A seção enfoca a atuação de Primo Levi como químico. Com excertos de sua obra, mostramos como o quimiscritor divulga brilhantemente a ciência, seja atribuindo mãos a moléculas poliméricas, seja transformando um átomo de carbono em uma personagem cheia de aventuras.
"[...] montamos e desmontamos construções muito pequenas [...] somos como cegos com os dedos sensíveis. [...] Além disso, muitas vezes temos a impressão de ser não apenas cegos, mas elefantes em frente ao banquete de um relojoeiro, porque nossos dedos são muito grosseiros diante daquelas coisinhas que precisamos juntar ou separar."
Primo LeviA chave estrelaO que é a química?
A química é uma área da ciência — instrumento criado pelo ser humano — que investiga e explica a composição, as propriedades e as transformações da matéria (do macro ao microscópico) existente na natureza ou criada pelos químicos para atender demandas sociais, políticas e econômicas.
Quem é o químico?
"Todos sabem o tipo de vida que leva um corsário, um aventureiro, um médico, uma prostituta. Sobre nós, químicos, transmudadores da matéria, ofício de ilustre ascendência, não há muitas pistas, e me parecia justo 'preencher uma lacuna'."
Primo LeviA assimetria e a vidaPrimo Levi trabalhou de 1948 a 1977 na Siva, uma fábrica de tintas e vernizes de Turim.
“O desafio da molécula” é um conto de ficção científica do livro Lilith e outras histórias (1981), disponível na coletânea 71 contos de Primo Levi.
O conto trata de um acidente com uma resina sintética em uma fábrica. A resina endurece no reator e adquire um aspecto repugnante e até sombrio. A partir de elementos da história e do trabalho de Levi com tintas e vernizes, podemos supor que se trata da resina epóxi.
A resina epóxi é uma resina termofixa utilizada como veículo em tintas epóxi. Ela endurece a tinta durante o processo de cura. A tinta epóxi forma uma película resistente, impermeável e com brilho.
"Eu imaginava aqueles grandes homens que haviam adivinhado a existência dos átomos, raciocinando sobre o cheio e o vazio, dois mil anos antes que nós chegássemos com o nosso maquinário e lhes déssemos razão [...]."
Primo Levi"O desafio da molécula" - 71 contos de Primo LeviResina Epóxi - Fórmula estrutural
Imagem: Cacycle / Wikimedia Commons. Licença CC BY-SA 3.0. Fonte: Wikimedia Commons
O desafio da molécula - 71 contos de Primo Levi
“Enfim, tudo escorria, e eu tinha todas as razões para estar tranqüilo — mesmo porque não havia esquecido o que ensinam quando nos confiam um reator. Ou seja, que tudo vai bem enquanto uma molécula se liga a outra molécula como se cada uma só tivesse duas mãos: mais que uma corrente, um rosário de moléculas, talvez longo, mas nada além disso. Entretanto é preciso sempre lembrar que, entre tantas moléculas, há também as de três mãos, e esse é o ponto mais delicado. Aliás, essa terceira mão é posta de propósito: é aquela que deve agarrar depois, quando nós queremos, e não quando elas desejam. Se essas mãos agarram muito rápido, cada rosário se liga a outros dois ou três rosários, e logo se forma uma única molécula, uma molécula-monstro, do tamanho do reator, e aí tudo está perdido: adeus ao ‘tudo escorre’, tudo endurece e não há mais nada a fazer.”
Representação das moléculas com mãos
"Uma massa de espuma começava a subir, lenta, mas implacável. Bolhas que pareciam cabeças de homem vinham à tona: tortas, de todas as formas, com as paredes estriadas como nervos e veias; estouravam e logo em seguida nasciam outras [...]."
Primo Levi
"O desafio da molécula" - 71 contos de Primo Levi"Carbono" é o último capítulo do livro A tabela periódica de Primo Levi.
O esquema a seguir ilustra uma parte da aventura de um átomo de carbono.
"Assim sucede que cada elemento diga alguma coisa a alguém (a cada qual uma coisa diferente), como os vales ou as praias visitadas na juventude: talvez se deva abrir uma exceção para o carbono, porque diz tudo a todos, ou seja, não é específico, assim como Adão não é específico como antepassado; a não ser que se encontre hoje (por que não?) o químico-eremita que dedicou sua vida à grafite ou ao diamante."
[...]
"Será lícito falar de um certo átomo de carbono? Para o químico existem algumas dúvidas, porque não se conhecem até hoje (1970) técnicas que permitam ver, ou de qualquer modo isolar, um átomo singular; nenhuma dúvida existe para o narrador , o qual, portanto, se dispõe a narrar."
[...]
"Pode demonstrar-se que esta história, mesmo inteiramente arbitrária, é verdadeira. Poderia contar inúmeras histórias diferentes, e seriam todas diferentes: todas literalmente verdadeiras , na natureza das passagens, em sua ordem e em suas datas. O número de átomos é tão grande que sempre se encontraria um cuja história coincidisse com uma história qualquer inventada ao acaso."