Sementes de Kabengele Munanga da UFRN:
Entrevista coletiva com Luiz Assunção
*Luiz Carvalho de Assunção é Professor Titular do Departamento de Antropologia e
do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, ambos da UFRN.
*O presente texto apresenta passagens escolhidas da entrevista. Veja ela na íntegra aqui.
A passagem do prof. Munanga pela UFRN foi curta e teve lugar durante o governo de João Figueiredo, último presidente da ditadura militar. Ao mesmo tempo, ele aconteceu durante um processo de regionalização dos programas de pós-graduação no país, durante a própria inauguração do primeiro mestrado em Antropologia Social da UFRN. Essa passagem, prévia ao profundo processo de redemocratização pelo que o país passou, deixou sementes: formações, afetos, referências. Nesta oportunidade, procuramos conversar com o professor Luiz Carvalho de Assunção, com a finalidade de cristalizar essas experiências em narrativas públicas que fortaleçam os espaços de trabalho afrocentrados de ação afirmativa nesta universidade.
O Dr. Luiz Assunção, professor titular do Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, foi formado por Kabengele Munanga na primeira turma do primeiro mestrado em Antropologia da UFRN. Colocamos aqui algumas das suas impressões sobre a experiência. A íntegra da entrevista pode ser assistida aqui:
O contexto
Acho que é importante recuperar essa memória do próprio Programa de Pós-Graduação em Antropologia e do curso de Ciências Sociais. Na época, o Ministério da Educação e Cultura começou a criar uma política de expansão das pós-graduações no Brasil, principalmente dos cursos de mestrado. Os cursos de pós-graduação se concentravam muito no eixo Rio-São Paulo e o restante do Brasil ficava sem ter acesso a cursos de pós-graduação. Como parte do contexto dessa política do MEC, a UFRN entrou com o projeto de criar alguns cursos de Mestrado. Algo muito novo na UFRN. Entre os cursos estavam o curso de educação e um curso na área de humanas que era o curso de antropologia social. O curso de antropologia social teve a primeira turma para funcionar com seleção e entrada de aluno exatamente em 1979. Então esse ano, 1979, diz muita coisa: quando é criado o programa de antropologia social e quando Kabengele Munanga chega na UFRN.
Como a universidade não tinha um grupo de professores formado com o nível de pós-graduação - os professores na época tinham somente graduação -, o que que vai acontecer é que tiveram que ser contratados professores de fora, professores visitantes. O fato que eu queria destacar para vocês é que ele vem dentro dessa expansão da pós-graduação, na criação do Programa de Antropologia Social. Ele vem então como professor visitante, com um contrato por tempo determinado, para participar dessa implantação do programa. O que foi ótimo para nós da graduação é que esses professores também deram disciplinas na graduação: aí foi quando eu tive o contato com o professor. Foi fabuloso ter acesso a esses professores antropólogos.
O primeiro contratado na criação da pós-graduação foi o professor Tom Miller - eu já fui aluno também de Tom Miller nas disciplinas de teoria antropológica. Ele é o primeiro a chegar. Depois em 1979 é que chegou Kabengele, a professora Ângela Tygel - doutoranda da Universidade de Stanford, hoje aposentada da UFRJ - , tem uma professora americana chamada Madeleine Richeport, tem o professor Etienne Samain, que é hoje aposentado da Unicamp e que trabalha com antropologia visual, quem mais um argentino chamado Roberto Roberto Ringuelet- fui aluno deles todos, na graduação.
