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Sequência Didática sobre Oralidade - Vivendo as línguas portuguesas
Contando e recontando histórias para celebrar os falares e as manifestações culturais em língua portuguesa
Autores: Danilo Cavalcante, Luisa Biella Caetano, Maiki Santos, Mariana Alves da Silva, Matheus Malagueta e Wanderleia Pinheiro Querubini
Ano escolar: 6º ano - Fundamental II
Duração:18 aulas (são três módulos, que não precisam ser dados em sequência, embora seja uma recomendação)
Apresentação: Esta sequência didática foi elaborada partindo do pressuposto de que o estudo a respeito da oralidade é de extrema importância, principalmente nos tempos atuais, nos quais a presença da globalização e do tecnicismo faz com que a relação com as tradições de base oral acabe se perdendo. Sendo assim, ela busca desconstruir preconceitos acerca da língua e das variedades linguísticas, além de apresentar um pouco da história da língua e do vasto mundo da oralidade, fomentando a construção de um repertório de manifestações culturais orais. Ao final, a sequência culmina em uma contação de histórias, momento em que os estudantes poderão celebrar os diferentes falares e experienciar o processo de transmissão de conhecimento por meio da oralidade.
Objetivos: Estudar a língua oral de modo a ressaltar a importância de todas as variantes como forma de respeito à diversidade e exercício da cidadania.
Conteúdo:
Módulo I: Preconceito e variação linguística
Módulo II: A língua que falamos: contando a história do Português
Módulo III: Manifestações culturais orais
Materiais de apoio: O material necessário consta no início de cada aula, podendo ser acessado pelo documento que consta a sequência didática. De maneira geral, algumas aulas precisarão de projetor e conexão com a internet; folhas de exercícios ou de glossário; (se possível) um espaço externo à sala de aula para realização da contação de histórias e algumas atividades específicas.
Apresentação geral
Mariana Alves da Silva
Esta sequência didática contém 18 aulas e foi pensada para o 6º ano do Ensino Fundamental. Partindo do grande eixo temático das expressões verbais orais, nós construímos três módulos: I) Preconceito e Variação Linguística; II) A língua que falamos - contando a história do português e III) Manifestações culturais orais. Em linhas gerais, é uma sequência que busca valorizar a multiplicidade das expressões orais, seja do ponto de vista linguístico, refletindo sobre a história da língua e sua variação diacrônica e sincrônica; seja do ponto de vista artístico-literário, com a ampliação do repertório dos estudantes quanto às múltiplas formas de expressão oral que encontramos na língua portuguesa.
Antes de tratar melhor da sequência, consideramos importante ressaltar algumas questões práticas:
Para este conjunto de aulas, é bastante importante o uso do projetor, pois as dinâmicas incluem vários vídeos voltados à ampliação do repertório da turma.
Recomendamos a reserva da sala de leitura/biblioteca para a condução do Módulo III.
É importante preparar com antecedência as aulas 17 e 18. A aula 17 foi pensada como uma aula especial em que se recebe uma pessoa convidada para realizar uma contação de histórias ou outra forma de manifestação cultural oral. E, portanto, é necessário pensar em quem será a pessoa convidada e em que espaço ocorrerá a sua apresentação. Além disso, a aula 18 será uma apresentação da turma. Caso seja possível, ela pode ganhar contornos maiores, como se explicará ao final dos comentários ao Módulo III.
Descrição de cada módulo
Módulo I - Preconceito e Variação linguística
Luisa Biella, Maiki Santos
É extremamente importante que para começarmos a falar sobre questões de oralidade com os alunos nós tratemos de desconstruir certos preconceitos que possam existir ao que concerne às práticas orais, sendo elas através da contação de histórias, de músicas ou canções, e até mesmo seu uso em textos escritos, como em poesia entre outros.
