Esta seção enfoca o ofício híbrido de Primo Levi. A mesa híbrida é um local onde se realiza trabalho material e não material, local capaz de humanizar. Foi inspirada, principalmente, pelo período em que Primo Levi trabalhou na Siva, uma indústria de vernizes e tintas, dedicando-se à escrita nos tempos disponíveis.
Uma bancada de laboratório com um computador antigo. Quem esperaria encontrar sobre a escrivaninha substâncias suscitadoras de memórias? Na bancada fria, destilação e assimetria são conceitos da filosofia. No lenho lustroso, uma distopia viscosa emerge de relatórios industriais. Na mármore, há celulose. Na madeira, há calcário. De quem poderia ser tal mesa híbrida senão de um quimiscritor?
Primo Levi apresenta brilhantemente a química descrevendo processos químicos e biológicos articulados ao oficio de químico e escritor. Estes elementos revelam seu olhar químico e sua análise racional, descritiva, analítica e humanísticia. Esse mesmo olhar permitiu que ele vivesse a experiencia em Auschwitz, onde foi prisioneiro por ser judeu, com certo distanciamento e curiosidade, procurando responder cientificamente a questão que motivou seu primeiro livro, É isto um homem?.
Escritor não escritor - A assimetria e a vida (1)
Acrescento que meu modelo de escrever é o "relatório" que se faz na fábrica quando a semana acaba. Claro, essencial, compreensível para todos. Eu acharia extremamente descortês com o leitor apresentar-lhe uma "exposição" que ele não possa entender. Isso não significa que a linguagem de meu inconsciente é a do inconsciente do leitor. Mas acredito ser justo transmitir-lhe a maior quantidade possível de informação e sentimento.
Também devo à minha profissão aquilo que torna alguém maduro, sucesso e insucesso, conseguir e não conseguir, as duas experiências da vida adulta que são necessárias ao crescimento - a expressão não é minha, é de Pavese. O químico que trabalha em laboratório precisa das duas, o químico profissional conhece ambas: errar e corrigir-se, receber golpes e devolvê-los, enfrentar um problema e resolvê-lo ou então sair derrotado e logo recomeçar a batalha.
Escritor não escritor - A assimetria e a vida (2)
Meu primeiro livro é a história de meu ano em Auschwitz, e a história do livro é longa e estranha. Esforcei-me por escrever, apesar do medo, desde o tempo da prisão; poucas linhas, anotações, apontamentos para meus familiares escritos com um toco de lápis e logo em seguida destruídos, porque não havia como guardá-los, a não ser na memória; deixar que eles fossem encontrados com a gente equivalia a um "ato de espionagem", podendo portanto significar a morte. Mas era tanta a necessidade de transmitir a experiência que eu estava vivendo, de dividi-la com outros, de contá-las, enfim, que comecei a fazer isso já lá. Tinha a esperança, a esperança de viver "para" contar o que tinha visto. O desejo não era só meu, era de todos e se refletia em forma de sonho, o mesmo em muitos; recentemente me ocorreu ler isso também no livro de uma deportada francesa. Eram dois sonhos. O primeiro era com comida, gorda, suculenta, cheirosa, mas, no momento de levá-la à boca, sempre acontecia alguma coisa: ou ela desaparecia, ou era afastada por alguém, ou entre o faminto e a comida caía uma espécie de biombo que impossibilitava o ato de comer. O outro sonho era o de contar, em geral a uma pessoa querida; mas nem nesse o ato se completava. O interlocutor era indiferente, não ouvia e a certa altura dava as costas, afastava-se, desaparecia.
A simbologia dos dois sonhos era muito simples. Digo isso para ressaltar que o querer comer e o querer contar estavam no mesmo plano de necessidade básica. A comida que se afastava e a narrativa que não se completava envolvem a mesma angústia da necessidade insatisfeita.
Ex-químico - O Ofício Alheio
Há outros benefícios, outros dons que o químico oferece ao escritor. O hábito de penetrar a matéria, de querer saber sua composição e estrutura, de prever sua propriedade e seu comportamento, leva a um insight, a um hábito mental de consistência e concisão, ao desejo constante de não permanecer na superfície das coisas. A química é a arte de separar, pesar e distinguir: são três exercícios úteis também a quem se prepara para descrever fatos ou dar corpo à própria fantasia. Há, enfim, um patrimônio imenso de metáforas que o escritor pode obter da química de hoje e do passado, e que quem não tenha frequentado o laboratório e a fábrica conhece apenas de modo aproximado. O leigo também sabe o que quer dizer filtrar, cristalizar, destilar, mas sabe tudo isso de segunda mão: não conhece sua "paixão impressa", ignora as emoções ligadas a esses gestos, não percebe seu peso simbólico. Mesmo apenas no plano das comparações, o químico militante se acha em posse de uma insuspeitada riqueza: "negro como...", amargo como... viscoso, tenaz, pesado, fétido, fluido, volátil, inerte, inflamável: são todas qualidades que o químico conhece possui de modo predominante e exemplar. Eu, ex-químico, hoje acanhado e despreparado se tivesse de entrar de novo num laboratório, sinto quase vergonha quando, em meus textos, faço uso desse repertório: parece que me aproveito de uma vantagem ilicita quando confrontado com meus neocolegas escritores que não teeram uma vivência como a minha.
