Vivi durante toda a guerra numa idade em que me era dado compreender os acontecimentos, e dedicava-lhes atenção, a fim de conhecer a verdade exacta a respeito deles.
Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, 431-404 a.C.
Passados mais de 70 anos sobre fim da Grande Guerra Patriótica, começa a ser hoje possível separar o ardor da paixão política, da fria análise das fontes históricas e assim concluir com maior objectividade das motivações dos diferentes protagonistas, citando as suas memórias e, dessa forma, não só confrontar argumentos e vivências, mas também enfatizar e homenagear o sacrifício dos homens e mulheres comuns, geralmente muito jovens que viram a sua vida arrastada para o apocalipse da guerra.
Que cerebrais razões de Estado, que medos e ambições pessoais, terão impelido Hitler a invadir a União Soviética na madrugada do dia 22 de Junho de 1941, quando todo o bom-senso e doutrina militar lhe impunham que antes de se aventurar nos confins do império do Leste, resolvesse previamente o complexo e imprevisível conflito que deixava na sua retaguarda?
O que sabia e que valor dava Estaline aos planos da Alemanha nazi para invadir a pátria do socialismo?
O que levou a União Soviética a ter como prioridade, de três consecutivos planos quinquenais, a construção de uma gigantesca máquina de guerra, sem que no horizonte fossem vislumbráveis quaisquer ameaças concretas? Estaria Estaline, fiel baluarte do movimento comunista internacional, simplesmente a criar condições para a defesa da pátria de Lenine , cercada de mortais inimigos ou pelo contrário, estaria a preparar-se para cumprir o desígnio final do socialismo e impor pela pressão política, se possível, ou pela força da mão amiga do Exército Vermelho, se necessário, a União das Repúblicas Socialistas da Europa?
Estará a História da Segunda Guerra Mundial definitivamente arrumada por décadas de sucessivas investigações, revelações e repetições?
É com o objectivo de tentar contribuir para a resposta a algumas destas perguntas que emergem de factos ocorridos há mais de setenta anos, mas cujos ecos ressoam no presente, que agora se colocam em novas perspectivas as dinâmicas que edificaram as bases do nosso mundo contemporâneo.
Trata-se de uma investigação que adopta as principais linhas argumentativas dos trabalhos pioneiros de investigadores russos de referência, nomeadamente Viktor Suvorov, cujas obras e fundos documentais continuam a ser pouco conhecidos no Ocidente. A originalidade desafiante da sua primeira obra provocou um forte abalo na historiografia da Segunda Guerra Mundial na viragem do milénio e ainda se mantém perfeitamente actual, apesar das reservas dos sectores mais tradicionalistas.
Começa por isso a ser tempo de libertar um olhar ocidental sobre os factos e personagens que determinaram a catástrofe que se abateu sobre o povo soviético após aquele ensolarado domingo de Junho de 1941. Por um lado, procurámos introduzir na narrativa histórica documentos fundamentais que em muitos casos ainda não haviam sido traduzidos para a língua portuguesa. O acesso directo a alguns dos diferentes arquivos da Federação Russa representa por isso um contributo concreto e, eventualmente, inovador.
Por outro lado, significa necessariamente uma diferente interpretação das fontes parcialmente disponibilizadas em 1998, nomeadamente as que se tornaram acessíveis nos dois volumes da monumental obra 1941.
O acumular de documentos, teorias, factos políticos e históricos exige método, espírito crítico e uma indomável vontade de juntar as pontas, de forma a que inúmeras pequenas peças do quebra-cabeças aparentemente desconexas se comecem a ajustar segundo uma determinada lógica para produzir um quadro complexo, mas perfeitamente plausível.