Um curso, um professor, um estudante
Com Kabengele eu só cursei uma disciplina, "Métodos e Técnicas da Pesquisa Antropológica", no quarto ano do curso do Bacharelado em Ciências Sociais. Ele era um profundo conhecedor da antropologia, da pesquisa e da teoria. Nas suas aulas sobre pesquisa, ele trazia muito as experiências dele como pesquisador - à época, ele já tinha pós-graduação, era doutor, tinha feito pesquisa de campo, então ele já tinha uma experiência muito grande enquanto etnógrafo. Ele incentivava que desenvolvêssemos projetos. Isso foi muito rico, o incentivo à pesquisa. Isso foi fundamental para mim: essa é uma marca que eu lembro dele. Foi assim que ele me deu essas referências básicas da disciplina, isso foi de uma riqueza muito grande, embora tenha sido em curto tempo, pois uma disciplina só é pouco tempo de contato com um professor, mas era uma pessoa muito afetuosa, tinha uma fala macia, simpática, era atencioso, cordial, era uma pessoa muito bacana.
Uma rede de afetos e trabalho
Conheci o casal Ferretti, o Sérgio Ferretti que já é falecido, e a esposa dele, Mundicarmo Ferretti, os dois foram orientando do professor Kabengele na primeira turma de 1979, quando eu entrei em 1980 eles ainda eram alunos, e então eu estabeleci amizade com eles, mantenho contato ainda com a Mundicarmo Ferretti, ela é professora aposentada da Universidade Federal do Maranhão, e assim, eles foram alunos do mestrado e do doutorado com ele - em certo sentido, foram mais alunos do professor Kabengele do que eu então.
Criação, cultivo e descontinuidade: o Centro de Estudos Afro-Brasileiros
Nessa época, praticamente inexistiam pretos na UFRN como alunos. Não havia política de ações afirmativas. Era uma universidade branca - hoje ainda é - você imagine algumas décadas atrás. E o professor Kabengele e Maurinete (...) juntamente com Belchior, professor do Departamento de Letras, que era também uma pessoa negra, começaram a organizar reuniões para discutir a questão da negritude na sociedade brasileira. Era uma ação política, fora do espaço das disciplinas - algo muito incipiente, mas uma semente. Chegaram a criar um núcleo chamado “Centro de Estudos Afro-Brasileiros”, que existiu enquanto eles estiveram aqui. Quando eles saíram da UFRN, esse núcleo não teve continuidade.
Referência na área da educação
Ele é uma referência grande nas contribuições sobre o racismo, pós-1980, ele é um intelectual no Brasil que vai retomar esses clássicos e dizer, olha isso é vivido no cotidiano, isso tem que ser uma pauta nos movimentos sociais, nas pesquisas e nos estudos que ele começa a publicar. E depois, ele tem um outro momento, que pra mim é o mais marcante dele, é quando ele coloca em pauta a educação, isso é importantíssimo, e então eu diria, ele é muito lido nos cursos de pedagogia. Quero dizer que toda a discussão sobre negritude e educação tem que passar por Kabengele, ele é a referência para pesquisadores mais novos (...).
Seu lugar na democratização da sociedade brasileira
Então ele passou a ser uma referência, principalmente pra mim, do meu ponto de vista de tema, de conteúdo. Foi quando eu passei a pesquisar sobre as religiões afro-brasileiras, embora ele não trabalhe especificamente com o campo da religião, ele é uma referência nos estudos sobre a África, pensar a diáspora, pensar a cultura afro-brasileira, pensar o contexto da população negra na sociedade brasileira. Então, as publicações dele, o compromisso político e ético dele dentro desse campo, vai levando, e não foi diferente comigo, hoje levo toda essa bagagem e referência que ele construiu em seu trabalho ao longo desses anos. E também tem a militância dele, que vai ser muito importante, pós anos 2000, pós-constituição, num contexto que propicia o movimento social e a militância, então ele não fica fora desse contexto ele vai participar, vai publicar, vai ter esse compromisso e acaba sendo também uma referência para a gente em nossos trabalhos.
Quando o professor Kabengele foi transferido para a USP criou um núcleo de estudos que vai começar a investir na questão de pensar o racismo na sociedade brasileira, na questão do preconceito, em seguida ele vai se dedicar à relação do racismo e a educação, e vai publicar muita coisa sobre.
