O site Munangada é resultado de um empreendimento coletivo e multidisciplinar como uma das atividades propostas na disciplina de graduação “Antropologia e o Estudo da Cultura”, oferecida pelo Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e ministrada, em 2022.2, por Ana Gretel Echazú Böschemeier, antropóloga e professora universitária DAN/PPGAS UFRN. A Turma é composta por alunos de diversos cursos, tais quais Ciências Sociais, Ciências Biológicas, Ecologia, Geografia e História - característica determinante na elaboração das ideias que tornam o presente trabalho um projeto pluridisciplinar, onde foram estabelecidas conexões de saberes não apenas intelectuais como também vivenciais, coletivas e subjetivas.
O professor Kabengele Munanga apareceu em nossas discussões sobre a construção da memória como fator formador de cultura. Nesse momento do curso, vimos as categorias de Michael Pollak (1989) de “memória, esquecimento e silêncio”, onde as narrativas que conduzem a feitura da história estão em constante disputa. Neste contexto, as memórias dos grupos marginalizados resistem silenciosamente, revelando-se em momentos históricos-políticos pontuais, quando entram em disputa com a memória “oficial” e canônica, esta, reforçada e sustentada pelos historicamente favorecidos por ordens absolutamente imorais da exploração humana tais como o capitalismo, o colonialismo e o racismo estrutural. Nesse sentido, e sobretudo por seus esforços em revelar a precisão e os mecanismos do racismo estrutural, a nossa sistematização e valorização coletiva do trabalho do professor Munanga também tem a ver com a necessidade de fortalecimento das memórias subterrâneas de intelectuais vindos de coletivos historicamente marginalizados, porém que constituem uma maioria neste país, em uma conjuntura fundamentalmente pautada em debates negacionistas, em aproximações neoliberais à diversidade cultural e em reducionismos e revisionismos historiográficos.
Assim, este espaço tem a finalidade de apresentar os caminhos subjetivos, teóricos e metodológicos realizados na construção desse ambiente o qual tem a pretensão de servir à disseminação científica a respeito da vida e da obra do antropólogo congolês radicado no Brasil, Dr. Kabengele Munanga, desde o atestado da insuficiência de sua presença nos espaços acadêmicos locais e nas conversas sobre negritude e a luta antirracista, principalmente nas bibliografias da graduação em Ciências Sociais dentro da nossa universidade. Para facilitar os esclarecimentos, essa nota vai ser dividida em seções que apontam para as etapas do nosso processo enquanto empreendimento coletivo.
Motivações
O estopim para a realização deste trabalho surgiu de um exercício de construção de uma linha do tempo realizado coletivamente em sala de aula a partir da trajetória narrada pelo próprio Dr. Munanga na entrevista intitulada “Da África ao Brasil: entrevista com o Prof. Kabengele Munanga”, realizada pelos professores Pedro Jaime e Ari Lima (2013). Ao final do registro da linha de tempo no quadro, discutimos sobre os expressivos passos do professor enquanto articulador e fomentador da antropologia brasileira. Tendo estas contribuições expressas, a realização do site serve ao propósito de preencher algumas lacunas a respeito da pouca frequência do nome Kabengele Munanga nas discussões, inclusive metodológicas, em sala de aula ou nos currículos disciplinares do curso, principalmente tendo ele logrado o esforço felicíssimo de articular a luta antirracista com a educação - trazendo assim ferramentas para a reflexão sobre nossos espaços de convívio por duas vias: pela via da problematização sobre o racismo, e pela via da reflexão sobre os espaços de formação profissional e cidadã. O objetivo principal desta empreitada é que com a disponibilidade desse site enquanto um compilado da obra do prof. Dr. Kabengele Munanga, possamos reverberar nas posturas e produções formais e informais que apontam para a sua notoriedade para pensar a sociedade brasileira.
