"Não se faz ciência sem consciência":
Microentrevista com Kabengele Munanga
Gostaríamos de saber: quais caminhos o levaram para a UFRN?
Descobri a UFRN no início do primeiro semestre do ano académico de 1979. Estava fugindo da ditadura militar implantada no meu país, República Democrático do Congo que se chamava República do Zaire, largando meu emprego de Professor na Universidade Nacional do Zaire(UNAZA), deixando atrás minha família com meus quatro filhos. Nesse ano, a UFRN acabava de criar um curso de mestrado em Ciências Sociais e precisava de professores com título de doutor. Indicado pelo Professor João Baptista Borges Pereira Professor da USP que foi meu orientador e que conhecia o Professor Jardelino então diretor do Centro, fui admitido na turma dos primeiro professores visitantes que chegaram para tocar o mestrado.Mas fiquei na UFRN apenas durantes os dois anos de 1979 e 1980. Fui para São Paulo a convite da Faculdade de Filosofia e do Museu de Arqueologia e Etnologia para substituir o Professor José Mariano Carneiro da Cunha, um grande amigo que muito cedo deixou nosso mundo, onde assumi meu novo cargo em dezembro de 1980.
Como foi sua experiência aqui no nordeste?
Minha experiência como docente tanto nas disciplinas de Graduação como de Pós-Graduação ocorreu tranquilamente. Os dois mestrando, o saudoso Sergio Figueiredo Ferretti e sua companheira Mundicarmo Ferretti da Universidade Federal do Maranhão que foram os primeiros a defender suas dissertações de mestrado nesse programa foram meus orientandos e os primeiros que orientei na minha vida de docente universitário. Meu filho caçula, Mulumba Bertazinni Kabengele, hoje com 42 dois anos nasceu em Natal e os outros Bukasa e Kolela nascidos em Bruxelas (Bélgica) e Ilunga e Mbiya nascidos em Lubumbashi (Zaire), pisaram a terra de Natal em fevereiro de 1980 com idade entre 8 e 4 anos. Fora os preconceito que eles sofreram na escola onde foram chamados de macacos por seus colegas, crianças e os estranhamentos em algumas praias e ruas onde às vezes se gritava "olha neguinhos" como se fossem animais raros, ou os estranhamentos de algumas pessoas quando viam eles andando na rua em companhia carinhosa da segunda mãe branca. Fora dessas coisas que fazem parte do racismo brasileiro, a vida em Natal era gostosa e tranquila comparativamente com São Paulo. Tive grandes amigos como profa. Maria Emilia e seu companheiro prof. Oswaldo Yamamoto e outros que fizeram suas carreira na UFRN e já estão hoje na aposentadoria. Aliás, foi na UFRN que iniciei minhas pesquisa sobre o negro na sociedade brasileira, fazendo levantamento das comunidades remanescentes dos quilombo no interior para poder começar a pesquisa de campo sobre suas vidas. Infelizmente, o processo ainda no início foi interrompido pela minha ida para USP.
Como era a composição étnico-racial na UFRN na época em que esteve aqui?
Nessa época havia só três profesores negros assumidos na UFRN a saudosa Maurinete, Belchor e eu. Belchor tinha um irmão professor em Direito não assumido como negro que chegou até a dizer que eu estava criando falsos problemas sobre o preconceito que não existia no Rio Grande do Norte onde não tinha negros. Agora não sei se já têm professore(a)s negro(a)s na UFRN graças às cotas e quantos? Estudantes negros não vi nehum até o ano de 1980 que fui para São Paulo onde também fui o primeiro professor negro na grande FFLCH/USP.
Seria possível falar brevemente como foi ser professor negro e africano?
Ser professor negro ou africano não fazia parte da minha preocupação quando cheguei no Brasil. Minha principal preocupação era ser um bom professor, não porque era negro ou africano mas porque gosto de cumprir satisfatoriamente minhas responsabilidades com meus alunos na sala de aula, que era meu único ganha pão para sustentar a família. Mas o fato de ser o primeiro negro numa grande universidade como a USP começou a tocar muito forte na minha consciência sobre a questão racial brasileira. Talvez fosse por isso que os 3/4 de minhas mais de 150 publicações versam sobre o negro e o racismo no Brasil e apenas 1/4 sobre África.
Por fim, gostaríamos de saber o que o senhor falaria para as/os/es jovens que estão cursando ou queiram entrar na universidade?
Diria como costumo repetir que não se faz ciência sem consciência dos problemas da sociedade em que estamos inseridos. Seu papel quando se tornarão pesquisadores (as), não será somente observar os fenômenos da sociedade e da natureza, descrevê-los e analisá-los em busca da explicação, produzir ciências e tecnologias, mas será também se posicionar em busca dos caminhos de mudança e transformação da sociedade e jamais ficar em cima do muro. Quem se posiciona não fica neutro, pois a neutralidade científica é um engodo. A situação dos negros, das mulheres, dos homossexuais são problemas da sociedade e não das vítimas dos preconceitos e todos os membros conscientes da sociedade têm que se solidarizar e lutar juntos com as vítimas para uma verdadeira mudança da sociedade.
Observação: Esta entrevista foi realizada via e-mail,
enviada no dia 07/12/2022 e a sua resposta foi recebida no dia 08/12/2022.