Dessa forma, usaremos como base o livro Preconceito Linguístico (2007), de Marcos Bagno que trata detalhadamente deste assunto. Inclusive, partimos a construção do início deste módulo, a partir de algumas diretrizes dadas no terceiro capítulo do livro, intitulado A desconstrução do preconceito linguístico, tais como: reconhecimento da crise; mudança de atitude; o que é ensinar português; o que é erro; então vale tudo; a paranóia ortográfica e subvertendo o preconceito linguístico
Pensando nisso, começamos com uma atividade que não apenas diga aos alunos o que é ou não preconceituoso, linguisticamente falando, mas a partir da qual podemos partir de um repertório deles para então entrarmos na discussão de fato, de modo a aproximarmos o conteúdo a ser ministrado das vivências e crenças dos próprios alunos.
Os exemplos dados na atividade são contrapontos entre a linguagem formal e informal. Temos, por exemplo conversas informais de whatsapp e messenger e uma mensagem enviada via e-mail para vaga de emprego, escrita de maneira formal; há também uma estrofe de um poema de Manuel Bandeira, intitulado Cartas de meu avô, do livro A cinza das horas (1917) escrito dentro da norma culta, e uma poesia de cordel de Patativa do Assaré, intitulada Aos poetas clássicos, escrita na variante informal de maneira a, praticamente, transcrever a fala na escrita; por fim encontramos também dois textos escritos em norma culta, o primeiro de Antonio Candido no ensaio O direito à literatura, e o último encontrado em um livro de Microbiologia Básica, de Irineide Teixeira de Carvalho.
Link para a atividade em formato pdf: Atividade LP - Desconstruindo o preconceito linguístico
Assim, primeiro perguntamos as opiniões deles acerca das imagens e a partir disso damos continuidade à atividade, inserindo a ideia de que “não existe erro, mas sim contexto”, explicando, neste momento sim, sobre o que fala cada imagem salientando a importância e validação de todas as variantes ali presentes, porém explicando que cada uma delas deve ser usada em seu determinado contexto, para que haja adequação e entendimento.
Isto pois, presença do estudo sobre variação linguística do português é extremamente importante para fazer o aluno refletir sobre questões que dizem respeito a sua língua materna, sua grande diversidade, além de como ele é falado nos mais diferentes contextos e locais por todo o território nacional e a sua disparidade (em alguns casos) com relação à escrita. Trabalhando junto de A Língua de Eulália, de Marcos Bagno, pretende-se dar sequência aos debates sobre preconceito linguístico visando sua desconstrução em conjunto com os alunos, trazendo diversos exemplos de como o mesmo idioma pode mudar, de como é importante respeitar o falar do outro, além de debater o porquê de haver variações com mais prestígio do que outras.
O aluno tem papel fundamental nas discussões, já que será através deles que a aula será alimentada com uma maior gama de exemplos, de suas próprias vivências e a de seus parentes ou pessoas próximas, além da interação em dinâmicas e atividades que tem como intuito abordar a variação linguística do português que atinge tanto o âmbito social quanto o regional, além de uma mudança temporal. Há também, ao fim, a demonstração sobre a importância de estudarmos o português na escola reiterando a questão de contexto, onde a utilização de determinada variante linguística irá condizer com a situação onde o indivíduo se encontra.