"Catação" de dados
Falamos aqui em “catação” em referência à obra da escritora afro-brasileira Carolina Maria de Jesus (2004), ecoando junto ao trabalho da antropóloga afro-norte-americana Zora Neale Hurston (1942), que colocava que “pesquisar é curiosidade formalizada, é cutucar e bisbilhotar com um propósito”. A construção do site aconteceu no período de 18 outubro de 2022 ao dia 15 de dezembro do mesmo ano, e se baseou em investigações etnográficas - de acervos (textuais e audiovisuais) -, em entrevistas e em construção de materiais visuais como colagem (banner do site e registros fotográficos dos participantes), quotes/citações, linha do tempo, mapa interativo temporal e apresentação de fatos da vida do professor no Prezi, além de dois encontros semanais da disciplina nos quais socializávamos nossos avanços. Fizemos uso também da plataforma Google Forms com a finalidade de sondar os conhecimentos a respeito de Kabengele Munanga e de sua trajetória na UFRN.
Distribuição temática
A estruturação do site foi elaborada em comum acordo sobre todos os seus elementos: decidimos coletivamente sobre a plataforma base, assim como escolhemos sua personalização e a localização dos conteúdos em cada página. Em relação à paleta de cores, tentamos seguir um padrão ao longo da construção do site, as comunicações virtuais e os materiais externos: escolhemos cores claras e um fundo visualmente limpo para que o conteúdo preenchesse maior destaque e atenção do/a leitor/a. E as fontes foram consideradas tendo em vista e pensando na acessibilidade para pessoas com dislexia, apontando para uma agradável experiência de navegação e leitura.
Pesquisas etnográficas
Para elaborar o site foi necessário que dispuséssemos de informações qualitativas sobre o trabalho de Munanga para que conseguíssemos nos apropriar do nosso objetivo com a página. Por isso, além de fazermos o mapeamento de sua biografia, tivemos contato com suas obras autorais e com entrevistas concedidas por ele ou sobre ele as quais estão disponíveis para acesso público na Internet, especialmente no Youtube. Ao final, as informações recolhidas foram selecionadas e compiladas em forma de conteúdo para a elaboração de resenhas sobre suas produções escritas como uma forma de convidar o público à leitura de suas obras; de referenciais teóricos para a realização de entrevistas e para a composição dos elementos visuais.
Entrevistas
Quanto às entrevistas e trocas realizadas, os contatos se deram via e-mail, e no caso do professor Luiz Carvalho de Assunção, o contato se estendeu a uma vídeo chamada na plataforma Google Meet. O professor Luiz facilitou a entrevista em um dia sábado, tirando parte do descanso dele durante o final de semana, motivo pelo qual ficamos bem agradecidas/os. As professoras Mundicarmo Ferretti e Peti Mama Gomes nos responderam por email e Whatsapp, respectivamente, em um formato que caracterizaríamos aqui como de "microentrevista".
Vale destacar que, nas nossas buscas, conseguimos contato com o próprio Dr. Kabengele Munanga, quem respondeu rapidamente nossa comunicação e foi atenciosamente solícito tanto em relação a nossa proposta do site quanto as nossas perguntas, também no formato de "microentrevista". Nossa expectativa era a de conhecer os processos subjetivos os quais envolveram o Dr. Kabengele Munanga, os/as estudantes que compartilharam espaços de formação junto a ele e seus/suas colegas de trabalho, para assim nos aproximarmos o tanto quanto possível de sua figura. Entrevemos, no caminho, os contextos da presença do professor nas universidades brasileiras, e percebemos, pelo menos no caso de sua passagem pela UFRN, que esta foi vinculada a conjunturas mais amplas as quais muito nos ajudaram a trazer à tona essas memórias, portanto, abrir contato com a história e com os contextos que marcaram as condições de desenvolvimento do nosso curso. No nosso percurso também nos deparamos com uma série de interrogantes a respeito do contexto da época, permeado pela vigilância da produção de conhecimentos vinculados às ciências sociais e humanas durante a ditadura militar.
