A brincadeira de uma criança não é simplesmente a reprodução daquilo que ela vivencia, mas sim uma reorganização criativa das impressões do mundo que ela adquiriu: Ela as combina e as usa para construir uma nova realidade, que se conforma pelas suas próprias necessidades e desejos.
(VYGOTSKY, 1967)
Foram observadas nas pesquisas de mercado de brinquedos no Brasil o grande excesso de brinquedos cujos aspectos funcionais e semânticos apresentam uma designação imediata do que o objeto é e de como ele deve ser utilizado: A pista de carrinhos fixa de plástico cuja única função é substituir a pista imaginária ou feita com tampinhas de garrafa no chão de terra, as bonecas que apresentam determinadas necessidades em determinados momentos (tomar mamadeira, trocar de fralda etc).
Neste panorama, percebeu-se que havia oportunidade no desenvolvimento de brinquedos construtivos, que propiciassem maior liberdade na atribuição de sentido e mais de uma possibilidade de estrutura.
Estabelecido o nicho de mercado, começou-se a busca por referências visuais que pudessem trazer inspirações e também ajudar na visualização de como poderia ser a estética do brinquedo e seus conceitos.
Questionamentos, sugestões e novos princípios foram surgindo paralelamente e, para melhor acompanhar e filtrar essas novas ideias, sketches foram concebidos.
Desta forma, os objetivos e conceitos gradualmente se lapidavam: modularidade; explorar a verticalidade; possuir viés educativo sobre alguns princípios da física ao longo da experimentação; guiar o usuário pelo básico, mas posteriormente dando-lhe a liberdade para criar suas próprias experiências e construções. Junto a isso, modelos volumétricos também começaram a criar forma.
Após mais algumas considerações e feedbacks, os modelos passaram para o meio digital, dando início à jornada pela modelagem 3D no programa Fusion 360, na qual as formas gradativamente se consolidaram e que, ao fim, constituem o que hoje é o Jêrne.
Um brinquedo construtivo, que leva a criança em uma jornada pela engenhosidade e a criatividade através de roldanas, pontes, caminhos e rodas.
Com o Jêrne, a criança estrutura um percurso para bolinhas, com um elevador que leva as bolinhas até o topo, onde elas percorrem um circuito personalizável, construído a partir de blocos de madeira e desembocam em um sistema de rodas que devolvem-nas para uma ponte, montável e regulável, pela altura e pelas inclinações. Esta ponte leva a bolinha de volta até o elevador e completa um ciclo.
A construção dos blocos pode assumir diversas configurações, que levam a criança a explorar e experimentar.
O ajuste lateral e a montagem das pontes exercita percepções básicas de espacialidade e geometria, além de desenvolver a coordenação motora fina.
O Jêrne irá propiciar às crianças menores um contato acessível a percepções de mecânica, através dos componentes. Mas é um brinquedo sem idade: Pode ser usado, por exemplo, para os adolescentes, no aprendizado de noções mais complexas de física, como cinética.
Uma das características do Jêrne é a gradativa descoberta das possibilidades do brinquedo, que vai desde a exploração de configurações básicas de montagem dos blocos até etapas mais complexas: A regulagem da altura de saída do elevador, o uso de extensores para aumentar a inclinação da ponte ou o ajuste das canaletas das rodas. Cada pequeno detalhe, que, nas primeiras experimentações estarão menos óbvias para as crianças, e abrirão grandes possibilidades construtivas quando descobertas.
O Jêrne mostrou-se relevante principalmente por conta da sua inovação: Embora haja brinquedos de percurso, de blocos ou roldana, o Jêrne é um brinquedo novo pelo seu conjunto: Com pontes montáveis e reguláveis, rodas e roldanas, e um ciclo que acontece não de forma horizontal-circular como os brinquedos similares (pistas de corrida, percurso de bolinhas entre outros), mas de forma vertical.
Além disso, nas pesquisas de mercado e benchmarking, percebe-se uma deficiência deste tipo de produto no mercado brasileiro. Os brinquedos com características similares ao Jêrne que chegam aqui, são importados, sofrendo a tarifação pela moeda estrangeira e os custos de transporte, logística e taxação aduaneira.
A madeira Pinus está presente em quase a totalidade do Jêrne. Vários aspectos deste material valorizam o brinquedo: Sua textura fina e macia, o som que nasce a partir do movimento da bolinha sobre seus sulcos e seu aspecto semântico, neutro, que permite atingir a elegância do brinquedo por formas simples, composições geométricas fundamentais, pouco determinantes, que pouco interferirão na concepção de sentido da criança: Afinal, o que é o Jêrne? Pode ser uma expedição por uma floresta, um pirata que desbrava oceanos, um circuito de corridas absurdo... No final, quem dá sentido à forma é a criança.
Quantidade de componentes
1 elevador, 1 conjunto de rodas, 2 bolinhas, 3 pilares de ponte, 2 cordões de silicone, 12 blocos de ponte pênsil, 2 beiradas terminais, 2 beiradas centrais, 25 blocos de montar, 6 parafusos, 6 porcas, 2 extensores.
Dimensões (montado)
575mm x 120mm x 437mm
Material
Madeira Pinus de reflorestamento, bolinha Ø16mm de plástico ABS, cordões de silicone Ø9mm, barbante de algodão.
Idade recomendada
5+
Vygotsky, Lev. (2004). Imagination and Creativity in Childhood. Journal of Russian and East European Psychology. Vol. 42, nº 1, January–February 2004, pp. 7–97 - Tradução em inglês.
MATERIAIS. Curso de Design. Disponível em: <https://sites.google.com/usp.br/aup2002/pesquisa/materiais> Acesso em: 23 de outubro de 2020.