Módulo II - A língua que falamos: contando a história do português
Matheus Malagueta
Em relação ao Módulo II, se os(as) colegas docentes nas áreas de Geografia, História e até mesmo Educação Artística permitirem um diálogo e houver essa possibilidade de colaboração, seria interessante que o conteúdo das quatro disciplinas se convertessem, permitindo aos alunos uma experiência ainda mais enriquecedora. Entretanto, se não for possível, indicaremos alguma bibliografia e uma atividade. Em relação ao conteúdo “África”, antes de tratar de questões relativas às origens das variações linguísticas, pode haver um esforço por parte do(a) docente em desestigmatizar possíveis noções, sensos comuns e pré-conceitos por parte dos alunos em relação à África. Pode ser exibida uma sequência de slides onde o(a) docente faria um jogo com os alunos; os alunos tentariam identificar qual o lugar representado na imagem. A ideia é que os alunos vejam que a África não é apenas aquela imagem estereotipada que provavelmente eles carregam consigo. Além disso, na mesma sequência, ao fim, há a apresentação de alguns elementos tradicionais da cultura africana. Esta sequência especial e extra está disponível aqui: https://drive.google.com/file/d/1ipBWT_74FvqU9l3wlSbXHYUIIBhi_zhN/view?usp=sharing (África - desfazendo preconceitos e estereótipos). Em relação às contribuições na língua, recomendamos o programa especial TVE - A língua escravizada: https://www.youtube.com/watch?v=C5sK6HdsUHE&t=5s (Parte 1)/ https://www.youtube.com/watch?v=R5SSR8UwFBU (Parte 2). Para tratar das contribuições indígenas, seria interessante a leitura da matéria especial da Revista Fapesp “Ora pois, uma língua bem brasileira”: https://revistapesquisa.fapesp.br/ora-pois-uma-lingua-bem-brasileira/.
Módulo III - Manifestações culturais orais
Narrativas indígenas: Uma introdução
Mariana Alves da Silva
Em primeiro lugar, é importante dar destaque à Lei 11.645/2008, que modifica a Lei 10.639/2003 e inclui nos currículos escolares a história e a cultura dos povos indígenas. Acreditamos que a discussão sobre oralidade pode ser um espaço privilegiado para a discussão das culturas indígenas do território brasileiro, uma vez que, em geral, no território das “terras baixas sul-americanas”, no qual se inclui o espaço brasileiro, os povos indígenas têm na memória e não na escrita a sua forma de perenização e transmissão do conhecimento.
Ademais, ao tratar das culturas indígenas, é preciso ter em mente sua presença atual, ou seja, falar em indígenas é uma questão fundamental do presente. É preciso, ainda, estar disposto a conhecer novas formas de observar o mundo, os animais, a natureza e a humanidade. Isso não significa, porém, que essas outras formas de visão e de modos de vida, em geral, são incompatíveis com elementos da modernidade, como a internet e a tecnologia. Ou seja, não podemos colocar as culturas indígenas como avessas àquilo que entendemos como progresso, mas devemos escutá-las justamente porque inúmeros pensadores indígenas nos fazem questionar e reformular essa ideia de “progresso”. Nesta aula, não pretendemos, é claro, abordar tudo isso, mas consideramos importante ressaltar essas questões para que o espaço escolar não seja mais um reprodutor de preconceitos e sim um espaço aberto à diferença, à diversidade e à valorização de múltiplas perspectivas sobre a vida.
Como dito em um dos vídeos indicados na sequência, a formação dos jovens indígenas normalmente se dá por meio da escuta da palavra dos avós. Assim, nesta primeira aula do Módulo III, buscamos ressaltar a forma oral da transmissão do conhecimento e, em especial, a valorização do encontro de gerações e do papel daqueles que ouvem. Buscamos, portanto, pensar na oralidade também como um encontro humano, em que não basta que se conte algo, mas é preciso também haver disposição para ouvir, guardar e refletir. O conhecimento que se transmite pela oralidade vai sendo permanentemente reconstruído pela experiência do encontro.
Entendemos que o espaço de algumas aulas não podem jamais dar conta desses aspectos, mas esse momento pode servir para despertar o interesse em conhecer mais e refletir sobre essas questões. Aqui, elencamos alguns materiais que nos guiaram durante a produção desta sequência e que podem servir para outros aprofundamentos nos temas das narrativas indígenas:
Vídeos:
Textos/Livros:
Munduruku, Daniel. Como surgiu - Mitos indígenas brasileiros. São Paulo: Callis, 2010.
Munduruku, Daniel. Contos indígenas brasileiros. São Paulo: Global Editora, 2005.
Cesarino, Pedro. Histórias indígenas dos tempos antigos. São Paulo: Claro Enigma, 2015.