Não concebo o uso de teorias da conspiração ou do revisionismo histórico como ferramentas de reabilitação de doutrinas políticas, felizmente já abandonadas no lixo da História. Contudo, seria ingénuo aceitar de forma acrítica as várias versões que Moscovo foi sucessivamente elaborando sobre o início e causas da Grande Guerra Patriótica ou, ainda pior, a repetição em círculo vicioso de citações sobre citações de autores que nunca contactaram os documentos originais sobre os quais elaboraram.
Quando, após a abertura parcial e temporária dos arquivos soviéticos, passámos a conhecer factos que não colavam em absoluto com o quadro geral que nos era oferecido, os alarmes tocaram. Qualquer detalhe, por mais insignificante, que não se ajuste adequadamente a uma dada teoria, não pode ser enterrado no fundo da gaveta. Pelo contrário, a sua simples existência pode até arrasar qualquer tese por mais longa e perfeitamente congeminada e mais ilustres que sejam os seus defensores.
As respostas propostas pela historiografia convencional parecem ainda hoje estar demasiadamente envolvidas pela ganga ideológica e traduzirem mais um wishful thinking de quem as elaborou do que uma análise sistemática e imparcial da informação disponível.
Na versão tradicionalmente divulgada, para Hitler, no Verão de 1941, a Grã-Bretanha parecia não constituir um verdadeiro problema. Antes que os Estados Unidos conseguissem concluir o seu rearmamento, antes que F. D. Roosevelt pudesse convencer o povo americano a sair do seu isolamento e envolver-se em nova guerra na Europa, existia uma janela de oportunidade em que seria possível e expectável uma destruição rápida da União Soviética.
Seguro de que não seria forçado a uma guerra em duas frentes, assegurados os recursos naturais que permitissem a sua subsistência, isolado Churchill na sua irredutibilidade belicosa, o tempo encarregar-se-ia de resolver definitivamente a questão britânica, com a qual o ditador, curiosamente, parecia sentir mesmo alguma afinidade e simpatia.
Assim se justificaria a sua decisão de invadir a União Soviética.
Mas, se de facto existia um perigo mortal para a União Soviética, como foi então possível que o astuto e ponderado Estaline se tivesse deixado enganar pelo espalhafatoso e arrogante Hitler? Porque razão ocorreu tamanha catástrofe? Porque não tomou as medidas necessárias para defender a pátria do socialismo? Como é que a hiena se deixou surpreender com tão aparente facilidade pelo lobo?
Pode um caçador poderoso, exímio e atento ser surpreendido no seu habitat natural por um predador ligeiro?
Após o consulado de Nikita Kruschtchov, as respostas surgiram céleres e, dessa vez, os historiadores soviéticos e os ocidentais convergiam numa explicação um tanto ou quanto excêntrica. Estaline tinha sido um ditador sanguinário, mas, no momento mais crítico da invasão alemã, decidira pura e simplesmente trancar-se em casa com medo que os seus camaradas o liquidassem.
Talvez seja esperar pouco de uma hiena treinada para se impor na cadeia alimentar.
Todos concordavam que o Exército Vermelho dos Operários e Camponeses era inquestionavelmente numeroso, como numeroso era o povo soviético, mas não passava de uma turba mais ou menos desorganizada e deficientemente armada, na qual os oficiais mais competentes haviam sido liquidados em vagas sucessivas pelas purgas estalinistas. Dos muitos tanques existentes, poucos eram os que se podiam mover e, mesmo esses, eram obsoletos e incapazes de se confrontar com os temíveis Panzer alemães, que até estavam equipados com rádios! Quanto aos aviões… nem se fala; poucos foram os que puderam sequer levantar voo, tendo sido simplesmente destruídos no solo, ou porque os pilotos tinham recebido ordens para não ripostar, ou porque não estavam em condições de voar.
