Texto publicado original em 17 de abril de 2020, no Facebook (Link)
É difícil confiar em quem não conhecemos. Então por que devemos acreditar na ciência?
Antes de decidirmos se devemos aceitar ou não orientações que nos são sugeridas por cientistas, creio ser imperativo uma compreensão mínima sobre o que é ciência. Em geral, há uma percepção equivocada sobre o que ela é, em parte estimulada por pessoas imorais que se beneficiam da ignorância (falo mais sobre isso no final do texto) e em parte pela incapacidade de quem faz e vive de ciência em explicar ou até mesmo entender a natureza de seu próprio ofício. Muitas vezes sabemos o que a ciência pode produzir (carros, aviões, pontes, vacinas, etc.), mas não temos ciência do que ela é.
Se tivesse que explicar de forma simples e direta (e provavelmente pouco sofisticada ou rígida), eu diria que a ciência é um modo de construir uma compreensão sobre fenômenos do universo que não depende da crença em coisa alguma. O que separa a ciência de outros tipos de conhecimento, como o religioso, o “bom senso”, a tradição e os costumes é que sua validade não pressupõe que eu tenha fé em algo, que eu ache que algo “parece” correto, ou que eu aceite alguma coisa porque ela foi entendida assim há tanto tempo.
A ciência é uma construção de conhecimento que para ser válida precisa ser feita de tal forma que ela possa ser testada por outras pessoas. Assim, quando alguém lhe diz algo com base científica ele está simplesmente dizendo: “olha, não precisa acreditar em mim, aliás, estou assumindo que você duvidará de mim e irá verificar, testar, refutar, confirmar ou aperfeiçoar o que estou dizendo. Aqui estão cada um dos passos que utilizei para chegar a esta afirmação e aqui estão as ferramentas que utilizei em cada uma destas etapas”. Tanto as conclusões entre cada passo, como a validade das ferramentas utilizadas, estão sob questionamento constante. Isto é ciência.
Acho que apresentei uma vantagem óbvia da ciência sobre outros tipos de construção de conhecimento. Para recapitular, ao contrário deles, a ciência não nos obriga a acreditar no que os outros falam. Se vocês forem céticos como eu, vão adorar este conceito. Talvez não consigam mais viver sem ele.
Existe uma outra vantagem extraordinária da ciência sobre formas alternativas de conhecimento: ela é cumulativa. Como para ser válida ela exige a formulação e a documentação de padrões de análise que possam ser reproduzidos, então ela permite que, sempre que alguém se lance ao desafio de tentar entender algum fenômeno, ele se beneficie do que já foi feito pelas outras pessoas. Imaginem isso depois de séculos. Sim, a ciência é incrível.
Mas existe um problema na ciência sobre o qual eu queria falar. Fazer ciência é muito difícil. É muito mais fácil dizer que os humanos foram criados por Deus a partir de Adão e Eva do que tentar explicar a origem do homem por meio de evidências observáveis ou logicamente abstraídas que sejam analisadas por meio de ferramentas que possam ser testadas por outras pessoas. Felizmente o humano ficou muito bom nesse negócio de ciência e hoje contamos com técnicas incríveis e sofisticadas que nos possibilitam cada vez mais criar conhecimentos sobre os fenômenos do universo e até manipulá-los para, por exemplo, fazer pão de queijo ou viagens no espaço. Ainda assim, a construção da ciência é um processo de aperfeiçoamento sem fim. Algumas áreas estão mais avançadas, enquanto outras ainda estão procurando meios mais eficazes de tornar seus achados satisfatoriamente científicos.
Outro potencial problema da ciência é que ela tende a se tornar muito técnica pela sua própria natureza. Isso não é necessariamente ruim. É uma consequência desejável da possibilidade de acumulação de conhecimentos que ela permite. Imagine um tema que vem sendo analisado cientificamente por séculos, sempre que alguém quiser avançar neste campo de conhecimento, ele basicamente terá que estudar tudo o que já foi feito para apenas então tentar fazer uma contribuição. Mesmo o estudo de fenômenos recentes pega emprestado técnicas já desenvolvidas antes por outras áreas da ciência, ainda que para adaptá-las ao seu objeto. Isto significa que ser especialista em uma área de conhecimento se transforma em uma necessidade para poder avançar sobre ela. O lado ruim disso tudo é que, ao tornar-se muito técnica, a ciência se distancia das pessoas comuns. Os humanos tendem a desconfiar daquilo que não entendem e, dependendo do estímulo, podem até passar a odiar. Por isso é importante, embora não seja trivial, o esforço de divulgação científica para o público não especialista.
O anti-intelectualismo não é um fenômeno novo, embora esteja mais saliente em função do crescimento da suspeição sobre a ciência por pessoas que ocupam cargos públicos, como nosso presidente e sua família, explicitamente orientados pelo pensamento anticientífico de Olavo de Carvalho.
Para muitos, a ciência ficou associada com a arrogância, uma prática elitista e inacessível às pessoas comuns. Pior ainda: para existir, a ciência demanda – e é assim no mundo todo, mas muito mais em outros países desenvolvidos do que no Brasil – recursos públicos. Parte do imposto que sai do bolso dos trabalhadores invariavelmente será investido em pesquisas que não entendemos sobre coisas que não entendemos e que não parecem úteis para nossas vidas. Isso é um prato cheio para políticos demagogos que querem manter o poder manipulando as pessoas a se movimentarem contra a ciência e, em troca, acreditar naquilo que eles dizem, só porque são eles que dizem.
Em resumo, quando alguém questiona a ciência, o que ele está questionando é seu direito de desconfiar de algo ou de não acreditar em algo só porque foi dito por alguém. Não é gente boa, né? Questionar algo produzido pela ciência, por outro lado, não é errado. Na verdade, como já disse antes, quanto mais o conhecimento produzido pela ciência é objeto de refutações, melhor ele fica. Não existe ciência sem diálogo. Assim, se um dia você se aventurar a fazer ciência e algum trabalho seu for duramente criticado, fique feliz, estão te ajudando!
Agora, e talvez isso seja a coisa mais importante que vou falar aqui, só vale questionar a ciência com argumentos científicos. Senão você está usando uma forma de conhecimento que não exige demonstração e que não pode ser testada para questionar uma forma de conhecimento que demanda todo este trabalho. Ser cético é legal, necessário. Porém, duvidar sem mostrar o que está errado na formulação que está sendo questionada não tem valor algum. Não existe conversa entre pessoas que não falam a mesma língua.
Mas então a própria ciência, como forma de produção de conhecimento, não pode ser questionada? Ela pode, mas aí quem quiser desafiá-la precisará apresentar uma alternativa cujas vantagens sejam superiores à forma de produzir conhecimento proposta pelo método científico. Até hoje nenhuma alternativa viável foi convincentemente defendida (talvez os pós-modernos discordem, mas tudo bem). Até lá, a ciência tem feito um bom trabalho.