Kopenawa, Davi e Albert, Bruce. A queda do céu. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
Krenak, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Sugestão para o Módulo III (mas que pode servir para outros momentos): Criar um espaço no caderno de Língua Portuguesa chamado “Registros Literários”, em que cada estudante poderá registrar, livremente e de acordo com seus interesses e percepções, alguns comentários sobre as obras literárias com as quais tenha contato, sejam elas orais ou escritas. Esse espaço pode servir de apoio para as atividades do Módulo III, mas sua principal função é incentivar a criação de uma relação pessoal com as obras, fazendo com que elas ganhem sentido para cada pessoa, ou seja, buscando incentivar que elas ajudem também a compor nós nessa grande teia que chamamos de vida.
Segunda aula de Narrativas Indígenas
Danilo Cavalcante
Antes da discussão sobre o que é literatura Oral, é de grande importância que o educador já tenha apresentado o que é a oralidade e quais são seus fenômenos.
Quando é utilizada uma literatura através do modelo escrito, porém que foi colhida oralmente, como é o caso da versão de Daniel Munduruku da lenda da criação da mandioca, temos a chance de discutir uma das principais dicotomias da língua: a divisão da literatura escrita, de um lado, e da literatura oral, do outro. Espera-se que a mentalidade do aluno seja, antes dessa Sequência Didática, a mentalidade do senso comum, de que a oralidade é inferior à escrita. Espera-se que, após essa Sequência Didática, tal hierarquia deixe de existir, e que fique claro que a barreira entre literatura oral e escrita não é sólida.
O preconceito do senso comum apresentado acima ainda perdura em diversos ramos do pensamento. Para dar um exemplo, em livros didáticos de História pode ser facilmente encontrado o conceito “pré-história” definindo sociedades que não possuem escrita, ou seja, que por isso não possuem história. Acabaram de ser apresentadas, para os alunos, sociedades que até hoje não desenvolveram a escrita, mas que possuem um conhecimento histórico próprio, muito refinado. Os povos indígenas brasileiros são povos que a pouco tempo não escreviam (e muitos ainda não sentem essa necessidade da escrita). Mesmo sem a escrita, possuem conhecimentos ancestrais invejáveis, que trazem olhares do mundo inteiro para si. A exemplo, é observada a vinda de estrangeiros para o Brasil, mandados por gigantes farmacêuticas com interesses capitalistas, especificamente para colher conhecimentos de medicina tradicional indígena, colhido por diferentes povos durante milênios, utilizando métodos verdadeiramente científicos, experimentais, de erro e de acerto. A medicina tradicional indígena não precisou do escrito para sobreviver, e é apenas um dos exemplos da importância da tradição oral.
Hoje, sabemos que existem esforços tentando a mudança desse pensamento, de que a escrita é superior à oralidade, e de que a forma “correta” de falar é a que se aproxima da escrita. Durante toda a Sequência Didática isso estará sendo trabalhado, com o objetivo de o aluno entender as duas formas de literatura como arte e também como ferramenta de comunicação. Com isso, a gente elimina pacientemente a falsa hierarquia de que a escrita supera a oralidade. Essas duas literaturas, na realidade, interagem uma com a outra, e por vezes se confundem.
Segunda aula de Narrativas Indígenas - Na sala de aula
Danilo Cavalcante
Para essa segunda aula de Narrativas Indígenas, começamos a aula pedindo pra cada aluno que comente aquilo que registrou nos “Registros Literários” do caderno de Português, sobre as experiências de ouvir em sala de aula, e depois de ler sozinho. Esse momento deve ser bem livre e é preciso que, na condução da aula, a turma seja incentivada a expor suas percepções, como por exemplo: “gostei mais de ler porque consegui ver mais detalhes” ou “porque entendi partes que não tinha entendido oralmente”, ou ainda, “porque entendi melhor ouvindo, por que me concentrei mais”, etc. Em seguida, será o momento para responder a eventuais dúvidas que os alunos possam ter em relação à leitura do conto indígena.