Produções visuais
A começar pelo trabalho em uma linha do tempo biográfica, primeiro de forma colaborativa no quadro da sala de aula e depois de forma digitalizada na plataforma canva, o que fizemos foi adensar a que já havíamos feito em sala de aula, acrescentando outros elementos históricos e a personalizando. Na ocasião, utilizamos da autobiografia do professor Munanga narrada livremente na entrevista citada acima. Desta mesma conversa, colhemos falas curtas, mas significativas, que de alguma forma representassem um pouco de onde parte Munanga, e o que ele propõe com as suas produções, e as organizamos no formato de “quotes” as quais são de fácil e rápida leitura. Já com o Prezi, o nosso objetivo foi o de reunir diversas informações e distribuí-las de uma forma interativa para que as pessoas tenham acesso rápido a várias dimensões da vida do antropólogo na ordem desejada, e dessa forma, levarem consigo pelo menos alguma informação sobre o professor, do site. Ainda nesse sentido, optamos por ilustrar geograficamente os itinerários do antropólogo como uma forma de localizar no tempo e no espaço os caminhos por ele percorridos que, sem dúvida, expressam a complexidade de referenciais e de experiências as quais compõem a singularidade desse intelectual. Ao final, todos esses elementos servem ao propósito de enriquecer o processo de absorção de informações pelo leitor a partir do contato com o site, enquanto essa ferramenta de disseminação e reflexão sobre o itinerário do antropólogo.
Divulgação
Este trabalho é o produto de um processo construído através de muitas deliberações e afetos. O fato de vê-lo tomar forma e relevância, aos pouquinhos, foi nos instigando a vontade ainda maior de que este projeto reverbere. Acreditamos em sua potência de denunciar a insuficiência de referências pretas, e na sua proposta de retomada da memória deixada por uma delas em especial: a do professor Munanga, que teve sua passagem e deixou as suas sementes nesta instituição. Foi nesse sentido que amadurecemos, finalmente, a ideia de fazer um evento de divulgação o tanto amplo quanto conseguíssemos: criamos uma página no Instagram pensando na divulgação do nosso trabalho e do evento, assim como encaminhamos e-mails e chamadas textuais pelo Whatsapp, e colamos cartazes por nossos setores de aulas. Nosso intuito foi o de convocar estudantes, professores/as, público externo à universidade e quem mais quisesse somar a potência viva da sua presença na nossa aula aberta.
Como apontamento final, consideramos que este trabalho de pesquisa exploratória contempla de forma crítica os vazios de sentido nos quais navegam estudantes negres e indígenas na universidade. Esses vazios são reveladores de silêncios favoráveis à sistematização do racismo epistêmico nas universidades, com reflexos na sociedade e na manutenção de poder racista-colonial. Ao mesmo tempo nosso trabalho aponta soluções, visibilizando a potência de referenciais para se pensar e fazer pesquisa acadêmica, e especificamente, neste caso, sistematiza a contribuição do Dr. Munanga para perto de nós. A inspiração de Munanga no seu ofício de antropólogo, assim como no seu ativo pertencimento à diáspora afro-centrada e a uma cidadania global ativa na sua luta pela justiça social, são coisas que nos afetam profundamente.
Referências
HURSTON, Zora Neale. Dust Tracks on a Road. New York: Harper Perennial, 1942.
JAIME, P., & LIMA, A. Da África ao Brasil: entrevista com o Prof. Kabengele Munanga. Revista De Antropologia, 56(1), 507-551. https://doi.org/10.11606/2179-0892.ra.2013.64518, 2013.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Francisco Alves, 2004.
MUNANGA, Kabengele (Org.). Superando o racismo na escola. 2ª edição revisada. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade – 1999. 204 p.
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica. 2008.
MUNANGA, Kabengele. Negritude – usos e sentidos. 2ª ed. São Paulo: Ática, 1988. Série Princípios.
MILLER, Daniel. Como conduzir uma etnografia durante o isolamento social. Univ. College of London. YouTube, 20/05/2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=WC24b3nzp98&ab_channel=LISAUSP. Acesso em 15/12/2022.
POLLAK. Michael. Memória, esquecimento, silêncio. In: Revista Estudos Históricos. Rio de Janeiro: vol. 2, n. 3, 1989.
ALMEIDA, Juan de Assis. Diligências para Localização do Acervo Documental da Extinta Assessoria de Segurança e Informações da UFRN (1970 a 1990). In. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Gabinete do Reitor. Comissão da verdade da UFRN [recurso eletrônico]: relatório final / Universidade Federal do Rio Grande do Norte. – Natal, RN: EDUFRN, 2015. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/jspui/handle/123456789/19504 Acesso em: 14 dez. 2022.