Por todos esses motivos, quando um leitor se surpreende com o fato de que eu, químico, tenha escolhido seguir o caminho da escrita, sinto-me autorizado a lhe responder que escrevo jus-tamente porque sou um químico: meu velho ofício em grande medida se transformou no novo.
VISCOSIDADE
Primo Levi traz o conceito de viscosidade em dois momentos: no conto "Ótima é a água" do livro 71 contos de Primo Levi e no capítulo "Anchovas II" do romance A chave estrela.
Viscosidade é uma propriedade físico-química que caracteriza a resistência de um fluido ao escoamento. Cotidianamente, é percebida como a "espessura" ou "grossura" de um líquido, cuja a diferença é nítida ao comparar, por exemplo, água e óleo. A viscosidade é medida por um equipamento chamado viscosímetro, cujo funcionamento é descrito por Primo Levi neste manual.
E se a viscosidade da água aumentasse?
CAOS: "Aquela água era monstruosa: 1,30 centipoises a 20°C, trinta por cento acima do índice normal. [...] Assim como os rios, nós também estamos turvos; a comida que ingerimos e a água que bebemos devem esperar horas antes de se integrarem ao nosso corpo, e isso nos torna inertes e lentos. Não choramos: o líquido lacrimal estaciona supérfluo em nossos olhos e não se decompõe em lágrimas, mas deflui como um soro, o que retira dignidade e alívio ao nosso pranto."
Primo LeviÓtima é a água - 71 contos de Primo Levi (1)
Hoje, por exemplo, deveria verificar o teor do coeficiente de viscosidade da água. Sim, senhores: da água destilada. Pode-se imaginar um ofício mais insípido? Um ofício de empregado de lavanderia, não de um jovem físico: lavar vinte vezes ao dia o viscosímetro. Um ofício de... contador, de burocrata, de inseto. E não é só isso: o fato é que os valores aferidos hoje não estão de acordo com os encontrados ontem; são coisas que acontecem, mas ninguém as admite de bom grado.
Ótima é a água - 71 contos de Primo Levi (2)
Depois o canto das cigarras o distraiu, e ele se perdeu na observação dos vórtices que se formavam a seus pés. “Ótima é a água”, pensou: quem escreveu isso? Talvez Píndaro, ou um outro daqueles grandes que eram estudados no ginásio. Entretanto, olhando melhor, começou a achar que havia algo errado naquela água. Conhecia aquele rio havia muitos anos, vinha brincar ali na infância e, mais tarde, bem naquele local, com uma garota e depois com outra: pois bem, a água estava estranha.
ASSIMETRIA
Isômeros são substâncias que possuem a mesma fórmula molecular, mas apresentam propriedades físico-químicas diferentes, atuando de maneira distinta no organismo. Exemplificaremos com a glutamina, um aminoácido que, ao se juntar com outros aminoácidos, dá origem a proteínas. A glutamina apresenta um carbono quiral e, portanto, possui um isômero óptico. A glutamina e o seu reflexo são moléculas assimétricas, ou seja, não são sobreponíveis. Faça essa constatação no vídeo abaixo.
"Ora, todos os aminoácidos (exceto um) têm molécula assimétrica [...]. São todos 'esquerdos', como se tivessem saídos todos de um mesmo molde ou como se algo tivesse alijado ou destruído seus antípodas, ou seja, seus gêmeos direitos. Mas cada proteína deve possuir uma identidade rígida em cada um de seus grânulos: se um único desses grânulos mudasse de configuração, o novelo proteico mudaria de forma. Por isso se vislumbra uma vantagem no fato de, na biosfera, estar disponível apenas uma das duas formas antípodas de cada aminoácido: se numa cadeia proteica um único dos dois mil grânulos fosse substituído por seu antípoda, muitas das propriedades mais sutis da proteína mudariam radicalmente; em especial seu comportamento imunitário."
Primo Levi"Destilar é bonito. Antes de tudo, porque é um ofício lento, filosófico e silencioso, que te mantém ocupado mas deixa tempo para pensar noutras coisas, um pouco como andar de bicicleta. Mais ainda, porque comporta uma metamorfose: de líquido a vapor (invisível), e deste novamente a líquido: mas neste caminho duplo, para cima e para baixo, atinge-se a pureza, condição ambígua, e fascinante, que parte da química e vai muito longe. E finalmente, quando te propões destilar, adquires a consciência de repetir um rito já consagrado pelos séculos, quase um ato religioso em que a partir de uma matéria imperfeita obténs a essência, o usía, o espírito e, em primeiro lugar, o álcool, que alegra o ânimo e aquece o coração."
Primo Levi