Cabe ao professor, após esse momento:
Lembrar do pedido de anotação de palavras desconhecidas ou de origem indígena, porque algo muito semelhante irá ocorrer nas próximas aulas.
Relembrar diversos fenômenos que foram anteriormente tratados:
Um deles é o fato da lenda indígena contar a história de criação não só da palavra “mandioca”, mas também da criação do próprio alimento “mandioca”;
Outro é o fato de que a lenda foi criada a muito tempo atrás e chegou até nós, sobrevivendo ao tempo graças ao fenômeno da oralidade, em específico da contação de histórias;
Também o fato de que a lenda continua a ser contada verbalmente (e agora, com recursos tecnológicos, também por meios audiovisuais): uma rápida pesquisa no Youtube mostra diversos vídeos, com versões muito próprias da lenda, desde versões para crianças pequenas, até versões para jovens e adultos, com elementos místicos e de suspense.
Discutir como a mandioca era (e ainda é) um alimento essencial para os indígenas, e passou a ser também durante a colonização portuguesa. Hoje, todos os brasileiros consomem mandioca cozida, frita, farinha de mandioca, polvilho, tapioca e tudo o que pode ser feito com essas combinações. Cabe ao professor lembrar de algumas com a ajuda dos alunos, perguntando se eles já consumiram esses alimentos;
Lembrar que Daniel Munduruku se descobriu escritor e decidiu fixar diversas lendas no formato escrito, de certa forma fixando elas no tempo, como se fosse a fotografia de uma contação de história;
Ressaltando que existem sociedades que até hoje não desenvolveram a escrita, mas possuem um conhecimento histórico próprio, muito refinado, e que esses povos indígenas possuem conhecimentos ancestrais invejáveis, possuindo o poder de trazer olhares do mundo inteiro para si.
O professor pode exemplificar contando rapidamente sobre a medicina tradicional indígena, que não precisou do escrito para sobreviver, e que é apenas um dos vários exemplos da importância da tradição oral, e também do mantimento de conhecimentos ancestrais. Utilizamos, hoje, os conhecimentos indígenas sem nem percebermos. Todo esse conhecimento foi construído e sobreviveu por vias orais, fato que destrói qualquer ideia de que a escrita é superior à oralidade.
Chegando ao fim da aula, é pedido aos alunos que anotem algumas questões para responder em casa, sem que eles consultem o conto escrito. Essa atividade é um teste de memorização, para que os alunos percebam que em nossa cultura, não temos o hábito de ouvir histórias e guardar elas, ainda mais com a existência da internet, onde tudo o que precisamos encontrar pode ser facilmente pesquisado. Não precisamos nem guardar datas importantes de familiares e amigos, porque as redes sociais nos avisam. Buscar outros exemplos como esse: o cérebro vai deixando de se preocupar com a memorização, por isso é esperado que os alunos não se lembrem de alguns aspectos da lenda da criação da mandioca. A atividade não deverá ser avaliada pela sua qualidade.
Os alunos deverão responder as perguntas abaixo sem consultar o conto escrito:
Quais são as personagens da história? Liste todas as personagens das quais você consegue se lembrar.
Na história que você escolheu, há uma ou mais personagens principais? Se sim, descreva essas personagens.
Em que momento se passa a história? Caso a história não apresente uma data, tente se lembrar de alguma expressão que você ouviu na história que sirva para responder à pergunta.
Onde essa história se passa? As ações se passam em um único ambiente ou em vários? Descreva-o(s) brevemente.
Acontecimentos - Enumere os acontecimentos que compõem a história. Tente fazer um pequeno resumo e coloque-os em ordem.
Contação de história: conto angolano
Danilo Cavalcante
Como foram apresentadas em aulas anteriores um pouco do vasto território africano, é possível agora focarmos em um conto luandense (de Luanda, capital de Angola). Quem escreveu o conto foi o escritor Luandino Vieira, e se chama “Estória da galinha e do Ovo”. Esse conto representa muito bem a vida de angolanos moradores dos musseques de Luanda (similares às favelas brasileiras), se passa no fim da época colonial.