Formas de contornar vazios
Eu diria que acho que tem a ver com a discussão que é muito nova ainda, não a discussão sobre o racismo, não é isso que estou dizendo que é novo, é a universidade se voltar para essas discussões, isso é algo muito novo, muito recente, eu posso lembrar pra vocês quando eu fui aluno da graduação de ciências sociais no bacharelado, essa era uma discussão que não existia, quando eu fui para o mestrado, essa também era uma discussão que não existia, era um outro modelo de Brasil… Essa discussão ela começa quando você a amplia e discute sobre o que é uma sociedade racista, o Brasil racista, que permeia não só as instituições mas o cotidiano da sociedade, isso sempre foi discutido, você tem obras clássicas, Fernando Henrique Cardoso, Otávio Ianni, Florestan Fernandes. Mas a partir dos anos 2000, no caso do Brasil, com a nova constituição, no sentido de abrir espaço, de colocar a presença dos grupos populares, que estavam fora do poder, eles estão presentes na medida em que as leis estão voltadas para os grupos populares. Então, esse amparo legal, possibilita que o movimento social se amplie enquanto pauta (...) Então, tô querendo dizer que isso é novo, não tô dizendo que não deva, Kabengele deve estar sim nas referências bibliográficas do curso de ciências sociais.
Seu trabalho permanece
Então penso assim, que a força dele, de trabalho, de reflexão, permanece. Ano passado ele estava trabalhando na universidade do recôncavo baiano, dando aula. Ele tem sim uma contribuição, que precisa ser trazida para as ciências sociais. Acho que, para pensar a negritude no Brasil, tem que passar por ele, ele é sim uma referência (...) Ele é um teórico importante, quando eu cito, pensar a negritude, o que é ser negro na sociedade brasileira contemporânea, ele tá discutindo essas questões, que são questões que estão presentes no dia a dia da população, no cotidiano mesmo, não é algo conceitual que está dissociado de uma prática, ele pensa na prática, e mais precisamente no âmbito da educação, quando ele coloca que é nessas questões que a educação tem que começar, no início do fundamental, no ensino médio, tem que se discutir o racismo da sociedade brasileira. Então, para pensar a educação hoje, é preciso fazer essa interface com o tema do racismo, e ele é a referência, ele tá trazendo isso. Enfim talvez as ciências sociais precise pensar melhor a sociedade brasileira.
Interlocuções afro-diaspóricas: uma mensagem para estudantes da UFRN
Eu acho que é o compromisso, o compromisso do trabalho, o compromisso com a sociedade, com os grupos com os quais você estabelece interlocução. A ética, sabe, não é possível fazer ciências sociais desligado dos movimentos sociais, desligado dos grupos, sem uma interlocução… Acho que tem que pensar os grupos nesse processo afrodiásporico, no caso do mundo afrobrasileiro, uma ética no sentido do respeito, acho que é fundamental, pensar também na descolonização das autoridades e dos poderes instituídos, acho que a gente tem um caminho muito grande a ser percorrido. Existem conquistas na sociedade, a partir da ação principalmente dos movimentos sociais, mas ainda é muito pouco.
Ecos do trabalho de Munanga
O professor Kabengele como outros professores, deixam essa lição do compromisso com a antropologia, que antropologia é essa? a serviço de quê e de quem essa antropologia está? O respeito pelos grupos com os quais você trabalha, não diluir essa autoridade do antropólogo, ele não é só um conhecimento, mas existe uma multiplicidade de conhecimentos, inclusive, o conhecimento dos interlocutores que precisam estar no mesmo patamar desse diálogo do pesquisador com seus interlocutores, ou dos interlocutores com o pesquisador.
Observação: A entrevista foi realizada de forma virutal no dia dia sábado, 26 de novembro de 2022, das 11:00am até 12:00pm, via Google Meet.
Entrevistadores/as: Damião Paz, Jeferson Rodrigo Farias, Rosiane Lucas Albino e Vitoria Alyne Silva Lima.