Quando, em resultado da luta pelo poder no interior do aparelho do Partido Comunista e do Estado soviético, a facção vencedora entendeu que para a sua afirmação no poder e subsistência, não era mais possível mascarar a dimensão da catástrofe, a retórica oficial de Moscovo teve de ser readaptada: Fomos traídos por Hitler! O nosso armamento era antiquado e insuficiente! Os fascistas eram muitos mais e muito melhor armados! Os nossos oficiais eram um bando de ineptos! E Estaline ?!… Ah, esse era um rematado imbecil! Como foi possível dispor as nossas forças militares em locais onde já estavam cercadas antes de ser disparado o primeiro tiro? Como foi possível não ver o óbvio e ignorar todos os avisos que lhe chegaram de que a invasão era iminente?
Este quadro mental de incompetência e desmazelo dos soviéticos começou por ser difundido pelos alemães para efeitos de propaganda interna.
As imagens desses primeiros dias, distribuídas pela máquina de Joseph Goebbels, são esmagadoras: filas a perder de vista de prisioneiros com feições asiáticas, esfarrapados, caminhando resignadamente para a retaguarda alemã. Restos empilhados de tanques, canhões e armas ligeiras, muitas vezes funcionais e simplesmente abandonados na precipitação da debandada. Izba a arderem na imensidão verde amarelada dos campos de cereais.
Os comentários do Die Deutsche Wochenschau não podiam ser mais entusiásticos: «Vejam como a nossa gloriosa Wehrmacht marcha ao som de Vorwärts nach Osten sobre os restos do gigante soviético; reparem nas montanhas de material abandonado; A vitória está próxima, é só atingir o horizonte!».
Durante décadas, centenas (ou mesmo milhares) de livros foram impressos repetindo a credulidade irresponsável de Estaline, os seus erros de cálculo, o estado caótico das chefias militares soviéticas e o momento de transição e de rearmamento em que se encontrava o Exército Vermelho dos Operários e Camponeses.
Estaria a hiena assim tão fragilizada?
Como é evidente, um país nestas condições extremas não podia constituir ameaça para ninguém. A política externa da União Soviética estava firmemente ancorada no princípio da paz universal e os seus dirigentes só tinham sido traídos porque o seu pensamento não era outro além do desenvolvimento pacífico da felicidade dos povos. Esta foi a mensagem que a propaganda da Internacional Comunista (Komintern) transmitiu para todos os partidos irmãos da Europa e que estes gostosamente reproduziram.
A União Soviética não queria, nem podia atacar a Alemanha. A justificação dada por Hitler, de que tinha preventivamente avançado sobre os comunistas antes que os comunistas atacassem o Reich, era uma calúnia e uma justificação mesquinha para um crime de rapina e genocídio sem precedentes na História.
No início do conflito, os ocidentais olharam para Estaline como um aliado, certamente um pouco incómodo, mas que ainda assim contribuía com os seus intermináveis recursos territoriais, materiais e humanos para o desgaste da Wehrmacht. Mais tarde, já em tempos de Guerra Fria, era muito reconfortante apresentar o mais carismático dirigente soviético como um imbecil sanguinário e o Exército Vermelho como um colosso, contudo comandado por incompetentes, obedecendo, mais por medo, aos comissários políticos do que aos militares de carreira, e equipado com montanhas de armamento que, de tão obsoleto, a maior parte das vezes nem funcionava.
Contudo, há algo neste puzzle que não se ajusta.
Porque razão, um império, sujeito a um feroz controlo dos meios de comunicação e uma patológica necessidade de afirmar a infalibilidade da sua política e dos seus dirigentes, mergulhava nesta súbita necessidade de auto-crítica e de catarse histórica que punha em causa os próprios fundamentos do regime?
Seria outra a verdade?
Será que o quadro pintado após a sua morte pelos detractores de Estaline corresponde ao retrato real do ditador? Será que na realidade a hiena se deixou enganar ou trair pelo lobo? Será que este cabisbaixo reconhecimento de desmazelo, incompetência, falta de meios e negligência na defesa da pátria foi uma cortina de fumo para mascarar algo ainda mais tenebroso?