A BOLCHEVIZAÇÃO DA EUROPA
A doutrina desenvolvida pelos pais fundadores da Revolução Socialista implicava, desde a sua génese, que a tomada de poder na Rússia seria o primeiro passo para a tomada de poder pela classe operária em todo o mundo.
Este conceito era desde logo uma obrigação internacionalista para com os operários de todas as nações, mas igualmente uma questão de sobrevivência de um regime implantado pela força, cercado por potências politicamente antagónicas, e porque não dizê-lo, interessadas em desagregar o maior e mais rico país do mundo, para no resquício dos seus destroços, obterem vantagens materiais e territoriais.
Nos primeiros anos da existência da Pátria do Socialismo, Lenine e os seus camaradas tiveram de resolver uma agreste guerra civil, a que naturalmente acresceram a fome, a miséria e algumas tendências centrífugas dos povos mais recentemente agregados ao velho império dos czares.
A estas questões foi também necessário acrescentar uma nova dialética política e propagandística que desse justificação a um dilema genético do próprio regime.
Tendo em vista a necessidade de agregar apoios para a Revolução, os dirigentes bolcheviques haviam prometido ao povo russo, esmagado psicológica e financeiramente pelos custos da sua participação na Primeira Guerra Mundial, «Paz, Já!». Uma paz tão eterna quanto a sua vontade de não entrar em guerras imperialistas contra os irmãos operários das outras nações, igualmente subjugadas pela exploração do capitalismo e da burguesia.
A política externa soviética foi durante a sua existência contida nos termos de um paradoxo. Por um lado, estar amarrada a um imperativo propagandístico de patológico amor pela paz, e por outro, ter de se confrontar com a necessidade de dar resposta à dinâmica dos interesses próprios e alheios.
Um desses interesses fáticos resultava da jovem Revolução, para obter a paz, tempo para respirar fundo e se implantar, ter sido obrigada a ceder partes substanciais do território do velho império czarista. As cedências diminuíram o seu estatuto no concerto das potências mundiais, relegando os bolcheviques para um patamar regional incompatível com as suas ambições de potência mundial ao velho estilo das potências burguesas, mas agora também no seu recém-adquirido estatuto de protector dos oprimidos e explorados de todo o mundo, com um papel a cumprir na sua libertação colectiva.
Durante os anos 20, foram feitos os primeiros esforços para retomar as suas antigas linhas fronteiriças, com particular urgência para um dos mais desprezados rebentos das imposições dos tratados de paz: a Polónia. Os resultados não foram os esperados, e saldaram-se por mais uma humilhação internacional do regime soviético.
Em contraponto, durante este período, a União Soviética pôde obter o reconhecimento diplomático da sua existência por muitas das mais importantes nações do mundo, saindo parcialmente do limbo para onde havia sido remetida. Não deixou contudo de estar sujeita a uma série de embargos comerciais, militares e políticos, que habilmente soube ir contornando à custa de uma utilização criteriosa dos seus recursos naturais para adquirir, junto de empresários ocidentais menos escrupulosos, a tecnologia e o saber-fazer que lhe permitiram iniciar o processo de criação de uma indústria pesada moderna e preparada para produzir, já nos anos 30, os equipamentos militares de que necessitava.
A década de 30 reabriu velhas feridas por sarar desde a assinatura do Tratado de Versalhes.
O descalabro de Wall Street arrastou uma dolorosa crise económica pelos países capitalistas, em particular na Alemanha, que se viu esmagada pela necessidade de dar cumprimento às reparações de guerra impostas unilateralmente pelos vencedores, e simultaneamente dar resposta às necessidades mais básicas da sua população.
A consequência natural foi o desenvolvimento de soluções políticas radicais e o exacerbar dos nacionalismos europeus. A União Soviética soube tirar proveito deste enquadramento, e aproveitando o facto de ser um território vedado ao escrutínio internacional lançou uma bem-sucedida campanha diplomática e de propaganda em que se apresentava como a pátria dos trabalhadores, farol da paz mundial, lutadora infatigável contra a violência dos regimes fascistas, futuro do progresso e evolução da Humanidade.
Pouco interessava se tais factos ocorriam na própria União Soviética.
Poucos eram os que tinham a possibilidade de lá entrar e a esses era concedida uma estadia plena de informações sobre os sucessos do socialismo.
Para consumo externo, o Komintern encarregava-se de, em colaboração com as suas sucursais, desenvolver uma bem articulada campanha subterrânea de propaganda e aliciamento de novos agitadores. O conflito europeu agudizou-se no final da década entre os regimes burgueses pacifistas do bloco franco-britânico e as potências designadas por fascistas e agressivas, encabeçadas pela Alemanha e a Itália.
Estaline teorizou de imediato que uma nova guerra imperialista estava a chegar e com ela a «tempestade perfeita » que forçaria a exaustão pelo conflito das potências burguesas europeias e a revolta dos povos oprimidos pela exploração, fome e sofrimento.
A única condicionante era a necessidade imperiosa de manter a neutralidade da União Soviética, de forma que esta se conseguisse manter afastada do conflito até ao momento em que devidamente fortalecida e aproveitando o desgaste alheio, a sua entrada significasse, para as massas, um imperativo ético, a libertação e a paz.
Por esta época, a Alemanha era seguramente e elo mais fraco, atendendo à sua histórica debilidade em recursos naturais e alimentares.
No Verão de 1939, Estaline parecia dividido sobre o caminho a seguir.
Ouvir os conselhos do seu Comissário dos Negócios Estrangeiros, M. Litvinov, e procurar um acordo com o
bloco franco-britânico, por forma a conter o expansionismo germânico?
Ou pelo contrário, apoiar a Alemanha, fornecendo-lhe os recursos naturais que lhe permitissem prolongar uma previsível guerra com os primeiros, até ao esgotamento de todos?
[...]
Nos primeiros meses de combate, os soviéticos perderam soldados e equipamentos numa proporção que só encontra paralelo nos combates travados entre os conquistadores espanhóis e os povos nativos da América pré-colombiana.
Não foi a insuficiência de armamento, a sua vetustez, a falta de coragem dos soldados, a ausência dos oficiais purgados por Estaline ou a surpresa do pérfido ataque alemão, que provocaram a catástrofe.
Balanceados para um ataque iminente, os soldados e oficiais soviéticos foram confrontados numa posição de grande fragilidade, com uma agressão à qual não sabiam como responder.
Presos pelo medo atávico de não proceder de acordo com as ordens do Vozhd, cada um em particular, e as unidades em geral, fizeram o que as multidões em pânico geralmente fazem: trataram de salvar a vida fugindo para a retaguarda, pelos meios que estivessem ao seu alcance, deixando para trás todos os equipamentos pesados que os atrasassem na fuga.
Seja qual for o parâmetro pelo qual se pretenda aferir, Estaline foi responsável pelos mesmos crimes que condenaram Hitler perante a História.
Se em vida a hiena venceu o lobo, no memorial do horror, as suas memórias ficarão, como soldados inimigos caídos na mesma trincheira, para sempre entrelaçadas.