"Eu sou um anfibio, um centauro [...]. E me parece que a ambiguidade da ficção científica reflita meu destino atual [1966]. Estou dividido em duas metades. Uma é a da fábrica como técnico e químico, a outra metade é totalmente diferente da primeira, é aquela na qual escrevo, sou entrevistado, trabalho com minhas experiências passadas e presentes. Sou um cérebro divido em dois, uma ruptura paranoica".
Primo Levi
Entrevista concedida a Edoardo FadiniPrimo Levi escreve de maneira clara e objetiva, faz comparações e analogias da química com a realidade, fazendo associações entre corpos macroscópicos e submicroscópicos que na verdade não ocorrem. Isso é um recurso dos textos literários e da divulgação científica para envolver o leitor.
71 contos de Primo Levi (2005)
"O problema é que dou a alma em todos os trabalhos, o senhor sabe, até nos mais estúpidos: aliás, quanto mais estúpidos, mais eu me entrego. Para mim, cada trabalho que começo é como um primeiro amor."
Primo LeviAnchovas I - A Chave Estrela (1)
“Minha profissão verdadeira, aquela que estudei na escola e que me sustentou até hoje, é a profissão de químico. Não sei se o senhor tem uma ideia clara desse ofício, mas se parece um pouco com o seu: só que nós montamos e desmontamos construções muito pequenas. Dividimo-nos em dois ramos principais, os que montam e os que desmontam, e uns e outros somos como cegos com os dedos sensíveis. Digo como cegos porque justamente as coisas que manipulamos são muito miúdas para serem vistas, mesmo com os microscópios mais potentes; e então inventamos vários truques inteligentes para reconhecê-las sem as ver. Aqui é preciso que o senhor pense uma coisa, que, por exemplo, um cego não tem dificuldade em dizer quantos tijolos há sobre uma mesa, em que posição eles estão e a que distância entre si; mas, se em vez de tijolos fossem grãos de arroz ou, pior ainda, grãos de mostarda, o senhor entende que o cego teria dificuldade em dizer onde estão, porque assim que os tocamos eles se deslocam: pronto, nós somos assim. Além disso, muitas vezes temos a impressão de ser não apenas cegos, mas elefantes em frente ao banquete de um relojoeiro, porque nossos dedos são muito grosseiros diante daquelas coisinhas que precisamos juntar ou separar.
Anchovas I - A Chave Estrela (2)
Como o papel de acusado é desconfortável, aquela seria minha última aventura de químico. Depois chega: com nostalgia, mas sem ruminações, escolheria outro caminho, já que eu tinha o aprendizado e ainda me sentia com forças para tanto: o caminho do narrador de histórias. Histórias minhas até que eu esvaziasse o saco, e depois histórias dos outros, roubadas, saqueadas, extorquidas ou recebidas de presente, [...].
Romance de guerra sobre um bando de judeus que se desgarra do Exército russo e segue rumo à Itália. Embora os personagens estejam sempre rodeados pelo medo e pela morte, Primo Levi faz uso de um humor sutil para caracterizá-los.
"Quarenta anos depois minha tatuagem se tornou parte de meu corpo. Não me vanglorio dela nem me envergonho, não a exibo nem a escondo. Mostro-a de má vontade a quem me pede por pura curiosidade; prontamente e com ira, a quem se declara incrédulo. Muitas vezes os jovens me perguntam porque não a retiro, e isto me espante: por que deveria? Não somos muitos no mundo a trazer esse testemunho."
Primo Levi1977-1987
O passa-muros - O último Natal de guerra
Não podia se retratar. O olho da mente lhe dizia que a matéria era vazia e rarefeita, como o céu estrelado; grãozinhos minúsculos suspensos no vazio, regidos pelo ódio e pelo amor. Por isso o tinham emparedado vivo: para refutá-lo, a fim de que falasse, a cruel dureza e impenetrabilidade da pedra; mas Mémnon sabia que a pedra mentia e sabia que era este o nó da arte, desmentir o mentido. Lembrou tudo o que tinha visto no seu laboratório. Por uma peneira passam o ar, a água e as sementes de gergelim. Por um filtro passam o ar e a água, mas o gergelim não. Pelo couro passa o ar, mas a água não. De uma ânfora bem lacrada não saem nem ar nem água. Mas ele estava certo de que existia um ar mais fino, um éter capaz de atravessar a argila endurecida, o bronze, e a pedra que o sepultava; e que o seu próprio corpo poderia afinar-se até penetrar a pedra.