Cabe ao professor apontar onde a Angola fica dentro do continente africano, e reforçar o que foi dito no módulo anterior sobre as várias línguas faladas neste continente. Em Angola, além do português, é falado também o umbundo (Umbundu), o quimbundo (Kimbundu), o congo (Kikongo), o chócue (côkwe), o ganguela (Nganguela) e o cuanhama (Kwanyama). Durante a leitura do conto, é de grande interesse observar o uso e a influência dessas línguas. A ideia, aqui, é que o professor promova uma contação de histórias. Antes disso, é importante relembrar o contato com vocabulário indígena nas aulas anteriores.
Antes da leitura, é de grande interesse destacar algumas expressões do conto angolano: umas advindas da língua oral, outras que os alunos possam não conhecer. Será feita em sala a leitura das duas primeiras páginas do conto, ressaltando alguns termos interessantes:
Para Amorim e sua ngoma: sonoros corações da nossa terra.
A estória da galinha e do ovo. Estes casos passaram na musseque Sambizanga, nesta nossa terra de Luanda.
Foi na hora das quatro horas.
Assim como, às vezes, dos lados onde o sol fimba∗ no mar, uma pequena e gorda nuvem negra aparece para correr no céu azul e, na corrida, começa a ficar grande, a estender braços para todos os lados, esses braços a ficarem outros braços e esses ainda outros mais finos, já não tão negros, e todo esse apressado caminhar da nuvem no céu parece os ramos de muitas folhas de uma mulemba velha, com barbas e tudo, as folhas de muitas cores, algumas secas com o colorido que o sol lhes põe e, no fim mesmo, já ninguém que sabe como nasceram, onde começaram, onde acabam essas malucas filhas da nuvem correndo sobre a cidade, largando água pesada e quente que traziam, rindo compridos e tortos relâmpagos, falando a voz grossa de seus trovões, assim, nessa tarde calma, começou a confusão.
Sô Zé da quitanda tinha visto passar nga Zefa rebocando miúdo Beto e avisando para não adiantar falar mentira, senão ia-lhe pôr mesmo jindungo na língua. Mas o monandengue refilava, repetia:
— Juro, sangue de Cristo! Vi-lhe bem, mamã, é a Cabíri!...
Falava verdade como todas as vizinhas viram bem, uma gorda galinha de pequenas penas brancas e pretas, mirando toda a gente, desconfiada, debaixo do cesto ao contrário onde estava presa. Era essa a razão dos insultos que nga Zefa tinha posto em Bina, chamando-lhe ladrona, feiticeira, queria lhe roubar ainda a galinha e mesmo que a barriga da vizinha já se via, com o mona lá dentro, adiantaram pelejar.
Miúdo Xico é que descobriu, andava na brincadeira com Beto, seu mais novo, fazendo essas partidas vavô Petelu tinha-lhes ensinado, de imitar as falas dos animais e baralhar-lhes e quando vieram no quintal de mamã Bina pararam admirados. A senhora não tinha criação, como é ouvia-se a voz dela, pi, pi, pi, chamar galinha, o barulho do milho a cair no chão varrido? Mas Beto lembrou os casos já antigos, as palavras da mãe queixando no pai quando, sete horas, estava voltar do serviço:
— Rebento-lhe as fuças, João! Está ensinar a galinha a pôr lá!
Miguel João desculpava sempre, dizia a senhora andava assim de barriga, você sabe, às vezes é só essas manias as mulheres têm, não adianta fazer confusão, se a galinha volta sempre na nossa capoeira e os ovos você é que apanha... Mas nga Zefa não ficava satisfeita. Arreganhava o homem era um mole e jurava se a atrevida tocava na galinha ia passar luta.
— Deixa, Zefa, pópilas! — apaziguava Miguel. — A senhora está concebida então, homem dela preso e você ainda quer pelejar? Não tens razão!
