontrava completo e que era, entretanto, necessário não provocar a Alemanha até este estar concluído e a nação se poder defender de qualquer ataque.
Em primeiro lugar, julgamos ser muito difícil definir o que, no caso da União Soviética que possuía em 1941 de longe o maior exército do mundo, se possa entender por rearmamento ou completa preparação para a guerra e quanto tempo seria necessário para atingir tal estado de eficácia: meses, anos, o final do Plano Quinquenal, décadas?
Tal definição não se encontra em nenhum documento disponível e nunca poderia estar, já que o seu conhecimento significaria para os seus vizinhos que se aproximavam os dias do Apocalipse. Mesmo assim, seria necessário hierarquizar a que vizinhos se supunha destinar a preparação militar soviética, dado que, se se referisse à Finlândia, Países Bálticos, Japão ou Roménia, a preparação militar parece ter sido concluída e julgada suficiente para arriscar o Exército Vermelho em campanhas militares.
Em segundo lugar, pode alguém conceber que Hitler tomaria uma decisão tão gravosa como a de atacar a União Soviética como retaliação de simples provocações verbais ou do mero conhecimento de que esta desenvolvia um plano de fortificações e posicionamento de tropas de carácter defensivo?
páginas 260 a 263
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páginas 263 a 276 não disponíveis
A APROVAÇÃO DE ESTALINE: A PROVA DO CRIME
Discute-se se Estaline teria ordenado e acompanhado pessoalmente o desenvolvimento do estudo de 15 de Maio de 1941. Alguns autores, como o coronel David Glantz, argumentam que «não existe evidência de que Estaline alguma vez tenha visto tal documento».
Parece evidente que não é possível aos Estados-Maiores das Forças Armadas, desencadear o planeamento estratégico de operações militares que impliquem a agressão a países fronteiros com quem se mantêm Pactos de Não-Agressão, sem directivas do poder político. Não é prática aceitável nos dias de hoje em qualquer Estado democrático e muito menos o seria na União Soviética dos tempos de Estaline.
Tal iniciativa, desenvolvida sem directivas ou conhecimento do poder político, seria seguramente considerada como «aventureirista» e «contrária à linha do partido» com as consequências conhecidas por muitos milhares de militares soviéticos, independentemente da sua graduação.
O Comissário para a Defesa, S. Timoshenko, bem sabia que o seu cargo se devia ao facto do seu antecessor, Voroshilov, ter caído em desgraça na sequência da desastrosa guerra contra a Finlândia e não estaria disposto a cometer os mesmos erros. Para além disso, a sua relação com o ditador estava reforçada pelo facto de a sua filha ter casado com Vassily, filho de Estaline.
Também Jukov, crescendo na hierarquia à sombra do novo Comissário da Defesa, não era um «espírito livre» entre os generais soviéticos, mas um disciplinado executor das ordens de Estaline.
Durante as furiosas purgas de 1939, já era considerado suficientemente leal para lhe ser ordenado que se dirigisse para a fronteira da Manchúria com a Mongólia, não para combater, mas para investigar as falhas dos líderes militares locais perante as tropas japonesas. Na realidade, foi enviado para conduzir ele mesmo uma purga dos seus camaradas destacados para o local. O que fez com sucesso, afastando os anteriores responsáveis pela Frente e fazendo-se nomear para o cargo.
Na realidade, a principal função de qualquer Estado-Maior em tempo de paz é produzir planos para o tempo de guerra. Não seria assim de espantar que a Stavka aproveitasse os meios que Estaline tinha colocado à sua disposição para cumprir a sua função e desenvolver projecções militares sobre hipotéticos cenários de guerra.
A partir do momento em que este documento se tornou público, foi de imediato suscitada a questão de saber se Estaline terá sido responsável pela sua orientação estratégica, se dele terá tido conhecimento e concedido a sua aprovação como elemento definidor da estratégia militar da União Soviética.
Temos hoje a garantia de que Estaline tomou conhecimento do documento.
páginas 276 a 277
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páginas 277 a 287 não disponíveis