1964-1984
1955-1987
Intinerário de um escritor judeu - A assimetria e a vida
Já durante a prisão, a despeito da fome, do frio, das surras, do cansaço, da morte progressiva de meus companheiros, da promiscuidade de todas as horas, senti uma necessidade intensa de contar o que estava vivendo. Sabia que minhas esperanças de salvação eram mínimas, mas também sabia que, se sobrevivesse, teria o dever de contar, não poderia deixar de fazê-lo, não só isso, mas também que contar, dar testemunho, era um objetivo que merecia o esforço de sobrevivência. Não era viver e contar, mas viver para contar. Já em Auschwitz eu estava consciente de que vivia a experiência fundamental de minha vida.
Deportados. Aniversário - A Assimetria e a Vida
Dez anos depois da libertação dos campos de concentração, é triste e significativo constatar que, pelo menos na Itália, o assunto, em vez de ter se tornado história, está caindo no mais completo esquecimento.
Nesta ocasião, é supérfluo lembrar números; lembrar que se tratou da mais gigantesca carnificina da história, a ponto de praticamente reduzir a zero, por exemplo, toda a população de judeus de nações inteiras da Europa Oriental; lembrar que, se a Alemanha nazista tivesse tido as condições de levar seu plano a termo, a técnica experimentada em Auschwitz e em outros lugares teria sido aplicada a continentes inteiros com a conhecida seriedade dos alemães. Hoje é indelicado falar dos campos de concentração. Corremos o risco de ser acusados de vitimização ou de amor gratuito ao macabro, na melhor das hipóteses, na pior, de mentira pura e simples, ou quem sabe de atentado ao pudor.
E justificado esse silêncio? Devemos tolerá-lo, nós, os sobreviventes? Devem tolerá-lo aqueles que, petrificados pelo espanto e pela repugnância, assistiram as partidas dos vagões vedados, em meio a espancamentos, palavrões e gritos desumanos, e, anos depois, viram o retorno dos pouquíssimos sobreviventes, com o corpo e o espirito em frangalhos? Será justo considerar esgotada a tarefa de dar testemunho, coisa que então era sentida como necessidade e dever imediato?
A resposta só pode ser uma. Não é lícito esquecer, não é lícito calar. Se calarmos, quem falará? Claro que não os culpados e seus cúmplices. Se faltar nosso testemunho, num futuro nada distante os feitos da bestialidade nazista, exatamente por sua enormidade. poderão ser relegados ao rol das lendas. Falar, portanto, é preciso.
1946-1987
"É preciso distinguir entre a poesia e a prosa. Sou um poeta bissexto: no fim das contas, escrevi pouco mais de um poema por ano em minha vida, embora haja períodos em que me venha espontaneamente escrever em versos. Mas se trata de uma atividade que não tem nada a ver com nenhuma outra atividade mental que eu conheça. É algo completamente diferente: é como um cogumelo que cresce numa noite, acorda-se de manhã com uma poesia na mente, ou pelo menos com seu núcleo. Depois é um trabalho de longas variantes e correções contínuas: e o computador é um instrumento perfeito para isso, para a tristeza de futuros filólogos que não acharão os manuscritos com as sucessivas aproximações."
Primo LeviNo princípio
Irmãos humanos a quem um ano é longo,
Um século, um alvo venerando,
Extenuados pelo seu sustento,
Cansados, iracundos, enfermos, perdidos;
Ouçam, e lhes valha de consolo e escárnio:
Vinte bilhões de anos antes de agora,
Esplêndido, suspenso no espaço e no tempo,
Havia um globo de fogo, solitário, eterno,
Nosso pai comum e nosso carnífice,
E explodiu, e toda mudança teve início.
Ainda desta catástrofe reversa
O eco tênue ressoa dos confins extremos.
Daquele único espasmo tudo veio:
O próprio abismo que nos cerca e desafia,
O próprio tempo que nos engendra e arrasta,
Tudo o que cada um já pensou,
Os olhos de cada mulher que amamos,
Milhares e milhares de sóis, e esta
Mão que escreve.