Por isso, todos os dias, Zefa vigiava embora sua galinha, via-lhe avançar pela areia, ciscando, esgaravatando a procurar os bichos de comer, mas, no fim, o caminho era sempre o mesmo, parecia tinha-lhe posto feitiço: no meio de duas aduelas caídas, a Cabíri entrava no quintal da vizinha e Zefa via-lhe lá debicando, satisfeita, na sombra das frescas mandioqueiras, muitas vezes Bina até dava-lhe milho ou massambala∗ . Zefa só via os bagos cair no chão e a galinha primeiro a olhar, banzada, na porta da cubata onde estava sair essa comida; depois começava apanhar, grão a grão, sem depressa, parecia sabia mesmo não tinha mais bicho ali no quintal para disputar os milhos com ela. Isso nga Zefa não refilava. Mesmo que no coração tinha medo, a galinha ia se habituar lá, pensava o bicho comia bem e, afinal, o ovo vinha-lhe pôr de manhã na capoeira pequena do fundo do quintal dela...
Vocabulário de “Estória da Galinha e do Ovo”
Abaixo, é disponibilizada uma lista de vocabulários contendo os significados de algumas palavras que os alunos podem não conhecer:
Musseque: nome que deriva de uma língua local “Kimbundu” que significa terra vermelha, são bairros periféricos suburbanizados, ou de urbanização progressiva.
Sambizanga: um dos distritos que constituem a área urbana da cidade de Luanda.
Fimbar: mergulhar na água.
Mulemba: A "mulemba" ou "figueira-africana" é uma árvore de copa volumosa e muito ramificada, sendo muito apreciada pela sombra que produz. Dá-se em terrenos secos e arenosos.
Sô: abreviação de Senhor.
Nga: forma de tratamento respeitoso para com homens ou senhoras, na terceira pessoa do singular; senhor; senhora; dona.
Jindungo: é uma espécie de pimenta que inclui as variedades pimenta-malagueta e pimenta-tabasco.
Monandengue: criança; jovem.
Refilava: Que respondia de forma grosseira.
Mona: o, filha; rebento.
Vavô: vovô.
“De barriga”: grávida.
Pópilas: Ora!, Eita!, Poxa!
“Estar concebida”: grávida.
Peleja: lutar; brigar.
Esgaravatando: Remexer a terra ou qualquer outra coisa como fazem as galinhas.
Aduelas: blocos de concreto para sustentação.
Massambala: sorgo; grama.
Bagos: fruto ou semente de alguma planta.
Banzada: surpreendida, surpresa, admirada.
Cubata: habitação de algumas aldeias africanas, feita de cana e folhas e coberta de capim seco em camadas.
Capoeira: espécie de gaiola grande ou espaço vedado onde se alojam ou criam galinhas, capões, etc.
Por fim, o professor passará uma tarefa para casa, para que os alunos exercitem a prática da contação de histórias: a partir da leitura do conto angolano em sala de aula, promovam uma contação de história para outra pessoa, preferencialmente alguém de sua família. Na próxima aula, será pedido de início que expressem como foi a experiência dessa contação particular e quais foram as dificuldades. Os comentários dos alunos podem servir como guia para as próximas práticas.
Vozes poéticas
Wanderleia Pinheiro Querubini
O tema da oralidade, numa sequência didática, não pode descartar um trabalho com a memória de uma voz poética que durante séculos se moveu, transmitindo, entre gerações, experiências do passado como um fator de unidade e identidade culturais sem o qual o grupo social perderia coesão e desapareceria. Diferentemente das vozes cotidianas que dispersam as palavras no tempo, fragmentando o real e não conservando experiência e saber, a voz poética possui o poder de tecê-las e recolher saber e experiência, veiculando-os graças a suas performances. Essa tradição produzida de memória e veiculada pela voz sofre, evidentemente, variações no tempo, mas permanece viva devido à recorrência, a inventividade espontânea, mas regrada, e a improvisação.
Na nossa cultura poética musical, encontramos algumas manifestações muito interessantes para se trabalhar com alunos de 6º ano. Nas duas aulas sobre o tema da literatura oral, escolhemos uma peça anônima da lírica sertaneja e a prática do Repente, típico da cultura nordestina. No caso da canção “Cuitelinho”, pareceu oportuno poder mostrar aos alunos num exemplo concreto a forma de circulação e criação coletiva, evidenciada pelo caráter de coletânea (“colhido”) que ela apresenta. Já no caso do Repente, outros aspectos, como o improviso, a disputa, os temas recorrentes, etc. podem ser trabalhados a partir de documentários e registros.
Nossa cultura, aliás, apresenta muitas outras manifestações que poderiam ter sido trazidas. Durante a confecção do trabalho, pesquisamos as Rodas de Samba e o samba de Partido Alto, o canto das lavadeiras do Vale do Jequitinhonha, entre outras, que ilustram também essas tradições orais e atestam a riqueza e beleza dessas produções populares. Além disso, tivemos contato com recriações contemporâneas que possuem como elemento recorrente as disputas poéticas e as experiências das comunidades representadas nos rappers e nos slammers, formas atualizadas dessas práticas tradicionais e que atestam a sua vitalidade. Elas poderiam, dado o interesse que potencialmente podem despertar nos jovens, ser empregadas em muitos momentos, desenvolvendo um repertório cultural e dando oportunidade para muitas atividades práticas que desenvolvam a competência e habilidade de expressão oral dos alunos, sem falar na própria questão da escuta e da memória.
Apresentação final da turma
Mariana Alves da Silva
A nossa proposta de apresentação final foi esquematizada de maneira aberta para que ela possa se adaptar à turma que vai realizá-la. Sendo assim, propomos algo bem simples, mas que pode ser expandido com a colaboração de professores de outras áreas. Caso haja a possibilidade e o engajamento da turma, a apresentação pode ser realizada fora do horário normal das aulas de Língua Portuguesa, como uma atividade extraclasse, com um público convidado.
Bibliografia
BAGNO, M. A língua de Eulália: Novela Sociolinguística. 17. ed. São Paulo: Contexto, 2015.
BAGNO, Marcos. Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. 49ª edição. São Paulo: Edições Loyola, 2007.
CESARINO, P. Histórias indígenas dos tempos antigos. São Paulo: Claro Enigma, 2015.
KOPENAWA, D. e ALBERT, B. A queda do céu. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
KRENAK, A. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
MUNDURUKU, D. Como surgiu - Mitos indígenas brasileiros. São Paulo: Callis, 2010.
MUNDURUKU, D. Contos indígenas brasileiros. São Paulo: Global Editora, 2005.
NOGUEIRA, S. Palavras que vêm das línguas indígenas. Disponível em: <http://g1.globo.com/educacao/blog/dicas-de-portugues/post/palavras-que-vem-das-linguas-indigenas.html>. Acesso em 01 jun. 2021.
QUINTELA, A. C; SEBBA, M. A. Y. “O léxico árabe na língua portuguesa”. Disponível em: <https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/25/o/VIISLE_19.pdf>. Acesso em 02 jun. 2021.
PRETI, D. Sociolingüística: os níveis da fala. 7. ed. rev. e mod. São Paulo: EDUSP, 1994.
SILVA, L. A. da . A língua que falamos. Português: história, variação e discurso. São Paulo: Globo, 2005.
SILVEIRA, T. B. “Influência do Tupi na língua portuguesa falada no Brasil”. Disponível em: <https://www.ufmg.br/espacodoconhecimento/influencia-do-tupi/>. Acesso em 02 jun. 2021.
TEYSSIER, P. História da língua portuguesa. Lisboa: Sá da Costa, 1982.
VIEIRA, José Luandino. Luuanda. 10 autores africanos: Angola. Editora Ática, p. 105.
ZUMTHOR, P. A letra e a voz: a literatura medieval. São Paulo: Cia das Letras, 200.
Abaixo a sequência didática completa: